{"id":1695,"date":"2021-06-15T12:55:52","date_gmt":"2021-06-15T15:55:52","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1695"},"modified":"2021-08-20T11:53:02","modified_gmt":"2021-08-20T14:53:02","slug":"o-seminarista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/o-seminarista\/","title":{"rendered":"O Seminarista"},"content":{"rendered":"<p>Muitas perguntas sobre o que \u00e9 ser rom\u00e2ntico podem ser feitas a partir da perspectiva hist\u00f3rica do cl\u00e1ssico romance brasileiro \u201c<em>O Seminarista<\/em>\u201d, de Bernardo Guimar\u00e3es. Como sabemos, esse romance \u00e9 um dos belos representativos da escola liter\u00e1ria rom\u00e2ntica, que teve seu auge no Brasil em meados do s\u00e9culo XIX. Naquela \u00e9poca, ser rom\u00e2ntico era sin\u00f4nimo de sofrimento. Da alma. E hoje em dia? Como andam os rom\u00e2nticos? Eles existem? Se existem, \u00e9 poss\u00edvel compar\u00e1-los com seus pares de antigamente? Ou a pegada agora \u00e9 outra? E as perguntas n\u00e3o param por a\u00ed. H\u00e1 as mais espec\u00edficas. O que \u00e9 ser rom\u00e2ntico? Sabemos ser? Somos? S\u00e3o tantas as perguntas, talvez caiba nos preocuparmos com apenas uma delas. \u00c9 poss\u00edvel ser rom\u00e2ntico nos dias de hoje?<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XIX, havia tempo e espa\u00e7o para o romantismo. As demandas externas eram pouqu\u00edssimas. Sem as redes sociais, sem as tecnologias, sem o carro na garagem, sem as possibilidades de percorrer o mundo em menos de um dia, em outras palavras, \u00e0 \u00e9poca n\u00e3o havia tantas variedades felizes de vida. Tinham que se contentar com o que havia ao alcance. E o que havia, al\u00e9m de cavalos, lamparinas e folguedos? Os sonhos ao luar. E foi o que fizeram os protagonistas do romance \u201c<em>O Seminarista<\/em>\u201d, Eug\u00eanio e Margarida. Sonharam e sonharam, at\u00e9 que o roteiro tipicamente rom\u00e2ntico lhes destru\u00edsse o sonho.<\/p>\n<p>O menino Eug\u00eanio mora com seus pais em uma fazenda no interior de Minas Gerais, l\u00e1 pras bandas de Ouro Preto. Na mesma fazenda, em uma casinha pobre mas limpa, mora a vi\u00fava Umbelina com sua filha Margarida. Eug\u00eanio e Margarida s\u00e3o amigos de inf\u00e2ncia, e depois amigos de adolesc\u00eancia. No entanto, o sonho da rica fam\u00edlia \u00e9 tornar Eug\u00eanio padre. Enviam-no para o semin\u00e1rio, em Congonhas do Campo. Ao se separarem, os adolescentes se descobrem perdidamente apaixonados um pelo outro. Impedidos de fazer valer a paix\u00e3o, cria-se o cen\u00e1rio de sofrimentos, de saudades e de trag\u00e9dia. Bernardo Guimar\u00e3es, h\u00e1bil escritor rom\u00e2ntico, eleva a voltagem da narrativa a tens\u00f5es m\u00e1ximas, quase insuport\u00e1veis. Afinal, o amor entre os dois jovens \u00e9 proibido, portanto, tem que ser destru\u00eddo. Esta \u00e9 a batalha a ser travada. No entanto, o amor rom\u00e2ntico resiste, \u00e9 indestrut\u00edvel. Mant\u00e9m-se inteiro mesmo diante da morte. Ali\u00e1s, sabemos disto desde os tempos de Romeu e Julieta. A paix\u00e3o como uma feliz temporalidade cercada de infort\u00fanios por todos os lados.