{"id":1258,"date":"2020-06-04T13:34:28","date_gmt":"2020-06-04T16:34:28","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1258"},"modified":"2020-12-25T12:13:03","modified_gmt":"2020-12-25T15:13:03","slug":"navalha-na-carne","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/navalha-na-carne\/","title":{"rendered":"Navalha Na Carne"},"content":{"rendered":"<p>Antes de falar da obra de Pl\u00ednio Marcos, \u00e9 preciso, necessariamente, inevitavelmente, falar do homem Pl\u00ednio Marcos. Nasceu em Santos, em 1935, cidade portu\u00e1ria, portanto, um submundo a c\u00e9u aberto, onde viveu, transitando freneticamente por muitas profiss\u00f5es, de soldado a biscateiro, de camel\u00f4 a oper\u00e1rio, at\u00e9 jogador de futebol, convivendo com malandros e estivadores. \u00c9 desta rica passagem pela vida que Pl\u00ednio Marcos tira o sumo terr\u00edvel para compor sua bela e pungente dramaturgia. Foi surpreendido ainda jovem com o primeiro sucesso quando fazia parte de uma trupe circense \u2014 era o palha\u00e7o Frajola \u2014, e principiava ainda nos segredos da dramaturgia.\u00a0<em>Barrela<\/em>\u00a0\u00e9 seu primeiro texto, escrito em 1958, e encenado em Santos, no ano seguinte, com grande sucesso. Teve apenas uma apresenta\u00e7\u00e3o, pois no dia seguinte o texto seria engavetado pela censura. Pl\u00ednio Marcos era homem que conhecia todos os desv\u00e3os e dores do submundo real, povoado de marginais, ladr\u00f5es, estelionat\u00e1rios e caloteiros, prostitutas e cafet\u00f5es, bichas, como se dizia \u00e0 \u00e9poca, carregando na palavra o nojo do preconceito, enfim, uma microestrutura social desnudada por ele, mas inspirada em uma estrutura maior chamada Brasil. Pl\u00ednio Marcos dizia que escrevia textos curtos, e muito depressa, porque escrevia\u00a0<em>\u201ccom raiva, com muita raiva do estado em que se encontra o povo brasileiro, da omiss\u00e3o dos pol\u00edticos diante dos problemas\u201d<\/em>. Antes de\u00a0<em>Navalha na Carne<\/em>, tinha j\u00e1 escrito uma de suas mais exuberantes obras,\u00a0<em>Dois Perdidos numa Noite Suja<\/em>, levado ao palco em 1966, na Galeria Metr\u00f3pole, em S\u00e3o Paulo. Mas seria\u00a0<em>Navalha na Carne<\/em>, cercada de grande expectativa por seus problemas com a censura, o texto que faria Pl\u00ednio Marcos romper de vez o anonimato e se consagrar como um dos grandes autores teatrais do Brasil.<\/p>\n<p>Pelo simples fato de trabalhar em seus textos com tem\u00e1ticas t\u00e3o explosivas quanto a prostitui\u00e7\u00e3o, a cafetinagem, a mis\u00e9ria, o grito de dor atrav\u00e9s de palavr\u00f5es, a marginalidade contraposta a um sistema de explora\u00e7\u00e3o, enfim, ao trazer o submundo \u00e0 luz do dia, Pl\u00ednio Marcos se viu envolvido em duros embates com a censura da ditadura militar, \u00e9poca em que, num espa\u00e7o de 21 anos, o dramaturgo construiria boa parte de sua literatura dram\u00e1tica. Neste contexto,\u00a0<em>Navalha na Carne<\/em>\u00a0traduz bem a luta da cultura contra a censura, retratada nas dificuldades de se liberar o texto \u2014 luta encampada \u00e0 \u00e9poca por Cacilda Becker e pela pr\u00f3pria T\u00f4nia Carrero \u2014 para a montagem, primeiro, paulista, depois, carioca. Seria no Rio de Janeiro, em 1967, com dire\u00e7\u00e3o de Fauzi Arap, T\u00f4nia Carrero no papel de Neusa Suely, que o sucesso viria com toda for\u00e7a. Infelizmente, esta bela festa do teatro n\u00e3o duraria muito tempo. R\u00e1pido o espet\u00e1culo seria censurado e o texto\u00a0<em>Navalha na Carne<\/em>\u00a0s\u00f3 voltaria aos palcos 13 anos depois.