{"id":1273,"date":"2020-01-08T16:23:49","date_gmt":"2020-01-08T19:23:49","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1273"},"modified":"2020-12-25T18:18:32","modified_gmt":"2020-12-25T21:18:32","slug":"woyzeck","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/woyzeck\/","title":{"rendered":"Woyzeck"},"content":{"rendered":"<p>Interessante como este texto teatral, WOYZECK (1837), se mistura \u00e0 biografia de seu autor, Georg B\u00fcchner. N\u00e3o se trata, evidente, de uma autobiografia. Passa longe. Mas podia ter passado um pouco mais perto se B\u00fcchner, envolvido com a clandestinidade pol\u00edtica, tivesse sido preso, julgado e morto, como viria a acontecer com alguns de seus parceiros de luta. E como aconteceu com o Woyzeck real, condenado e decapitado, em pra\u00e7a p\u00fablica, em Leipzig, em 1824.\u00a0 Se B\u00fcchner tivesse morrido, \u00f3bvio, n\u00e3o teria escrito\u00a0<em>Woyzeck<\/em>, cujo fim tr\u00e1gico, o do Woyzeck real, muito impressionara B\u00fcchner. Mas B\u00fcchner conseguiu fugir a tempo, para Estrasburgo, na Fran\u00e7a, onde terminaria de se formar em medicina e se envolveria freneticamente com a escrita. No entanto, morre muito jovem, v\u00edtima de uma epidemia de tifo, aos vinte e tr\u00eas anos, em Zurique, na Su\u00ed\u00e7a. T\u00e3o jovem e j\u00e1 autor de uma obra seminal,\u00a0<em>Woyzeck<\/em>! Pois \u00e9. E, ainda por cima, inacabada. Morrera antes de termin\u00e1-la, e reside neste fato, talvez, o trunfo art\u00edstico de\u00a0<em>Woyzeck<\/em>. Obra composta de vinte e cinco cenas, distribu\u00eddas de forma aparentemente aleat\u00f3ria, algumas herm\u00e9ticas, outras mostrando uma superf\u00edcie liter\u00e1ria ainda \u00e1spera, mas todas numa sequ\u00eancia tr\u00e1gica impec\u00e1vel. O texto\u00a0<em>Woyzeck<\/em>\u00a0permaneceria d\u00e9cadas sem ser publicado, e por uma raz\u00e3o espantosa. A tinta preta da letra mi\u00fada de B\u00fcchner quase desaparecera em boa parte das p\u00e1ginas manuscritas, tornando impratic\u00e1vel sua leitura. O irm\u00e3o de Georg B\u00fcchner, Ludwig, que faria a publica\u00e7\u00e3o de parte da obra do irm\u00e3o, em 1850, n\u00e3o incluiria, nas publica\u00e7\u00f5es, o texto\u00a0<em>Woyzeck<\/em>. Somente em 1875, por uma feliz interven\u00e7\u00e3o de um processo qu\u00edmico, levada a cabo pelo escritor Karl Emil Franzos, faria com que a tinta preta fosse real\u00e7ada e trouxesse de volta as letras mi\u00fadas de B\u00fcchner, mesmo naquelas p\u00e1ginas em que a olho nu nada se podia ler. Tal fa\u00e7anha do destino aconteceria cinquenta anos ap\u00f3s a morte de Buchner, ocorrida em 1937. Uma hist\u00f3ria fant\u00e1stica, portanto, para um texto que pareceu ter nascido morto, mas que acabou por se tornar o texto teatral alem\u00e3o mais montado no mundo.<\/p>\n<p>No Brasil,\u00a0<em>Woyzeck<\/em>\u00a0recebeu v\u00e1rias montagens, com destaque para a de 2003, com Matheus Nachtergeale, de quem pegamos emprestado a imagem que ilustra esta resenha, e que teve a dire\u00e7\u00e3o de Cibele Forjaz.