{"id":1248,"date":"2020-06-04T13:39:13","date_gmt":"2020-06-04T16:39:13","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1248"},"modified":"2021-01-20T12:13:08","modified_gmt":"2021-01-20T15:13:08","slug":"abajur-lilas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/abajur-lilas\/","title":{"rendered":"Abajur Lil\u00e1s"},"content":{"rendered":"<p><em>Abajur Lil\u00e1s<\/em>\u00a0faz parte das consideradas quatro principais obras da dramaturgia de Pl\u00ednio Marcos. A \u00faltima a ser escrita, em 1969, quando o autor completava apenas 34 anos. No entanto, esta obra, diferente das demais, n\u00e3o conseguiria estrear, censurada quando os ensaios estavam j\u00e1 em sua fase final. A despeito de v\u00e1rias tentativas,\u00a0<em>Abajur Lil\u00e1s<\/em>\u00a0s\u00f3 viria a ser liberada para montagem 11 anos depois, em 1980. O texto se tornaria famoso mesmo sem ter-se transformado em espet\u00e1culo. Em diversas ocasi\u00f5es a classe cultural se uniria na defesa do direito de Pl\u00ednio Marcos de montar seus textos. Foi com muita luta que se conseguiu a libera\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Navalha na Carne<\/em>, em 1967. Mesmo assim, seria liberado com uma curiosa exig\u00eancia. Que o espet\u00e1culo fosse apresentado \u00e0 meia-noite. Os constantes problemas com a censura gerariam na vida pessoal de Pl\u00ednio Marcos alguns transtornos financeiros. Afinal, ele tinha na arte seu ganha-p\u00e3o, o que o obrigou a buscar alternativas de ganho na televis\u00e3o e como colaborador em jornais e revistas. Participaria, no papel de Vit\u00f3rio, em 1968, da ic\u00f4nica telenovela da Tupi,\u00a0<em>Beto Rockfeller<\/em>, de imenso sucesso. E vendia seus livros em bares e teatros, intitulando-se, sem cerim\u00f4nia, camel\u00f4, ali\u00e1s, profiss\u00e3o que exerceria em v\u00e1rios momentos de sua vida. Este \u00e9 o homem irreverente, de criatividade \u00edmpar, que nos revelou uma realidade subterr\u00e2nea da qual s\u00f3 passamos a tomar conhecimento atrav\u00e9s das p\u00e1ginas de sua literatura. Pl\u00ednio Marcos era um \u00edcone cultural, chamava aten\u00e7\u00e3o pelo seu estilo de vida, e mais que isso, era aplaudido pela fant\u00e1stica for\u00e7a humana que emergia de seus di\u00e1logos calcados em uma economia de palavras sem precedentes, marco inovador da nossa dramaturgia. \u201cPerfeita economia dram\u00e1tica\u201d, escreveria B\u00e1rbara Heliodora. S\u00f3 para caracterizar sua import\u00e2ncia intelectual, cuja sabedoria estava em viver a vida de forma independente, portanto cr\u00edtica, assim diria Pl\u00ednio Marcos, ao se negar a receber o pr\u00eamio Mambembe, em 1985, por seu texto teatral\u00a0<em>Madame Blavatsky: \u201cArtista n\u00e3o \u00e9 cavalo de corrida que tem que chegar em primeiro lugar\u201d<\/em>. Eis o nobre legado do verdadeiro artista.<\/p>\n<p>Voltando ao texto\u00a0<em>Abajur Lil\u00e1s<\/em>, o cafet\u00e3o Giro \u00e9 dono do moc\u00f3 onde as prostitutas C\u00e9lia e Dilma recebem seus fregueses. C\u00e9lia \u00e9 irreverente e revoltada. Dilma se submete \u00e0s humilha\u00e7\u00f5es por causa do filho, sua raz\u00e3o de viver. Giro, com inusitado faro capitalista, v\u00ea o ganho como algo que se baseia na produtividade, portanto quanto mais programas as prostitutas fizerem maiores ser\u00e3o os lucros. Este \u00e9 o embate subjetivo do texto. O conflito se escancara quando C\u00e9lia quebra de prop\u00f3sito o abajur lil\u00e1s, levando o sovina Giro \u00e0 loucura. Com a chegada de mais uma prostituta, Leninha, o desequil\u00edbrio se acentua, elevando o tom e encaminhando a trama para o seu desfecho.