<\/p>\n<p>A din\u00e2mica teatral de\u00a0<em>Navalha na Carne<\/em>\u00a0se apoia em tr\u00eas personagens que se encontram dentro de um quarto de pens\u00e3o de quinta categoria, onde mora a prostituta Neusa Suely. Ela recebe diariamente a visita do seu cafet\u00e3o, Vado, que vem buscar o dinheiro que ela todos os dias deposita sobre o criado mudo. S\u00f3 que hoje o dinheiro n\u00e3o est\u00e1 onde deveria estar. Vado espera Neusa Suely chegar da zona para cobrar a sua parte. No entanto, ela jura ter colocado o dinheiro sobre o criado mudo, e para provar sua inoc\u00eancia, desconfia de Veludo, a\u00a0<em>\u201cbicha\u201d<\/em>\u00a0que cuida da faxina dos quartos da pens\u00e3o. Ela lembra ter visto o menino do bar entrar no quarto dele. De onde teria Veludo conseguido dinheiro para pagar o sexo? Veludo \u00e9 chamado \u00e0 presen\u00e7a de Neusa Suely e Vado, e assim est\u00e1 formado o trio de personagens, em torno dos quais girar\u00e1 a tens\u00e3o dram\u00e1tica que consiste em arrancar de Veludo a confiss\u00e3o do roubo.<\/p>\n<p>A estrutura dram\u00e1tica se divide, ao longo do texto, em tr\u00eas confrontos b\u00e1sicos. O primeiro se d\u00e1 entre Vado e Neusa Suely, quando aquele descobre que o dinheiro devido por ela n\u00e3o est\u00e1 sobre o criado mudo. O segundo confronto, mais complexo, posto envolver tr\u00eas polos, ocorre quando Veludo \u00e9 chamado ao quarto sob a acusa\u00e7\u00e3o de ter roubado o dinheiro. Amea\u00e7as e agress\u00f5es f\u00edsicas v\u00e3o aumentando a tens\u00e3o na busca da confiss\u00e3o. O achaque direto a Veludo, que se pressupunha seria feito pelo valent\u00e3o Vado, acaba, numa l\u00f3gica psicol\u00f3gica veross\u00edmil, sendo feito por Neusa Suely, a acusada inocente que reage ao tirar a navalha da bolsa para confrontar Veludo. Resolvido o conflito, mediante a confiss\u00e3o de Veludo, e com a sa\u00edda deste, resta agora o terceiro e definitivo confronto entre Vado e Neusa Suely, num triste desnudamento do vazio existencial das personagens que t\u00eam no imediato do cotidiano sua \u00fanica raz\u00e3o de existir. Neste confronto, mais verbal que f\u00edsico, predomina, de um lado, a humilha\u00e7\u00e3o do macho \u00e0 f\u00eamea que se v\u00ea desprezada com a perda da beleza juvenil, e, do outro, a mulher Neusa Suely reivindicando afeto e sexo, portanto, o que ressurge da humilha\u00e7\u00e3o \u00e9 a mulher fazendo valer sua condi\u00e7\u00e3o de f\u00eamea. Nada acontecer\u00e1 fora das quatro paredes. Sonhos, projetos de vida, conquistas, nada existe. A vida se resume t\u00e3o somente \u00e0quele quarto imundo de uma pens\u00e3o imunda.