{"id":1264,"date":"2020-04-20T13:55:04","date_gmt":"2020-04-20T16:55:04","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1264"},"modified":"2020-12-25T12:18:13","modified_gmt":"2020-12-25T15:18:13","slug":"mary-stuart-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/mary-stuart-2\/","title":{"rendered":"Mary Stuart"},"content":{"rendered":"<p>Em 1759, nasce, em Marbach, Johan Friedrich Schiller que, aos quarenta anos, j\u00e1 no final de sua curta vida, escreveria MARY STUART (1800), uma das grandes obras primas da literatura universal. Schiller, por ser filho de m\u00e9dico militar, viria a residir, na sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, em v\u00e1rias pequenas cidades da regi\u00e3o de W\u00fcrttemberg, cuja capital era Estugarda (Stuttgart). J\u00e1 adulto e formado em medicina, aos vinte e um anos Schiller conheceria a fama com seu primeiro texto teatral,\u00a0<em>Os Bandoleiros<\/em>, levado ao palco em Mannheim, em 1780, sob a tutela do bar\u00e3o Von Dalbert, admirador de primeira hora da obra liter\u00e1ria de Schiller. Ali\u00e1s,\u00a0<em>Os bandoleiros<\/em>, que narra as rebeldias de um jovem estudante, viria a se tornar uma das principais refer\u00eancias do pr\u00e9-romantismo alem\u00e3o. Com o sucesso de seus textos iniciais e a paix\u00e3o pela literatura, Schiller abandona a profiss\u00e3o de m\u00e9dico e, ap\u00f3s v\u00e1rias andan\u00e7as, acaba se estabelecendo em Weimar, \u00e0 \u00e9poca, um dos grandes centros culturais da Alemanha, onde, j\u00e1 casado, iria se dedicar \u00e0 escrita e a novos estudos. \u00c9 em Weimar que Schiller conhece Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832), dez anos mais velho que ele, e firmam uma amizade baseada na admira\u00e7\u00e3o m\u00fatua, e que duraria at\u00e9 a morte de Schiller, aos 44 anos, em 9 de maio de 1805. E \u00e9 em Weimar que o agora tamb\u00e9m fil\u00f3sofo e historiador Friedrich Schiller escreve seus principais dramas hist\u00f3ricos, j\u00e1 totalmente liberto dos efl\u00favios do pr\u00e9-romantismo. E \u00e9 neste per\u00edodo que surge um de seus mais conhecidos e aplaudidos dramas,\u00a0<em>Mary Stuart<\/em>, finalizado e encenado em 1800, no Teatro de Weimar, dirigido pelo pr\u00f3prio Schiller. Desde ent\u00e3o,\u00a0<em>Mary Stuart<\/em>\u00a0tem tido uma trajet\u00f3ria gloriosa pelos palcos mundo afora, chegando pela primeira vez ao Brasil em 1955, atrav\u00e9s do Teatro Brasileiro de Com\u00e9dia, com Ziembinski dirigindo duas de nossas grandes atrizes, as irm\u00e3s Cleyde Y\u00e1conis e Cacilda Becker, que protagonizaram, respectivamente, Elizabeth e Mary. E vale ressaltar. Com primorosa tradu\u00e7\u00e3o do nosso poeta Manuel Bandeira.