<\/p>\n<p>A pegada moderna \u00e9 outra. Bem diferente. Os espa\u00e7os destinados ao amor se reduziram perigosamente. Tudo hoje \u00e9 acelerado. O tempo urge, as demandas s\u00e3o muitas, os apelos para se viver a vida v\u00eam de todos os lados, festas e compromissos, cliques e <em>selfies<\/em>, cansa\u00e7o e esgotamento, irritabilidade, enfim, o custo emocional para suportar tanta transitoriedade \u00e9 muito alto. Se n\u00e3o formos pr\u00e1ticos, como nos mantermos em p\u00e9 diante de tanta agita\u00e7\u00e3o? Portanto, numa rela\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea a dois, nada de romantismo. Cabe apenas a praticidade. Beijinhos r\u00e1pidos, porque a vida segue.<\/p>\n<p>No entanto, se a proposta for cultuar o velho romantismo, vamos precisar abrir m\u00e3o de alguns estilos de vida. Vamos precisar diminuir a velocidade, os excessos, os celulares, evitar interesses paralelos que consomem nossa aten\u00e7\u00e3o. Vamos precisar refazer o tempo. Entrar em outra \u00f3rbita. Agu\u00e7ar a sensibilidade. Dedicarmo-nos, enfim, por mais tempo \u00e0 pessoa amada. Ouvir, assuntar, demorar-se com ela. A verdade \u00e9 que o romantismo pede algumas coisas bem complicadas, com as quais j\u00e1 n\u00e3o estamos t\u00e3o acostumados. Vamos ter que aceitar o parceiro e a parceira como ele e ela realmente s\u00e3o. Sem retoques. Sem reclamar. Conviver com as imperfei\u00e7\u00f5es do outro. Sem que sejam objetos de contesta\u00e7\u00e3o. Como se n\u00e3o existissem. Para o romantismo, a regra \u00e9 uma s\u00f3. N\u00e3o quebrar o encanto, jamais!<\/p>\n<p>Mas como n\u00e3o quebrar o encanto se a realidade que pisamos todos os dias \u00e9 t\u00e3o dura? Cruel, \u00e0s vezes? Oferecer flores custa caro e n\u00e3o duram cinco dias no vaso! N\u00e3o poder sentir raiva dele? Dela? N\u00e3o poder dizer, tipo, sua roupa est\u00e1 rid\u00edcula! Olha a sua barriga! S\u00f3 te beijo se voc\u00ea escovar os dentes. Correr abrir a porta do carro pra ela? Atitude machista. Uma ofensa \u00e0 mulher independente! Escolher o perfume dele? At\u00e9 gostaria, mas n\u00e3o sei se eu quero. Antes ele precisa \u00e9 de um bom desodorante. N\u00e3o se diz para um rom\u00e2ntico como voc\u00ea quer que ele explore o seu corpo. O rom\u00e2ntico tem que saber tudo! Ter a sensibilidade radiogr\u00e1fica dos seus desejos! Enfim. \u00c9 poss\u00edvel ser rom\u00e2ntico em meio a tantos cacarecos do dia a dia?<\/p>\n<p>Vamos ser sinceros. N\u00e3o d\u00e1 pra ficar calado diante das in\u00fameras contrariedades do cotidiano. Em meio a tantas pequenas e irritantes imperfei\u00e7\u00f5es! E tem o agravante. Os direitos e deveres da mulher se equiparam aos direitos e deveres do homem. \u00c9 assim hoje em dia. P\u00e9 de igualdade total. Um fala, o outro tem que escutar. E o que escuta tem o direito de ser ouvido! \u00c9 quase que dizermos que a rela\u00e7\u00e3o se faz num ringue. A cada palavra um embate, a cada vontade um impasse. \u00c9 poss\u00edvel ser rom\u00e2ntico em um mundo assim t\u00e3o sincero?<\/p>\n<p>Ou seria este o mundo ideal para o florescimento de manifesta\u00e7\u00f5es rom\u00e2nticas? O mundo das sinceridades! Em que a mulher n\u00e3o precisa do feminismo para se proteger e o homem n\u00e3o precisa usar suas armaduras para se esconder. A igualdade ser\u00e1 o terreno f\u00e9rtil para o cultivo do verdadeiro amor. Sem os medos de colocar as diferen\u00e7as sobre a mesa, com todas as suas consequ\u00eancias. Seria, portanto, este um outro romantismo? Reciclado?