{"id":1252,"date":"2020-06-04T13:38:14","date_gmt":"2020-06-04T16:38:14","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1252"},"modified":"2021-01-20T12:12:39","modified_gmt":"2021-01-20T15:12:39","slug":"barrela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/barrela\/","title":{"rendered":"Barrela"},"content":{"rendered":"<p>Em rela\u00e7\u00e3o a seu primeiro texto teatral,\u00a0<em>Barrela<\/em>, 1958, Pl\u00ednio Marcos escreveria:\u00a0<em>\u201cJuro por essa luz que me ilumina que nunca havia me ocorrido a ideia de escrever uma pe\u00e7a\u201d<\/em>. Pl\u00ednio Marcos diz que sequer conhecia a grande dramaturgia nacional, tampouco a universal. Portanto, jamais, at\u00e9 ent\u00e3o, passara-lhe pela cabe\u00e7a ser dramaturgo. No entanto, impulsionado por um fato real, lido em jornal, sobre os crimes cometidos por um rapaz que se vingava dos malandros que o haviam currado quando estivera na pris\u00e3o, Pl\u00ednio Marcos, de tal modo impressionado com o ocorrido, viu-se na necessidade urgente de escrever algo a respeito. Despejaria no papel, em forma de di\u00e1logos, tudo o que sentia, com a visceralidade de quem se colocava no lugar do seviciado. Mal sabia ele que, ao optar pela forma dram\u00e1tica de escrita, estaria gestando sua primeira obra prima teatral. Ao mostrar o texto para Patr\u00edcia Galv\u00e3o, aquela mesma, Pagu, a intelectual que se tornara o s\u00edmbolo do movimento modernista de 1922, e que \u00e0 \u00e9poca, 1958, morava em Santos, o jovem Pl\u00ednio Marcos receberia dela o elogio de que seus di\u00e1logos eram t\u00e3o vigorosos quanto os de Nelson Rodrigues. Com o incentivo de Pagu,\u00a0<em>Barrela<\/em>\u00a0estrearia em 1\u00ba de novembro de 1959, no Centro Portugu\u00eas de Santos, por uma noite apenas, uma vez que o texto j\u00e1 havia sido previamente censurado. Do inebriante sucesso da estreia lembra-se o autor. \u201c<em>Ainda trago comigo os sons dos aplausos daquela noite\u201d<\/em>. Sequer poderia imaginar o que o esperava na d\u00e9cada seguinte, com suas obras primas que sacudiriam o cen\u00e1rio cultural, levando seus inovadores textos a serem esmagados, por anos a fio, pelos coturnos da ditadura militar. Como rea\u00e7\u00e3o ao sucesso daquela noite de 1959, Pl\u00ednio Marcos se viu em meio a um tiroteio de cal\u00fanias, sendo um dos r\u00f3tulos preferidos cham\u00e1-lo de comunista. Vale lembrar que estes chav\u00f5es autorit\u00e1rios pertenciam ao ano de 1959, bem antes de 1964 \u2014 ano em que se instaurou no Brasil a ditadura militar \u2014, o que nos leva a supor que o ovo da serpente demoraria um bom tempo para ser chocado. Pl\u00ednio Marcos ainda tentou levar\u00a0<em>Barrela<\/em>\u00a0para os palcos em 1968, mas o texto seria censurado ap\u00f3s dois meses de ensaio. A personalidade independente de Pl\u00ednio Marcos, protegida por sua irreverente persist\u00eancia, fez com que ele n\u00e3o se dobrasse ao destino. E ao assim proceder, fez-se o artista genial.<\/p>\n<p><em>Barrela<\/em>\u00a0comp\u00f5e-se de uma \u00fanica cena, sem interrup\u00e7\u00e3o de tempo e espa\u00e7o. A trama se passa em uma cela de pris\u00e3o, onde dormem seis presos, Tirica, Portuga, Bahia, Fuma\u00e7a, Louco e Bereco, quando ent\u00e3o Portuga, j\u00e1 madrugada, assustado por algum pesadelo, come\u00e7a a gritar e acorda todo mundo. A partir deste fato corriqueiro, a trama vai se deixando levar por uma estrutura muito bem delineada por Pl\u00ednio Marcos, afinal, ele sabia exatamente o que queria dizer e aonde chegar. Portanto, sustentado por uma evolu\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica veross\u00edmil, o encaminhamento feliz da trama segue firme rumo a seu desfecho, quando chega a hora de entrar na cela o novo preso, o Garoto, o principal alvo dram\u00e1tico do autor. Nada estava programado para acontecer naquela min\u00fascula cela de pris\u00e3o, at\u00e9 que a caneta fren\u00e9tica de Pl\u00ednio Marcos se utilizasse de um mote poderos\u00edssimo, a sexualidade, para dar vaz\u00e3o aos instintos mais brutais do ser humano. Pl\u00ednio Marcos, com sua natural habilidade, conseguiu chegar aonde pretendia. Seria\u00a0<em>Barrela<\/em>\u00a0seu inesperado encontro com o teatro.