<\/p>\n<p>A base dram\u00e1tica do texto\u00a0<em>Mary Stuart<\/em>\u00a0gira em torno dos conflitos pol\u00edtico e religioso entre as rainhas da Inglaterra e da Esc\u00f3cia, e que apenas refletem os tumultuados conflitos hist\u00f3ricos nas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-militares entre os dois pa\u00edses, que se estenderiam por v\u00e1rios s\u00e9culos. O direito ao trono ingl\u00eas, reivindicado por Mary, vem do casamento de seu av\u00f4, rei da Esc\u00f3cia, James IV, com Margarida Tudor, em 1503, ligando assim as duas casas, Tudor e Stuart. Acontece que sua prima Elizabeth era filha bastarda de Henrique VIII com Ana Bolena, e esta origem inc\u00f4moda tornar-se-ia o calcanhar de Aquiles do reinado da anglicana Elizabeth, no seu eterno embate com a cat\u00f3lica e leg\u00edtima herdeira ao trono da Inglaterra, Mary Stuart. \u00c9 destes embates que Schiller se valer\u00e1 para compor seu drama hist\u00f3rico. Schiller, artista intenso, de \u00edndole apaixonante, afeito a arroubos idealistas, n\u00e3o esconde seu encanto pela inconseq\u00fcente, impulsiva e exuberante rainha Mary Stuart. \u00c9 dela que trata o drama. Elizabeth, com todos os seus conflitos de poder, linhagem e inseguran\u00e7as afetivas, entra apenas como contraponto \u00e0 hero\u00edna de Schiller.<\/p>\n<p>No decorrer dos cinco atos em que se divide a pe\u00e7a, Schiller far\u00e1 um minucioso apanhado psicol\u00f3gico e moral das rainhas, trabalhando em versos i\u00e2mbicos, de rara beleza, as diferen\u00e7as entre as duas mulheres. Mas antes de entrarmos nesta discuss\u00e3o, vale colocar uma quest\u00e3o primordial. O processo criativo do artista que se utiliza de fatos reais e hist\u00f3ricos para compor sua obra art\u00edstica. Do dramaturgo ao escultor, do romancista ao pintor, este processo de transforma\u00e7\u00e3o da realidade em arte \u00e9 que coloca o artista como agente cultural da sua \u00e9poca.<\/p>\n<p>O fazer liter\u00e1rio de Schiller \u00e9 um exemplo cl\u00e1ssico de como o artista tem que ser criativo e corajoso para tirar o maior proveito poss\u00edvel de fatos hist\u00f3ricos para compor, com grandeza, sua obra art\u00edstica. Schiller tornara-se ao longo dos anos um conhecido historiador, e esta condi\u00e7\u00e3o de conhecedor da Hist\u00f3ria viria a ser uma fonte f\u00e9rtil e febril para a edifica\u00e7\u00e3o de sua magn\u00edfica obra teatral. E o texto\u00a0<em>Mary Stuart<\/em>\u00a0beberia avidamente de fatos hist\u00f3ricos para tra\u00e7ar o perfil pessoal de duas das grandes mulheres da hist\u00f3ria universal. Evidente, Schiller se debru\u00e7aria com mais vagar sobre a tumultuada trajet\u00f3ria de vida, p\u00fablica e privada, da inquieta Mary Stuart para escrever com vigor sua trag\u00e9dia bem composta. E vamos ver ao longo da obra, exemplos pontuais de como Schiller n\u00e3o segue \u00e0 risca a verdade hist\u00f3rica dos fatos que envolvem a pris\u00e3o e morte de sua personagem. E aqui est\u00e1 o verdadeiro art\u00edfice, que n\u00e3o se submete aos fatos reais para compor um painel hist\u00f3rico, mas usa, habilmente, destes fatos para compor uma grande obra liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ao iniciar o primeiro ato, Schiller j\u00e1 coloca Mary Stuart na pris\u00e3o. E se vale de um fato curioso para compor o n\u00facleo da trag\u00e9dia. Na vida real, as duas rainhas nunca se encontraram pessoalmente. Mary Stuart estivera presa no Castelo de Fotheringhay, distando mais ou menos cento e cinquenta quil\u00f4metros ao norte de Londres, a caminho da