{"id":1255,"date":"2020-06-04T13:35:47","date_gmt":"2020-06-04T16:35:47","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1255"},"modified":"2021-01-20T12:13:46","modified_gmt":"2021-01-20T15:13:46","slug":"dois-perdidos-numa-noite-suja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/dois-perdidos-numa-noite-suja\/","title":{"rendered":"Dois Perdidos Numa Noite Suja"},"content":{"rendered":"<p>Quando Pl\u00ednio Marcos escreveu\u00a0<em>Dois Perdidos numa Noite Suja<\/em>, em 1966, tinha ele j\u00e1 em seu curr\u00edculo de dramaturgo uma trajet\u00f3ria de embates com a censura, com a qual teria que conviver ao longo dos 21 anos de produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria sob o regime militar. Como ele mesmo confessa em uma de suas entrevistas, fora preso 18 vezes desde que estreara sua primeira pe\u00e7a,\u00a0<em>Barrela<\/em>, em Santos, em 1\u00ba de novembro de 1959.\u00a0<em>Barrela<\/em>\u00a0subiria ao palco por apenas uma noite, j\u00e1 antecipadamente censurada.\u00a0<em>Navalha na Carne,<\/em>\u00a01967, talvez seja o s\u00edmbolo maior desta luta. V\u00e1rios artistas, entre eles Cacilda Becker, se envolveram na refrega para a libera\u00e7\u00e3o do texto, obrigando a que T\u00f4nia Carrero, que protagonizaria Neusa Suely, percorresse os gabinetes da ditadura para conseguir a permiss\u00e3o da montagem. E chegou a triste hora, ainda na d\u00e9cada de sessenta, em que todos os textos de Pl\u00ednio Marcos seriam engavetados pela censura. Diante de biografia t\u00e3o conturbada, Pl\u00ednio Marcos passou a se autodenominar o \u201cautor maldito\u201d. Era j\u00e1 conhecido, n\u00e3o s\u00f3 nos corredores da censura, tamb\u00e9m em algumas pra\u00e7as culturais, quando\u00a0<em>Dois Perdidos numa Noite Suja<\/em>\u00a0foi apresentado pela primeira vez, em 1966, no Bar Ponto de Encontro, na galeria Metr\u00f3pole, em S\u00e3o Paulo, para uma pequena plateia, mas o suficiente para que o texto repercutisse al\u00e9m das fronteiras paulistas. Pl\u00ednio se tornaria uma figura popular, e se estabelecia, com as obras escritas na d\u00e9cada de sessenta, como um dos nossos grandes autores teatrais. Como diria Pl\u00ednio Marcos, meio que jocosa meio que raivosamente,\u00a0<em>\u201csou o analfabeto mais premiado do pa\u00eds\u201d<\/em>. De fato, n\u00e3o gostava de estudar, cursara s\u00f3 o prim\u00e1rio, mas ningu\u00e9m melhor que ele soube levar para os palcos criaturas analfabetas, marginalizadas, seres invis\u00edveis que transitaram com dignidade \u00edmpar pela sua pungente dramaturgia. Por necessidade, vendia ele mesmo seus livros nas portas de bares e teatros. N\u00e3o tinha vergonha de ser independente, amparado que estava pela profunda autoconsci\u00eancia do papel de dramaturgo que ele representava. Pl\u00ednio Marcos tinha f\u00e9 no teatro como fonte primordial do verdadeiro grito.