
Inesquecíveis momentos de amor todo mundo sonha em viver. Mas se a realidade não nos oferece de pronto estes desejados momentos, vamos atrás de experimentar amores alheios. Afinal, não custa sonhar através dos outros, principalmente quando estes outros são personagens de ficção. Neste sentido, os filmes românticos podem ser uma boa pedida. Afinal, eles existem para isso.
UMA LINDA MULHER (119’), direção de Gary Marshall, EUA (1990), é uma destas belas oportunidades de tirarmos um pouco os pés do chão e viajarmos num mundo de fantasias. E o filme cumpre à risca esta missão. Não à toa, Uma Linda Mulher é reconhecido como um dos filmes românticos mais completos que o cinema já produziu. Exagero? Se analisarmos a origem do filme, cuja trama inicial pretendia mostrar a dura vida das prostitutas em Los Angeles, uma proposta perigosa do ponto de vista comercial, o que levou Hollywood a mudar os rumos do roteiro, e mais, se analisarmos o elenco principal, Julia Roberts e Richard Gere, a trilha sonora, os diálogos pontuais e ágeis, o roteiro enxuto e competente, o glamour, e o mais importante, o desfecho genuinamente romântico, vamos entender que os entusiasmos em torno do filme fazem todo sentido. Sim. O filme é quase perfeito. O filme e Julia Roberts. Ah! E Richard Gere.
O romantismo sempre é bem-vindo, em qualquer lugar e hora. Mas é bom lembrar. Por estarmos vivendo uma contemporaneidade bastante conturbada, talvez seja difícil imaginar algum estúdio, hoje em dia, investindo fortunas nesse tipo de gênero. Não nos esqueçamos que o sonho precisa de espaço. Ele tem que caber numa possibilidade. Por mais que acreditemos que contos de fadas são ilusões distantes, temos que nos apoiar na crença do sonho possível. É esta possibilidade que os filmes românticos precisam nos oferecer. A ideia de que também nós podemos ser protagonistas de um grande amor. Portanto, se quisermos sonhar, e na falta de filmes românticos recém-lançados, a saída é resgatar os clássicos.
O roteiro de Uma Linda Mulher não é novo. E muito menos original. Revisita histórias e personagens similares oferecidos pela literatura e pelo bom e velho cinema.
Eis o roteiro. Uma mulher linda, colocada socialmente em uma situação de inferioridade moral, cultural ou financeira, vê-se, pelas circunstâncias fortuitas da vida, sendo salva por um homem rico, de preferência bonito, que a princípio só tem a intenção de salvá-la, quando, à revelia, é violentamente sugado pela paixão. Pronto. O que era para ser o desfile de cenas de puro altruísmo e pequenas doses de heroísmo, transforma-se numa grande ação humana. Afinal, amar é uma das experiências existenciais mais misteriosas e fantásticas que o ser humano pode experimentar.
Evidente, o amor, quando submetido à convivência cotidiana, nos coloca o desafio de transformar impulsos aleatórios em energia produtiva. Leia-se, renovados esforços emocionais para sustentar uma feliz relação a dois. E sabemos que sustentar uma relação olhos nos olhos não é nada fácil. Afinal, depois dos primeiros encantos, vem o choque de realidade. Mas… pra nossa sorte, filmes românticos terminam sempre um pouco antes. Vão só até o primeiro grande beijo.
Edward Lewis (Richard Gere) é um belo e poderoso empresário que, lá pelas tantas, foge de uma festa chata e sai pelas ruas dirigindo o supercarro, — uma lótus —, do seu advogado Barney Thompson (Héctor Elizondo). Edward alimenta a singela intenção de retornar ao hotel, na sua megassuíte de cobertura, e colocar os pés para cima, com o simples desejo de descansar de um extenuante dia de trabalho. Só que o megaempresário não sabe dirigir um megacarro automático. Esta é a isca narrativa para que nosso herói romântico vá parar nos bulevares hollywoodianos, lá onde as prostitutas oferecem seus serviços. No entanto, Edward não está à procura dos tais serviços. Ele só quer que alguém dirija o carro automático e o leve para o hotel.