<\/p>\n<p>Chegamos aqui ao ponto crucial. Diante da independ\u00eancia de g\u00eaneros, calcada na liberdade e na sua consequente igualdade, estaria o casal disposto a comprar, ambos, a ideia do romantismo? A dar o seu quinh\u00e3o de fantasias, de sensibilidades, de secretas ilus\u00f5es? \u00c9 preciso pensar bem antes de darem o passo. Por uma simples raz\u00e3o. Uma vez que s\u00f3 se \u00e9 plenamente rom\u00e2ntico a dois, os dois ter\u00e3o que se jogar, juntos, na banheira de espuma. N\u00e3o pode existir romantismo a um. Romantismo a um, sabemos, leva ao sofrimento calado. E \u00e0 solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Enfim. N\u00e3o \u00e9 objetivo deste artigo destrinchar as possibilidades rom\u00e2nticas dos tempos modernos. O que predominam aqui s\u00e3o as perguntas sem respostas. Mas n\u00e3o terminaria sem antes dar um norte ao romantismo contempor\u00e2neo. Entendemos at\u00e9 ser poss\u00edvel acreditar nele. Ser poss\u00edvel desenvolver um tipo de rela\u00e7\u00e3o em que os amantes se levem profundamente em considera\u00e7\u00e3o, a ponto n\u00e3o s\u00f3 de se suportar no dia a dia como tamb\u00e9m de construir, para ambos, momentos inesquec\u00edveis. Seja uma pequena delicadeza, seja um gesto que antecipe, seja um jantar \u00e0 luz de velas. E para se chegar a isso acreditamos existir um caminho interessante. E s\u00f3lido. A constru\u00e7\u00e3o da cumplicidade na rela\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 a verdadeira batalha moderna! Se c\u00famplices um do outro, ser\u00e1 mais f\u00e1cil serem rom\u00e2nticos um com o outro. A cumplicidade seria apenas a sustenta\u00e7\u00e3o madura para os exerc\u00edcios rom\u00e2nticos. Fica a\u00ed a sugest\u00e3o para o leitor. Come\u00e7ar uma s\u00f3lida rela\u00e7\u00e3o pelo caminho da cumplicidade.<\/p>\n<p>E para finalizar, um convite. Convido voc\u00ea a ler este belo romance \u201c<em>O Seminarista<\/em>\u201d, e a mergulhar numa realidade que se pode dizer ilus\u00f3ria, mas que \u00e9 tamb\u00e9m esteticamente prazerosa. Conhe\u00e7a a obra. Ou a releia.\u00a0 Est\u00e3o ali os ingredientes necess\u00e1rios para o sublime voo rom\u00e2ntico. Terminada a leitura, a\u00ed sim o leitor poder\u00e1 retornar ao s\u00e9culo XXI e analisar suas possibilidades quanto a ser rom\u00e2ntico nesta nossa contemporaneidade. Eu c\u00e1 deixo um pouco da minha esperan\u00e7a. \u00c9 poss\u00edvel. Desde que toda atitude rom\u00e2ntica repercuta, ressoe, reverbere mutuamente um no outro, sob pena de se transformar num frustrante ato solit\u00e1rio. Para evitar os desgastes cotidianos, a cumplicidade proteger\u00e1 o romantismo. Este pode ser o segredo moderno da rela\u00e7\u00e3o! A cumplicidade gera a independ\u00eancia sem culpa e sem cobran\u00e7as. Ao exercit\u00e1-la, e respondendo \u00e0 pergunta do primeiro par\u00e1grafo, \u00e9 sim poss\u00edvel ser rom\u00e2ntico nos dias de hoje. No s\u00e9culo XIX, o romantismo se alimentava de sonhos e de sofrimentos. Hoje ele se alimenta da pura realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas perguntas sobre o que \u00e9 ser rom\u00e2ntico podem ser feitas a partir da perspectiva hist\u00f3rica do cl\u00e1ssico romance brasileiro \u201cO Seminarista\u201d, de Bernardo Guimar\u00e3es. Como sabemos, esse romance \u00e9 um dos belos representativos da escola liter\u00e1ria rom\u00e2ntica, que teve seu auge no Brasil em meados do s\u00e9culo XIX. 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