{"id":1768,"date":"2021-09-16T07:12:59","date_gmt":"2021-09-16T10:12:59","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=1768"},"modified":"2021-09-16T07:17:33","modified_gmt":"2021-09-16T10:17:33","slug":"oharu-a-vida-de-uma-cortesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/oharu-a-vida-de-uma-cortesa\/","title":{"rendered":"Oharu &#8211; A vida de uma cortes\u00e3"},"content":{"rendered":"<p>Kenji Mizoguchi tem como uma de suas tem\u00e1ticas recorrentes o papel da mulher no machista sistema patriarcal japon\u00eas. Os homens de Mizoguchi est\u00e3o sempre \u00e0 procura da satisfa\u00e7\u00e3o dos seus desejos. Mas n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os desejos libidinosos que importam. A demonstra\u00e7\u00e3o de poder econ\u00f4mico tem um papel fundamental na estratifica\u00e7\u00e3o social do machismo. Sim. \u00c9 o macho confrontado com outro macho pela conquista da afei\u00e7\u00e3o e dos favores sexuais da mulher. Nesta arena n\u00e3o vale usar a arma do amor. E tampouco a da paix\u00e3o. Apenas o dinheiro. S\u00e3o estas as batalhas, dir\u00edamos, \u201csociossexuais\u201d que permeiam o cinema de Mizoguchi. E elas n\u00e3o ocorrem entre quatro paredes, t\u00e3o ao gosto do cinema ocidental. Elas se d\u00e3o nos bairros de prostitui\u00e7\u00e3o, o cen\u00e1rio de sofrimento e humilha\u00e7\u00e3o de suas mulheres.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes parece-nos confusa a estratifica\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o na antiga sociedade japonesa. No entanto, \u00e9 esta estratifica\u00e7\u00e3o que coloca cada macho em seu devido lugar. Os mais poderosos v\u00e3o usufruir dos favores de uma gueixa. Eles s\u00e3o os patronos, de quem as gueixas recebem prote\u00e7\u00e3o e a seguran\u00e7a de uma vida menos indigna. No c\u00edrculo infernal inferior est\u00e1 a cortes\u00e3, a mulher refinada que recebe dinheiro para as satisfa\u00e7\u00f5es sexuais de senhores de classe respeit\u00e1vel. E, por fim, a prostituta que tenta ganhar dinheiro com o sexo tirado das ruas. S\u00e3o os jovens e os economicamente desenganados que as procuram. Vivendo de migalhas, estas mulheres se encontram a um passo do \u00faltimo c\u00edrculo: a mendic\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Kenji Mizoguchi apresenta esta trajet\u00f3ria de decad\u00eancia feminina em sua soberba Trilogia das Gueixas, uma fervorosa den\u00fancia contra a prostitui\u00e7\u00e3o na sociedade patriarcal japonesa. Ele come\u00e7a com <em>Os M\u00fasicos de Gion<\/em> (1953), em que apresenta a dif\u00edcil inicia\u00e7\u00e3o no complexo mundo das gueixas. As gueixas s\u00e3o usadas por seus patronos n\u00e3o s\u00f3 para satisfazerem seus desejos e vaidades masculinas, mas tamb\u00e9m ser\u00e3o oferecidas aos parceiros econ\u00f4micos como moeda nas grandes negocia\u00e7\u00f5es que envolvem contratos milion\u00e1rios. No segundo filme da trilogia, <em>A Mulher Infame<\/em> (1954), vemos um bordel sendo administrado pela m\u00e3e, a qual \u00e9 questionada pela filha, que se recusa a herdar o neg\u00f3cio sujo. Aqui s\u00e3o as cortes\u00e3s que recebem os clientes e se endividam por antecipa\u00e7\u00e3o. O corpo \u00e9 usado como fonte de sobreviv\u00eancia, n\u00e3o dando \u00e0 alma o direito de se revoltar. E por fim, na camada mais baixa da prostitui\u00e7\u00e3o, est\u00e3o as mulheres que assumem socialmente sua condi\u00e7\u00e3o de prostituta, buscando nas ruas, a c\u00e9u aberto, durante o dia, seu ganha-p\u00e3o por meio do sexo barato. Toda esta humilha\u00e7\u00e3o \u00e9 retratada no bel\u00edssimo <em>A Rua da Vergonha<\/em> (1956), o \u00faltimo filme de Kenji Mizoguchi, que morreria de leucemia naquele mesmo ano, aos cinquenta e oito anos.