{"id":1592,"date":"2021-02-08T18:01:10","date_gmt":"2021-02-08T21:01:10","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1592"},"modified":"2021-02-10T07:49:58","modified_gmt":"2021-02-10T10:49:58","slug":"sem-destino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/sem-destino\/","title":{"rendered":"Sem Destino"},"content":{"rendered":"<p>O filme SEM DESTINO (95\u2019), dire\u00e7\u00e3o de Dennis Hooper, Estados Unidos (1969), parece, \u00e0 primeira vista, ter-se fixado l\u00e1 atr\u00e1s, em uma \u00e9poca que ele t\u00e3o bem retrata, mas que j\u00e1 n\u00e3o mais existe. Esta pode ser a sua fragilidade. Ser um cinema datado. O filme de uma gera\u00e7\u00e3o. Mas hoje, olhando \u00e0 dist\u00e2ncia, com as lentes da hist\u00f3ria (do cinema), vemos que o filme vai al\u00e9m de apenas representar a tumultuada d\u00e9cada de 1960. Foi uma d\u00e9cada de muita agita\u00e7\u00e3o cultural, que levaria multid\u00f5es, principalmente os jovens, a sonharem com outras realidades poss\u00edveis. Foi uma \u00e9poca em que couberam os sonhos de liberdade (\u00e0s vezes total), as contesta\u00e7\u00f5es ao que era opressivo, dominador e vigente, os grandes protestos contra a voracidade do capital e a gan\u00e2ncia militar americana. O que o filme vem nos mostrar \u00e9 que estes sonhos libert\u00e1rios foram se distanciando perigosamente da realidade. Para muitos, <em>Sem Destino<\/em> coloca a p\u00e1 de cal que encerra a contracultura. Era o ano de 1969, e o mundo aos poucos ia voltando a ser como ele sempre foi.<\/p>\n<p>O que coloca o filme <em>Sem Destino<\/em> para al\u00e9m da sua \u00e9poca foi ter sido ele produzido fora dos padr\u00f5es hollywoodianos, o que obrigou Hollywood a sair do marasmo criativo e ir em busca de novas alternativas art\u00edsticas, al\u00e9m de ter que remodelar seus modos de produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica. Surgem da\u00ed novos conte\u00fados dram\u00e1ticos, novas est\u00e9ticas, diretores em ascens\u00e3o com mais liberdade de decidirem que ideias colocarem nas telas. Era o come\u00e7o do cinema de autor, uma autoria preocupada em falar o que o p\u00fablico queria ouvir. O chef\u00e3o do est\u00fadio teve que ficar um pouco mais manso, e menos ran\u00e7oso.<\/p>\n<p>Nesta perspectiva, vemos um quase inexperiente Dennis Hooper se aventurando na dire\u00e7\u00e3o do filme. E seu companheiro de estrada, agora tamb\u00e9m produtor Peter Fonda, disposto a botar a m\u00e3o na massa para al\u00e9m dos closes das c\u00e2meras. As mudan\u00e7as de atitude perante o fazer cinema vieram possibilitar voos art\u00edsticos mais ousados e mais pr\u00f3ximos do p\u00fablico. Para isso bastava ter ideias claras e criativas que pudessem ser filmadas. Nisto <em>Sem Destino<\/em> \u00e9 inquestion\u00e1vel. Ele foi a ruptura de uma era que chegava a seu esgotamento. E teve a capacidade de resumir uma d\u00e9cada com a simplicidade da arte. Est\u00e1 certo que a primeira vers\u00e3o do filme chegou a quase quatro horas de dura\u00e7\u00e3o, o que obrigou a edi\u00e7\u00e3o a afiar a tesoura e ir cortando, at\u00e9 chegar na bela montagem de apenas 90 minutos. O suficiente para dizer o que tinha que ser dito.<\/p>\n<p>Dois motoqueiros, Wyatt e Billy (refer\u00eancia aos dois famosos her\u00f3is do faroeste, Wyatt Earp e Billy The Kid) \u2014 respectivamente Peter Fonda e Dennis Hooper \u2014, ganham a vida traficando drogas a partir do M\u00e9xico. Depois de uma grande e rendosa negociata, resolvem acionar os motores de suas possantes motos rec\u00e9m-adquiridas e pegar a estrada. A sinopse do filme, portanto, \u00e9 uma linha reta tra\u00e7ada por rodovias tortuosas, que sai do M\u00e9xico, percorre o sul dos Estados Unidos, at\u00e9 chegar a New Orleans, onde os dois pretendem passar o Mardi Gras (carnaval). E eles t\u00eam apenas uma semana para percorrer o longo trajeto.