{"id":1058,"date":"2020-08-12T17:01:55","date_gmt":"2020-08-12T20:01:55","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1058"},"modified":"2021-01-20T10:19:47","modified_gmt":"2021-01-20T13:19:47","slug":"morangos-silvestres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/morangos-silvestres\/","title":{"rendered":"Morangos Silvestres"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 muitos olhares que podemos lan\u00e7ar sobre este bel\u00edssimo e premiado filme de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.assistoporquegosto.com.br\/blog\/index.php\/novembro-especial-ingmar-bergman\/\">Ingmar Bergman<\/a>, MORANGOS SILVESTRES (91\u2019), Su\u00e9cia (1957). Mas um deles nos parece ser o que mais traduz o filme: a ideia de finitude. Afinal, na velhice, o horizonte j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais l\u00e1, ao longe, diante de n\u00f3s. Ele parece agora se arrastar sob nossos p\u00e9s. Sentimos seu peso e sua escurid\u00e3o. Se n\u00e3o h\u00e1, pois, mais o horizonte, para onde caminhar? Eis ent\u00e3o a pergunta. H\u00e1 futuro na velhice? Ou o que nos resta \u00e9 olhar para tr\u00e1s, em busca de lembran\u00e7as de dias outrora vividos? \u00c9 o que Bergman faz com seu personagem, o velho m\u00e9dico Isak Borg (Victos Sj\u00f6rtr\u00f6m). Faz Isak olhar para tr\u00e1s. Impiedosamente. E nos faz parecer que a vida, na velhice, acontece atrav\u00e9s das reminisc\u00eancias, e que s\u00e3o destas imagens que surge o sentido do viver. E a\u00ed est\u00e1 o perigo. Porque visitar o passado pode ser, sim, perigoso. E Bergman coloca seu Isak, digamos, numa fria. \u00c9 quando ele, o velho, numa viagem sem fim ao passado, se d\u00e1 conta do que foi, do que podia ter sido, e no que realmente se transformou. Pobre Isak. Infelizmente, em Bergman, n\u00e3o h\u00e1 meio termo. A nudez \u00e9 completa.<\/p>\n<p>O que o espectador vai ver, atrav\u00e9s da primorosa fotografia em estonteantes pretos e brancos de Gunnar Fischer, ao lado de Sven Nykvist, o grande diretor de fotografia que acompanhou Bergman em v\u00e1rios dos seus filmes, \u00e9 a hist\u00f3ria narrada em lembran\u00e7as e sonhos. Isak Borg, m\u00e9dico veterano, receber\u00e1, na tarde daquele dia, honrosas homenagens pela vida dedicada ao exerc\u00edcio da medicina. Na noite que antecede a viagem, Isak recebe a visita de um sonho f\u00fanebre. \u00c9 a morte deixando seu caix\u00e3o cair no meio de uma rua deserta. Ao acordar, no dia seguinte, evidente, tocado pelo significado do sonho, Isak toma a decis\u00e3o. Ia de avi\u00e3o, mas decide ir de carro, de Estocolmo \u00e0 cidade de Lund, onde receber\u00e1 a honraria. Sua nora, Marianne (a bela Ingrid Thulin), gr\u00e1vida e infeliz, o acompanha. A viagem \u00e0 Lund e ao passado s\u00e3o os pontos dram\u00e1ticos que, no filme, se interpenetram, retroalimentando a ideia de finitude.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de Isak de ir de carro at\u00e9 Lund provoca uma cena memor\u00e1vel entre o m\u00e9dico e sua empregada, que o acompanha h\u00e1 quarenta anos. Ela n\u00e3o concorda que ele v\u00e1 de carro. Tem que ser de avi\u00e3o. Mas ele quer ir de carro. A briga \u00e9 revestida de tamanhas inten\u00e7\u00f5es e intimidades, que mais parece uma briga cotidiana de marido e mulher, o que d\u00e1 \u00e0 cena um tom hil\u00e1rio e, ao mesmo tempo, ir\u00f4nico. A rabugice, esta companheira insepar\u00e1vel da velhice, domina a cena. Imperd\u00edvel!