Pronto. Está lançado o tapete vermelho para que uma linda mulher, Vivian Ward (Júlia Roberts), apareça na calçada da vida para salvar aquele empresário tão inepto. Ela senta ao volante e dispara pelas ruas de Hollywood! E assim se inicia uma grande e bem contada história de amor. Só que antes do amor, haverá um desfile de preconceitos e arrogâncias, e, como não poderia deixar de ser, o protagonista, nosso herói, vai passar por uma profunda transformação interior, que irá prepará-lo para o megabeijo final.
Vale a pena desenhar, mesmo que com imprecisões, a árvore genealógica do filme. Para tanto, vamos visitar rapidamente alguns livros e filmes clássicos.
O livro Orgulho e Preconceito, depois transformado em filme, é o primeiro que nos vem à mente. A escritora Jane Austen, evidente, não teve a intenção de construir um conto de fadas à la Disney. A narrativa, no entanto, leva para este rumo, afinal, vemos o mega-aristocrata Mister Darcy se casando com a pobretona Elizabeth Bennet. O filme A Noviça Rebelde é outro exemplo de como contrastes sociais, econômicos e culturais podem ser anulados por um grande amor. O livro e filme O Grande Gatsby é outro conto de fadas, mas um tanto às avessas, já que leva ao trágico. E assim podemos ir caminhando por uma bela linhagem de contos, romances e óperas — La Traviata, por exemplo —, até chegarmos ao maior deles, o conto que impregna toda a cultura ocidental naquilo que temos de mais precioso, que é a possibilidade, mesmo que ínfima, de escaparmos ao nosso mísero destino. Falamos da maltratada e resiliente órfã, e depois princesa, Cinderela.
Mas vamos à principal influência de onde o filme Uma Linda Mulher tira boa parte da sua seiva narrativa. Estamos falando do belo musical My Fair Lady, lançado no cinema em 1964. É uma história de amor que estranhamente não se completa. A culpa é de Mr. Higgins, um solteirão convicto e professor de fonética que faz uma desafiadora aposta com seu amigo Pickering. O rico Higgins promete tirar das ruas londrinas a inculta e miserável florista Eliza Doolittle e transformá-la, em seis meses, numa princesa. Enquanto Eliza, através de Higgins, se transforma, o professor continua no mesmo lugar. Um arrematado egoísta que assumiu idealizar a mãe como a mulher perfeita. Higgins precisava se transformar para levar Eliza ao altar e assim completar o par romântico. Só que a obsessão pela mãe o condena à solteirice.
Uma linda Mulher vem corrigir este grave defeito. Diferente de seu congênere Higgins, Edward Lewis, o empresário tímido e inseguro no amor, se deixa passar pela necessária transformação para assim cair romanticamente nos braços da outrora prostituta Vivian Ward.
É bom lembrar ao espectador que a verdadeira origem de Uma Linda Mulher, e também do musical My Fair Lady, vem um pouco antes no tempo, em 1913, quando o dramaturgo irlandês George Bernard Shaw lançou uma de suas obras primas, Pigmalião . Que, por sua vez, é inspirado em Metamorfoses, de Ovídio… Vamos parar por aqui. Como se vê, a cultura é uma grande massa que se fermenta a cada vez que surge um grande artista, o que nos leva a admitir que nesta vida nada se inventa, tudo se fermenta. Sempre na busca, claro, de um novo sabor.
Em suma. Pena que o filme Uma Linda Mulher não teve continuação. Primeiro, para “continuarmos” a admirar a estonteante beleza de Júlia Roberts e, por tabela, a beleza e o charme, à la Clark Gable, de Richard Gere. Segundo, para nos certificarmos de que o conto de fadas vai mesmo continuar sendo um conto de fadas nos próximos anos. Apesar de difícil, sabemos, não é impossível. Mas, divagações à parte, o que interessa mesmo para um conto de fadas é chegar até o beijo. A partir daí, caberá a nós idealizarmos nosso próprio beijo sobre o qual se fundará nosso projeto de vida afetiva. Sim. Não há nada de errado em sonharmos. Em nossa essência, somos seres utópicos. Precisamos idealizar, imaginar, acreditar. Afinal, precisamos de certa utopia para nos mantermos vivos e podermos seguir adiante com nossa grande missão humana na terra — que é amar.