<\/p>\n<p><em>Dois Perdidos numa Noite Suja\u00a0<\/em>traz a vida de Tonho e Paco, chapas que trabalham em um mercado onde carregam e descarregam caminh\u00f5es, cujos ganhos, avulsos, mal d\u00e3o para comer e dormir. Moram juntos num quarto de pens\u00e3o barato, onde tudo \u00e9 dividido, dores e esperan\u00e7as. Neste recorte cotidiano, Pl\u00ednio Marcos come\u00e7a a estruturar seu texto, despejando em cortantes di\u00e1logos a hist\u00f3ria de dois p\u00e1rias que n\u00e3o enxergam sa\u00edda para suas mis\u00e9rias. Ainda se apegam a algumas refer\u00eancias, no caso de Tonho, a de ter um par de sapatos novos para poder procurar emprego, e Paco, a de comprar uma flauta para substituir a que lhe fora roubada, fonte antiga de seus ganhos. Num posicionamento dram\u00e1tico eficiente, Pl\u00ednio Marcos coloca-os no extremo do corredor, onde h\u00e1 apenas uma porta de sa\u00edda. Por\u00e9m, lacrada.<\/p>\n<p>Pl\u00ednio Marcos conhecia muito bem as microestruturas de poder que se estabeleciam cotidianamente entre essas pessoas invis\u00edveis que vagavam pela noite em busca de um pouco de vida. Mesmo entre os miser\u00e1veis, sempre tem quem manda e quem obedece; quem subjuga e quem \u00e9 subjugado; quem explora, e os que s\u00e3o explorados. \u00c9 do humano, portanto, n\u00e3o tem nada a ver com outras estruturas de poder baseadas no dinheiro. E Pl\u00ednio Marcos traz essas microestruturas na forma inteligente com que manipula os di\u00e1logos. A configura\u00e7\u00e3o das falas que predomina no texto, onde quem finaliza o jogo de disputa verbal \u00e9 quem det\u00e9m o poder, pode ser exemplificado na sequ\u00eancia Paco-Tonho-Paco. J\u00e1 no segundo ato, quando Tonho, de posse do rev\u00f3lver, passa a dominar, a configura\u00e7\u00e3o se inverte e a \u00faltima fala poderosa passa a ser de Tonho. Vamos a um exemplo na configura\u00e7\u00e3o Paco-Tonho-Paco. Paco come\u00e7a.\u00a0<em>\u201cPensando morreu um burro\u201d<\/em>.\u00a0<em>\u201cQue devia ser seu pai\u201d<\/em>.\u00a0<em>\u201cQue dormia com sua m\u00e3e\u201d<\/em>. Neste instante, acuado pelo poder emanado do manejo verbal de Paco, levado ao extremo, quando n\u00e3o h\u00e1 mais ar para respirar, ent\u00e3o Tonho recua, muda de assunto, geralmente buscando dentro de si um sentimento ruim, de derrota. Como se v\u00ea, o poder moment\u00e2neo est\u00e1 com quem d\u00e1 o \u00faltimo golpe. Como no ringue. Quem est\u00e1 apanhando corre para as cordas. E Tonho o faz com certa frequ\u00eancia. Paco o domina, no gog\u00f3. Restar\u00e1 a Tonho o rev\u00f3lver para reverter o jogo.<\/p>\n<p>A estrutura formal planejada por Pl\u00ednio Marcos para dar fluxo \u00e0 narrativa traz uma curiosidade. Foge um pouco ao padr\u00e3o esquem\u00e1tico de atos e cenas. O texto se divide em dois atos, at\u00e9 a\u00ed tudo bem. S\u00f3 que o primeiro ato, bem mais longo, \u00e9 composto de cinco quadros, o que n\u00e3o ocorre com o segundo ato, que n\u00e3o apresenta qualquer tipo de divis\u00e3o, transformando-se numa longa cena, sem interrup\u00e7\u00e3o de tempo e espa\u00e7o. Como se Pl\u00ednio Marcos reservasse uma sala especial para desenvolver a parte mais sens\u00edvel e crucial do texto.