Esc\u00f3cia. Mas para Schiller este fato n\u00e3o o abala. O impulso que move a narrativa po\u00e9tica fabulada por ele \u00e9 o profundo desejo nutrido por Mary Stuart de se encontrar com sua rival, Elizabeth, onde Mary teria a oportunidade de expor, com s\u00faplica e veem\u00eancia, a sua inoc\u00eancia. Os dois primeiros atos preparam o encontro que se dar\u00e1 no terceiro, dedicado a relatar a famosa entrevista que a hist\u00f3ria jamais registrou. Por ironia, Elizabeth morreria sem deixar herdeiros, e o trono da Inglaterra seria ocupado pela linhagem escocesa dos Stuart, em 1603, na pessoa do filho de Mary Stuart, James I, restando \u00e0s primas e rainhas, despidas de seus sobrenomes, jazerem lado a lado, na Abadia de Westminster, onde est\u00e3o at\u00e9 hoje expostas \u00e0 visita de turistas.<\/p>\n<p>Para encerrar esta pequena discuss\u00e3o, entendemos que o artista que usa e abusa de fatos hist\u00f3ricos para compor sua obra n\u00e3o tem a obriga\u00e7\u00e3o do rigor no manuseio dos registros hist\u00f3ricos. N\u00e3o \u00e9 o objetivo a instru\u00e7\u00e3o, e sim o deleite. E obra alguma se encaixaria \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o no rigor hist\u00f3rico, o que comprometeria mortalmente seu valor art\u00edstico. Portanto, ao entrar em contato com obras que se fundamentam em fatos hist\u00f3ricos, h\u00e1 de se tomar o cuidado de separar estas duas inst\u00e2ncias, fic\u00e7\u00e3o e realidade, e ter em mente qual \u00e9 o real prop\u00f3sito da obra que se est\u00e1 lendo ou contemplando. Com certeza, n\u00e3o ser\u00e1 hist\u00f3rico. E, se o for, n\u00e3o ser\u00e1 arte. E neste ponto, a atitude criativa de Schiller nos chama sobremaneira a aten\u00e7\u00e3o, a habilidade do artista que soube como ningu\u00e9m moldar sua arte a partir de insumos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Cabe agora passarmos rapidamente em cada ato, para um breve apanhado de sua ess\u00eancia.<\/p>\n<p>O primeiro ato \u00e9 todo ele dedicado a Mary Stuart, j\u00e1 em sua pris\u00e3o, no castelo de Fortheringhay. O arcabou\u00e7o ps\u00edquico constru\u00eddo por Schiller para sua personagem vem, como j\u00e1 dito, de inspira\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, de que Schiller se vale para alavancar a trag\u00e9dia e dar a ela o salto heroico pretendido. Mary Stuart, ap\u00f3s levantes na Esc\u00f3cia, e depois de ter consentido no assassinato, por seu amante Bothwell, de seu marido Lord Darnley, foge para a Inglaterra, em busca de prote\u00e7\u00e3o da prima, a rainha Elizabeth. Mas \u00e9 logo acusada de tramar a morte da rainha inglesa, compl\u00f4 organizado por Parry e Babington, assistentes da rainha escocesa. Agora na pris\u00e3o, Mary manifesta seu desejo de ter uma entrevista com a rainha Elizabeth, e \u00e9 neste sentido, numa \u00faltima tentativa de provar sua inoc\u00eancia, que ela se movimenta. Mary Stuart \u00e9 vista como orgulhosa, mundana, mulher que n\u00e3o abriu m\u00e3o de seus sentimentos e de arroubos sexuais em submiss\u00e3o aos deveres da coroa. Ela \u00e9 constru\u00edda por Schiller como um ser humano real,\u00a0<em>\u201cde instintos naturais\u201d,<\/em>\u00a0como ele pr\u00f3prio o diz, n\u00e3o divino pela sua condi\u00e7\u00e3o majest\u00e1tica, mas algu\u00e9m que se dobra \u00e0s suas fraquezas e \u00e0s suas inclina\u00e7\u00f5es. Assim a define, logo no come\u00e7o, seu carcereiro Paulet, ao v\u00ea-la entrar.