<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>Abajur Lil\u00e1s<\/em>, mais do que em outros textos seus, Pl\u00ednio Marcos escancara a pr\u00e1tica da cafetinagem, a comercializa\u00e7\u00e3o do corpo alheio subjugado a maus-tratos e amea\u00e7as. Se no mundo civilizado a explora\u00e7\u00e3o do outro \u00e9 exercida de forma camuflada, no submundo de Pl\u00ednio Marcos ela se escancara a c\u00e9u aberto, tipificada na rela\u00e7\u00e3o em que pisar no corpo do outro \u00e9 a \u00fanica forma de enxergar o horizonte. E Pl\u00ednio Marcos deixa clara esta condi\u00e7\u00e3o em\u00a0<em>Abajur Lil\u00e1s<\/em>, quando Giro, o perverso cafet\u00e3o, chancela sua posi\u00e7\u00e3o de explorador, enquanto Dilma denuncia sua condi\u00e7\u00e3o de explorada. Diz Giro.\u00a0<em>\u201cA gente \u00e9 s\u00f3cio, porra!\u201d<\/em>. Dilma replica.\u00a0<em>\u201cEu entro com o batente e tu pega a grana\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Vale anotar que Pl\u00ednio Marcos repete em\u00a0<em>Abajur Lil\u00e1s<\/em>, com algumas diferen\u00e7as, a mesma estrutura formal de\u00a0<em>Dois Perdidos numa Noite Suja.<\/em>\u00a0Aqui ele divide o texto teatral em dois atos e cinco quadros, sendo tr\u00eas quadros para o primeiro ato e dois quadros para o segundo. E logo no primeiro quadro Pl\u00ednio Marcos j\u00e1 desenha o embate entre Giro e Dilma, em que ficam estabelecidas as rela\u00e7\u00f5es de poder entre o cafet\u00e3o e a prostituta. O produto destas rela\u00e7\u00f5es \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o materializada em humilha\u00e7\u00f5es e agress\u00f5es f\u00edsicas e morais.<\/p>\n<p>Sabemos que as din\u00e2micas de conviv\u00eancia social perpassam por regras morais r\u00edgidas, cristalizadas ao longo do tempo. Mas como falar de moral em um cafofo de prostitui\u00e7\u00e3o? Quando olhamos para um bordel, somos tomados pela certeza de que ali n\u00e3o h\u00e1 regras, tudo \u00e9 permitido, a moral \u00e9 apenas um quadro sem rosto esquecido no alto de uma parede. A literatura de Pl\u00ednio Marcos, e\u00a0<em>Abajur Lil\u00e1s\u00a0<\/em>em particular, desmentem esta vis\u00e3o. H\u00e1 regras, h\u00e1 c\u00f3digos, sim. Que ser\u00e3o fontes de motiva\u00e7\u00e3o para atitudes e decis\u00f5es das personagens. Veja o que diz Dilma a respeito de sua profiss\u00e3o. \u201c<em>Sou mulher da vida, mas tenho moral. Comigo \u00e9 aqui. Se o fregu\u00eas quiser outros babados, mando falar com tu mesmo, que \u00e9 bicha\u201d<\/em>. \u00c9 prostituta, mas s\u00f3 aceita a c\u00f3pula dita normal, o papai e mam\u00e3e. \u00c9 o limite. N\u00e3o podemos esquecer que um bordel \u00e9 uma microestrutura social, portanto, cabe ali sim a r\u00e9gua moral que medir\u00e1 quem s\u00e3o os melhores e quem s\u00e3o os piores. Exceto para Giro, para quem a \u00fanica coisa que n\u00e3o precisa de moral \u00e9 o dinheiro.<\/p>\n<p>Em dado momento, chegando o embate entre Giro e Dilma a seu limite, Pl\u00ednio Marcos sente necessidade de fazer entrar C\u00e9lia, a outra prostituta, companheira de quarto de Dilma. O p\u00f3lo do confronto se desloca momentaneamente para C\u00e9lia e Giro, em que C\u00e9lia, esgrimindo uma habilidade verbal poderosa, leva Giro, descontrolado, ao enfrentamento f\u00edsico. Dominada por ele, C\u00e9lia \u00e9 empurrada para fora do quarto. Pl\u00ednio Marcos retira C\u00e9lia de cena s\u00f3 o tempo de finalizar o embate entre Dilma e Giro, onde o filho de Dilma continua sendo o ponto central da discuss\u00e3o. Esta \u00e9 a estrat\u00e9gia covarde de que se vale Giro para fragilizar sua presa. Giro, ao se retirar, deixa Dilma a s\u00f3s, embalando sua tristeza na saudade do filho. O primeiro quadro c\u00eanico, com seus conflitos, est\u00e1 esbo\u00e7ado. Mas ainda falta entrar em cena o conflito principal.