{"id":1672,"date":"2021-05-26T15:39:35","date_gmt":"2021-05-26T18:39:35","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1672"},"modified":"2021-06-14T14:18:33","modified_gmt":"2021-06-14T17:18:33","slug":"quo-vadis-aida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/quo-vadis-aida\/","title":{"rendered":"Quo Vadis, Aida?"},"content":{"rendered":"<p>Ao assistirmos a QUO VADIS, AIDA? (104\u2019), 2020, produ\u00e7\u00e3o b\u00f3snia, juntamente com mais oito pa\u00edses europeus, estaremos nos submetendo a uma lenta sess\u00e3o de tortura emocional. Esta \u00e9 a imagem que encontramos para traduzir o nervosismo que nos toma conta ao vermos a personagem Aida lutar pelo que parece ser o imposs\u00edvel. Que algu\u00e9m pare a barb\u00e1rie que est\u00e1 sendo cometida contra os b\u00f3snios, representados no filme pelos 30 mil habitantes de Srebrenica. Tanto mais aumenta nossa indigna\u00e7\u00e3o ao sabermos ser o filme totalmente baseado em fatos. Que s\u00e3o alinhavados com maestria dramat\u00fargica e com contundente naturalismo pela roteirista e diretora Jasmila Zbanic. Parece inimagin\u00e1vel (e intermin\u00e1vel) o que presenciamos na tela. Resta-nos roer as unhas.<\/p>\n<p>A inser\u00e7\u00e3o na trama de uma fict\u00edcia fam\u00edlia de quatro membros, pai, m\u00e3e e dois filhos, foi o feliz achado narrativo que possibilitou \u00e0 dire\u00e7\u00e3o maximizar essa trag\u00e9dia da vida real. \u00c9 a \u00fanica fic\u00e7\u00e3o do filme, o fio condutor, uma necessidade art\u00edstica de conduzir o espectador para dentro dos insanos acontecimentos. E o espectador n\u00e3o tem outra alternativa sen\u00e3o compartilhar dos sofrimentos dos refugiados b\u00f3snios junto aos port\u00f5es do acampamento da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas &#8211; ONU. Acompanhamos at\u00f4nitos a emp\u00e1tica e inquieta Aida no seu desespero para ao menos salvar seu marido e os dois filhos da matan\u00e7a. A vontade que d\u00e1 \u00e9 a de entrar no filme e resolver o impasse. Mas, infelizmente, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel nos refugiarmos na fic\u00e7\u00e3o. O filme nos empurra o tempo todo para a triste realidade.<\/p>\n<p>O que mais nos assusta \u00e9 que o genoc\u00eddio \u00e9tnico dos b\u00f3snios, considerado o maior mortic\u00ednio depois da Segunda Guerra Mundial, ocorreu dentro das fronteiras europeias. O que vemos \u00e9 uma Europa e demais pa\u00edses \u201ccivilizados\u201d, incluindo-se a\u00ed os distantes Estados Unidos, em passiva omiss\u00e3o diante do previs\u00edvel massacre.\u00a0 Os b\u00f3snios mul\u00e7umanos ficaram \u00e0 merc\u00ea da sanha assassina dos generais s\u00e9rvios, sem que a comunidade internacional interviesse para socorr\u00ea-los. <em>Quo Vadis, Aida?<\/em> vem para falar desta imperdo\u00e1vel lacuna humanit\u00e1ria. E o filme corretamente n\u00e3o poupa ningu\u00e9m. Seu alvo principal \u00e9 a ONU, que sai desse lament\u00e1vel epis\u00f3dio hist\u00f3rico com sua fachada nova-iorquina tingida de sangue.