{"id":1052,"date":"2020-08-13T16:50:29","date_gmt":"2020-08-13T19:50:29","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1052"},"modified":"2020-12-27T14:34:04","modified_gmt":"2020-12-27T17:34:04","slug":"a-fonte-da-donzela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/a-fonte-da-donzela\/","title":{"rendered":"A Fonte Da Donzela"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00a0<\/strong>Com o pungente filme A FONTE DA DONZELA (89\u2019), Su\u00e9cia (1960),\u00a0<a href=\"https:\/\/www.assistoporquegosto.com.br\/blog\/index.php\/novembro-especial-ingmar-bergman\/\">Ingmar Bergman<\/a>\u00a0mais uma vez recua no tempo e retorna \u00e0s florestas sombrias da Idade M\u00e9dia para falar de religi\u00e3o e dos seus subprodutos, o pecado, a culpa, a ignor\u00e2ncia, o medo da morte, a submiss\u00e3o \u00e0 f\u00e9 e, como condi\u00e7\u00e3o humana perfeita a ser alcan\u00e7ada, a pureza. Ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1961, este belo filme apenas comp\u00f5e a sequ\u00eancia de tem\u00e1ticas obsessivamente trabalhadas por Bergman na sua \u00e2nsia de artista por compor um mosaico fiel do comportamento humano. E Bergman, espertamente, entende que, para romper a m\u00e1scara do homem e deixar que ele se revele diante de suas c\u00e2meras, \u00e9 necess\u00e1rio inseri-lo numa estrutura de tens\u00e3o. \u00c9 preciso lev\u00e1-lo ao limite. E nada melhor que escolher o ambiente familiar para alcan\u00e7ar esse efeito de tens\u00e3o. E de destrui\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que vamos ver, infelizmente, em\u00a0<em>A fonte da Donzela<\/em>.<\/p>\n<p>Um casal de crist\u00e3os fervorosos, oriundos de uma terra de pag\u00e3os n\u00f3rdicos, pede que sua filha adolescente, de apenas 15 anos, Karin (Birgitta Pettersson), leve velas at\u00e9 a igreja do povoado e as acenda em honra \u00e0 Virgem Maria. Uma virgem levando oferendas \u00e0 outra virgem, esta \u00e9 a sinopse sucinta do filme. Mas dentro desta r\u00e1pida pincelada se escondem as mais devastadoras cores que desenham o rosto desfigurado da alma humana.<\/p>\n<p>O ideal de pureza a ser alcan\u00e7ada pela donzela que promete sua virgindade ao casamento se contrap\u00f5e \u00e0 servi\u00e7al da casa, Ingeri (Gunnel Lindblom), gr\u00e1vida de rela\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, portanto, impura. Eis o contraponto. O desejo est\u00e1 latente na donzela. Ela deseja, mas apenas ri, nervosa, quando sente o fogo arder em seu ventre. A servi\u00e7al Ingeri n\u00e3o tem tempo para realimentar seus desejos. Eles j\u00e1 se transformaram em sofrimento. Seu tempo \u00e9 dispensado para o \u00f3dio, e \u00e9 a\u00ed que ela recorre \u00e0s suas origens n\u00f3rdicas, ao deus Odin, que, por ser o guardi\u00e3o da honra, tudo permite, inclusive a vingan\u00e7a. E \u00e9 neste est\u00e1gio humano que as duas, a pura e a impura, tomam o caminho do povoado.<\/p>\n<p>Tanto atrav\u00e9s da fotografia de Sven Nykvist quanto nas pungentes interpreta\u00e7\u00f5es dos atores, podemos acompanhar a narrativa em seu estado de tens\u00e3o crescente, antevendo j\u00e1, a cada sequ\u00eancia, a chegada da tempestade. Sentimo-nos sufocados pela selvageria de Ingeri e pela inoc\u00eancia quase absurda de Karin. E o inevit\u00e1vel desfecho, na linhagem dram\u00e1tica de Bergman, n\u00e3o podia ser diferente. As for\u00e7as opostas se encontram e desse encontro surge uma das mais belas interpreta\u00e7\u00f5es de sofrimento de um estupro. \u00c9 aqui que convocamos a aten\u00e7\u00e3o do espectador.<\/p>\n<p>A cena do estupro \u00e9 assinada com m\u00e3o firme por Bergman, conduzida de uma forma n\u00e3o agressiva, mas t\u00e3o expressiva que bastou a a\u00e7\u00e3o de um dos pastores for\u00e7ando a abertura das pernas de Karin para que o outro a penetrasse para destilar no espectador toda a inj\u00faria do ato infame.