<\/p>\n<p>No segundo quadro, Pl\u00ednio Marcos mais uma vez joga suas personagens em situa\u00e7\u00e3o emocional extrema. Ao assim fazer, ele for\u00e7a as personagens \u00e0 a\u00e7\u00e3o bruta, \u00fanica express\u00e3o de resist\u00eancia para almas t\u00e3o deformadas na sua ess\u00eancia humana. E Pl\u00ednio Marcos escolhe C\u00e9lia como a mensageira da desgra\u00e7a. \u00c9 o que ela diz a Dilma, referindo-se a Giro, o cafet\u00e3o veado, desumanizado pelo dinheiro. \u201c<em>Tu tem medo? Se \u00e9 isso, deixa pra mim. Fa\u00e7o a bicha com alegria. Antes do veado ciscar, dou-lhe um teco na lata. Mando o puto pro belel\u00e9u. S\u00f3 tu entrar com a grana, o resto \u00e9 meu\u201d<\/em>. O crime \u00e9 um subproduto do desespero quando, em nome da liberta\u00e7\u00e3o, perde-se de vista sua tr\u00e1gica consequ\u00eancia. E o rev\u00f3lver, na literatura de Pl\u00ednio Marcos, tem esta fun\u00e7\u00e3o. Age como a alternativa dispon\u00edvel na esperan\u00e7a de se fazer gente. Mas como comprar a \u201cdraga\u201d se C\u00e9lia gasta todo seu dinheiro com bebida? Pois \u00e9. Ao oferecer bebida a C\u00e9lia, Pl\u00ednio Marcos a coloca \u00e0 deriva, impotente. Em contrapartida, ao dar um filho a Dilma, Pl\u00ednio Marcos a acovarda. Eis a triste constata\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda.<\/p>\n<p>Ainda neste quadro, Pl\u00ednio Marcos precisa ir al\u00e9m, ele precisa definir o ponto de tens\u00e3o que ir\u00e1 provocar a explos\u00e3o da trag\u00e9dia. Primeiro introduz um conflito lateral, entre C\u00e9lia e Dilma, para estabelecer o contraponto de personalidades. Traz o escarro de sangue na pia como ponto de choque entre as duas. Uma e outra se acusam de estar doente, e partem para as agress\u00f5es verbais, interrompidas pela entrada passageira de Giro, que logo se retira, ap\u00f3s dar seu recado de opress\u00e3o. Um corte c\u00eanico providencial, pois Giro, ao se retirar, deixa o campo aberto para que o embate entre a revoltada C\u00e9lia e a ap\u00e1tica Dilma prepare a entrada de algo que \u00e9 muito simb\u00f3lico na dramaturgia de Pl\u00ednio Marcos. A tens\u00e3o se volta para o objeto, concretizado, neste caso, no abajur lil\u00e1s. C\u00e9lia joga o abajur no ch\u00e3o, declarando guerra a Giro. O conflito central, finalizando o segundo quadro, enfim entra em cena.<\/p>\n<p>No terceiro quadro, h\u00e1 a amplifica\u00e7\u00e3o da zona de conflito. \u00c9 o quadro mais simples do ponto de vista da constru\u00e7\u00e3o dramat\u00fargica. Mas essencial na sua fun\u00e7\u00e3o de dar f\u00f4lego extra \u00e0 narrativa, caracterizando-se como o ponto de futuro desequil\u00edbrio. Pl\u00ednio introduz mais uma personagem, Leninha. \u00c9 puta nova, rec\u00e9m-chegada, descolada, que ao revelar a Giro seu gosto por leitura, este diz.\u00a0<em>\u201cQue mania besta essa tua\u201d<\/em>. \u00d3bvio que Leninha n\u00e3o l\u00ea Machado de Assis. L\u00ea a revista Capricho. E a g\u00eanese do conflito \u00e9 o abajur, agora quebrado. Sem abajur, afinal, n\u00e3o pode haver leitura. Leninha encurrala Giro ao exigir um novo abajur. Diz ela.\u00a0<em>\u201cJ\u00e1 vi com quem vou lidar. Com um enrolador. Prometeu de araque\u201d<\/em>. Giro estrategicamente se encolhe. Sabe que ter\u00e1 muito trabalho para descobrir quem quebrou seu abajur. \u00c9 com este objetivo, descobrir o culpado, que se iniciar\u00e1 o segundo ato.