\u00a0<em>\u201cNas m\u00e3os o crucifixo; \/ No cora\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, lux\u00faria e orgulho.\u201d<\/em>\u00a0E o pr\u00f3prio, em outro verso acima, assim j\u00e1 havia descrito t\u00e3o astuciosa personagem que, mesmo estando presa, n\u00e3o cessava de conspirar contra o trono da Inglaterra.\u00a0<em>\u201cN\u00e3o h\u00e1 grade que nos garanta contra a ast\u00facia dela.\u201d<\/em>\u00a0Mary Stuart, se aparentemente se resigna \u00e0 sua sorte, n\u00e3o deixa de ter consci\u00eancia de sua dignidade. De sua boca saem as palavras que definem sua atitude altiva perante as difama\u00e7\u00f5es e acusa\u00e7\u00f5es que sobre ela recaem. Diz \u00e0 sua fiel ama, Ana Kennedy.\u00a0<em>\u201cBaixamente nos poder\u00e3o tratar, n\u00e3o rebaixar-nos.\u201d<\/em>\u00a0E surge ent\u00e3o a personagem fict\u00edcia criada por Schiller, Mortimer, figura d\u00fabia, cujos desenfreados sentimentos por Mary nos faz lembrar os bons tempos do romantismo, do qual Schiller, no come\u00e7o de sua carreira liter\u00e1ria, fora um dos grandes mestres. As promessas de Mortimer animam Mary; seus arroubos rom\u00e2nticos assustam-na. A Mortimer cabe alimentar em Mary a esperan\u00e7a da liberdade. Ele \u00e9 o arauto da legalidade, esta \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o prec\u00edpua que Schiller reserva a Mortimer, na defesa do direito ao trono da Inglaterra por Mary Stuart. E a consci\u00eancia do trono usurpado por Elizabeth \u00e9 t\u00e3o real, que Mortimer assim o diz a Mary.\u00a0<em>\u201cS\u00f3 a vossa morte garantir\u00e1 o trono dela.\u201d<\/em><\/p>\n<p>O segundo ato \u00e9 todo ele dedicado \u00e0 Elizabeth. Schiller procura apresentar Elizabeth ao p\u00fablico, e o faz dentro de uma perspectiva hist\u00f3rica sem retoques. Apresenta, em primeiro lugar, o que h\u00e1 de mais fr\u00e1gil na rainha. A sua origem. O fatalismo da linhagem bastarda e suas consequ\u00eancias ficam bastante claras na fala de Lord Davison. Diz ele, aplacando a preocupa\u00e7\u00e3o do Conde de Kent, quanto ao acordo de casamento da rainha com o consorte franc\u00eas.\u00a0<em>\u201cPara as n\u00fapcias caminha a soberana e para a morte a Stuart.\u201d<\/em>\u00a0Mas Schiller coloca Elizabeth a servi\u00e7o do povo. Destitu\u00edda de beleza e arroubos sentimentais, submete-se \u00e0 burocracia da Corte. Veja como Elizabeth se coloca, nestes belos versos. \u201c<em>Escravos s\u00e3o os reis de seu estado \/ E n\u00e3o podem ceder ao sentimento. \/ Foi sempre meu desejo n\u00e3o casar-me, \/ P\u00f4r minha gl\u00f3ria em que se lesse um dia \/ Na minha campa este epit\u00e1fio. \u201cAqui \/ Jaz a rainha virgem.