{"id":1126,"date":"2020-07-12T17:30:58","date_gmt":"2020-07-12T20:30:58","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1126"},"modified":"2021-06-14T14:14:59","modified_gmt":"2021-06-14T17:14:59","slug":"forrest-gump","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/forrest-gump\/","title":{"rendered":"Forrest Gump"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 filmes que podemos eleger como nossos fi\u00e9is companheiros de cabeceira. V\u00e3o estar ali, \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o, para aqueles momentos em que estamos inquietos, nost\u00e1lgicos ou chateados com alguma contrariedade. Ou apenas buscando uma divers\u00e3o segura. Prazerosa. Hoje, com a tecnologia, temos esta facilidade de trazermos qualquer filme para dentro da nossa casa, e melhor, junto \u00e0 cabeceira da nossa cama. E um deles, candidato a ser colocado na pilha dos filmes preferidos, \u00e9 o singelo e emocionante FORREST GUMP (142\u2019), dire\u00e7\u00e3o de Robert Zemeckis, EUA (1994). \u00c9 deitarmos a cabe\u00e7a no travesseiro e viajarmos nas fant\u00e1sticas hist\u00f3rias de um ser que n\u00e3o \u00e9 um ser, mas que, por alguma estranha raz\u00e3o, parece t\u00e3o real, esse Forrest, que podia ser nosso tio, irm\u00e3o ou cunhado. E n\u00e3o importa sua pouca intelig\u00eancia. Mesmo que ela esteja abaixo da linha do que se chama de normalidade cognitiva, sua bondade sem limites, sua cren\u00e7a no amor como fonte prim\u00e1ria de vida, e sua sujei\u00e7\u00e3o aos princ\u00edpios que regem a engrenagem do acaso como fonte de liberdade, enfim, sua altivez humana nos impede que sintamos pena ou vontade de rir de uma personagem t\u00e3o fr\u00e1gil e t\u00e3o deslocada. E t\u00e3o Tom Hanks!<\/p>\n<p>Sim, Tom ganhou apenas um Oscar, o de melhor ator. Nem se ganhasse dez, a Academia jamais conseguiria dar a Tom Hanks os aplausos que ele merece. O Forrest Gump criado por ele \u00e9 destas poucas oportunidades que temos de confundir fic\u00e7\u00e3o com realidade. E isto se deve a um simples fato. Tom Hanks recheou sua personagem de um humanismo t\u00e3o profundo que ele conseguiu sintetizar em Forrest tudo aquilo que gostar\u00edamos de ser. Seres livres, libertos do ego\u00edsmo, essa doen\u00e7a moderna que nos condena, desde cedo, \u00e0 perda do sentido da nossa ess\u00eancia humana. Forrest Gump seja, talvez, o nosso elo perdido.<\/p>\n<p>Forrest Gump \u00e9 um menino que nasceu com limita\u00e7\u00f5es cognitivas, que cresce \u00e0 sombra do amparo materno. E este amparo se traduz na lucidez com que a m\u00e3e insere seu filho no mundo. Ela o vigia e ao mesmo tempo o liberta. Ela o orienta com informa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas, desprezando os rapap\u00e9s morais e sociais com que os pais costumam encher os ouvidos de seus filhos, at\u00e9 transform\u00e1-los em indiv\u00edduos inseguros. N\u00e3o \u00e9 o que acontece com Forrest. Forrest Gump \u00e9 constru\u00eddo para o mundo, e esta concep\u00e7\u00e3o \u00e9 o caldo narrativo do filme, quando vamos presenciando o homem Forrest tomar parte ativa dos momentos hist\u00f3ricos mais importantes das d\u00e9cadas de 1960, 1970 e 1980. N\u00e3o \u00e9 para menos. Com suas fant\u00e1sticas experi\u00eancias, afinal participou at\u00e9 da Guerra do Vietn\u00e3, Forrest, sentado no banco da pra\u00e7a, \u00e0 espera do \u00f4nibus que o levar\u00e1 a seu destino definitivo, transforma-se num ex\u00edmio e delicioso contador de hist\u00f3rias. E o que \u00e9 mais deslumbrante. Contador de suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Se esta colagem perfeita entre Forrest Gump e os grandes acontecimentos da hist\u00f3ria da segunda metade do s\u00e9culo XX \u00e9 o grande achado do filme, que, ali\u00e1s, utiliza fartamente da ironia para ridicularizar o modo de vida americano, nada faria sentido, nem mesmo as ironias, se n\u00e3o perceb\u00eassemos nos movimentos de Forrest uma motiva\u00e7\u00e3o extremamente particular. Ele \u00e9 movido por seu profundo afeto por sua amiga de inf\u00e2ncia, Jenny, uma menina com uma hist\u00f3ria familiar conturbada, e que passa a ser o \u00fanico ser humano, longe da m\u00e3e, que efetivamente aceita e compreende Forrest. Pena que Jenny \u00e9 a escolhida, dentro do seu espectro psicol\u00f3gico inst\u00e1vel, para representar aquela \u00e9poca de agita\u00e7\u00f5es culturais, pol\u00edticas e sociais que marcaram a hist\u00f3ria americana e mundial. Com seu destino tr\u00e1gico tra\u00e7ado, o m\u00e1ximo que Jenny conseguir\u00e1, j\u00e1 no final da sua vida, \u00e9 dar a Forrest o que ele mais desejava. O beijo, o abra\u00e7o, o sexo e, por fim, o filho, o que nos prova que s\u00f3 o afeto d\u00e1 consentimento \u00e0 vida para ser ela mesma.