<\/p>\n<p>Georg B\u00fcchner desde cedo se transformara num jovem contestador, inquieto, atento aos desajustes sociais de grande parte da popula\u00e7\u00e3o, em uma \u00e9poca p\u00f3s-napole\u00f4nica, uma Europa em r\u00e1pido processo de industrializa\u00e7\u00e3o, e o homem, uma casca vazia e maltrapilha, come\u00e7ava a se tornar apenas um n\u00famero, sem amparo, sem assist\u00eancia, consumido pela m\u00e1quina produtiva, desesperan\u00e7ado, desprotegido por um Estado corrupto e ele pr\u00f3prio sem rumo, estas s\u00e3o algumas das muitas facetas de uma sociedade lucidamente captada pelo olhar genial de um B\u00fcchner que, pressentindo um mundo em transforma\u00e7\u00e3o, onde o homem comum n\u00e3o ocuparia seu lugar de direito, fez da for\u00e7a po\u00e9tica de sua literatura um grito de alerta, grito precoce, mas que repercutiria ao longo do tempo, chegando at\u00e9 os nossos dias. \u00c9 deste forno, apodrecido, cheirando a opress\u00e3o e descaso, que nasce\u00a0<em>Woyzeck<\/em>.<\/p>\n<p>Como muitos autores, Henrik Ibsen e Federico Garcia Lorca, s\u00f3 para citar dois exemplos, Georg B\u00fcchner tamb\u00e9m se aproveitou de um fato da vida real para transport\u00e1-lo para uma obra de arte ficcional. B\u00fcchner, talvez a partir da biblioteca de seu pai, entrara em contato com uma publica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de Johan Christian Woyzeck, um jovem andarilho, um ser disfuncional que, \u00f3rf\u00e3o, perambula por uma Alemanha devastada pela guerra, alistando-se aqui e ali em ex\u00e9rcitos que lhe oferecessem algum soldo. Dispensado, em 1818, por indisciplina, Christian Woyzeck retorna \u00e0 sua cidade natal, Leipzig, onde conhece, na pens\u00e3o onde viveria por algum tempo, a vi\u00fava e prom\u00edscua Johanna Christiane Woost. Fraco e sofrendo de del\u00edrios, ele tenta ainda buscar um espa\u00e7o naquele mundo em que ser pobre era uma fatalidade. Mas Woyzeck tinha dificuldades em aceitar a desenvoltura sexual da amante, vindo a esfaque\u00e1-la, em 1821. Preso, e ap\u00f3s uma sequ\u00eancia de interven\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, \u00e9 condenado e executado, em 27 de agosto de 1824. Estava pronta a tr\u00e1gica hist\u00f3ria do soldado Woyzeck, para que o jovem escritor Georg B\u00fcchner lhe desse o genial tratamento art\u00edstico. B\u00fcchner, com toda sua sensibilidade social e existencial, tra\u00e7a um cruel retrato do homem daqueles tempos de in\u00edcio de s\u00e9culo XIX, na Europa.<\/p>\n<p>A estrutura narrativa adotada por B\u00fcchner, fragmentada em cenas independentes, transcende sua \u00e9poca, primeira metade do s\u00e9culo XIX. Talvez uma obra nos moldes da po\u00e9tica aristot\u00e9lica n\u00e3o resistisse ao tempo, se inacabada. N\u00e3o foi problema para\u00a0<em>Woyzeck<\/em>, texto caracterizado por uma constru\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria inovadora, sem muito compromisso com as unidades de tempo e espa\u00e7o. Podemos dizer que os descompassos emocionais do protagonista, com seus comportamentos fragment\u00e1rios, a esmo, cercados de desvarios e desesperos, tenham facilitado B\u00fcchner na formula\u00e7\u00e3o da estrutura andarilha do texto. As cenas cabem em si mesmas, e, se destacadas do todo, n\u00e3o morrem, respiram, fortes, perenes. Este \u00e9 o segredo b\u00e1sico de\u00a0<em>Woyzeck<\/em>, e que lhe garantiu a sobreviv\u00eancia art\u00edstica, independente dos c\u00e2nones liter\u00e1rios da \u00e9poca. Os grandes autores do s\u00e9culo XX v\u00e3o sorver desta desconstru\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, tendo em Bertolt Brecht um de seus seguidores.