\u201d\u201d<\/em>\u00a0Portanto, Elizabeth opta por sacrificar sua virgindade ao exerc\u00edcio de seu reinado como se um homem rei fosse. Sacrificar a virgindade, para Elizabeth, significava n\u00e3o sacrificar sua liberdade, para ela seu bem mais precioso. Ainda no Ato II, deixa clara sua posi\u00e7\u00e3o de rainha da Inglaterra, e mostra a for\u00e7a da sua governan\u00e7a, quando diz.\u00a0<em>\u201cAcolho de prefer\u00eancia o parecer daqueles que olham meus interesses.\u201d<\/em>\u00a0Esta \u00e9 Elizabeth, vigiando seu trono vinte e quatro horas por dia.<\/p>\n<p>Ainda no segundo ato, Schiller tra\u00e7a uma Elizabeth abatida pelo medo, que tem em m\u00e3os a senten\u00e7a de morte de Mary, votada unanimemente pelas duas casas, a C\u00e2mara dos Lordes e a C\u00e2mara dos Comuns, mas que cabe a ela assinar e dar a ordem de execu\u00e7\u00e3o. Vacilante ela, Schiller tra\u00e7a-nos o perfil de uma Elizabeth pouco confi\u00e1vel, que coloca os interesses do trono acima de tudo, defendendo-o, a despeito de qualquer lealdade. E Schiller d\u00e1 o golpe de miseric\u00f3rdia em Elizabeth quando assim define sua indecis\u00e3o. \u201c<em>assim, menos hesitar\u00e1 a assumir ante o mundo as apar\u00eancias da clem\u00eancia.\u201d<\/em>\u00a0Portanto, a pretensa clem\u00eancia \u00e9 o ref\u00fagio imoral de Elizabeth.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda a longa cena em que Leicester e Mortimer discutem as conveni\u00eancias de um e outro de tomarem parte na defesa da mulher que ambos amam, a Stuart. Um ama pela afoiteza, o outro, por ambi\u00e7\u00e3o sexual (n\u00e3o \u00e9 cobi\u00e7a o que se deseja libidinosamente?).<\/p>\n<p>Enquanto Elizabeth se lastima por n\u00e3o poder escolher o homem com quem se casaria por amor, por estar ela presa\u00a0<em>aos austeros deveres da realeza<\/em>, assim v\u00ea Mary Stuart, quando a ela se refere\u2026\u00a0<em>\u201cEla, a Stuart, conheceu-a, \/ A alegria maior de livremente \/ Conceder sua m\u00e3o a quem amava; \/ Tudo teve, bebeu at\u00e9 ao fundo \/ A ta\u00e7a dos prazeres e alegrias.\u201d<\/em>\u00a0Vejam como escapolem os ressentimentos, e a inveja da prima t\u00e3o cortejada pelos homens. E ainda exala.\u00a0<em>\u201c\u00c9 mais mo\u00e7a do que eu\u2026\u201d<\/em>\u00a0\u00c9 nesta diferen\u00e7a humana entre as duas que se selaria o destino do trono ingl\u00eas no pr\u00f3ximo s\u00e9culo, o XVII. A virgem n\u00e3o deixa herdeiro; a cortejada gera o filho, James VI, e o oferece ao trono da Inglaterra como James I, em sucess\u00e3o \u00e0 sua rival.<\/p>\n<p>Por fim, Elizabeth, ao final do Ato II, decide atender ao pedido de Mary Stuart, trazido por Lord Leicester, de ir a seu encontro, na pris\u00e3o. \u00c9 o que nos trar\u00e1 o terceiro ato.<\/p>\n<p>O terceiro \u00e9 o mais breve dos cinco atos. Neste, realiza-se o projeto de Schiller, provocando finalmente o encontro das duas rainhas. Schiller reescreve a hist\u00f3ria. Poderia ser um encontro hist\u00f3rico, se verdadeiro fosse. Schiller constr\u00f3i inicialmente uma Mary Stuart nervosa e submissa, que tanto se preparara para este encontro, mas que agora se v\u00ea com a voz esquecida e fr\u00e1gil. Ela que se preparara para pedir clem\u00eancia e liberdade, v\u00ea agora seu cora\u00e7\u00e3o corro\u00eddo pelo \u00f3dio e pelo despeito. Come\u00e7a se ajoelhando aos p\u00e9s de Elizabeth, mas, sentindo-lhe a frieza, a arrog\u00e2ncia e o esc\u00e1rnio, Mary rapidamente recupera a altivez, e aponta para a rival todo o seu furor de rainha usurpada. E suas \u00faltimas palavras provocam a ira e a imediata retirada de Elizabeth. Assim diz a Stuart.