{"id":1740,"date":"2021-08-20T11:47:26","date_gmt":"2021-08-20T14:47:26","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1740"},"modified":"2021-08-22T12:12:04","modified_gmt":"2021-08-22T15:12:04","slug":"o-intendente-sansho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/o-intendente-sansho\/","title":{"rendered":"O Intendente Sansho"},"content":{"rendered":"<p>Kenji Mizoguchi foi (e ainda \u00e9) um dos mais prestigiados cineastas japoneses. Muitos o colocam como um dos grandes expoentes da hist\u00f3ria cinematogr\u00e1fica mundial. N\u00e3o s\u00e3o declara\u00e7\u00f5es baseadas na empolga\u00e7\u00e3o do gosto pessoal. Basta visitar sua obra f\u00edlmica para se certificar de que Kenji Mizoguchi n\u00e3o s\u00f3 foi um grande artista como tamb\u00e9m um ser humano de alma inquieta, preocupado com o que acontece no mundo (social) \u00e0 sua volta. As quest\u00f5es femininas surgem como um dos temas centrais na maioria dos seus filmes. Seu pai, em dificuldades financeiras, vendeu sua irm\u00e3 de 14 anos para ser gueixa e este fato marcou profundamente a vida de Mizoguchi. Cabe-nos lamentar sua morte prematura, em 1956, de leucemia, aos 58 anos, quando se encontrava no auge art\u00edstico de suas produ\u00e7\u00f5es. O artista se foi, mas ficou sua exuberante arte.<\/p>\n<p>No rol das obras primas de Mizoguchi, cabe destacar um dos seus filmes mais festejados, O INTENDENTE SANSHO (124\u2019), produ\u00e7\u00e3o japonesa de 1954. Neste filme, o diretor problematiza a hist\u00f3ria socioecon\u00f4mica do Jap\u00e3o, uma de suas tem\u00e1ticas favoritas. Kenji Mizoguchi sempre cortejou ideias socialistas, na sua acep\u00e7\u00e3o mais ing\u00eanua, a de que nascemos todos iguais e por isso temos a obriga\u00e7\u00e3o de nos amarmos uns aos outros. Pode parecer sentimental, mas o cinema n\u00e3o deixa de ser um palco generoso, onde cabem posi\u00e7\u00f5es pessoais, desde que a fala n\u00e3o seja lamenta\u00e7\u00e3o, mas t\u00e3o somente pura arte.<\/p>\n<p>Nesta obra, o diretor revisita o romance de Ogai Mori, lan\u00e7ado em 1915, que por sua vez traz para o leitor uma antiga lenda japonesa datada entre os s\u00e9culos X e XI. Apesar de retratar as desventuras de uma fam\u00edlia inserida na alta burocracia do imp\u00e9rio japon\u00eas, o filme foca suas c\u00e2meras no sofrimento do povo sob o jugo do implac\u00e1vel modelo feudal vigente \u00e0 \u00e9poca. Interessa a Mizoguchi o homem como indiv\u00edduo inserido em seu meio hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Por esta perspectiva, temos, de um lado, o encastelamento da aristocracia, com seus inatac\u00e1veis privil\u00e9gios, e do outro, a massa informe de seres humanos desfigurados por condi\u00e7\u00f5es subumanas de vida. Esta \u00e9 a lenda medieval. O Jap\u00e3o transformado em laborat\u00f3rio da hist\u00f3ria do homem na terra. E \u00e9 com estas palavras que o filme inicia, referindo-se \u00e0 sua contextualiza\u00e7\u00e3o temporal: <em>\u201cQuando o Jap\u00e3o ainda n\u00e3o havia sa\u00eddo da idade das trevas, e a humanidade ainda n\u00e3o havia acordado como seres humanos.\u201d<\/em> E continua. \u201c<em>Foi recontada pelas pessoas durante s\u00e9culos e \u00e9 estimada hoje como um dos folclores \u00e9picos da hist\u00f3ria\u201d<\/em>. Diante dos nossos olhos, em <em>O Intendente Sansho<\/em>, o Jap\u00e3o ressurge mergulhado nas trevas.<\/p>\n<p>O cl\u00e3 Masauji vive das benesses do sistema feudal. O patriarca ocupa o alto cargo de governador de Tango, uma das prov\u00edncias ligadas a Kioto. A parte introdut\u00f3ria do filme se preocupa em trazer para o espectador os valores (humanos) cultuados pelo cl\u00e3, na figura magn\u00e2nima de Masauji Taira (Masao Shimizu). Ao pregar o amor ao pr\u00f3ximo \u2014 e este amor tem como objetivo minimizar os sofrimentos do povo \u2014, Masauji acaba atraindo para si a ira do sistema. N\u00e3o \u00e9 usual o que ele ensina ao pequeno filho Zushi\u00f4, transmitindo-lhe a sublime ideia de que os homens foram criados iguais, portanto, todos t\u00eam direito \u00e0 felicidade.