<\/p>\n<p>Vale lembrar, antes de entrarmos propriamente na an\u00e1lise do texto teatral, que quando Pl\u00ednio Marcos declarara ter ele sentido incontida necessidade de escrever sobre o fato real ocorrido com o rapaz, e que tanto o impressionara, a compuls\u00e3o pela escrita o levaria diretamente para o teatro, como \u00fanica forma art\u00edstica plaus\u00edvel para se chegar \u00e0 catarse da dor. Ele precisava da for\u00e7a mim\u00e9tica do drama, posto que a realidade estava ali, urgindo para ser contada. Isto prova que todo conte\u00fado precisa da exata forma para se transformar em arte, e este \u00e9 um dos mist\u00e9rios que envolve o of\u00edcio do artista. Eis uma condi\u00e7\u00e3o que a arte imp\u00f5e e que merecia de especialistas profundas especula\u00e7\u00f5es. O processo art\u00edstico, ao ser espont\u00e2neo, nasce com a ben\u00e7\u00e3o da beleza e da verdade.<\/p>\n<p>E ainda complementando a an\u00e1lise acima, cabe lembrar que muitos anos depois Pl\u00ednio Marcos retomaria a trag\u00e9dia da curra, que \u00e9 quando todos estupram um, ao escrever, talvez com o esp\u00edrito j\u00e1 pacificado, e se valendo agora da narrativa, portanto, o romance, para escrever\u00a0<em>Quer\u00f4, Uma Reportagem Maldita<\/em>. Nesta premiada obra, ele revisita de forma mais demorada e expl\u00edcita a dor da curra sofrida pelo rapaz anos atr\u00e1s. \u00c9 percept\u00edvel que a demanda interna do artista era outra e, portanto, outra seria a forma a ser utilizada.<\/p>\n<p>A principal habilidade de Pl\u00ednio Marcos, e que concorreu para o belo resultado final da obra, foi ter o autor paci\u00eancia para introduzir a tem\u00e1tica principal da narrativa, a barrela (g\u00edria para curra). Antes, tomando mais de dois ter\u00e7os do texto, o autor trabalha um outro conflito, tamb\u00e9m de base sexual, e que logo se saberia, fora fruto tamb\u00e9m de uma curra. Este fato, acorrido no passado, prepara a entrada do grande e doloroso evento.<\/p>\n<p>Portuga traz \u00e0 tona o abuso sofrido por Tirica, na inf\u00e2ncia, no reformat\u00f3rio. Em torno da raivosa disputa entre Tirica e Portuga circulam Fuma\u00e7a e Bahia, cujas fun\u00e7\u00f5es na estrutura s\u00e3o, como se diz na g\u00edria, botar lenha na fogueira. E fazendo o coro de uma voz s\u00f3, mas totalmente eficiente, o Louco, que nos momentos de maior tens\u00e3o, incendiando a libido, apenas repete\u00a0<em>\u201cenraba, enraba!\u201d<\/em>. E do outro lado Bereco, o chefe, tentando frear a tens\u00e3o. Ao estabelecer estas din\u00e2micas, Pl\u00ednio Marcos n\u00e3o vai precisar recorrer a artimanhas de carpintaria dram\u00e1tica para solucionar o desfecho. Quando o garoto entrar na cela, a adrenalina e a testosterona estar\u00e3o acumuladas no limite da agressividade, bastando apenas dar encaminhamento ao ato m\u00e1ximo. Esta \u00e9 a estrutura eficiente adotada por Pl\u00ednio Marcos em seu texto teatral.