<\/p>\n<p>Vale acrescentar \u00e0 explana\u00e7\u00e3o acima que os confrontos se estruturam a partir de um jogo din\u00e2mico de for\u00e7as que se revezam, criando um sistema interessante de dom\u00ednio e sujei\u00e7\u00e3o. Em certos momentos, o s\u00e1dico e mach\u00e3o Vado se v\u00ea subjugado pelo fracote Veludo e, em outros momentos, pela desamparada Neusa Suely. E estas din\u00e2micas criam maior ritmo e for\u00e7a sob a batuta de um di\u00e1logo enxuto e \u00e1gil, como se cada fala fosse um cuspe na cara.<\/p>\n<p>Neusa Suely \u00e9 a prostituta do dia a dia. Alimenta esperan\u00e7as, aceita migalhas, acomoda-se a uma rela\u00e7\u00e3o baseada na troca desleal de afeto por dinheiro, onde sentimento e respeito s\u00e3o moedas sem valor algum. Guiada pelo desalento, ela ainda tenta se manter em p\u00e9, cultivando vagas esperan\u00e7as de que aquele homem grosseiro ainda lhe d\u00ea algum lugar ao sol. Nem que este lugar se resuma \u00e0 cama! Enquanto n\u00e3o realiza seus pequenos desejos, Neusa Suely pertencer\u00e1 a um mundo que n\u00e3o existe, porque ela n\u00e3o cabe na normalidade social de uma sociedade preconceituosa e excludente. Portanto, a \u00fanica porta de sa\u00edda ainda \u00e9 Vado, que absolutamente n\u00e3o est\u00e1 disposto a abri-la, posto que, se abrir, sua masculinidade correr\u00e1 s\u00e9rios riscos. Em sua defesa de macho, a estupidez continua sendo sua m\u00e1scara. E \u00e9 com esta m\u00e1scara que Neusa Suely se relaciona.<\/p>\n<p>Veludo n\u00e3o nutre esperan\u00e7as quanto a ser um indiv\u00edduo pleno de todos os seus direitos, um deles, o direito \u00e0 felicidade. Ele apenas d\u00e1 passos pequenos, cautelosos, para n\u00e3o cair no abismo, j\u00e1 que sua \u00fanica realidade \u00e9 satisfazer seus desejos mais imediatos, maconha e sexo. A agress\u00e3o sem consequ\u00eancia \u00e9 o s\u00edmbolo maior de sua condi\u00e7\u00e3o de ser invis\u00edvel. E sua condi\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel \u00e9 algo que vem do social, simbolizada na opress\u00e3o ao exclu\u00eddo pelo preconceito. N\u00e3o sendo forte, se recusa, com brio, a fazer o papel oposto. Com suas viol\u00eancias impuras, em Veludo a verdade \u00e9 sacr\u00edlega, sem contudo ser pecadora.<\/p>\n<p>Vado vai al\u00e9m da esquem\u00e1tica configura\u00e7\u00e3o de poder do macho sobre a f\u00eamea. O poder existe, mas vacilante, desprovido de respaldo moral, o que nos faz perguntar que macho seria ele fora daquelas quatro paredes. Mas ali, no quarto imundo, ele atua para subjugar, n\u00e3o s\u00f3 psicol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m fisicamente, com base na cultura machista de polo dominante e inquestion\u00e1vel. Na agress\u00e3o f\u00edsica n\u00e3o se conversa, bate-se. \u00c9 a destrutiva convic\u00e7\u00e3o do mais forte sobre o mais fraco, seja a mulher, o negro, o homossexual. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o caso de bater em Neusa Suely pelo fato de ela ser mulher. Tampouco por ser Veludo um\u00a0<em>\u201c<\/em>veado<em>\u201d<\/em>. A dramaturgia de Pl\u00ednio Marcos est\u00e1 recheada de subjuga\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, inclusive entre homens heterossexuais. Tonho sobre Paco, em\u00a0<em>Dois Perdidos numa Noite Suja<\/em>, \u00e9 um exemplo. Aqui, no entanto, trata-se de defender o espa\u00e7o miser\u00e1vel onde o macho, em atua\u00e7\u00e3o covarde, se esconde.