<\/p>\n<p>O tr\u00e1gico \u00e9 a for\u00e7a que impulsiona o texto, de seu in\u00edcio, at\u00e9 desembocar no previs\u00edvel, se assim podemos dizer, desfecho. Como em um quebra cabe\u00e7a, podemos sentir a respira\u00e7\u00e3o ofegante da personagem em qualquer lugar em que esteja, encaixando-se \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o na perspectiva tr\u00e1gica planejada por B\u00fcchner. A vida pulsa, mas a morte permeia cada entrelinha, B\u00fcchner nos avisa. Eis um exemplo desta sutileza de estilo. Por Woyzeck. \u201c<em>\u2026 quando o marceneiro prepara as t\u00e1buas de um caix\u00e3o de defunto, ningu\u00e9m sabe quem ser\u00e1 metido l\u00e1 dentro.<\/em>\u201d. Woyzeck, um pobre coitado, como ele mesmo se reconhece, nada possui al\u00e9m de Marie, sua mulher e f\u00eamea, que o troca por um s\u00edmbolo de poder, o homem belo, o Tambor-mor, \u201c<em>um peito como um boi e uma barba como um le\u00e3o<\/em>\u201d. Deste modo, nada sobra a Woyzeck. Tiram-lhe tudo. Resta-lhe t\u00e3o somente a atitude derradeira.<\/p>\n<p>O Woyzeck real de B\u00fcchner sofre algumas altera\u00e7\u00f5es na trama ficcional, e mesmo n\u00e3o tendo o compromisso com o tempo e o espa\u00e7o, o autor posiciona a narrativa pr\u00f3xima \u00e0 trag\u00e9dia, e de uma forma inovadora consegue tra\u00e7ar uma realidade mitificada do estado emocional da personagem que, presa ao vazio existencial, e \u00e0 condena\u00e7\u00e3o social, se rebela, mesmo que de forma esgar\u00e7ada, contra aquele mundo que o oprime e nada lhe oferece al\u00e9m da mis\u00e9ria material e do julgamento moral. Abatido,\u00a0<em>Woyzeck<\/em>\u00a0mant\u00e9m sua lucidez. Quando o Capit\u00e3o questiona sua moral, por ter Woyzeck um filho sem a ben\u00e7\u00e3o da Igreja, Woyzeck retruca. \u201c<em>Deus vai olhar para o vermezinho mesmo sem o coitado dizer am\u00e9m antes de ser gerado<\/em>.\u201d. E diante da rea\u00e7\u00e3o do Capit\u00e3o \u00e0 fala de Woyzeck, este continua. \u201c<em>A gente, os pobres\u2026 Veja, senhor capit\u00e3o, o dinheiro, o dinheiro! Quem n\u00e3o tem nenhum tost\u00e3o vai l\u00e1 pensar na moral do mundo! A gente \u00e9 de carne e osso. A gente \u00e9 pecador neste mundo e no outro mundo. Eu acho que quando a gente chegar no c\u00e9u, vai ser para ajudar a fazer os trov\u00f5es.<\/em>\u201d. Estas palavras poderiam muito bem caber na boca de B\u00fcchner. E este nos parece ser o ponto m\u00e1gico do seu texto. Talvez pressentindo a morte, que o rondava fazia anos, Georg B\u00fcchner se aproveitou da hist\u00f3ria tr\u00e1gica de Johan Christian Woyzeck, homem fruto de uma \u00e9poca de miser\u00e1veis, para perpetuar em obra de arte aquilo pelo qual ele sempre lutou. E tanto desejou. Que o homem, verdadeiramente, fosse dono leg\u00edtimo do seu tempo e espa\u00e7o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Interessante como este texto teatral, WOYZECK (1837), se mistura \u00e0 biografia de seu autor, Georg B\u00fcchner. N\u00e3o se trata, evidente, de uma autobiografia. Passa longe. 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