\u00a0<em>\u201cUma bastarda profanou o trono \/ Ingl\u00eas, o nobre povo de Inglaterra \/ Foi por uma astuciosa comediante \/ Ludibriado! Se direito houvesse \/ V\u00f3s \u00e9 que neste instante \u00e0s minhas plantas \/ Rojar\u00edeis no p\u00f3, pois eu sou o rei!\u201d<\/em>\u00a0Ao dizer estas palavras, em tom de desabafo, resgatando a sua hist\u00f3ria, Mary Stuart sabia que estava definitivamente selando seu tr\u00e1gico destino.<\/p>\n<p>O quarto ato \u00e9 dedicado todo ele \u00e0 Elizabeth, \u00e0s voltas com a press\u00e3o do povo para que assine a senten\u00e7a de morte de Mary. Schiller, espertamente, usa o povo para impulsionar seu drama. De um lado, h\u00e1 os que defendem a execu\u00e7\u00e3o imediata da escocesa, e, do outro, os que tentam evitar a morte de Mary, defendendo que seja mantida na pris\u00e3o, sem que a Inglaterra precise derramar o sangue divino de uma rainha. Nesta discuss\u00e3o, Schiller toma algumas liberdades hist\u00f3ricas para compor a tens\u00e3o dram\u00e1tica do Ato IV. Assim diz Burleigh, personagem hist\u00f3rico, um dos ferrenhos defensores da execu\u00e7\u00e3o.\u00a0<em>\u201cA senten\u00e7a j\u00e1 foi pronunciada: \/ O que falece agora \u00e9 execut\u00e1-la.\u201d<\/em>\u00a0Temos a voz do Conde de Shrewsbury, que na hist\u00f3ria real foi um dos que mais se empenharam pela execu\u00e7\u00e3o de Mary, mas que Schiller, para efeitos de constru\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, o coloca no lado oposto, mostrando o perigo da execu\u00e7\u00e3o da Stuart, neta dos reis da Inglaterra. Alerta ele.\u00a0<em>\u201cQuero apenas dizer-vos uma coisa: \/ Tremeis agora da Maria viva: \/ N\u00e3o \u00e9 esta que deve amedrontar-vos. \/ Tremei da morta, da decapitada. \/ Ela sair\u00e1 da campa nova deusa \/ Da disc\u00f3rdia, inflamando todo o reino \/ Em chamas de vingan\u00e7a, expelindo \/ De v\u00f3s o cora\u00e7\u00e3o do vosso povo.\u201d<\/em>\u00a0Fraca, mergulhada em sua indecis\u00e3o, Elizabeth nos traz o belo mon\u00f3logo de duas p\u00e1ginas, ao fim das quais assina a senten\u00e7a de Mary. E o faz proferindo estas palavras, que est\u00e1 na base de todo o conflito da trag\u00e9dia, e tamb\u00e9m do conflito hist\u00f3rico entre as duas rainhas. Diz ela, dirigindo-se, em seus pensamentos, \u00e0 rival.\u00a0<em>\u201cChamas-me de bastarda\u2026 Todavia \/ S\u00ea-lo-ei somente enquanto respirares. \/ A d\u00favida que paira sobre a minha \/ Origem principesca, hei de destru\u00ed-la \/ Destruindo-te! No dia em que os ingleses \/ J\u00e1 n\u00e3o tiverem que escolher, nascida \/ Serei ent\u00e3o de t\u00e1lamo leg\u00edtimo!\u201d<\/em>\u00a0Ap\u00f3s assinar a senten\u00e7a, descobre-se impotente para faz\u00ea-la ser executada. Imp\u00f5e a cruel tarefa a Davison, que implora precisar ouvir dela a ordem final. Elizabeth, apenas diz.