{"id":1648,"date":"2021-04-29T18:35:47","date_gmt":"2021-04-29T21:35:47","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1648"},"modified":"2021-07-10T15:02:10","modified_gmt":"2021-07-10T18:02:10","slug":"meu-pai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/meu-pai\/","title":{"rendered":"Meu Pai"},"content":{"rendered":"<p>O filme MEU PAI (98\u2019), dire\u00e7\u00e3o de Florian Zeller, Fran\u00e7a\/Reino Unido (2020), nos remete a uma verdade absoluta. A de que a velhice est\u00e1 \u00e0 nossa espera. Chegaremos at\u00e9 ela. Ou ela vir\u00e1 at\u00e9 n\u00f3s, tanto faz. Este retrato de realidade nos \u00e9 apresentado com a crueza das situa\u00e7\u00f5es cotidianas, maximizadas pela pungente interpreta\u00e7\u00e3o de Anthony Hopkins. Do alto dos seus 83 anos, o ator sabe do que est\u00e1 falando. \u00c9 a espantosa percep\u00e7\u00e3o de que Anthony (o nome da personagem coincide com o do ator) est\u00e1 perdendo, pouco a pouco, o vi\u00e7o tempor\u00e1rio da vida. Sabendo da impossibilidade de conter os efeitos devastadores da velhice, ele se entrega a um desespero nem sempre silencioso, \u00e0s vezes c\u00e1ustico, na tentativa de se manter \u00e0 tona. Tenta a todo custo evitar o mergulho definitivo. O filme <em>M<\/em><em>eu Pai<\/em>, sem precisar recorrer a grandes piruetas dram\u00e1ticas, desnuda esta realidade. Os passos titubeantes do homem em dire\u00e7\u00e3o a sua finitude. E, neste caminho \u2014 eis o drama armado pelo roteiro \u2014, a personagem se depara com os sintomas destrutivos da dem\u00eancia senil. Olha \u00e0 sua volta e n\u00e3o mais reconhece o mundo que est\u00e1 deixando para tr\u00e1s. N\u00e3o bastasse o maravilhoso roteiro e as atua\u00e7\u00f5es memor\u00e1veis de Anthony Hopkins e Ol\u00edvia Colman, temos a dire\u00e7\u00e3o precisa e criativa de Florian Zeller, jovem dramaturgo franc\u00eas e diretor iniciante que soube magistralmente trazer para as telas a inevit\u00e1vel dor do envelhecimento.<\/p>\n<p>O filme oferece ao p\u00fablico, logo em seu in\u00edcio, a circunst\u00e2ncia dram\u00e1tica que desencadear\u00e1 a trama. \u00c9 quando a filha Anne diz ao pai que ela est\u00e1 prestes a se mudar para Paris. Ela precisa acompanhar o namorado rec\u00e9m-conquistado. Eis o ponto de partida e o ponto de tens\u00e3o. Enquanto o pai decai lentamente na dem\u00eancia senil, momentos em que ele mais necessitar\u00e1 do aporte afetivo dos familiares, sua \u00fanica filha anuncia que est\u00e1 batendo em retirada. \u00c9 o an\u00fancio do abandono. Assustado, ele perambula entre del\u00edrios e realidades, amparado por uma mem\u00f3ria cada vez mais fr\u00e1gil. Ao recusar a ajuda de uma cuidadora, nada mais faz que precipitar o abandono.<\/p>\n<p><em>Meu Pai<\/em> tem que ser entendido como um recorte de vida. Uma condensa\u00e7\u00e3o de fatos. Tudo transcorre dentro de um limitado espa\u00e7o de tempo. A continuidade do figurino da filha Anne (a bata azul) define essa curta temporalidade. S\u00e3o menos de dois dias, mas tempo suficiente para expor os assustadores dilemas da personagem. Anthony sobrevive de lapsos de realidade, como ser\u00e1 constatado na \u00faltima e bel\u00edssima cena do filme. \u00c9 o momento em que tudo se explica e tudo se clareia. A comovente trama de um idoso que se percebe sendo retirado lentamente da roda da vida. \u00a0Nada mais lhe resta sen\u00e3o resistir ao que \u00e9 inevit\u00e1vel. Logo ali adiante, ele sabe, tudo ser\u00e1 escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo para o portugu\u00eas \u2014 <em>Meu Pai<\/em> \u2014 parece ter alterado a perspectiva narrativa do filme. O pronome \u201cmeu\u201d faz com que o eixo narrativo se desloque artificialmente para a filha Anne. De fato, s\u00e3o muitos os encontros decisivos entre pai e filha, o que, \u00e0 primeira vista, poderia justificar a tradu\u00e7\u00e3o. No entanto, vamos perceber que as iniciativas das a\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas est\u00e3o centradas na personagem pai. \u00c9 da perspectiva de Anthony que o filme nos mostra a terr\u00edvel luta pelo controle dos desarranjos mentais do protagonista. \u00c9 sua batalha contra a dem\u00eancia. O t\u00edtulo no original, <em>The Father<\/em> (O Pai), encaixa-se melhor nessa proposta. Tanto mais que ele \u00e9 baseado em pe\u00e7a teatral hom\u00f4nima, do pr\u00f3prio diretor, cujo t\u00edtulo original \u00e9 <em>Le P\u00e8re<\/em> (O Pai). Estabelece-se, portanto, a voz narrativa a partir das manifesta\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas do protagonista. A filha, como outras personagens, \u00e9 apenas uma proje\u00e7\u00e3o mental do narrador-pai.