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 o filme que antecede a Trilogia das Gueixas. E que, por coincid\u00eancia, condensa em sua trama as tr\u00eas camadas de prostitui\u00e7\u00e3o abordadas acima, gueixa, cortes\u00e3 e prostituta. Estamos falando do maravilhoso OHARU, A VIDA DE UMA CORTES\u00c3, de 1952. Kenji Mizoguchi atinge o teto de excel\u00eancia art\u00edstica ao mapear a decadente trajet\u00f3ria de uma mulher de meia-idade que, outrora dama de companhia nos sal\u00f5es imperiais, se rebaixa \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de esmoler. \u00c9 talvez o grande grito de den\u00fancia feito por Mizoguchi contra o tratamento aviltante dispensado \u00e0s mulheres japonesas. Mesmo que esta trama se passe por volta da d\u00e9cada de 1680, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o avan\u00e7ar trezentos anos e trazer toda a problem\u00e1tica feminina para os dias de hoje. Mudaram-se os formatos de domina\u00e7\u00e3o e objetifica\u00e7\u00e3o da mulher, mas n\u00e3o o conte\u00fado, que continua o mesmo: aviltante.<\/p>\n<p>Afetado na inf\u00e2ncia pela venda de sua irm\u00e3 mais velha para ser gueixa, Mizoguchi despeja neste filme todos os seus dem\u00f4nios gerados nas dores deste epis\u00f3dio familiar. Seu amor por sua irm\u00e3 Suju \u00e9 indisfar\u00e7\u00e1vel, e fica a impress\u00e3o de que sua filmografia foi constru\u00edda para reabilitar a hist\u00f3ria da irm\u00e3. Foi a forma que encontrou para refazer a pr\u00f3pria hist\u00f3ria familiar. Quanto mais dedicava \u00f3dio ao pai, mais refinava a mulher nas telas de seus filmes. Oharu \u00e9 a consagra\u00e7\u00e3o do feminino aviltado por todos, mas que n\u00e3o se deixa, em momento algum, se aviltar por si pr\u00f3pria. O objetivo de Oharu \u00e9 sempre o mesmo \u2014 manter-se \u00edntegra e l\u00facida.<\/p>\n<p>Jovem bonita e apaixonante, Oharu \u00e9 enviada \u00e0 corte de Kioto, onde servir\u00e1 como dama de companhia. Mas, apesar da liberdade, est\u00e1 submetida \u00e0s r\u00edgidas regras palacianas. At\u00e9 o momento em que ela vai transgredir uma destas regras: amar um homem de camada social inferior. Banida da corte, tomando conhecimento da condena\u00e7\u00e3o e morte de seu grande amor, Oharu n\u00e3o deixa de lan\u00e7ar seus gritos na tela em preto e branco. \u201cPor que duas pessoas n\u00e3o podem se amar?!\u201d. E pior. Oharu se submete ao testamento de Katsunosuke, quando este, antes de ser decapitado, manda dizer a Oharu que ela pode se casar com outro homem, mas com uma condi\u00e7\u00e3o. Que se case por amor.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, vem outro epis\u00f3dio que oferece mais um golpe para a mulher Oharu. Ela \u00e9 novamente vendida pelo pai para ser concubina do Lorde Matsudaira, em Edo. Diferente do anterior, este epis\u00f3dio vem repleto de triste com\u00e9dia. A com\u00e9dia das exig\u00eancias espec\u00edficas do Lorde na busca de uma concubina perfeita. Vamos a alguns trechos para que o leitor tenha a dimens\u00e3o hil\u00e1ria da descri\u00e7\u00e3o do \u201cobjeto\u201d chamado mulher.<\/p>\n<p><em>\u201cEla tem que ter entre 15 e 18 anos, seu rosto deve ser arredondado, como est\u00e1 na moda. Seus olhos devem ser arredondados tamb\u00e9m. Sobrancelhas grossas, com espa\u00e7o entre os olhos. Uma boca pequena, com dentes brancos perfeitos. Ouvidos longos, com contornos estreitos. E l\u00f3bulos separados e transl\u00facidos. Cabelos naturais e sem falhas. Um pesco\u00e7o longo, sem pelos. Dedos longos e finos, com unhas di\u00e1fanas. P\u00e9s com menos de 20 cm, com formas suaves. Ela deve ter um tronco cumprido e gracioso. Uma cintura firme, mas n\u00e3o musculosa, n\u00e1degas rechonchudas&#8230; Uma conduta agrad\u00e1vel&#8230; Eleg\u00e2ncia em qualquer traje. Ser de origem nobre, e sem qualquer verruga no corpo.