<\/p>\n<p>O segundo ato, mais curto, \u00e9 composto apenas de dois quadros, quarto e quinto. O quarto quadro j\u00e1 inicia com as tr\u00eas mulheres sentadas, em ritmo inquisit\u00f3rio, diante das quais Giro se entrega \u00e0s suas mais terr\u00edveis tergiversa\u00e7\u00f5es sobre as injusti\u00e7as de que \u00e9 v\u00edtima, injusti\u00e7a esta personalizada no abajur quebrado. Com esta manobra c\u00eanica, o autor j\u00e1 nos coloca no olho do furac\u00e3o. E com um desafio. O espectador sabe quem quebrou o abajur.<\/p>\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o da terceira personagem, Leninha, tem a justa finalidade de quebrar o r\u00edgido c\u00f3digo de honra que reina no quarto. \u00c9 o desafio proposto por Giro. Prefere manipular tr\u00eas, sabendo que uma delas caguetar\u00e1. Mas sua inten\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m. Produzir a desuni\u00e3o entre as putas. Desunidas, cada uma, a seu modo, se submeter\u00e1 a ele. Esta \u00e9 a ess\u00eancia do controle que Pl\u00ednio Marcos t\u00e3o bem arquiteta. E na busca desse objetivo, Pl\u00ednio Marcos, no dom\u00ednio da escrita, prepara o embate j\u00e1 sabendo qual ser\u00e1 o desfecho. Mas vai devagar, sob o risco de perder o f\u00f4lego antes da hora. Para tanto, primeiro introduz a Dilma e C\u00e9lia a terceira prostituta, Leninha. Diante da presen\u00e7a da novata, as duas reagem. E C\u00e9lia decide ir embora. Tudo bem, Giro concorda, mas joga as cartas sobre a mesa. Diz a C\u00e9lia.\u00a0<em>\u201cS\u00f3 que antes paga o que me deve\u201d<\/em>.\u00a0<em>\u201cEu te devo porra nenhuma\u201d<\/em>. \u201c<em>E o abajur que tu quebrou?\u201d<\/em>\u00a0Esta \u00e9 uma das atitudes c\u00eanicas de que Pl\u00ednio Marcos mais gosta de se valer. Colocar suas personagens em becos sem sa\u00edda. Pl\u00ednio Marcos, num gesto cruel, n\u00e3o deixa suas personagens fugirem para a vida.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o central, que gira em torno do abajur quebrado, \u00e9 marotamente resolvida por Giro. Para tanto, o objetivo \u00e9 oferecer doses cavalares de press\u00e3o emocional \u00e0s suas v\u00edtimas. Afinal, sem o f\u00e1cil recurso do alcaguete, Giro n\u00e3o ter\u00e1 como saber qual das duas, Dilma ou C\u00e9lia, quebrara o abajur. Cruelmente prepara o terreno. Vai descontar de ambas, um abajur para cada uma. Questionado, argumenta.\u00a0<em>\u201cClaro, n\u00e3o sei quem foi. Desconto um de cada\u201d<\/em>. Evidente, eis a estrat\u00e9gia. Incitar o ato de caguetar. Portanto, desunir, desarmar, levar a tortura emocional ao limite. Algu\u00e9m vai ceder. Eis o que diz C\u00e9lia sobre a imund\u00edcie moral do cagueta.\u00a0<em>\u201cSe tem uma coisa que me d\u00e1 nojo \u00e9 cagueta. Tenho mais nojo de cagueta do que de veado\u201d<\/em>. Ao assim resolver o impasse da quebra do abajur, atribuindo financeiramente a culpa \u00e0s duas, Pl\u00ednio Marcos d\u00e1 a solu\u00e7\u00e3o para o conflito central, deixando o desfecho pairando no ar, sem a concretude da explos\u00e3o teatral. Mas eis que entra, no final do quarto quadro, o principal golpe c\u00eanico desferido pelo autor.