<\/p>\n<p>As atitudes amb\u00edguas da ONU s\u00e3o, portanto, o ponto de colis\u00e3o do filme. E \u00e9 para este ponto de tens\u00e3o que o roteiro se volta com frequ\u00eancia, numa clara atitude de culpar historicamente o organismo internacional pelo que ocorreu em Srebrenica. A fragilidade da ONU fica evidente quando ela pr\u00f3pria permite a entrada dos s\u00e9rvios em suas instala\u00e7\u00f5es. Se num primeiro momento vemos o desespero do chefe da organiza\u00e7\u00e3o, o coronel Karremans, na busca por ajuda junto a seus superiores \u2014 que se omitem \u201cpara n\u00e3o melindrar os s\u00e9rvios\u201d \u2014, aos poucos vamos percebendo a incorrig\u00edvel incompet\u00eancia pol\u00edtica e a inapet\u00eancia moral do pr\u00f3prio Karremans, que se autoimola trancando-se em sua pr\u00f3pria sala, enquanto l\u00e1 fora as metralhadoras s\u00e9rvias cumprem sua miss\u00e3o de eliminar os homens b\u00f3snios.<\/p>\n<p>O palco do massacre se reduz \u00e0 pequena cidade de Srebrenica, no justo dia 11 de julho de 1995, portanto, logo ali, distante de n\u00f3s 26 anos no tempo. Uma barb\u00e1rie contempor\u00e2nea perpetrada pelo fac\u00ednora Slobodan Milosevic, posteriormente levado ao Tribunal de Haia, onde foi julgado e condenado por seus crimes de guerra. Mas nada que trouxesse de volta as vidas ceifadas. Ficaram as cicatrizes profundas, agora abertas por esta comovente obra de Jasmila Zbanic, a quem devemos aplaudir de p\u00e9.<\/p>\n<p>Aida Selmanagic (Jasna Duricic), professora em Srebrenica, \u00e9 contratada como int\u00e9rprete pela ONU para mediar os conflitos entre as for\u00e7as b\u00f3snias e s\u00e9rvias na regi\u00e3o. A atmosfera sufocante do filme \u00e9 constru\u00edda logo em seu in\u00edcio. A c\u00e2mera, em lenta sequ\u00eancia de <em>closes<\/em>, mostra um a um a fam\u00edlia de Aida sentada nos sof\u00e1s da sala, em sua casa. L\u00e1 fora, os canh\u00f5es s\u00e9rvios reboam. E eles est\u00e3o em total atitude de silencioso espanto. Sabem o que est\u00e1 por acontecer. E o espectador, atrav\u00e9s da eloquente c\u00e2mera, tamb\u00e9m ele pressente a trag\u00e9dia anunciada.<\/p>\n<p>Logo a seguir o espectador \u00e9 transferido para uma mesa de reuni\u00e3o entre os militares holandeses da ONU e os desesperan\u00e7ados pol\u00edticos b\u00f3snios. Estes j\u00e1 n\u00e3o mais acreditam nas promessas do organismo internacional, que visivelmente se omite em cumprir seu papel de mediador. Essa vergonhosa omiss\u00e3o possibilitar\u00e1 o avan\u00e7o da destrui\u00e7\u00e3o, com a entrada do ex\u00e9rcito s\u00e9rvio em Srebrenica, obrigando seus moradores a se refugiarem junto aos port\u00f5es (trancados) da ONU.<\/p>\n<p>Neste contexto hist\u00f3rico entra o contexto ficcional, na figura da m\u00e3e e esposa, na sua desesperada busca para salvar os seus. \u00c9 atrav\u00e9s das idas e vindas de Aida por corredores, gabinetes e p\u00e1tios, acompanhada pela ofegante c\u00e2mera, que vamos presenciando os horrores dos b\u00f3snios largados \u00e0 pr\u00f3pria sorte. A luta parece ser em v\u00e3o, quando Aida vai se dando conta de que n\u00e3o existe sa\u00edda para o iminente tr\u00e1gico desfecho. E aqui reside o sabor dram\u00e1tico do filme. O espectador passa a conviver com as ang\u00fastias de Aida. O espectador alimenta a mesma esperan\u00e7a de Aida, de que ela conseguir\u00e1 salvar o marido e seus dois filhos. O espectador sofre, o espectador torce, o espectador, por fim, se decepciona.