<\/p>\n<p>O primeiro quadro do ato um j\u00e1 come\u00e7a com a apresenta\u00e7\u00e3o do primeiro objeto que compor\u00e1 o conflito da trama. A gaita. E come\u00e7a em alto tom, com as agress\u00f5es f\u00edsicas do forte Tonho ao impertinente Paco que, a despeito dos reiterados pedidos de Tonho, n\u00e3o para de tocar a gaita. Mas o que importa \u00e9 o segundo objeto, o mais importante deste texto teatral, que definir\u00e1 a trama e impulsionar\u00e1 toda a tens\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a seu desfecho. \u00c9 vis\u00edvel a preocupa\u00e7\u00e3o de Pl\u00ednio Marcos em construir, j\u00e1 nesta unidade, a armadilha dram\u00e1tica. O desenho da personalidade de Tonho \u00e9 tosco e ao mesmo tempo nuclear. Est\u00e1 insatisfeito com seu emprego de chapa no mercado, \u00e9 estudado e sonha com a possibilidade de arranjar um emprego melhor, em algum escrit\u00f3rio. S\u00f3 h\u00e1 um obst\u00e1culo. Ele n\u00e3o tem sapatos apresent\u00e1veis. Quem tem a posse de um par de sapatos bacana \u00e9 Paco. E aqui Pl\u00ednio Marcos habilmente introduz o limite no relacionamento entre os dois, o que permitir\u00e1 a explos\u00e3o vigorosa do conflito. Ao negar \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre os dois pobres coitados qualquer possibilidade de solidariedade, o autor d\u00e1 f\u00f4lego \u00e0 trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>O segundo quadro come\u00e7a novamente com a desaven\u00e7a em torno da gaita, mas logo abandonada para introduzir outra problem\u00e1tica, o Negr\u00e3o, sujeito mal encarado, a quem Tonho teria tirado a vez no descarregamento de um caminh\u00e3o. O assustador Negr\u00e3o passou a cobrar de Tonho a metade do dinheiro recebido do dono do caminh\u00e3o, e o recado, de forma manipulativa, \u00e9 trazido por Paco. Neste quadro aparece a fala t\u00e3o querida a Pl\u00ednio Marcos, quando Paco diz.\u00a0<em>\u201cN\u00e3o for\u00e7a a paci\u00eancia. Voc\u00ea nunca vai ser ningu\u00e9m\u201d<\/em>. Pl\u00ednio Marcos se sente impotente em inserir suas personagens no mundo vis\u00edvel, como cidad\u00e3os funcionais pertencentes a um meio capitalista produtivo. Sente-se t\u00e3o impotente, v\u00ea t\u00e3o pouca perspectiva, que prefere se ocupar do instante das personagens, daquilo que \u00e9 essencial naquele momento, para n\u00e3o dar a elas a consci\u00eancia de sua invisibilidade. E a frase acima, evidente, conduz a trama para o olho do conflito. Os sapatos de Paco s\u00e3o a \u00fanica forma de Tonho ser algu\u00e9m na vida. Esta \u00e9 a sa\u00edda, esta ser\u00e1 sua obsess\u00e3o, transformando o embate em torno dos sapatos no n\u00facleo poderoso do texto. O conflito est\u00e1 entronizado. E finaliza o quadro com a amea\u00e7a do Negr\u00e3o que, segundo palavras de Paco, quer\u00a0<em>\u201cenrabar\u201d<\/em>\u00a0Tonho. Com este verbo, Pl\u00ednio Marcos introduz mais uma recorrente tem\u00e1tica em sua dramaturgia. A posse do corpo do outro.