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Carregando as exig\u00eancias acima, o enviado do Lorde vai ao \u201cmercado\u201d de mulheres em busca do seu produto perfeito. Ser concubina de um Lorde \u00e9 o sonho dessas mulheres, cujo desejo real \u00e9 o de ajudar a fam\u00edlia a sair da mis\u00e9ria. Mais uma vez \u00e9 refor\u00e7ado o papel decorativo da mulher, que \u00e9 feita para o entretenimento, com o objetivo de servir \u00e0s fantasias dos homens. Oharu \u00e9 o contraponto desta l\u00f3gica perversa, posto que se reserva o direito de amar. Oharu \u00e9 a escolhida. Mas se nega a aceitar o papel que exigem dela: ser concubina t\u00e3o somente para dar \u00e0 luz o herdeiro do cl\u00e3. \u201c<em>Me deitar com um estranho s\u00f3 para me engravidar?<\/em>\u201d \u2014 esse \u00e9 o grito silencioso. E se lembra do testamento de Katsunosuke. O de s\u00f3 se casar por amor. Katsunosuke jamais aprovaria o acordo, mas Oharu, mais uma vez, n\u00e3o tem escolha. O pai, sem ouvir os apelos da filha, a vende para o Lorde.<\/p>\n<p>Oharu, humilhada ao chegar ao pal\u00e1cio como concubina, se encontra como mulher ao dar \u00e0 luz o herdeiro. O filho a completa. No entanto, n\u00e3o ter\u00e1 direito a cuidar dele. E o Lorde, ao se apaixonar por Oharu, contraria os c\u00f3digos do cl\u00e3, que a expulsa do pal\u00e1cio. Mais uma vez o amor a coloca em situa\u00e7\u00e3o de pen\u00faria. O pai, mesquinho e endividado (novamente a hist\u00f3ria familiar de Mizoguchi), vende a filha para Shimabara, um prost\u00edbulo nos arredores de Kioto. E a saga desta mulher continuar\u00e1 em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 decad\u00eancia. De prostituta passa a mulher casada por amor, cujo marido logo \u00e9 assassinado por um ladr\u00e3o. N\u00e3o lhe resta outro caminho, sen\u00e3o percorrer as ruas. Primeiro oferece seu corpo decadente que \u00e9 rejeitado pelos homens. Por \u00faltimo, carregando um pote, passa a bater de porta em porta, pedindo um pouco de comida.<\/p>\n<p>Vale reproduzir uma fala do dono do prost\u00edbulo de Shimabara, quando Oharu se recusa a se submeter \u00e0 mesquinhez do dinheiro como fonte de degrada\u00e7\u00e3o moral. Diz ele a Oharu: \u201c<em>Voc\u00ea foi comprada. Voc\u00ea \u00e9 igual a um peixe numa t\u00e1bua de cozinha. Podemos servi-la como bem desejarmos.<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Em suma. Apesar das tantas obras primas que viriam se juntar ao repert\u00f3rio de Kenji Mizoguchi ao longo dos anos seguintes, entre elas o cl\u00e1ssico <em>O Intendente Sansho<\/em>, n\u00e3o podemos negar que em <em>Oharu \u2013 A vida de uma Cortes\u00e3<\/em> Mizoguchi alcan\u00e7a uma amplitude humana do feminino que dificilmente se ver\u00e1 em seus outros filmes sobre o mesmo assunto. Esse poder que emana da mulher disposta a enfrentar o seu destino traz o indestrut\u00edvel empoderamento que se resume na certeza de que a fortaleza interior jamais ser\u00e1 destru\u00edda pelos invasores. E somando-se ao bem alinhavado roteiro, \u00e0 bela dire\u00e7\u00e3o, \u00e0 fotografia e ao cen\u00e1rio, temos, na atua\u00e7\u00e3o magn\u00edfica e empoderadora da grande atriz Kynuyo Tanaka, a finaliza\u00e7\u00e3o perfeita do que \u00e9 ser mulher em um mundo hostil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Kenji Mizoguchi tem como uma de suas tem\u00e1ticas recorrentes o papel da mulher no machista sistema patriarcal japon\u00eas. Os homens de Mizoguchi est\u00e3o sempre \u00e0 procura da satisfa\u00e7\u00e3o dos seus desejos. Mas n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os desejos libidinosos que importam. A demonstra\u00e7\u00e3o de poder econ\u00f4mico tem um papel fundamental na estratifica\u00e7\u00e3o social do machismo. Sim. 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