<\/p>\n<p>Enfim, o carro em movimento, presente e passado v\u00e3o se digladiando, em cenas comoventes, at\u00e9 Lund, sul da Su\u00e9cia. Isak ter\u00e1 o dia todo para chegar a seu destino. H\u00e1 tempo para que as lembran\u00e7as aflorem, dando a oportunidade para que Bergman realize um dos seus mais completos filmes. Nada \u00e9 \u00e0 toa quando o fortuito se submete \u00e0 vontade alheia. \u00c9 a decis\u00e3o humana, e n\u00e3o o acaso, que constr\u00f3i a vida. E, tamb\u00e9m, a arte. N\u00e3o se iluda, caro espectador, nada \u00e9 de gra\u00e7a, e Bergman se favoreceu de uma imposi\u00e7\u00e3o feita por ele a seu personagem, a viagem de carro, para construir mais uma de suas obras primas. Desumano, Bergman, por pura vaidade de artista, obrigou um velho de setenta e oito anos a dirigir por seiscentos quil\u00f4metros, num prazo, digamos, de doze horas! N\u00e3o se faz isso, senhor Bergman. Nem em nome da arte!<\/p>\n<p>Retomando a ess\u00eancia narrativa do filme, \u00e9 o passado emergindo dolorosamente no presente. Esta \u00e9 a grande sacada de Bergman. Ali\u00e1s, sem abrir m\u00e3o do presente, Bergman o insere no passado, contrariando a t\u00e9cnica do\u00a0<em>flashback<\/em>. N\u00e3o \u00e9 um\u00a0<em>flashback<\/em>\u00a0como n\u00f3s o conhecemos. \u00c9 Isak, o velho, visitando a velha casa de campo onde sua fam\u00edlia passava os ver\u00f5es, e \u00e9 Isak, o velho, presenciando as cenas da \u00e9poca em que era jovem. Mas, eis! Os outros s\u00e3o jovens, ele continua velho, enfiado no passado, descaradamente, apenas como uma figura onipresente. \u00c9 o passado revelando que a velhice \u00e9 o est\u00e1gio da solid\u00e3o, quando se percebe que o que se fez est\u00e1 feito, portanto, n\u00e3o h\u00e1 tempo para mais nada, no m\u00e1ximo, ir \u00e0 Lund receber a condecora\u00e7\u00e3o. E quando a festa terminar, voltar\u00e1 para sua solid\u00e3o. \u00c9 assim que Isak se expressa. Antevendo a morte, j\u00e1 \u00e9 um morto-vivo.<\/p>\n<p><em>Morangos Silvestres<\/em>\u00a0escancara o drama do envelhecimento. Velhice n\u00e3o se evita, n\u00e3o se esconde, ela se mostra, por inteira, sem disfarce, e a cada passo, a cada lembran\u00e7a, uma face do fim nos \u00e9 apresentada. Agora, sem a m\u00e1scara. N\u00e3o adianta mais perverter a realidade, como fizemos a vida toda. Chega o momento em que o beco, sem sa\u00edda, nos aprisiona. E nesta pris\u00e3o, resta a Isak apenas se perguntar: afinal, o que eu fiz da minha vida? Esta pergunta \u00e9 um aviso, caro espectador. Temos que nos preparar para um dia podermos respond\u00ea-la. Sem dores, de prefer\u00eancia.<\/p>\n<p>E para concluir, nos resta fotografar a vida. Ora! N\u00e3o s\u00e3o as rugas que pesam. A destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel. O lindo jovem \u00e9 transformado num velho alquebrado. Se n\u00e3o s\u00e3o as rugas, o que ent\u00e3o justifica a solid\u00e3o de Isak? Eis o segredo que a vida nos reserva. Um Isak sens\u00edvel, apaixonado, simp\u00e1tico, honesto e promissor foi caminhando ao longo dos anos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o, ao ego\u00edsmo, \u00e0 frieza do afeto, \u00e0 amargura, ao isolamento social, ao julgamento implac\u00e1vel e apressado de si e dos outros. A face obscura da vida substitui a luz da juventude. Este \u00e9 o nosso drama. Nos transformarmos em estranhos de n\u00f3s mesmos. Sem saber o que somos, resta-nos querer saber o que \u00e9ramos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muitos olhares que podemos lan\u00e7ar sobre este bel\u00edssimo e premiado filme de\u00a0Ingmar Bergman, MORANGOS SILVESTRES (91\u2019), Su\u00e9cia (1957). Mas um deles nos parece ser o que mais traduz o filme: a ideia de finitude. Afinal, na velhice, o horizonte j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais l\u00e1, ao longe, diante de n\u00f3s. 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