<\/p>\n<p>Neste terceiro quadro, Pl\u00ednio Marcos estrutura a narrativa em torno de uma poss\u00edvel cafetinagem, nome usado nas quebradas do submundo, que \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o ou com\u00e9rcio carnal alheio. \u00c9 ilegal, \u00e9 crime. Rela\u00e7\u00e3o de neg\u00f3cio comum no submundo de Pl\u00ednio Marcos, onde toma formas desumanas, e onde a autoestima \u00e9 totalmente destru\u00edda. As prostitutas surgem em seus textos como as principais v\u00edtimas desta m\u00f3rbida rela\u00e7\u00e3o, obrigadas que est\u00e3o, em troca de prote\u00e7\u00e3o e afeto, a ceder parte do seu ganho a quem as protege. Esta rela\u00e7\u00e3o surge como tem\u00e1tica central em\u00a0<em>Navalha na Carne<\/em>, com a subjuga\u00e7\u00e3o humilhante de Neusa Suely a Vado, e chegar\u00e1 ao limite do absurdo em\u00a0<em>Abajur Lil\u00e1s<\/em>. E vai surgir ainda mais escancarado em seu romance\u00a0<em>Quer\u00f4, uma Reportagem Maldita<\/em>, s\u00f3 que desta vez estruturada na rela\u00e7\u00e3o de bandidagem, e que serve de motiva\u00e7\u00e3o existencial para preparar a trag\u00e9dia, que \u00e9 quando Quer\u00f4, na busca de si mesmo, se recusa a se submeter \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o da posse pelo outro.<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>Dois Perdidos numa Noite Suja<\/em>, a rela\u00e7\u00e3o de posse n\u00e3o est\u00e1 no centro do conflito, serve apenas para fechar mais uma das portas de possibilidade de ganho. Para evitar o achaque do Negr\u00e3o, Tonho evita ir ao mercado. Sem trabalho, a press\u00e3o de tomar atitude para ser algu\u00e9m na vida aumenta. Mas Paco, numa linguagem muito precisa, parece enterrar de vez os sonhos de Tonho de\u00a0<em>\u201cser algu\u00e9m\u201d<\/em>. Diz, em rela\u00e7\u00e3o aos achaques do Negr\u00e3o.\u00a0<em>\u201cN\u00e3o vai ser mole. Se antes de voc\u00ea trabalhar pra homem, n\u00e3o dava, agora ent\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o d\u00e1 mesmo\u201d.<\/em>\u00a0E vai al\u00e9m, referindo-se a Tonho.\u00a0<em>\u201cSeu apelido l\u00e1 no mercado agora \u00e9 Boneca do Negr\u00e3o\u201d<\/em>. E incita-o a se livrar da triste condi\u00e7\u00e3o.\u00a0<em>\u201cAcho que voc\u00ea devia brigar com o Negr\u00e3o\u201d<\/em>. S\u00f3 que Tonho sabe que esse embate sem fim terminar\u00e1 em morte. E ent\u00e3o Paco sela o destino.\u00a0<em>\u201cMata ele\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Uma das armadilhas emocionais montada por Paco \u00e9 atribuir a Tonho sentimentos (inveja, medo) e atitudes (covardia) que n\u00e3o s\u00e3o dele. \u00c9 nesta vileza que Paco constr\u00f3i o monstro que se voltar\u00e1 contra ele. Esta \u00e9 a din\u00e2mica propulsora da trag\u00e9dia. Na verdade, eis a clareza. Tonho n\u00e3o tem inveja dos sapatos de Paco, tem vergonha dos seus, rotos. E aqui Pl\u00ednio Marcos introduz o terceiro objeto da trama, o rev\u00f3lver, que elevar\u00e1 a tens\u00e3o e a expectativa para outro patamar, sublimando a derrota na trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>No quarto quadro, aprofunda-se a consci\u00eancia do nada ser, em que se vive em um mundo onde cada um \u00e9 por si e n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m a quem recorrer. Diante deste sentimento de estar no fundo do po\u00e7o \u00e9 que nasce a utilidade do rev\u00f3lver.\u00a0<em>\u201cUm assalto?\u201d<\/em>, pergunta Paco.\u00a0<em>\u201c\u00c9. Um assalto.\u201d<\/em>, responde Tonho. Interessante perceber que ao ser acuado por Paco, nasce em Tonho o dilema da maldade. E Tonho est\u00e1 consciente do seu passo.