{"id":1023,"date":"2020-08-22T11:20:02","date_gmt":"2020-08-22T14:20:02","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1023"},"modified":"2020-12-27T14:29:02","modified_gmt":"2020-12-27T17:29:02","slug":"noites-de-circo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/noites-de-circo\/","title":{"rendered":"Noites De Circo"},"content":{"rendered":"<p>Ingmar Bergman, com seu contundente filme NOITES DE CIRCO (90\u2019), Su\u00e9cia (1954), traz para a tela um dos temas que lhe \u00e9 muito caro, e que viria a se repetir em v\u00e1rios de seus filmes, nos anos seguintes. A arte como fonte de sofrimento para o artista. E a humilha\u00e7\u00e3o como uma das chagas mais vis\u00edveis desse sofrimento.<\/p>\n<p>Talvez esta dura realidade seja a tem\u00e1tica mais convulsiva de um Bergman amargo e ir\u00f4nico que est\u00e1 disposto a p\u00f4r a nu as vicissitudes do seu of\u00edcio. Afinal, Bergman esteve enfiado at\u00e9 a alma nos palcos e nas c\u00e2meras. No teatro e no cinema. E o circo? Bem, o circo, com sua arte medieval, \u00e9 outra hist\u00f3ria. O circo \u00e9 a arte suja, cheirando a est\u00e1bulos e a mis\u00e9ria. A arte rebotalha! A arte que vive da incerteza, rodeada de pulgas e de confus\u00f5es amorosas. O circo pode ter l\u00e1 suas noites de gl\u00f3rias, mas elas ser\u00e3o passageiras. Um dia a lona ficar\u00e1 rota e dos c\u00e9us cair\u00e3o sobre o picadeiro as chuvas e a luz das estrelas. E o que restar\u00e1, ent\u00e3o? O palha\u00e7o. Porque este, sim, atravessar\u00e1 os s\u00e9culos. Intacto.<\/p>\n<p>Albert (\u00c2ke Gr\u00f6nberg) \u00e9 o dono do\u00a0<em>Circus Alberti<\/em> e se relaciona, evidente, com sua principal estrela, Anne (Harriet Andersson). Mas a inseguran\u00e7a financeira, o cansa\u00e7o afetivo e o esgotamento f\u00edsico derrubam qualquer tentativa de manter as apar\u00eancias de um casamento feliz. Ambos n\u00e3o suportam mais essa itiner\u00e2ncia de mis\u00e9rias, com as pulgas tomando conta do leito e a desilus\u00e3o roendo os sonhos.<\/p>\n<p>Mas o circo tem que viajar at\u00e9 o pr\u00f3ximo pouso. Os cavalos t\u00eam que puxar as carro\u00e7as e levar o espet\u00e1culo para onde o p\u00fablico est\u00e1. Enfim, \u00e9 preciso, acima de tudo, manter a arte viva, mesmo que tr\u00f4pega.<\/p>\n<p>E o circo chega a uma cidadezinha do interior da Su\u00e9cia, onde tudo, num espa\u00e7o de vinte e quatros horas, acontece. E o que acontece \u00e9 uma sequ\u00eancia de humilha\u00e7\u00f5es, onde Bergman, com sua ironia corrosiva, coloca na tela o que ele pensa sobre as labutas e as incertezas do ser artista. E n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, parece-nos, de que o inv\u00f3lucro social da arte \u00e9 a humilha\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira humilha\u00e7\u00e3o aparece logo no in\u00edcio do filme, numa sequ\u00eancia de cenas pungentes e inesquec\u00edveis. Alma, esposa do palha\u00e7o Theodore, toma banho nua, no mar, com os soldados que est\u00e3o fazendo exerc\u00edcios de tiros de canh\u00e3o. Todos riem, todos se divertem. E o marido, o palha\u00e7o, \u00e9 maldosamente avisado do que est\u00e1 acontecendo. Ele sai do circo, corre em dire\u00e7\u00e3o ao mar e retorna, trazendo nos bra\u00e7os, o corpo nu da esposa. E atr\u00e1s dele, um s\u00e9quito de chacotas. Sua agonia \u00e9 tentar proteger a esposa e a si da humilha\u00e7\u00e3o p\u00fablica. N\u00e3o consegue. Esgotado, cai sobre o corpo da mulher. E, desfalecido, \u00e9 carregado pela multid\u00e3o circo adentro. Sil\u00eancio! \u00c9 o momento de a arte supurar as suas dores.