<\/p>\n<p>Neste aspecto, concep\u00e7\u00f5es espirituais e sociais se misturam quando o pai diz ao filho que \u201c<em>um homem n\u00e3o \u00e9 um ser humano sem miseric\u00f3rdia.\u201d<\/em> E aconselha. \u201c<em>Mesmo que seja duro consigo mesmo, seja misericordioso com os outros.\u201d<\/em> Ora, este ensinamento n\u00e3o cabe na estrutura feudal. E Zushi\u00f4 levar\u00e1 para a vida a certeza de que o pai fora condenado e exilado apenas por ter sido um homem bom e correto. A imagem da bondade \u00e9 simbolizada pelo amuleto que ele recebe do pai, a imagem da Deusa da Miseric\u00f3rdia, o tesouro da fam\u00edlia. Estabelece-se assim a dicotomia entre as cren\u00e7as pessoais e as opressivas exig\u00eancias burocr\u00e1ticas do imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>A segunda parte do filme \u00e9 a mais longa e a mais significativa. Come\u00e7a retratando a m\u00e3e, Tamaki (a soberba Kinuyo Tanaka), e seus dois filhos, Zushi\u00f4 (Yoshiaki Hanayagi) e Anju (Ku\u00f4ko Kagawa), em fuga para o interior do Jap\u00e3o, ap\u00f3s o ex\u00edlio do marido. Mal iniciam a viagem, s\u00e3o sequestrados por traficantes de escravos. A m\u00e3e \u00e9 levada para a ilha de Sado para se tornar cortes\u00e3. As duas crian\u00e7as chegam como escravas \u00e0s terras do Intendente Sansho, o representante m\u00e1ximo da sustenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica (atrav\u00e9s do imposto do arroz) do sistema vigente. \u00c9 a sofrida inser\u00e7\u00e3o dos nobres na realidade social do Jap\u00e3o medieval. E \u00e9 a oportunidade para Kenji Mizoguchi mapear os mecanismos de opress\u00e3o do ser humano pelo ser humano. Esta \u00e9 a fala do diretor \u2014 onde n\u00e3o h\u00e1 a miseric\u00f3rdia, o mal impera.<\/p>\n<p>Um exemplo desse cen\u00e1rio de maldades \u00e9 quando Zushi\u00f4, o escravo, marca com ferro em brasa a testa de outro escravo, este fugitivo. Esta cena traduz a percep\u00e7\u00e3o de que a maldade \u00e9 uma moeda valiosa no mundo das trevas.<\/p>\n<p>Mas que fique claro. N\u00e3o \u00e9 um deus ou um ser poderoso que oprime, que chibata, que derrama o sangue do pr\u00f3ximo. O agente da opress\u00e3o \u00e9 outro ser humano, igual \u00e0quele que ele oprime. Nesta l\u00f3gica, ao assumir o papel de agente opressor, Zushi\u00f4 se distancia dos ensinamentos paternos. E \u00e9 com horror e revolta que ele se d\u00e1 conta da sua atual condi\u00e7\u00e3o. Desfigurado pelo \u00f3dio, e com a ajuda da irm\u00e3 que assume o autossacrif\u00edcio pela reden\u00e7\u00e3o do irm\u00e3o, Zushi\u00f4 foge em busca de suas origens.<\/p>\n<p>A terceira e \u00faltima parte narra a trajet\u00f3ria de Zushi\u00f4 nas suas tentativas de reencontrar-se com a pr\u00f3pria hist\u00f3ria. \u00c9 o momento da transforma\u00e7\u00e3o pelo autoconhecimento. O retorno n\u00e3o aos tempos de gl\u00f3rias burocr\u00e1ticas e sim aos ensinamentos que deram sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da sua personalidade. E mesmo que tenha herdado o antigo posto do pai, o de governador de Tango, a atitude justiceira de Zushi\u00f4 n\u00e3o invalida a sua busca. Ele precisa resgatar a pr\u00f3pria liberdade, eliminando a escravid\u00e3o. Ao punir o seu algoz, o Intendente Sansho, ele cria a ilus\u00e3o da liberdade conquistada. A humanidade respirar\u00e1 momentaneamente o ar da igualdade. Nos sonhos paternos de Zushi\u00f4, a humanidade torna-se, por um lapso hist\u00f3rico, dona de si mesma.