{"id":1285,"date":"2019-10-11T16:54:37","date_gmt":"2019-10-11T19:54:37","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1285"},"modified":"2021-11-02T16:31:25","modified_gmt":"2021-11-02T19:31:25","slug":"a-importancia-de-ser-constante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/a-importancia-de-ser-constante\/","title":{"rendered":"A Import\u00e2ncia De Ser Constante"},"content":{"rendered":"<p>Oscar Wilde (1854-1900) marcou seu tempo n\u00e3o somente com sua literatura exuberante, mas tamb\u00e9m com suas cr\u00edticas mordazes \u00e0 sociedade vitoriana daquele final de s\u00e9culo XIX, na Inglaterra. Sem contar, l\u00f3gico, o fasc\u00ednio que seu charme de intelectual incontrol\u00e1vel exercia pelos sal\u00f5es e teatros londrinos. Por onde passava, Oscar Wilde ia deixando um rastro de eleg\u00e2ncia extravagante e um senso de est\u00e9tica que se impunha como original e contestadora. Sua ode \u00e0 beleza era sua arma art\u00edstica. Uma de suas obras mais festejadas,\u00a0<em>A Import\u00e2ncia de ser Constante<\/em>, de 1894, com estreia em 14 de fevereiro de 1895, no Teatro St. James, acaba por representar o auge liter\u00e1rio e social de Oscar Wilde. A partir daquela noite de estreia, de retumbante sucesso, inicia-se a sua triste e absurda queda. Era a m\u00e3o pesada da moral vitoriana esmagando o homem Oscar, que, apesar da bravura com que lutou, n\u00e3o conseguiu vencer o \u00f3dio e o preconceito. Julgado por sodomia, vilipendiado na sua homossexualidade, ap\u00f3s dois anos de pris\u00e3o, foi viver e morrer em Paris, onde vestiria a m\u00e1scara do pseud\u00f4nimo como forma de sobreviver, no anonimato, com o pouco de dignidade que lhe restara.<\/p>\n<p>Estamos, em\u00a0<em>A Import\u00e2ncia de ser Constante<\/em>, diante de uma obra peculiar, onde a intelig\u00eancia viperina, aliada ora \u00e0 ironia ora \u00e0 farsa, determina o ponto de equil\u00edbrio entre a lucidez de algu\u00e9m que quer enxergar por tr\u00e1s das apar\u00eancias e, ao mesmo tempo, revelar, sem meias medidas, a estatura an\u00e3 de uma sociedade encharcada de hipocrisia e futilidades. Oscar Wilde n\u00e3o poupa ningu\u00e9m. Muito menos suas personagens. Tritura-as no caldeir\u00e3o das verdades escancaradas. Mas poupa-lhes uma coisa. O dissabor da derrota. Ali\u00e1s, derrota, esta palavra amarga, era uma possibilidade que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o passava pela cabe\u00e7a do festejado dramaturgo irland\u00eas.<\/p>\n<p>Jack \u00e9 o nome do protagonista. Vive no campo, cuidando da sua protegida Cec\u00edlia, uma bela e f\u00fatil jovem que retrata o cotidiano que gira em torno de entediantes roldanas sociais. Mas Jack n\u00e3o se satisfaz com esta vidinha de fingimentos buc\u00f3licos. Ele quer mandar as conven\u00e7\u00f5es \u00e0s favas, ele quer se contrapor ao sistema, ele quer vida pr\u00f3pria. Para tanto, de tempos em tempos, vai \u00e0 Londres, com o pretexto de tomar conta de seu irm\u00e3o Constante, que muitas afli\u00e7\u00f5es lhe causa. O irm\u00e3o \u00e9 um doidivanas! Um inconsequente! Um desajustado! Ora, Constante, o irm\u00e3o, \u00e9 ele pr\u00f3prio, Jack, o irm\u00e3o de si mesmo!