<\/p>\n<p>E a cena a que nos referimos vem logo a seguir. Terminado o ato do estupro, e tendo todos j\u00e1 se colocado de p\u00e9, veremos uma Karin desnorteada, caminhando a esmo, o rosto atarantado, enquanto seu \u00fatero arde vulcanicamente em dores terr\u00edveis. \u00c9 uma cena que dura menos de um minuto, mas um primor de interpreta\u00e7\u00e3o de Birgitta Pettersson, universalizando, naquele instante, a dor de milh\u00f5es de mulheres que sofreram \u2013 e sofrem \u2013 do abuso.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que Bergman vai afunilando a tens\u00e3o narrativa, o espa\u00e7o interior por onde as personagens se movimentam vai ficando cada vez mais estreito. E insuport\u00e1vel. Chegar\u00e1 o momento em que nada mais restar\u00e1 \u00e0s personagens sen\u00e3o supurarem suas dores. E suas maldades.<\/p>\n<p>\u00c9 o que acontece com o pai, T\u00f6re (Max Von Sydow), atormentado pela necessidade de vingar a filha, preparando-se para cometer o pecado da vingan\u00e7a. \u00c9 o que acontece com Ingeri, ao gritar seu \u00f3dio por Karin, rompendo assim o grito da inveja. \u00c9 o que acontece com a esposa, M\u00e4reta (Birgitta Valberg), ao revelar seu \u00f3dio pelo marido, T\u00f6re, desejado pela filha, Karin. Rompe-se, ali, o grito do ci\u00fame.<\/p>\n<p>Vale ressaltar uma das cenas finais, em que T\u00f6re esbraveja contra um Deus que se cala diante do pecador, que nada diz, como se n\u00e3o existisse. A cena traz um dos temas recorrentes na filmografia de Bergman, o sil\u00eancio de Deus. Ser\u00e1 que Deus, para existir, teria que nos falar?<\/p>\n<p>O grande dilema \u00e9 que o pecado bate \u00e0 porta, insistentemente. Bergman constr\u00f3i perigosamente a imagem do homem na sua luta incessante para se livrar do pecado, sem, talvez, se dar conta, o homem, de que n\u00e3o \u00e9 o pecado o seu grande problema, j\u00e1 que Deus estar\u00e1 sempre pronto para perdoar. O problema \u00e9 a culpa. E culpa n\u00e3o se perdoa. Porque a culpa est\u00e1 ligada \u00e0 natureza humana e n\u00e3o \u00e0 natureza divina. \u00c9 como se a culpa estivesse fora do alcance de Deus. Esse \u00e9 o homem solit\u00e1rio de Bergman.<\/p>\n<p>Baseando-se numa balada medieval, mais uma vez Bergman constr\u00f3i um filme carregado de significados e simbolismos, onde a rela\u00e7\u00e3o do homem com o homem vem permeada de c\u00f3digos incompreens\u00edveis, cujos significados s\u00f3 passamos a conhecer quando deflagrado o conflito. No entanto, os c\u00f3digos continuar\u00e3o indecifr\u00e1veis, para que novas trag\u00e9dias sejam preparadas. A \u00fanica coisa que pressentimos \u00e9 que algu\u00e9m sempre ter\u00e1 que mover a desgra\u00e7a. E para isso, algu\u00e9m dentre n\u00f3s, \u00e0 revelia, ser\u00e1 o escolhido. Esse \u00e9 o roteiro da vida.<\/p>\n<p>Cada vez que assistimos a um filme de Bergman, mais nos sentimos indefesos, e confusos, porque podemos controlar as imagens que nos s\u00e3o apresentadas, mas n\u00e3o as for\u00e7as que motivam estas imagens. \u00c9 prov\u00e1vel que nem mesmo Bergman tivesse esse controle. E ele n\u00e3o tinha. Nem ele, nem ningu\u00e9m. Por uma raz\u00e3o simples. Somos perigosamente humanos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Com o pungente filme A FONTE DA DONZELA (89\u2019), Su\u00e9cia (1960),\u00a0Ingmar Bergman\u00a0mais uma vez recua no tempo e retorna \u00e0s florestas sombrias da Idade M\u00e9dia para falar de religi\u00e3o e dos seus subprodutos, o pecado, a culpa, a ignor\u00e2ncia, o medo da morte, a submiss\u00e3o \u00e0 f\u00e9 e, como condi\u00e7\u00e3o humana perfeita a ser alcan\u00e7ada, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1053,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[347],"tags":[170,169,77,544,9,510,24,171,532,76,408,537,751,511],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A Fonte Da Donzela - Roberto Gerin<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/a-fonte-da-donzela\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A Fonte Da Donzela - 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