{"id":1065,"date":"2020-08-08T17:18:24","date_gmt":"2020-08-08T20:18:24","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1065"},"modified":"2021-01-20T10:25:54","modified_gmt":"2021-01-20T13:25:54","slug":"a-paixao-de-ana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/a-paixao-de-ana\/","title":{"rendered":"A Paix\u00e3o De Ana"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00a0<\/strong>O filme A PAIX\u00c3O DE ANA (101\u2019), dire\u00e7\u00e3o de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.assistoporquegosto.com.br\/blog\/index.php\/novembro-especial-ingmar-bergman\/\">Ingmar Bergman<\/a>, Su\u00e9cia (1969), nos coloca diante de um dos grandes dilemas humanos, qual seja, a necessidade (e a dificuldade) de expressarmos o que sentimos, de trocarmos experi\u00eancias com outras pessoas e, acima de tudo, de nos sentirmos pr\u00f3ximos e seguros na companhia de algu\u00e9m. Trata este filme, simplesmente, das rela\u00e7\u00f5es. Mas que rela\u00e7\u00f5es? De amizade? De afeto? Sexo? Neg\u00f3cios, o qu\u00ea? Todas. Desde que duas pessoas se encontrem e se comprometam, reciprocamente, a dividir algo no cotidiano, est\u00e1 estabelecida a rela\u00e7\u00e3o. Agora, quais ser\u00e3o as consequ\u00eancias dessa aproxima\u00e7\u00e3o, a\u00ed j\u00e1 \u00e9 outra hist\u00f3ria. E essa \u00e9 a hist\u00f3ria que o filme vai nos contar.<\/p>\n<p>O filme\u00a0<em>A Paix\u00e3o de Ana<\/em>, como o nome j\u00e1 revela, traz a paix\u00e3o de uma mulher por um homem. Ou dois? Espera! Uma coisa de cada vez. Aqui, no recorte do filme, estamos falando de uma rela\u00e7\u00e3o de amor entre duas pessoas para l\u00e1 de adultas, portanto, que j\u00e1 trazem para a nova rela\u00e7\u00e3o um hist\u00f3rico de vida, quer dizer, outros amores.<\/p>\n<p>Andreas \u00e9 um divorciado que se isolou numa ilha para lamber as suas dores de divorciado. Pouco fala a respeito, pouco se sabe da sua rela\u00e7\u00e3o anterior. Mas nem precisa. \u00c9 um homem solit\u00e1rio, dispon\u00edvel e arredio. Contradit\u00f3rio, portanto. Certo dia, uma tal de Ana (a sempre maravilhosa Liv Ullmann) aparece em sua casa pedindo para usar o telefone. Gentilmente ele cede. E, dispon\u00edvel, escuta a conversa da mo\u00e7a. E para piorar, transtornada com a conversa ao telefone, ela esquece a bolsa na casa de Andreas. Ele, mais uma vez dispon\u00edvel, vasculha a bolsa da mo\u00e7a e encontra a \u00faltima carta que o ex-marido enviara para ela. E, novamente dispon\u00edvel, Andreas l\u00ea a carta alheia. E descobre que a rela\u00e7\u00e3o de Ana com o ex-marido morto era para l\u00e1 de desconfort\u00e1vel. Clamava por rompimento. O nome do ex-marido? Andreas.<\/p>\n<p>Max Von Sydow, em mais uma atua\u00e7\u00e3o impec\u00e1vel, \u00e9 o nome do ator que Bergman escolheu para interpretar o personagem Andreas. Prestem aten\u00e7\u00e3o! N\u00e3o \u00e9 o Andreas ex-marido morto. \u00c9 o Andreas divorciado, que veio se isolar na ilha. Portanto, eis Ana \u00e0s voltas com os seus dois Andreas, simbolizando a dificuldade de se livrar do passado, do Andreas antigo, e de se entregar ao presente, ao Andreas atual. Maravilhosamente, \u00e9 desta dificuldade de nos movimentarmos, de elaborarmos o que aconteceu e de nos disponibilizarmos para a pr\u00f3xima rela\u00e7\u00e3o que trata o filme. Ser\u00e1 que o Andreas atual herdar\u00e1 os conflitos do Andreas antigo? Caro espectador, quem somos n\u00f3s sen\u00e3o formiguinhas, talvez fadados a carregar, vida afora, nossas dores emocionais? Ou existenciais, para sermos um pouco mais amplos?