<\/p>\n<p>Ademais, os movimentos de c\u00e2mera s\u00e3o fundamentais para criar no espectador essa ilus\u00e3o narrativa. A c\u00e2mera acompanha, com toques de intimidade, as instabilidades mentais de Anthony. Ela \u00e9 a narradora onipresente dos acontecimentos. Mas se levarmos em considera\u00e7\u00e3o que a c\u00e2mera nada mais faz do que revelar as a\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas da personagem, vamos entender que passa a ser da personagem a responsabilidade de se mostrar ao espectador. E esta responsabilidade foi t\u00e3o bem entendida pelo ator Anthony Hopkins, que lhe permitiu al\u00e7ar-se a altitudes divinas de memor\u00e1vel atua\u00e7\u00e3o. Anthony Hopkins nos entregou todas as dores e todas as afli\u00e7\u00f5es de Anthony! \u00c9 por esta raz\u00e3o que entendemos ser inadequada a tradu\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo para MEU PAI, em detrimento do t\u00edtulo original, O PAI.<\/p>\n<p>Vale ressaltar ainda a destreza com que o diretor manipula a mente confusa de Anthony. Florian Zeller estabelece o interessante jogo de repeti\u00e7\u00f5es de cenas. No entanto, a cada repeti\u00e7\u00e3o, a cena se modifica nos detalhes (cen\u00e1rio, figurino, personagens) e nos desfechos (na primeira cena a filha esgana o pai, na mesma cena adiante ela apenas acaricia as faces do pai). Estas altera\u00e7\u00f5es provocam instabilidades no espectador. E essa \u00e9 a proposta. Obrigar o espectador a entrar no jogo manipulativo pela simples necessidade de ter que saber o que \u00e9 realidade e o que \u00e9 del\u00edrio. Ficamos tentando descobrir o que de fato aconteceu e o que \u00e9 fruto de confus\u00f5es mentais. A t\u00e9cnica torna-se eficiente ao engajar o espectador nesta viagem dolorosa, quando nos tornamos coparticipantes da desesperada luta de Anthony em se manter l\u00facido. Ao final do filme, vamos entender que compartilhamos das dores da personagem, desdobradas em cenas de mem\u00f3rias delirantes.<\/p>\n<p>Resumindo o par\u00e1grafo acima. Trata-se a trama de uma disputa feroz entre mem\u00f3ria e del\u00edrio, em que a mem\u00f3ria duvida de si mesma, enquanto os del\u00edrios v\u00e3o se apoderando da cada vez mais fr\u00e1gil racionalidade. Eis a luta humana tentando se preservar na sua ess\u00eancia saud\u00e1vel. O que surge diante dos nossos olhos \u00e9 o desespero em perceber que a luta est\u00e1 sendo perdida.<\/p>\n<p>Nessa triste jornada, a personagem, na tentativa de se agarrar \u00e0 realidade, apresenta manifesta\u00e7\u00f5es obsessivas, como se teimasse em dizer que n\u00e3o est\u00e1 perdendo o controle de si. O rel\u00f3gio \u00e9 um destes pontos de recorr\u00eancia. Para n\u00e3o admitir que esquece onde coloca o rel\u00f3gio, culpa algu\u00e9m de t\u00ea-lo roubado. E a\u00ed entra o simbolismo. Quem roubou o rel\u00f3gio foi o tempo, que o condenou \u00e0 velhice.<\/p>\n<p>Por fim, n\u00e3o podemos deixar de aplaudir de p\u00e9 a inigual\u00e1vel atua\u00e7\u00e3o de Anthony Hopkins. Ele nos ofertou generosamente a magn\u00edfica figura do ser humano colocado diante de seu inevit\u00e1vel destino. Presenteou-nos com as nossas pr\u00f3prias dores. Como se as tirasse de n\u00f3s e depois nos devolvesse, uma a uma, recheadas de emo\u00e7\u00f5es. Como pr\u00eamio, Hopkins leva para casa sua segunda estatueta de Melhor Ator.<\/p>\n<p>Em suma. <em>Meu Pai<\/em> n\u00e3o \u00e9 apenas mais um filme que fala da velhice. Este est\u00e1gio da vida humana j\u00e1 foi retratado muitas vezes ao longo do tempo. Seja na literatura, com <em>Rei Lear<\/em>, representado pela primeira vez em 1606, seja no cinema, com o filme <em>Amor<\/em>, em 2013. O que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o toque original. <em>Meu Pai<\/em> nos obriga a nos levantarmos do sof\u00e1 e a encararmos a realidade que tanto conhecemos e que por antecipa\u00e7\u00e3o tanto tememos. Mas n\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda. Temos que nos preparar para a velhice. Cuidar do corpo e da alma. Sem truques, sem malabarismos. Infelizmente, a natureza \u00e9 honesta. A \u00fanica que n\u00e3o trapaceia, jamais!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O filme MEU PAI (98\u2019), dire\u00e7\u00e3o de Florian Zeller, Fran\u00e7a\/Reino Unido (2020), nos remete a uma verdade absoluta. A de que a velhice est\u00e1 \u00e0 nossa espera. Chegaremos at\u00e9 ela. Ou ela vir\u00e1 at\u00e9 n\u00f3s, tanto faz. 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