<\/p>\n<p>Vale a pena falarmos um pouco da import\u00e2ncia de um bom roteiro para o sucesso de um filme. Entendemos que o cinema respira atrav\u00e9s do roteiro. Sonoplastia, fotografia, luz, figurino, loca\u00e7\u00f5es, enfim, s\u00e3o elementos. E muito importantes. Mas um roteiro asfixiante incomoda. Um roteiro pretensioso, mas confuso, frustra. Um roteiro sem rumo chateia. Agora, um roteiro \u00e1gil, canibal, que derrama baldes de emo\u00e7\u00f5es pelos poros, que consegue dar \u00e0 dor humana a oportunidade de se redimir pela intelig\u00eancia dram\u00e1tica, este roteiro se chama <em>Forrest Gump<\/em>. Baseado no livro hom\u00f4nimo de Winston Groom, o roteiro de Eric Roth oferece tudo aquilo que se espera de um filme. Agilidade com divers\u00e3o, profundidade com pensamento, ousadia com originalidade. O que n\u00f3s queremos, afinal, \u00e9 que nos contem, com compet\u00eancia, uma boa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Tantas e outras coisas haveria ainda que se falar do filme. O ritmo, a gra\u00e7a, a f\u00e1bula, a vida feita de luzes e acasos. Mas vamos nos ater a um ponto. \u00c0 ironia filos\u00f3fica do filme. Temos como exemplo uma das falas de Forrest. <em>\u201cEu corria pra onde eu estava indo e n\u00e3o achava que isso fosse me levar para algum lugar\u201d<\/em>. O que \u00e9 isto sen\u00e3o um soco na id\u00e9ia dos que acham que nascemos para ser alguma coisa? Que s\u00f3 seremos felizes se formos funcionais? Se inseridos num ritmo? Por que \u00e9 que temos que ser \u201calgu\u00e9m\u201d? J\u00e1 n\u00e3o nascemos sendo? Ao questionar esta necessidade de sermos, Forrest Gump nos paralisa. Que \u00e9 quando nos damos conta de que procuramos tudo, menos a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Enfim, o que marca o filme, na sua ess\u00eancia, \u00e9 ser ele uma alegoria da dor. Forrest Gump n\u00e3o seria o que ele foi n\u00e3o fosse sua m\u00e3e (Sally Field). Ela representa a lucidez da dor de ter o filho que tem, <em>\u201clento\u201d<\/em>, a ponto de se prostituir com o diretor da escola para colocar o filho numa sala de aula de alunos <em>\u201cnormais\u201d<\/em>. Esta atitude nos lembra o famoso executivo da General Eletric, Jack Welch, que, gago, em crian\u00e7a, teve sua autoestima protegida pela m\u00e3e quando esta lhe dizia que ele era gago porque seu racioc\u00ednio era t\u00e3o r\u00e1pido que a l\u00edngua n\u00e3o dava conta de acompanhar. Forrest Gump foi encontrar a beleza humana da m\u00e3e na beleza destrutiva da amiga de inf\u00e2ncia, a Jenny (Robin Wright), amor de vida inteira e m\u00e3e de seu filho. Com a morte de Jenny, Forrest Gump mandou o trator derrubar a velha casa \u2014 <em>\u201ct\u00e3o velha quanto o Alabama\u201d<\/em> \u2014 onde a amiga vivera, palco dos piores abusos que uma crian\u00e7a podia sofrer. Ele, nas suas limita\u00e7\u00f5es cognitivas, talvez n\u00e3o percebesse o que havia acontecido dentro daquela casa, mas ele bem sabia, pelas rea\u00e7\u00f5es de Jenny, que ali era um celeiro de dor. E que precisava ser varrido da face da terra.<\/p>\n<p>Encerramos com a \u00faltima dor. Ao saber de Jenny que aquele menino era seu filho, veio \u00e0 mente de Forrest a primeira pergunta. Ele \u00e9 inteligente? Era. E muito! Acho que todos n\u00f3s, ap\u00f3s assistirmos ao filme, ter\u00edamos gostado da id\u00e9ia de termos sido filhos de Forrest. Pelo menos, na esteira dos nossos preconceitos, ter\u00edamos a oportunidade de destruir dentro de n\u00f3s a ideia sagrada de que temos que ser seres essencialmente superiores. Esta \u00e9 a ideia \u201cburra\u201d, a de que, se n\u00e3o somos superiores, n\u00e3o somos seres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 filmes que podemos eleger como nossos fi\u00e9is companheiros de cabeceira. V\u00e3o estar ali, \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o, para aqueles momentos em que estamos inquietos, nost\u00e1lgicos ou chateados com alguma contrariedade. Ou apenas buscando uma divers\u00e3o segura. Prazerosa. 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