Central Do Brasil

Um país à procura de si mesmo

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É correto partirmos do pressuposto de que a arte, para sobreviver ao tempo, precisa da originalidade. Mas não basta ao artista ter uma boa ideia, apenas. Precisa saber executá-la. E este acabou sendo o dilema de Walter Salles, diretor de CENTRAL DO BRASIL (113’), Brasil/França (1998). Detentor do argumento original do filme, percebeu o risco de não conseguir desenhar, ele próprio, um roteiro à altura da sua ideia. E a ideia era, de fato, original. Uma professora aposentada que escreve cartas, numa movimentada estação de trens urbanos, para pessoas analfabetas que querem entrar em contato com seus familiares e amigos. Sentindo o peso da responsabilidade de dar o acabamento perfeito ao roteiro, Walter Salles delegou a tarefa a Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein. E os dois, sem dúvida, deram conta do recado.

Roteiro em mãos, produção e direção cuidaram do resto. A começar pelo elenco. A magistral Fernanda Montenegro, em desempenho memorável. Com ela, o garoto Vinicius de Oliveira, Marília Pêra, Othon Bastos, Matheus Nachtergaele, Soia Lira, o terrível Otávio Augusto, Stella Freitas e Caio Junqueira. Como se vê, uma lista para ninguém botar defeito. Ainda com uma trilha sonora eficiente, e a impecável direção de fotografia de Walter de Carvalho, não teve como não resultar, Central do Brasil, em uma das grandes obras primas do cinema brasileiro. Era a retomada do cinema tupiniquim, após anos sofrendo de estagnação criativa. Não à toa, os aplausos ecoaram mundo afora, com a indicação às estatuetas do Oscar de Melhor Filme estrangeiro (o vencedor seria A Vida é Bela) e Melhor Atriz para Fernanda Montenegro (que não levaria), uma façanha e tanto neste acirrado mercado de prêmios. Em noite de gala, Central do Brasil escrevia sua bela trajetória na história do nosso cinema.

Isadora, a professora aposentada, é um ser que nutre amarguras em relação à vida. Prende-se a um passado incompleto, na busca de ressignificar suas relações afetivas com o pai já morto. A esta estrutura emocional vem se juntar a história do menino Josué, cuja obsessão é conhecer o pai. É a partir deste encontro entre Dora e Josué, numa estação de trem, a Central do Brasil, no Rio de Janeiro, que se estrutura o argumento do filme.

A escolha do local, uma estação de trem, não poderia ser mais propícia para Dora colocar sua mesa e cadeira e passar o dia escrevendo cartas para pessoas que desejavam se comunicar com seus entes queridos, sempre distantes, na geografia e no tempo. A estação de trem (e a rodoviária) simboliza a separação, o distanciamento, a saudade. No entanto, Dora, na sua amarga insensibilidade, não está preocupada com saudades e sentimentos de seus clientes. Isto se revela na forma como ela dá destino às cartas destas pessoas estranhas que confiaram sua intimidade à escrevente. A maioria das cartas, ela rasga. Algumas, que lhe chamam mais a atenção, ela guarda numa gaveta, a que dá a alcunha de “purgatório”. E não se tem notícia — o filme não nos oferece esta imagem — de que ela tenha ido aos Correios postar alguma das prometidas cartas. A não ser em Bom Jesus do Norte, já no final do filme, redimindo-se de suas pequenas desonestidades, resolve entrar na agência do correio. Para Dora interessava apenas fazer um bico para aumentar a sua renda. Os sentimentos alheios eram apenas um produto a ser desprezado.

Tudo começa a mudar com Ana, a mãe do menino Josué. Após pedir a Dora que escrevesse uma carta para o ex-marido, em que manifesta os desejos do filho Josué em conhecê-lo, ela é atropelada e morta por um ônibus. Dora, a escrevedora de cartas, resolve então assumir o menino e sua obsessão. Os dois partem juntos em direção ao nordeste brasileiro, rumo a Bom Jesus do Norte, onde, pressupunha-se, morava Jesus, o pai de Josué. É a partir da estação de ônibus, no Rio de Janeiro, que o filme marca um itinerário imagético de cores vivas e duro realismo, numa exibição do exuberante, às vezes grotesco, sincrético e pobre interior do Brasil. É uma riqueza de culturas e vivências de um Brasil desconhecido, sobre o qual poucos filmes, desde Glauber Rocha, têm-se debruçado.

Talvez caiba aqui apenas uma análise, antes de encerrarmos esta resenha. E a discussão se coloca tendo como ponto de partida uma pergunta. Seria possível existir este filme, Central do Brasil, se o Brasil não fosse um país de analfabetos?

A produção do filme tem seu início na França, quando o produtor cinematográfico suíço Arthur Cohn, juntamente com Martine de Clermont-Tonnerre, entram em contato com o roteiro e ficam convencidos do potencial de sucesso do filme. Ora, só que o filme, cuja ideia fora gestada no Brasil, não podia ser ambientado na França, lugar de letrados, onde não seria possível reproduzir uma realidade cuja base de existência é a fala de um país de analfabetos. E mais. Um país de intensa mobilidade horizontal, migratória, onde só cabem o abandono da terra natal, a despedida de familiares, a distância, a saudade e o desenraizamento, realidades estas comuns, e dolorosas, principalmente nos movimentos migratórios da segunda metade do século XX, ocorridos no Brasil, a partir do nordeste para o sul. Neste quadro de incomunicabilidades, escrever uma carta para um ente querido era a única forma de se agarrar às raízes perdidas.

Encerrando, cabe outra breve análise. Sem perspectivas de futuro para um país que até hoje não sabe o que quer para o seu povo, o filme nos leva a nos voltarmos para o passado. A saudade do pai morto (origem), por Dora, e a obsessão por conhecer o pai vivo (raiz), por Josué, atestam um saudosismo que preenche a falta de perspectivas de um futuro promissor. Só que nesta busca por um significado de vida — o reencontro com o passado —, Dora e Josué se envolvem, pelos caminhos da “terra brasilis”, com pequenas trapaças e roubos. Estes comportamentos traduzem bem a conveniência moral da alma brasileira. Locupletar-se com a corrupção e a desonestidade, esses pequenos movimentos imorais do dia a dia, como uma pretensa atitude de revolta, de contestação, de inconformismo. Na origem da nossa formação como nação, faltou-nos a dádiva da irreverência política, que suprimos com a inútil irreverência moral. Esta, o filme nos mostra sutilmente, é a forma de ser do brasileiro. Que ainda, ressente-se, não tem morada em seu próprio país.

 

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