\u00a0<em>\u201cN\u00e3o gosto disso. S\u00f3 vou entrar nessa porque n\u00e3o vejo outro jeito de me arrumar\u201d<\/em>. E logo se percebe. Mesmo entrando na onda do crime, h\u00e1 limites morais, como, por exemplo, o estupro, a\u00e7\u00e3o sugerida por Paco. Assim Tonho se expressa.\u00a0<em>\u201cEu nunca vou agarrar mulher \u00e0 for\u00e7a\u201d<\/em>. O car\u00e1ter de Tonho \u00e9, de certo modo, preservado, empurrado para o crime apenas em fun\u00e7\u00e3o da necessidade de ter um par de sapatos. Seu desejo \u00e9 apenas encerrar este impasse em sua vida. Uma vez que n\u00e3o pode aparecer no mercado sob pena de ser achacado pelo Negr\u00e3o, o que lhe resta? E assim est\u00e1 inoculada em Tonho a ideia inevit\u00e1vel do roubo.<\/p>\n<p>Neste quinto quadro, para convencer de vez Tonho a entrar na onda do assalto, Paco usa de sua principal arma, a manipula\u00e7\u00e3o de fatos reais. Ele est\u00e1 doido para assaltar, s\u00f3 que disfar\u00e7a, jogando, em mais uma de suas artimanhas, este desejo no colo de Tonho, fragilizado ao se encontrar em situa\u00e7\u00e3o extrema. Paco espertamente fecha seu universo de possibilidades para uma \u00fanica sa\u00edda, o assalto. Assim diz para Tonho, quando este sugere que ele v\u00e1 sozinho.\u00a0<em>\u201cMas voc\u00ea que est\u00e1 a perigo. O Negr\u00e3o n\u00e3o te esquece\u201d<\/em>. E o fato relevante moment\u00e2neo na rela\u00e7\u00e3o dos dois \u00e9 que Paco, estrategicamente, se submete ao mando de Tonho para conseguir convenc\u00ea-lo da empreitada. Aceita as condi\u00e7\u00f5es de Tonho. Tonho, sentindo-se seguro, no comando, cai na armadilha do esperto Paco. E assim partem para a aventura, gerando o imbr\u00f3glio dram\u00e1tico de que se ocupar\u00e1 o segundo ato.<\/p>\n<p>O segundo ato come\u00e7a em alta voltagem, quando as personagens retornam do assalto a um casal, no parque, e est\u00e3o com a adrenalina a toda. E \u00e9 este cen\u00e1rio emocional que faz com que as personagens, antes j\u00e1 pinceladas, agora se revelem em toda sua crueza. E fun\u00e7\u00e3o. Enquanto Paco eleva o tom, sentindo-se o maioral, tratando-se como\u00a0<em>\u201cPaco Maluco, o Perigoso\u201d<\/em>, Tonho se rebela contra a tirania verbal e as atitudes imorais do companheiro. J\u00e1 se percebe a transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se agora, ao assaltar, o interior ficasse definitivamente para tr\u00e1s, com seu romantismo e suas complac\u00eancias. O Tonho est\u00e1 pronto para dar o salto definitivo. Mas ainda reage \u00e0 ideia de ingressar na criminalidade. Diz.\u00a0<em>\u201cEu quero ser como todo mundo, ter um emprego de gente, trabalhar\u201d<\/em>. \u00c9 seu \u00faltimo suspiro.<\/p>\n<p>At\u00e9 que se chegue ao desfecho, h\u00e1 o lance espetacular da dramaturgia de Pl\u00ednio Marcos que, com certeza, respirava, \u00e0quela \u00e9poca, os fortes ventos do existencialismo, ao feitio de\u00a0<em>O Estrangeiro<\/em>, de Albert Camus. Tonho arriscara seus princ\u00edpios morais em um assalto t\u00e3o somente para ter um par de sapatos decente para cal\u00e7ar e assim buscar um emprego condizente com seu n\u00edvel de rapaz estudado. S\u00f3 que ele