<\/p>\n<p>No entanto, ao libertar o seu povo, Zushi\u00f4 n\u00e3o mudar\u00e1 a hist\u00f3ria. E muito menos interessa a Kenji Mizoguchi provocar artificialmente esta mudan\u00e7a. Ao cumprir seu papel de libertador, e depois de abandonar tudo, riqueza e <em>status<\/em>, Zushi\u00f4 oferece t\u00e3o somente a si mesmo a liberdade desejada. O que n\u00e3o significar\u00e1 o fim dos seus sofrimentos.<\/p>\n<p>Vale mencionar aqui uma das t\u00e9cnicas recorrentes nas filmagens de Kenji Mizoguchi. Estamos falando da elipse. \u00c9 quando um fato cr\u00edtico, seja a morte, a execu\u00e7\u00e3o ou o ato sexual, \u00e9 omitido pela c\u00e2mera. Que busca outros recursos insinuativos para descrever o que est\u00e1 acontecendo fora do seu campo de vis\u00e3o. Em <em>O Intendente Sansho<\/em>, temos a po\u00e9tica cena de Anju entrando no lago em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 morte por afogamento. Na elipse, resta-nos apenas contemplar as pequenas ondas em c\u00edrculos se agitando na \u00e1gua, como se algu\u00e9m tivesse lan\u00e7ado ali uma pequena pedra.<\/p>\n<p>Antes de concluir, permitamo-nos uma \u00faltima reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Se lan\u00e7armos um olhar atento para a hist\u00f3ria, n\u00e3o para a hist\u00f3ria que aprendemos nos bancos escolares, mas para a hist\u00f3ria que impregna nossa pele e nossa mem\u00f3ria, vamos nos dar conta de que h\u00e1 uma inexor\u00e1vel evolu\u00e7\u00e3o plana, que jamais parece ter fim. Esta \u00e9 a impress\u00e3o que guardamos do filme. A de que estamos h\u00e1 milhares de anos estagnados, v\u00edtimas de nossas pr\u00f3prias constru\u00e7\u00f5es de vida cotidiana, desprovida de come\u00e7o, meio e fim. N\u00e3o h\u00e1 um horizonte para se contemplar.<\/p>\n<p>O discurso acima, aparentemente desconexo, serve apenas para dizer que o formato de vida muda a todo instante, com novas tecnologias, novas ideologias e novas culturas. Mas o conte\u00fado, com seus sofrimentos e esperan\u00e7as, continua o mesmo. <em>Ad infinitum<\/em>. Neste triste cen\u00e1rio, o que nos resta \u00e9 mudarmos a n\u00f3s mesmos. Pela consci\u00eancia, pela busca espiritual, ou mesmo pela ren\u00fancia \u00e0 luta. Kenji Mizoguchi n\u00e3o \u00e9 um homem otimista. Pelo contr\u00e1rio. A amargura faz despertar nele o desencanto. As terras do intendente Sansho foram queimadas e o algoz teve o seu julgamento e o seu castigo. Mas sabemos que outro Sansho vir\u00e1 para ocupar as mesmas terras e continuar a derramar o mesmo sangue oprimido. Pela forma como termina o filme, Kenji Misogushi nos faz crer que a rota da hist\u00f3ria continuar\u00e1 sulcando a mesma trilha, na sua eterna ida e no seu eterno retorno ao ponto de partida.<\/p>\n<p>Em suma. Esta sensa\u00e7\u00e3o, a de que tudo continuar\u00e1 na mesma, \u00e9 projetada pela maneira como Mizoguchi faz uso da c\u00e2mera em sua cena final. Zushi\u00f4 encontra a m\u00e3e decr\u00e9pita, mas ainda esperando pelos seus. Mas ele e a m\u00e3e s\u00e3o os \u00fanicos sobreviventes dessa breve trag\u00e9dia humana na Terra \u2014 como reza a antiga lenda. No entanto, abra\u00e7ados pelo reencontro, perdem o direito de terem a c\u00e2mera festejando o momento. A c\u00e2mera envergonhada de Mizoguchi abandona os protagonistas e vai viajando pela praia, at\u00e9 encontrar outro ser totalmente distanciado da trag\u00e9dia narrada, mas testemunho fiel de que a vida, em seu eterno ciclo, prosseguir\u00e1. Sem deixar de oprimir e de sangrar, de sonhar e de lutar. A vida humana, na vis\u00e3o de Mizoguchi, \u00e9 uma elipse.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Kenji Mizoguchi foi (e ainda \u00e9) um dos mais prestigiados cineastas japoneses. Muitos o colocam como um dos grandes expoentes da hist\u00f3ria cinematogr\u00e1fica mundial. N\u00e3o s\u00e3o declara\u00e7\u00f5es baseadas na empolga\u00e7\u00e3o do gosto pessoal. 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