<\/p>\n<p>Outra caracter\u00edstica da dramaturgia de Pl\u00ednio Marcos \u00e9 a n\u00e3o exist\u00eancia de vida pregressa. N\u00e3o existe o div\u00e3 da classe m\u00e9dia. Tampouco mem\u00f3ria. A personagem se define e atua pelo que ela \u00e9 hoje, pelo que ela precisa no imediato. O aqui e agora \u00e9 que importa. E se imp\u00f5em. \u00c9 sempre a din\u00e2mica corrosiva de rela\u00e7\u00f5es em torno de alguma vantagem, no caso o dinheiro, ou em torno de alguma necessidade, no caso a fome, o sexo, o v\u00edcio. E como pano de fundo destas migalhas de vida existe a busca desesperada por afeto, aten\u00e7\u00e3o e colo. Mas aqui se trata, o afeto, de algo abstrato, portanto, n\u00e3o imediato. A fome, tem-se que mat\u00e1-la agora. A car\u00eancia afetiva, bem, esta pode esperar, quem sabe seja satisfeita em algum lugar, ao longo do tempo, num beijo casual, num sexo comprado. A \u00fanica coisa que n\u00e3o se permite \u00e9 olhar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Se falta o sentido de hist\u00f3ria, sobra a consci\u00eancia de sua condi\u00e7\u00e3o humana inserida em um mundo que pouco d\u00e1 e tudo pede. E esta consci\u00eancia se reflete \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o quando Neusa Suely se pergunta.\u00a0<em>\u201cSer\u00e1 que somos gente?\u201d.<\/em>\u00a0Esta nos parece ser a condu\u00e7\u00e3o existencial da dramaturgia de Pl\u00ednio Marcos. Personagens que n\u00e3o se encontram em lugar algum, como se n\u00e3o existissem fora de si. Personagens que n\u00e3o se reconhecem na sociedade da qual, como cidad\u00e3os, deveriam fazer parte. Transitam, exilados, pela vida.<\/p>\n<p>Em suma. O imediatismo do existir tem sua relev\u00e2ncia c\u00eanica em conflitos que giram em torno de objetos com alguma fun\u00e7\u00e3o na vida pessoal da personagem, e que se expandir\u00e3o na fun\u00e7\u00e3o social, fim \u00faltimo do conflito. Talvez o exemplo de objeto mais cl\u00e1ssico na dramaturgia de Pl\u00ednio Marcos sejam os sapatos de Paco, em\u00a0<em>Dois Perdidos numa Noite Suja<\/em>. Em\u00a0<em>Navalha na Carne<\/em>, a navalha \u00e9 s\u00f3 um s\u00edmbolo de poder passageiro, posto que o poder s\u00f3 existir\u00e1 enquanto a navalha estiver na m\u00e3o. \u00c9 o dinheiro aqui o objeto c\u00eanico que serve para comprar o pouco de lucidez que se pode tirar daquela realidade sem sentido. No entanto, em momento algum, j\u00e1 est\u00e1 decidido, o dinheiro preencher\u00e1 o vazio gerado pela condi\u00e7\u00e3o humana indigente da personagem. O que vem confirmar que o teatro psicol\u00f3gico s\u00f3 cabe nas camadas sociais elevadas, onde conseguir o p\u00e3o de cada dia n\u00e3o \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o urgente, j\u00e1 que est\u00e1 antecipadamente garantida, portanto, cabendo espa\u00e7o para as dores da alma. No teatro social de Pl\u00ednio Marcos s\u00f3 cabem as porradas do p\u00e3o nosso de cada dia. \u00c9 a navalha na carne.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de falar da obra de Pl\u00ednio Marcos, \u00e9 preciso, necessariamente, inevitavelmente, falar do homem Pl\u00ednio Marcos. 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