<\/p>\n<p>Ao fim deste quarto quadro, Pl\u00ednio Marcos retira todas as personagens de cena, ficando, eis o gancho, a cargo de Osvaldo, o brutamontes assexuado, a tarefa de trocar o len\u00e7ol da cama, exig\u00eancia da topetuda Leninha. Ao voltar para a cena vazia, com o len\u00e7ol, Osvaldo destr\u00f3i o quarto. Sem nenhuma motiva\u00e7\u00e3o sen\u00e3o arrancar o \u00faltimo grito dram\u00e1tico. Pl\u00ednio Marcos parece correr um s\u00e9rio risco. O novo impulso dram\u00e1tico se d\u00e1 por conta da narrativa, atrav\u00e9s da rubrica, n\u00e3o do drama, atrav\u00e9s do di\u00e1logo. Mais que um risco, uma ousadia. Sem d\u00favida, diante do quarto todo quebrado, as atitudes de Giro ir\u00e3o \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, e assim Pl\u00ednio Marcos resolve o impasse estrutural de ter solucionado, ainda no quarto quadro, a quebra do abajur. Com o gesto desleal de Osvaldo, reacende, agora na fogueira do inferno, o conflito de poderes.<\/p>\n<p>Mas antes de partirmos para o quinto e \u00faltimo quadro, cabe fazer uma observa\u00e7\u00e3o sobre o embate entre as tr\u00eas mulheres, deixadas a s\u00f3s em cena, ap\u00f3s a solu\u00e7\u00e3o do conflito da quebra do abajur, e a consequente retirada de Giro e Osvaldo. A press\u00e3o de C\u00e9lia contra Giro eleva o nervosismo de Dilma e tira Leninha da neutralidade. C\u00e9lia se torna uma amea\u00e7a incontorn\u00e1vel. \u00c9 a \u00faltima esperan\u00e7a de reverterem a situa\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o houver uma sa\u00edda, a desgra\u00e7a estar\u00e1 plantada. Vemo-nos, neste embate final entre as tr\u00eas mulheres, numa reuni\u00e3o de sindicato, em disputa acalorada entre os que defendem a greve contra o patr\u00e3o explorador e os que s\u00e3o contra a greve pelo medo de perder o emprego. Eis o fabuloso alcance social do texto, refletindo a consci\u00eancia social do autor. \u00c9 trazendo este caldeir\u00e3o revolucion\u00e1rio, a pretexto de os di\u00e1logos de Pl\u00ednio Marcos proferirem muita g\u00edria e palavr\u00e3o, al\u00e9m de insinua\u00e7\u00e3o sexual, que\u00a0<em>Abajur Lil\u00e1s<\/em>\u00a0viria a ter tantas dificuldades com a censura em plena vig\u00eancia do AI-5. E a cena final, acima j\u00e1 mencionada, descrita em rubrica, \u00e9 estupidamente ic\u00f4nica, quando o capanga Osvaldo, ele pr\u00f3prio, destr\u00f3i o quarto, semeando sua possibilidade de praticar, no futuro, a maldade que lhe \u00e9 inerente. Enfim, a atitude de Osvaldo destr\u00f3i toda possibilidade de liberta\u00e7\u00e3o. \u00c9 a m\u00e3o pesada e injusta do dominador.<\/p>\n<p>O quinto quadro se inicia, como \u00e9 exigido, em alta voltagem dram\u00e1tica. As tr\u00eas mulheres est\u00e3o agora amarradas, sentadas cada uma em sua cadeira, diante delas um Giro disposto a arrancar a todo custo a confiss\u00e3o ou a dela\u00e7\u00e3o. Eis que Pl\u00ednio Marcos, trazendo os terr\u00edveis ecos da ditadura militar, em pleno ano de chumbo de 1969, nos coloca diante dos horrores da tortura. A primeira v\u00edtima \u00e9 Dilma. Mas, para exaspero de Giro, Dilma se mant\u00e9m inquebrant\u00e1vel. A quest\u00e3o agora n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 saber quem quebrou o abajur, e, sim, o quarto. Submetida \u00e0 tortura do cigarro e do alicate, Dilma desmaia. Trazendo mais uma vez para a cena uma de suas marcas liter\u00e1rias, atribuindo sentimentos pr\u00f3prios a outrem como estrat\u00e9gia de manipula\u00e7\u00e3o e conquista de poder, Pl\u00ednio Marcos coloca a sombra de Osvaldo por tr\u00e1s de toda esta infame trag\u00e9dia. \u00c0 frente do horror est\u00e1 sempre Giro, vestindo a casaca surrada do injusti\u00e7ado, quando repete suas ic\u00f4nicas e mascaradas lamenta\u00e7\u00f5es, colocando-se no altar da bondade. Diz.