<\/p>\n<p>Chamamos a aten\u00e7\u00e3o para a cena em que os soldados s\u00e9rvios entram nas instala\u00e7\u00f5es da ONU \u00e0 procura de soldados b\u00f3snios. \u00c9 neste momento que a roteirista e diretora Jasmila enfia a faca no cora\u00e7\u00e3o da ONU.<\/p>\n<p>A proposta da diretora \u00e9 honesta, sem vest\u00edgios de rancor. Faz quest\u00e3o de mostrar mais humanidade nos b\u00e1rbaros s\u00e9rvios do que nos civilizados integrantes da ONU. A ONU sequer tomou provid\u00eancias para fornecer alimentos e banheiros para os refugiados. Foi preciso que os generais s\u00e9rvios distribu\u00edssem p\u00e3o aos famintos. Esta simbologia com certeza \u00e9 um tapa com luvas de ferro na face de cera da ONU \u2014 os algozes dos b\u00f3snios ocupam um degrau moral acima. Esta \u00e9 uma vis\u00e3o did\u00e1tico-hist\u00f3rica que o filme faz quest\u00e3o de registrar, sem m\u00e1goas, mas tamb\u00e9m sem pudores. \u00c9 a B\u00f3snia-Herzegovina cobrando da hist\u00f3ria as atitudes humanit\u00e1rias que lhes foram covardemente negadas. Se o filme n\u00e3o fosse t\u00e3o bom quanto \u00e9, s\u00f3 esta atitude j\u00e1 justificaria sua produ\u00e7\u00e3o. O grito de acusa\u00e7\u00e3o lan\u00e7ado na tela \u00e9 representado pelo \u00faltimo grito de Aida ao inepto coronel Karremans: <em>\u201cO senhor tem que fazer alguma coisa!\u201d<\/em><\/p>\n<p>Em suma. <em>Quo Vadis Aida?<\/em>, indicado ao Oscar 2021 de Melhor Filme Estrangeiro, e ganhador de tantos pr\u00eamios, nos traz um alerta. O de que este filme j\u00e1 foi visto muitas vezes ao longo de milhares de anos de hist\u00f3ria da humanidade. <em>Quo Vadis, Aida?<\/em> \u00e9 apenas mais uma c\u00f3pia terr\u00edvel a que temos que assistir para tirar nossas pr\u00f3prias conclus\u00f5es. E a conclus\u00e3o final \u00e9 assustadora. Somos intolerantes em conviver com as diferen\u00e7as. Foi o que aconteceu com os s\u00e9rvios. Para cumprir seu plano de domina\u00e7\u00e3o, tentaram eliminar seus diferentes, os b\u00f3snios mul\u00e7umanos. E para tanto, valeram-se do agente chamado cidad\u00e3o, que somos n\u00f3s, uma esp\u00e9cie burocr\u00e1tica gerada para ser cavalo de batalha de interesses criminosos. Quando acordarmos do pesadelo e nos dermos conta de que transformamos nossos irm\u00e3os, amigos, vizinhos e parentes em nossos inimigos, j\u00e1 ser\u00e1 tarde. O sangue derramado j\u00e1 ter\u00e1 apodrecido. Ser\u00e1 a hora de nos perguntarmos: O que combatemos? Pelo qu\u00ea? Por qu\u00ea? Por quem?<\/p>\n<p>Para as perguntas acima, vamos precisar de boas respostas. No entanto, quaisquer que sejam elas, n\u00e3o justificar\u00e3o nossos erros. A religi\u00e3o, o g\u00eanero, a cor e a ideologia s\u00e3o apenas pretextos para acender a pira do \u00f3dio. Acesa, somos volunt\u00e1rios para levar a tocha (do \u00f3dio) pa\u00eds afora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao assistirmos a QUO VADIS, AIDA? (104\u2019), 2020, produ\u00e7\u00e3o b\u00f3snia, juntamente com mais oito pa\u00edses europeus, estaremos nos submetendo a uma lenta sess\u00e3o de tortura emocional. Esta \u00e9 a imagem que encontramos para traduzir o nervosismo que nos toma conta ao vermos a personagem Aida lutar pelo que parece ser o imposs\u00edvel. 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