<\/p>\n<p>Esta \u00e9 trama da pe\u00e7a. Ela gira em torno da confus\u00e3o de nomes. O jogo de se esconder atr\u00e1s de nomes fict\u00edcios \u00e9 o \u00e1libi perfeito para algu\u00e9m que pretende usufruir, que sejam por alguns momentos, do prazer de ser livre numa sociedade conduzida por regras sociais e etiquetas morais t\u00e3o r\u00edgidas que mais poder\u00edamos nos sentir estar vivendo em um tabuleiro. Em\u00a0<em>A Import\u00e2ncia de Ser Constante<\/em>, a duplicidade de nomes determina dois modos de vida. Um, o real. Outro, o desej\u00e1vel.<\/p>\n<p>Numa de suas idas a Londres, com o pretexto de visitar o irm\u00e3o, Jack, apresentando-se, \u00f3bvio, como Constante, conhece e se apaixona por Gwendolen Fairfax. Gwendolen adorou o nome. Constante! E logo declara. S\u00f3 se casaria com algu\u00e9m que se chamasse Constante. O apaixonado Jack ainda faz a Gwendolen a seguinte pergunta. E se ele se chamasse Jack, em vez de Constante? A resposta de Gwendolen n\u00e3o \u00e9 nada animadora. Ela n\u00e3o se casaria jamais com algu\u00e9m que se chamasse Jack!<\/p>\n<p>Ainda bem que o desfecho que Oscar Wilde d\u00e1 \u00e0 sua pe\u00e7a pretende oferecer uma supremacia da ess\u00eancia sobre apar\u00eancia. Nesse contexto, podemos afirmar, com seguran\u00e7a, que o nome de batismo faz parte de n\u00f3s desde o nascimento, portanto, \u00e9 nossa ess\u00eancia. \u00c9 neste jogo paradoxal que Oscar Wilde constr\u00f3i sua estrutura narrativa quando, no final, a verdade se estabelece. Que \u00e9 quando Jack descobre que seu nome de batismo n\u00e3o era Jack, e sim, pasmem, Constante! Portanto, no trato cotidiano da sociedade inglesa, o que era para ser ess\u00eancia, Jack, vira apar\u00eancia. E o que era para ser apar\u00eancia, Constante, vira ess\u00eancia.<\/p>\n<p>E aqui entra o humor viperino de Oscar Wilde. Jack, ao descobrir que seu nome de batismo n\u00e3o \u00e9 Jack e sim Constante, d\u00e1 a Gwendolen, a amada, a oportunidade de festejar, posto que ela finalmente iria se casar com algu\u00e9m que se chamava Constante. Que \u00e9 quando ela diz a Constante, \u201c<em>Sabia desde o in\u00edcio que voc\u00ea n\u00e3o poderia ter outro nome!<\/em>\u201d. No que Jack, agora Constante, retruca \u201c<em>Gwendolen, \u00e9 triste para um homem descobrir de repente que durante toda a sua vida s\u00f3 falou a verdade. Pode me perdoar?\u201d<\/em>. E Gwondolen,\u00a0<em>\u201cPosso, pois sei que voc\u00ea vai mudar.\u201d<\/em>. Este \u00e9 o diapas\u00e3o sarc\u00e1stico do texto!<\/p>\n<p>Poucos autores encontraram na for\u00e7a de suas palavras e na grandeza de sua arte o pretexto para sua derrocada pessoal. Podemos lembrar Federico Garcia Lorca e seus embates com a burguesia de Granada, na Espanha. Se atos como estes, o linchamento de Oscar Wilde e o fuzilamento de Lorca, s\u00e3o s\u00edmbolos de covardia social, se significam o desmascaramento do preconceito como r\u00e9gua de nivelamento da mediocridade na esfera do \u00f3bvio, por outro lado, atitudes pessoais de artistas como Wilde e Lorca nos permitem pensar que a arte \u00e9 a principal express\u00e3o da vontade espiritual humana, posto que, enquanto as religi\u00f5es nos remetem a um Deus a que n\u00e3o controlamos, a arte nos remete ao