<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a quest\u00e3o. Vamos acumulando dores, elas passam a nos pertencer, e como n\u00e3o conseguimos nos livrar delas, somos obrigados a dividi-las com o outro, com o pr\u00f3ximo com quem vamos nos relacionar. Ser\u00e1 que o outro vai aceitar? E voc\u00ea? Vai acolher as dores do outro? Essa reciprocidade nos parece cruel. Ao n\u00e3o conseguir se livrar dos seus fantasmas, a rela\u00e7\u00e3o entre Ana e Andreas, o atual, vai se encaminhando para mais um desastre.<\/p>\n<p>Ingmar Bergman utiliza-se do\u00a0<em>close<\/em>\u00a0para deixar escapar para o espectador, de uma forma at\u00e9 invasiva, os tormentos de suas personagens.\u00a0 Diria que Bergman leva a t\u00e9cnica do\u00a0<em>close<\/em>\u00a0ao extremo, como se, ao fechar um pouquinho mais a c\u00e2mera, ele quisesse cair diretamente dentro da alma da personagem. E consegue. O que faz de\u00a0<em>A Paix\u00e3o de Ana<\/em>\u00a0um filme para se ver com muita aten\u00e7\u00e3o e colocar em uso uma ferramenta que o espectador tem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o. A sensibilidade.<\/p>\n<p>Para nos ajudar a despertar nossos sentidos, temos a magistral fotografia de Sven Nykvist. Aqui, em\u00a0<em>A Paix\u00e3o de Ana<\/em>, com sua fotografia poderosa e multicolorida \u2013 ah, vermelhos! -, Nykvist est\u00e1 mais inspirado do que nunca. Prestem aten\u00e7\u00e3o nas sombras, nas luzes brancas, nas vibra\u00e7\u00f5es de cores em tons entre claros e escuros. A t\u00edtulo de exemplo, e para fins de agu\u00e7ar a curiosidade do espectador, vamos ficar com uma \u00fanica cena fotogr\u00e1fica. Ali\u00e1s, duas!<\/p>\n<p>Quase ao final do filme, h\u00e1 a cena da briga do casal. \u00a0Bergman contrasta dolorosamente os olhos azuis de Liv Ullmann com o vermelho-sangue do seu len\u00e7o amarrado \u00e0 sua cabe\u00e7a. Imperd\u00edvel! Depois vem a cena seguinte, ap\u00f3s a briga violenta, quando o mesmo len\u00e7o vermelho, agora ca\u00eddo ao ch\u00e3o, \u00e9 transformado, simbolicamente, no sangue que podia ter sido derramado quando Andreas tenta acertar Ana com um machado. Uma pequena pincelada de sangue sobre o branco da neve!<\/p>\n<p><em>A Paix\u00e3o de Ana<\/em>\u00a0\u00e9 um daqueles filmes de Bergman que teve pouca divulga\u00e7\u00e3o comercial, mas que n\u00e3o o faz menos brilhante e nos leva a compar\u00e1-lo, em arte e emo\u00e7\u00e3o, com os melhores trabalhos da filmografia do diretor. A arte n\u00e3o est\u00e1 diretamente ligada ao com\u00e9rcio, como se fosse uma garrafa de refrigerante. Pode n\u00e3o ser vendida, nem precisa ser consumida. Mas, enquanto arte, sobreviver\u00e1 para o deleite de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Ao nos brindar com mais uma narrativa sobre as rela\u00e7\u00f5es humanas, envolvendo n\u00e3o s\u00f3 o tumultuado encontro entre um homem e uma mulher, mas principalmente revelando como reagimos em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s mesmos, o que ir\u00e1, com certeza, afetar o outro, Bergman nos faz ver, com crueza, que nossos comportamentos perpassam por um universo de energias produzidas fora do nosso controle e vontade. \u00c9 como se naveg\u00e1ssemos \u00e0 deriva, sem saber o que nos espera atr\u00e1s da pr\u00f3xima onda. Tendemos a esperar sempre pelo tr\u00e1gico. E este \u00e9 justo o mist\u00e9rio que nos envolve. E nos atormenta. A grande capacidade que temos de fazermo-nos v\u00edtimas de n\u00f3s mesmos. Vitimando, com isto, o outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0O filme A PAIX\u00c3O DE ANA (101\u2019), dire\u00e7\u00e3o de\u00a0Ingmar Bergman, Su\u00e9cia (1969), nos coloca diante de um dos grandes dilemas humanos, qual seja, a necessidade (e a dificuldade) de expressarmos o que sentimos, de trocarmos experi\u00eancias com outras pessoas e, acima de tudo, de nos sentirmos pr\u00f3ximos e seguros na companhia de algu\u00e9m. 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