\u00a0<em>\u201cDeixo ao vosso ju\u00edzo\u2026\u201d<\/em>\u00a0Mas, diante da insist\u00eancia do pobre secret\u00e1rio Davison, e do jogo d\u00fabio de esquivas de responsabilidades, Elizabeth retira-se, sem n\u00e3o antes dizer-lhe.\u00a0<em>\u201cFazei o que compete ao vosso cargo.\u201d<\/em>\u00a0Diante de tantas covardias, cabe ao Bar\u00e3o de Burleigh, o Grande Tesoureiro, o gesto definitivo, fazendo deste modo com que Schiller traga sua trag\u00e9dia para o eixo hist\u00f3rico, do qual ele, na busca de resultados art\u00edsticos, tantas vezes se desviara.<\/p>\n<p>\u00c9 bom ilustrar que a figura de reis e rainhas era divina, portanto, estavam acima de qualquer julgamento terreno. Condenar e levar \u00e0 morte um ente divino, reis e rainhas, portanto, necessitava de uma coragem acima das for\u00e7as comuns. E a morte de Mary Stuart acaba sendo a primeira execu\u00e7\u00e3o de uma rainha. Da\u00ed se entende as atitudes d\u00fabias de Elizabeth, t\u00e3o bem constru\u00eddas por Schiller. Ela estaria dando um passo al\u00e9m da hist\u00f3ria. Tanto \u00e9 verdade, que foram dezenoves anos de pris\u00e3o at\u00e9 a execu\u00e7\u00e3o de Mary, em 1587.<\/p>\n<p>Quinto ato. \u00c9 quando a hist\u00f3ria, no rastro da trag\u00e9dia, se consome. Diante da morte, Mary \u00e9 tomada de um profundo sentido religioso. Schiller nos mostra isto tanto nos di\u00e1logos, principalmente em seu mon\u00f3logo, como nas vestimentas e acess\u00f3rios sacros que ela traz consigo. E diante de seu querido e leal mordomo, Melvil, Mary assim o diz a ele, quando este se ajoelha diante de sua rainha.\u00a0<em>\u201cErguei-vos, pois viestes \/ Para assistir ao triunfo e n\u00e3o \u00e0 morte \/ De vossa soberana.\u201d<\/em>\u00a0Que todos os que estivessem ali se rejubilassem, pois a morte significaria a liberdade da vida eterna, diferente do tempo em que estivera na pris\u00e3o, esta, sim, motivo de tristeza e dor. E por ser cat\u00f3lica fervorosa, Mary, antes de colocar sua cabe\u00e7a real no cadafalso, precisava do mandamento da confiss\u00e3o e da comunh\u00e3o para estar preparada no seu encontro com o Deus Todo Poderoso. Mas seus algozes lhe negaram um padre que ministrasse os sacramentos. E Schiller, num arranjo c\u00eanico bem apropriado, carinhoso com sua hero\u00edna, apresenta Melvil, seu antigo mordomo, como sendo agora pertencente \u00e0s hostes eclesi\u00e1sticas da Igreja Romana. Portanto, Melvil, agora padre, estava ali para ouvir a confiss\u00e3o de Mary. Essa prepara\u00e7\u00e3o da estrutura do quinto ato nos faz crer que Schiller queria, a todo custo, deixar clara a inoc\u00eancia de Mary, acusada de tramar a morte da rainha Elizabeth. Numa p\u00e1gina de rara beleza e sensibilidade, Melvil vai conduzindo Mary \u00e0 confiss\u00e3o, incitando-a a revelar todos os pecados, sob pena de n\u00e3o receber o perd\u00e3o divino. At\u00e9 ela, ap\u00f3s nova insist\u00eancia de Melvil, declarar n\u00e3o ter mais nada a confessar. Portanto, a aus\u00eancia de qualquer outro pecado lhe garantia tamb\u00e9m a inoc\u00eancia no compl\u00f4 contra a vida de Elizabeth! Neste trecho, ao final da confiss\u00e3o, Schiller faz Mary dizer.