<\/p>\n<p>Enquanto aceleram, v\u00e3o encontrando pelo caminho belas paisagens, que o filme mostra em demoradas sequ\u00eancias, e sempre acompanhadas por uma bem selecionada trilha sonora \u2014 as m\u00fasicas s\u00e3o um item de luxo no filme. Passam por situa\u00e7\u00f5es t\u00edpicas de quem viaja pelo interior e se envolve em epis\u00f3dios nem sempre agrad\u00e1veis, evidenciando o perigoso embate entre o retr\u00f3gado sul dos Estados Unidos e a irrever\u00eancia da cultura hippie. Este \u00e9 o roteiro. Ali\u00e1s, um quase n\u00e3o roteiro. Peter Fonda e Dennis Hopper tinham uma ideia de fazer algo assim&#8230; que fosse parecido com um <em>road movie<\/em>. Surfando em alucin\u00f3genos, foram organizando suas id\u00e9ias at\u00e9 coloc\u00e1-las em a\u00e7\u00e3o. Pegaram a estrada, s\u00f3 pra ver no que ia dar. E deu no que deu. Um cl\u00e1ssico do cinema.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 certo que o filme n\u00e3o foi um simples e feliz acidente. A estrutura narrativa \u00e9 bem pensada, bem amarrada, e sua condu\u00e7\u00e3o para o desfecho \u00e9 de uma precis\u00e3o tal que n\u00e3o h\u00e1 quem n\u00e3o se surpreenda com o final. At\u00e9 cenas aparentemente insignificantes, e aqui damos um exemplo, t\u00eam sua fun\u00e7\u00e3o na arquitetura dram\u00e1tica da narrativa. No come\u00e7o do filme, prestes a pegar a estrada, j\u00e1 acelerando sua moto, Wyatt \u2014 tamb\u00e9m conhecido como Capit\u00e3o Am\u00e9rica, em fun\u00e7\u00e3o do seu figurino raiz, desfraldando v\u00e1rias bandeiras americanas nas roupas e na moto \u2014 olha para o rel\u00f3gio, consulta as horas, depois tira o rel\u00f3gio do pulso e o joga fora. Eis uma atitude bem contracultura. Dane-se o tempo, a liberdade \u00e9 minha!<\/p>\n<p>Ainda evidenciando a intelig\u00eancia narrativa do filme, vale lembrar que o cen\u00e1rio escolhido foi o sul dos Estados Unidos, um ambiente sabidamente retr\u00f3grado, preconceituoso e culturalmente fragmentado. \u00c9 deste ambiente hostil que a dramaturgia se sustenta e leva a seu fim tr\u00e1gico. Eis o oportunismo criativo dos roteiristas Dennis Hopper, Peter Fonda e Terry Southern.<\/p>\n<p>Devemos concentrar a an\u00e1lise do filme em duas cenas em sequ\u00eancia, porque est\u00e1 nelas a base conceitual do filme.<\/p>\n<p>A primeira cena \u00e9 ilustrativa. A segunda \u00e9 uma reflex\u00e3o sobre a primeira. E para que estas reflex\u00f5es chegassem aos dois motoqueiros, fez-se necess\u00e1ria a introdu\u00e7\u00e3o de uma terceira personagem. No meio do caminho, ap\u00f3s uma inc\u00f4moda interven\u00e7\u00e3o dos motoqueiros em um desfile c\u00edvico em uma das pequenas cidades do interior, os estranhos s\u00e3o levados \u00e0 delegacia e presos. Na cela, encontram o advogado George Hanson, um p\u00e2ndego alco\u00f3latra <em>playboy<\/em>, que funcionar\u00e1 como o ponto de consci\u00eancia sobre tudo o que est\u00e1 acontecendo nos Estados Unidos. Ser\u00e1 da boca de George, na espetacular interpreta\u00e7\u00e3o de Jack Nicholson, que o levaria a ser indicado \u00e0 estatueta de Melhor Ator Coadjuvante, que n\u00f3s espectadores, de qualquer \u00e9poca, ouviremos as explana\u00e7\u00f5es sobre o que acontece (aconteceu) na d\u00e9cada de 1960.<\/p>\n<p>A primeira cena, como colocada acima, s\u00e3o os tr\u00eas (j\u00e1 que o advogado topou seguir de carona com os motoqueiros at\u00e9 New Orleans) sentados em uma lanchonete, em mais uma cidadezinha sulista. O pouco tempo que ali ficam, presenciam uma avalanche de preconceitos que s\u00e3o lan\u00e7ados contra eles, sem nenhuma retic\u00eancia. \u00c9 o atraso cultural em sua mais perfeita insol\u00eancia. Percebendo a press\u00e3o, as ofensas e as amea\u00e7as, os tr\u00eas resolvem se retirar e seguir caminho rumo ao Mardi Gras.