artista como motor da evolu\u00e7\u00e3o humana. Podemos at\u00e9 controlar o artista, mas sabemos que, mais cedo ou mais tarde, iremos nos render a ele, pois a rendi\u00e7\u00e3o \u00e0 arte como condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia humana \u00e9 inevit\u00e1vel. O artista traz o pensamento filos\u00f3fico simplificado em prazer. E este prazer pode ser um bem comum, pelo qual temos que lutar, impedindo que venham, na calada da noite, no-lo surrupiar. Por isso ser imprescind\u00edvel protegermos o artista como forma de nos proteger. Foi o que n\u00e3o aconteceu com Oscar Wilde e Federico Garcia Lorca. Mataram o artista, sim, mas jamais a sua arte. Que est\u00e1 a\u00ed, viv\u00edssima.<\/p>\n<p>Cabe aqui tamb\u00e9m uma r\u00e1pida abordagem da obra de Eug\u00e8ne Ionesco,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.assistoporquegosto.com.br\/blog\/index.php\/a-cantora-careca\/\">A\u00a0<em>Cantora Careca\u00a0<\/em><\/a>(1949), que significativamente reverbera ecos lingu\u00edsticos e estruturais de\u00a0<em>A Import\u00e2ncia de ser Constante<\/em>. \u00c9 certo que Ionesco tinha conhecimento da obra de Oscar Wilde. Os ritos lingu\u00edsticos, emprenhados de um humor que supura o \u00f3bvio, \u00e9 levado, por Ionesco, \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. Obras \u00edmpares, \u00fanicas, mas que det\u00eam semelhan\u00e7as construtivas. E podemos ir al\u00e9m. Evidenciar a perspic\u00e1cia art\u00edstica de Ionesco. Ele sabia que, mesmo sendo ele um romeno vivendo em Paris, jamais poderia ambientar\u00a0<em>A Cantora Careca<\/em>\u00a0em outro lugar que n\u00e3o fosse Londres. Todo o vigor cultural e humor\u00edstico do texto se perderia. Como j\u00e1 havia determinado cinquenta anos antes Oscar Wilde, s\u00f3 Londres e mais nenhum outro lugar teria a capacidade de oferecer a estes dois autores as obras primas que eles gestaram. No caso de Oscar Wilde, o precursor, restava-lhe, como um arrematado d\u00e2ndi, tentar salvar-se numa Londres que o festejava enquanto o destru\u00eda.<\/p>\n<p>Oscar Wilde distribui as p\u00e9rolas venenosas na boca de cada personagem, formando um mosaico fant\u00e1stico de intelig\u00eancias que revelam o submundo do pensamento vitoriano. N\u00e3o h\u00e1 meias palavras. O caminho mais seguro da ironia \u00e9 a sinceridade, que \u00e9 quando, com a pretensa inten\u00e7\u00e3o de destruir a mentira, voc\u00ea a entroniza, confundindo, em um primeiro momento, o leitor, para logo em seguida mostrar que obras primas como\u00a0<em>A Import\u00e2ncia de Ser Constante<\/em>\u00a0exp\u00f5e seu valor hist\u00f3rico, para l\u00e1 do liter\u00e1rio, como forma, n\u00e3o de moldar o pensamento de uma sociedade, mas para mostrar a ela como ela tem que se enxergar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oscar Wilde (1854-1900) marcou seu tempo n\u00e3o somente com sua literatura exuberante, mas tamb\u00e9m com suas cr\u00edticas mordazes \u00e0 sociedade vitoriana daquele final de s\u00e9culo XIX, na Inglaterra. Sem contar, l\u00f3gico, o fasc\u00ednio que seu charme de intelectual incontrol\u00e1vel exercia pelos sal\u00f5es e teatros londrinos. 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