\u00a0<em>\u201cFiz apelo \/ Aos reis da terra por que me livrassem \/ De cadeias indignas. Entretanto, \/ Nem mesmo em inten\u00e7\u00e3o, atentei contra \/ A vida da rainha.\u201d<\/em>\u00a0E com isso, o padre Melvil confirma-lhe a absolvi\u00e7\u00e3o.\u00a0<em>\u201cE eu, em virtude do poder que tenho \/ De atar e desatar, dou-vos, Rainha \/ A santa absolvi\u00e7\u00e3o!\u201d\u00a0<\/em>Desta forma, Schiller resgata Mary do erro hist\u00f3rico de sua condena\u00e7\u00e3o. Se Schiller a Mary reservou a expia\u00e7\u00e3o terrena, a Elizabeth ele concedeu a pena amarga da solid\u00e3o. A Burleigh, a quem coube, de livre iniciativa, executar a senten\u00e7a assinada por Elizabeth, esta o questiona. Pergunta ela.\u00a0<em>\u201cLord, dizei-me: \/ Recebestes de minhas m\u00e3os a ordem \/ De execu\u00e7\u00e3o?\u201d<\/em>\u00a0Burleigh retruca.\u00a0<em>\u201cN\u00e3o, minha soberana! \/ Recebi-a de Davison.\u201d<\/em>\u00a0Elizabeth continua a indag\u00e1-lo.\u00a0<em>\u201cE Davison, \/ Entregou-a em meu nome?\u201d<\/em>\u00a0E Burleigh diz.\u00a0<em>\u201cN\u00e3o, Rainha.\u201d<\/em>\u00a0E Elizabeth, ao se livrar da responsabilidade por levar Mary ao cadafalso, e depois de saber, tardiamente, da comprovada inoc\u00eancia de Mary, condena Burleigh com esta pergunta.\u00a0<em>\u201cE a executastes imediatamente \/ Sem indagar primeiro se era mesmo \/ Minha vontade?\u201d<\/em>\u00a0Diante da negativa de Burleigh, Schiller, maliciosamente, veste Elizabeth com as luvas de Pilatos.<\/p>\n<p>Em suma. Assim finalizados os cinco atos, podemos dizer que Schiller, enclausurado em sua genialidade, comp\u00f5e, em versos i\u00e2mbicos, uma das mais not\u00e1veis narrativas de personalidades que se sobrepuseram a uma vis\u00e3o sist\u00eamica da hist\u00f3ria. Schiller queria falar de Mary. Schiller se encantava por Mary. Mas, em momento algum, e a\u00ed est\u00e1 sua honestidade de artista, fez de Mary, v\u00edtima de erros hist\u00f3ricos, uma pobre coitada submetida aos horrores da clausura e do cadafalso. Schiller s\u00f3 quis, prov\u00e1vel, como historiador e como artista, resgatar a verdade hist\u00f3rica de Mary, em que se vislumbravam novos tempos acontecendo na Ilha de Inglaterra, e que se comprovaria no tumultuado s\u00e9culo seguinte, em que o pa\u00eds da revolu\u00e7\u00e3o industrial se preparava, mesmo que dolorosamente, para dominar a economia e os mares do mundo conhecido. Assim se fez Mary Stuart, nas m\u00e3os de Schiller, que, em momento algum, quis santific\u00e1-la, sen\u00e3o lan\u00e7ar luzes coloridas sobre esta personagem real que soube reconhecer seus erros e fez deste reconhecimento seu motivo de grandeza. Schiller nada mais pretendeu do que fazer jus \u00e0 verdadeira hist\u00f3ria. Uma hist\u00f3ria segundo ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1759, nasce, em Marbach, Johan Friedrich Schiller que, aos quarenta anos, j\u00e1 no final de sua curta vida, escreveria MARY STUART (1800), uma das grandes obras primas da literatura universal. 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