<\/p>\n<p>A segunda cena que se segue \u00e9 a que explica a anterior e prepara o desfecho. E aqui entra a personagem George Hanson, em di\u00e1logo com Billy, enquanto Waytt, mais ap\u00e1tico, apenas observa. George vai mostrar a Am\u00e9rica se estranhando com a contracultura (cultura hippie). \u00a0\u00c9 a cultura da contesta\u00e7\u00e3o, dos cabelos longos, da maconha, do amor livre, dos figurinos estranhos, cultura que \u00e9 contra o opressivo modelo capitalista, contra o genoc\u00eddio no Vietn\u00e3&#8230; George Hanson diz. \u201cEles n\u00e3o t\u00eam medo de voc\u00eas, mas do que voc\u00eas representam\u201d. No que Billy responde. \u201cPara eles n\u00f3s representamos algu\u00e9m que devia cortar os cabelos\u201d. E George retruca. \u201cN\u00e3o! Para eles voc\u00eas representam a liberdade\u201d. \u00c9 neste ponto que a personagem do advogado se encaixa \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o no roteiro do filme. Filho de industrial, mas libert\u00e1rio, ele faz a ponte entre o sistema e a contracultura. \u201cMas a liberdade \u00e9 poss\u00edvel!\u201d \u2014 contesta Billy, que esquece o fato de que o tanque de sua moto est\u00e1 cheio de d\u00f3lares sujos. George Hanson fecha as portas da liberdade ao dizer. \u201c\u00c9 dif\u00edcil ser livre quando se \u00e9 comprado e vendido no mercado\u201d. Eis a p\u00e1 de cal. N\u00e3o foi poss\u00edvel varrer o capitalismo da face da terra. Tampouco o capitalismo que est\u00e1 entranhado no hippie Billy.<\/p>\n<p>A repercuss\u00e3o da cena acima vai acontecer l\u00e1 na frente, j\u00e1 no encaminhamento do desfecho, pela boca, agora sim, de um Wyatt desencantado, quando ele conclui que \u201cn\u00f3s estragamos tudo\u201d. Esta \u00e9 a frase oculta do filme, sobre a qual recaem in\u00fameras interpreta\u00e7\u00f5es. E talvez o segredo da interpreta\u00e7\u00e3o esteja na frase seguinte, agora de Billy. \u201cVoc\u00ea fatura uma grana alta e a\u00ed \u00e9 livre, sacou?\u201d. O dinheiro traz liberdade, este \u00e9 um dos lemas (falso) mais queridos do capitalismo. Ao se agarrar ao dinheiro, de fato estragaram tudo.<\/p>\n<p>Em suma. O belo filme <em>Sem Destino<\/em> representa a car\u00e1ter uma gera\u00e7\u00e3o, uma d\u00e9cada, um tempo que se foi. Houve sonhos, houve esperan\u00e7as, mas a engrenagem da hist\u00f3ria \u00e9 t\u00e3o r\u00edgida, t\u00e3o inexor\u00e1vel, que faz nos sentirmos seres indefesos diante do determinismo hist\u00f3rico que nos aprisiona, nos frustra e nos faz agir como se f\u00f4ssemos apenas agentes de destinos sobre os quais n\u00e3o temos a menor inger\u00eancia, e muito menos o controle. Isto tanto \u00e9 verdade que podemos, a qualquer momento, sermos abatidos feito uma mosca. Ah, mas ainda nos restam os sonhos renovados! As esperan\u00e7as de nos livrarmos desta condena\u00e7\u00e3o de n\u00e3o pertencermos a n\u00f3s mesmos! Afinal, somos seres pensantes, seres providos de vontade e capazes de escolhas. Estas d\u00e1divas ningu\u00e9m nos tira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O filme SEM DESTINO (95\u2019), dire\u00e7\u00e3o de Dennis Hooper, Estados Unidos (1969), parece, \u00e0 primeira vista, ter-se fixado l\u00e1 atr\u00e1s, em uma \u00e9poca que ele t\u00e3o bem retrata, mas que j\u00e1 n\u00e3o mais existe. Esta pode ser a sua fragilidade. Ser um cinema datado. O filme de uma gera\u00e7\u00e3o. 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