\u00a0<em>\u201cDei amizade. Recebi coices\u201d<\/em>. Evidente, na sua covardia, vira-se para a mais vulner\u00e1vel, Dilma. Culpa-a, n\u00e3o por ter quebrado o abajur, mas por n\u00e3o ter delatado a culpada. Deu amizade, recebeu coice, esta \u00e9 a camada subjetiva que justificar\u00e1 seu horrendo ato. Precisa, antes de tudo, da cagueta. Esta \u00e9 a motiva\u00e7\u00e3o destrutiva do c\u00f3digo de honra, atitude de nobreza que n\u00e3o pode existir em seus dom\u00ednios.<\/p>\n<p>Mas o incans\u00e1vel Pl\u00ednio Marcos continua a manipular os polos de tens\u00e3o. Rearranja o conflito, voltando-se agora para Leninha, o elo fr\u00e1gil, rec\u00e9m-chegada ao cafofo, portanto, sem ter tido o tempo de construir uma rela\u00e7\u00e3o de lealdade, diga-se, de classe, com as outras duas companheiras de quarto. Ao torturar primeiro Dilma, Pl\u00ednio Marcos antecipa em Leninha a expectativa da dor, fragilizando-a. O pr\u00f3ximo passo \u00e9 apresentar a Leninha o instrumento fatal de tortura, o famigerado pau de arara. Diante deste instrumento, Leninha esmorece e delata, quebrando assim o rigoroso c\u00f3digo de honra do submundo. Est\u00e1, desta feita, cenicamente arranjado o encaminhamento para o desfecho. A revolucion\u00e1ria est\u00e1 delatada.<\/p>\n<p>Interessante atentar para o discurso farisaico de Giro, um empres\u00e1rio do sexo que se coloca paternalmente diante de suas protegidas que ele explora, subtraindo-lhes despudoradamente a autoestima. Mesmo as que reagem n\u00e3o t\u00eam certeza da vilania do discurso que ouvem. H\u00e1 na ret\u00f3rica do algoz uma sombra escura que n\u00e3o deixa ver a verdadeira face do engodo. A inexist\u00eancia do sujeito para quem Giro direciona seu discurso d\u00e1 a ele a santidade do protetor injusti\u00e7ado. Esta cruel dimens\u00e3o no significado das rela\u00e7\u00f5es humanas \u00e9 o que de melhor Pl\u00ednio Marcos sabe manusear com sua habilidade de autor. Ele revela o ser humano n\u00e3o para o outro, mas para si mesmo. Ali, no cafofo, cada uma das mulheres tem consci\u00eancia de sua miser\u00e1vel condi\u00e7\u00e3o. No entanto, ao ganharem esta consci\u00eancia tornam-se vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Neste diapas\u00e3o, a crueldade do desfecho da obra n\u00e3o se at\u00e9m \u00e0 a\u00e7\u00e3o. Vai al\u00e9m, no discurso final de Giro, antes de ele sair de cena. \u00c9 como se ele trancasse, com uma grossa parede de concreto, qualquer possibilidade de reden\u00e7\u00e3o. O n\u00e3o existir \u00e9 que possibilita a raz\u00e3o desumana de ser. N\u00e3o h\u00e1 alma. H\u00e1 s\u00f3 o corpo. E no corpo, o lucro.<\/p>\n<p>Em suma. Em que pese a exuber\u00e2ncia de\u00a0<em>Dois Perdidos numa Noite Suja<\/em>, \u00e9 em\u00a0<em>Abajur Lil\u00e1s<\/em>\u00a0que Pl\u00ednio Marcos encontra sua mais verdadeira dramaturgia, e isto se deve a ter ele se conectado de forma ampla e consciente com o mundo que o cercava. Talvez seja nesta obra que Pl\u00ednio Marcos tenha-se mostrado por completo, o Pl\u00ednio das docas de Santos e o Pl\u00ednio dos por\u00f5es da ditadura. Deste encontro de realidades formou-se esta bela obra prima. A suntuosa identifica\u00e7\u00e3o do artista com o seu tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abajur Lil\u00e1s\u00a0faz parte das consideradas quatro principais obras da dramaturgia de Pl\u00ednio Marcos. A \u00faltima a ser escrita, em 1969, quando o autor completava apenas 34 anos. No entanto, esta obra, diferente das demais, n\u00e3o conseguiria estrear, censurada quando os ensaios estavam j\u00e1 em sua fase final. 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