<\/p>\n<p>A arte tenta, a todo custo, esconder seu calcanhar de Aquiles, a falta de dinheiro. Mas, \u00e9 imposs\u00edvel, pois, afinal, sem dinheiro n\u00e3o tem como seguir adiante. Bergman, mais do que ningu\u00e9m, sabia da necessidade de se obter financiamento para prosseguir com seus projetos. \u00c9 curioso perceber essa rela\u00e7\u00e3o humilhante com o dinheiro na pr\u00f3pria hist\u00f3ria de Bergman, um diretor mundialmente consagrado, com os dois p\u00e9s fincados na ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica sueca, mas que, mesmo assim, se v\u00ea obrigado a financiar alguns dos seus projetos com recursos pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Albert, o palha\u00e7o-mor, reflete esse cansa\u00e7o na eterna e humilhante busca por dinheiro. Primeiro, ele \u00e9 humilhado ao ir bater \u00e0 porta de outra arte, o teatro, para implorar figurinos. Depois, o circo \u00e9 humilhado em pra\u00e7a p\u00fablica pela pol\u00edcia municipal quando esta, ao ver a trupe divulgar, sem autoriza\u00e7\u00e3o, o espet\u00e1culo que iria acontecer logo mais \u00e0 noite, confisca os cavalos, obrigando a que os circenses, diante de toda a cidade em risos, puxem, como animais, sua pr\u00f3pria carro\u00e7a. Depois, Albert vai se humilhar diante da ex-esposa, a quem outrora abandonara, ela que \u00e9 agora uma empres\u00e1ria bem sucedida. Ele pede para reatarem, inclusive promete abandonar o circo, portanto, a arte, mas ela o rejeita. E, por fim, v\u00ea sua atual esposa tra\u00ed-lo com a estrela do teatro local, o sedutor Frans (Hasse Ekman). E n\u00e3o bastasse, esse mesmo teatro vai, \u00e0 noite, at\u00e9 o circo para humilhar Albert em seu pr\u00f3prio picadeiro, diante de uma plateia em del\u00edrios. Basta, n\u00e3o acham? Sim, chega, pois \u00e9 hora de partir. O sol vai raiar, nada mais resta a Albert sen\u00e3o continuar se arrastando com seu circo pelos caminhos do mundo. \u00c9 preciso continuar provando que a arte morre e renasce a cada instante. \u00c9 assim que tem que ser. Ainda bem.<\/p>\n<p>O que Bergman, afinal, pretende com tudo isto, quando coloca o circo, arte artesanal por excel\u00eancia, como o tapete a ser pisado? Talvez o circo represente a pen\u00faria a que todos os artistas est\u00e3o sujeitos. Por isso, nada melhor encerrarmos esse doloroso assunto, transcrevendo aqui as palavras do pr\u00f3prio Albert. Diz ele a um dos palha\u00e7os, Frost (o magn\u00edfico Anders Ek). \u201cN\u00e3o quero andar por a\u00ed com este lixo de circo! Quero ser um cidad\u00e3o honesto, com uma conta banc\u00e1ria e uma esposa respeit\u00e1vel.\u201d E resume. \u201c\u00c9 uma vergonha ser Albert!\u201d. Pois \u00e9, Bergman.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ingmar Bergman, com seu contundente filme NOITES DE CIRCO (90\u2019), Su\u00e9cia (1954), traz para a tela um dos temas que lhe \u00e9 muito caro, e que viria a se repetir em v\u00e1rios de seus filmes, nos anos seguintes. A arte como fonte de sofrimento para o artista. 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