descobre que os p\u00e9s do rapaz de quem roubara os sapatos eram menores que os seus. N\u00e3o havia atentado para esta possibilidade. Os sapatos roubados n\u00e3o lhe serviam! Volta assim \u00e0 estaca zero. Confrontado pelas \u00faltimas provoca\u00e7\u00f5es de Paco, levadas ao extremo, Tonho ent\u00e3o pega o rev\u00f3lver e aponta. V\u00ea ent\u00e3o a valentia de Paco Maluco se esfumar na covardia do medo, possibilitando que Tonho, no comando total, se apodere da linguagem de Paco. Este \u00e9 o belo efeito da transforma\u00e7\u00e3o que Pl\u00ednio Marcos nos oferece. \u00c9 com esta linguagem, que se configura no t\u00edtulo que Paco havia se atribu\u00eddo, que Tonho d\u00e1 vaz\u00e3o, de vez, \u00e0 mudan\u00e7a. Agora ele \u00e9 o\u00a0<em>\u201cTonho Maluco, o Perigoso\u201d<\/em>. Nada mais existencial.<\/p>\n<p>Antes de finalizar, fa\u00e7amos aqui um pequeno par\u00e1grafo para um breve par\u00eantesis. Vale observar que, apesar do poderio manipulativo de Paco, que o coloca em vantagem sobre Tonho, \u00e9 ele, Paco, quem est\u00e1 preso emocionalmente ao outro. N\u00e3o o contr\u00e1rio, como poderia parecer. E aqui reside, digamos, a burrice de Paco. N\u00e3o tendo consci\u00eancia desta pris\u00e3o emocional, mas tentando intuitivamente se libertar dela, ele passa, detentor de um intelig\u00eancia verbal irresist\u00edvel, a tripudiar seu algoz, do qual, como ficar\u00e1 evidente, n\u00e3o consegue se libertar. Paco v\u00ea em Tonho um sonho humano para si pr\u00f3prio. Sem o perceber, querendo destruir sua imagem de sonho, Paco aciona a dial\u00e9tica da trag\u00e9dia. Esta eficiente constru\u00e7\u00e3o dramat\u00fargica de Pl\u00ednio Marcos \u00e9 que vai possibilitar a transforma\u00e7\u00e3o pessoal de Tonho. E dar o desfecho pretendido pelo autor.<\/p>\n<p>Como conclus\u00e3o, vamos aqui construir uma alegoria. Supor que Tonho, chegado do interior, ainda impregnado de inoc\u00eancia e romantismo, seja uma bela escultura em madeira. Paco, um ser desprez\u00edvel, sem pai nem origem, inteligente e descolado, perspicaz e manipulador, diante desta singela figura esculpida em madeira, se prop\u00f5e a destru\u00ed-la. Para isso, transforma-se em cupim. E vorazmente vai comendo a madeira e aos poucos desfigurando a imagem. \u00c9 neste ritmo dram\u00e1tico, em que a cada fala brutal de Paco um pedacinho da madeira se decomp\u00f5e, que o texto vai se configurando como uma alegoria da transforma\u00e7\u00e3o. Ao chegar ao fim, a bela imagem j\u00e1 n\u00e3o mais existe. Em seu lugar h\u00e1 uma outra, maldosamente esculpida por Paco. Mas, como um doutor Frankenstein, Paco tamb\u00e9m \u00e9 consumido pela pr\u00f3pria obra. Esta \u00e9 a ess\u00eancia magn\u00edfica do texto de Pl\u00ednio Marcos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando Pl\u00ednio Marcos escreveu\u00a0Dois Perdidos numa Noite Suja, em 1966, tinha ele j\u00e1 em seu curr\u00edculo de dramaturgo uma trajet\u00f3ria de embates com a censura, com a qual teria que conviver ao longo dos 21 anos de produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria sob o regime militar. 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