<\/p>\n<p>A luta intestinal, por envolver v\u00e1rios contendores, \u00e9 desenhada por uma estrutura de poder necessariamente fr\u00e1gil, e ao mesmo tempo \u00e1gil, posto que muda de intensidade e de polos o tempo todo, deixando pelo caminho o rastro previs\u00edvel da trag\u00e9dia. Pl\u00ednio Marcos sabidamente tinha plena consci\u00eancia dessas nuances nas disputas pela supremacia do mais forte e do mais esperto, explicitamente t\u00edpicas nos meios da malandragem, e que o autor t\u00e3o bem conhecia. Tanto que o texto se define pela seguinte fala da personagem Bahia, que se posiciona num dos lados da contenda. Assim diz Bahia a Tirica quando este jura Portuga de morte por ter colocado em cheque sua sexualidade:\u00a0<em>\u201cV\u00ea l\u00e1. Se n\u00e3o<\/em><em>\u00a0confirma, se dana. N\u00e3o vai fazer nome de homem nunca mais\u201d<\/em>. Est\u00e1 esculpida nesta frase a marca da reviravolta na trama. Estava decidido. Para recuperar sua imagem de macho, Tirica teria que matar Portuga. E Pl\u00ednio Marcos nos avisa desta sina pouco adiante, pela voz de amea\u00e7a de Tirica quando Portuga diz pretender no dia seguinte mudar de cela para se livrar das amea\u00e7as do outro. Diz Tirica, anunciando os fatos.\u00a0<em>\u201cAinda vai correr muita \u00e1gua debaixo da ponte, antes de chegar amanh\u00e3\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Ao dizer a frase acima, \u00e9 introduzido na cena teatral o objeto que corporificar\u00e1 a amea\u00e7a, projetada na realidade objetiva, n\u00e3o na introspec\u00e7\u00e3o da alma. A alma apenas \u00e9 avisada do que vai acontecer, como se ela, com sua hist\u00f3ria carregada de mis\u00e9rias e dores, estivesse apenas \u00e0 espera de ser vingada. A alma transfere para o corpo toda a responsabilidade do crime e esta atitude \u00e9 uma marca na dramaturgia de Pl\u00ednio Marcos. \u00c9 o cabo da colher que Tirica, mordiscando sua vingan\u00e7a, vai afiando no cimento da cela, at\u00e9 transform\u00e1-lo em estilete. O crime se anuncia.\u00a0<em>\u201cO ferro j\u00e1 est\u00e1 quase afiado\u201d<\/em>, diz Tirica a Portuga. Veja que Pl\u00ednio Marcos desloca lentamente a cena para seu limite. Deixa tudo bem armado, mas pedindo um novo f\u00f4lego dram\u00e1tico, sem o qual o texto cairia em triste impasse. Mas Pl\u00ednio Marcos, mesmo que intuitivamente, previa este impasse. Ali\u00e1s, precisava dele. Ent\u00e3o, como que um\u00a0<em>deus ex machina<\/em>, sob o ranger do ferrolho, entra o Garoto.<\/p>\n<p>Em suma. Pl\u00ednio Marcos, moldado pelo sucesso inesperado, que o fez levar ao extremo a sua arte, angariando o respeito e a admira\u00e7\u00e3o de todos, cooptando em torno de si a classe art\u00edstica na defesa de seus textos censurados, acabou desenvolvendo no homem artista uma certa autopercep\u00e7\u00e3o de genialidade e sentido de seu fazer art\u00edstico, inclusive se colocando numa posi\u00e7\u00e3o de superioridade, escapulindo \u00e0s vezes uma vaidade despropositada. Este era Pl\u00ednio Marcos, vivendo como uma personagem dentro da sua arte. Confundia-se nela como inspira\u00e7\u00e3o de vida. Quando perguntado pelo amigo Nelson Rodrigues por que se achava o melhor autor de teatro do Brasil, o espirituoso dramaturgo santista n\u00e3o deixou por menos. Assim respondeu a Nelson Rodrigues, numa atitude de pretensa espontaneidade.\u00a0<em>\u201cPor que eu copio os seus defeitos\u201d<\/em>. Sim, para construir a sua arte, Pl\u00ednio Marcos n\u00e3o fez outra coisa sen\u00e3o copiar defeitos. Trazer \u00e0 luz as imperfei\u00e7\u00f5es. Revelar o que permanecia oculto.\u00a0<em>Barrela<\/em>\u00a0seria s\u00f3 o come\u00e7o da constru\u00e7\u00e3o de sua genial dramaturgia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em rela\u00e7\u00e3o a seu primeiro texto teatral,\u00a0Barrela, 1958, Pl\u00ednio Marcos escreveria:\u00a0\u201cJuro por essa luz que me ilumina que nunca havia me ocorrido a ideia de escrever uma pe\u00e7a\u201d. Pl\u00ednio Marcos diz que sequer conhecia a grande dramaturgia nacional, tampouco a universal. Portanto, jamais, at\u00e9 ent\u00e3o, passara-lhe pela cabe\u00e7a ser dramaturgo. 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