{"id":550,"date":"2020-11-07T12:30:09","date_gmt":"2020-11-07T15:30:09","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=550"},"modified":"2021-10-25T17:22:52","modified_gmt":"2021-10-25T20:22:52","slug":"estou-pensando-em-acabar-com-tudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/estou-pensando-em-acabar-com-tudo\/","title":{"rendered":"Estou Pensando Em Acabar Com Tudo"},"content":{"rendered":"<h2>O QUE FIZ DA MINHA VIDA?<\/h2>\n<p>O filme ESTOU PENSANDO EM ACABAR COM TUDO (134\u2019), roteiro e dire\u00e7\u00e3o de Charlie Kaufman, EUA (2020), tem causado estranheza e certa confus\u00e3o nos espectadores. Fotografia em tons sombrios, di\u00e1logos acorrentados a uma simbologia a ser decifrada, cen\u00e1rios abarrotados de detalhes acolhendo longas cenas, imagens intrusas, atitudes suspeitas, por\u00e3o misterioso, volatilidade temporal, tudo leva \u00e0 primeira impress\u00e3o de que se trata de um filme de terror. Inclusive alguns o classificam como tal, terror psicol\u00f3gico. Conclus\u00e3o perigosa, no nosso entender. N\u00e3o bastasse, o filme tem recebido o inadequado r\u00f3tulo de confuso. Como pode um filme que se pauta por uma estrutura simples e segura ser adjetivado como tal? E com narrativa linear? Um casal de namorados viaja para uma fazenda, em visita aos pais dele, ficam na fazenda o dia todo, anoitece, voltam para a cidade, no meio do caminho param no col\u00e9gio onde o namorado Jake estudara quando jovem, e onde hoje \u2014 e esta \u00e9 a cereja narrativa \u2014, Jake, idoso, trabalha como zelador. Admite-se, a trama \u00e9 intrincada, com justaposi\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias de tempo e espa\u00e7o, mas este \u00e9 o poder criador do filme!, o de transitar pelo espa\u00e7o e pelo tempo como se fosse um grande palco sem coxias, sem cortinas, sem bambolinas, sem luz, sem plateia&#8230; Apenas os figurinos e a maquiagem para estabelecer a rela\u00e7\u00e3o de tempo com o drama interior da personagem. Quando se trata de mem\u00f3rias misturadas a alucina\u00e7\u00f5es, quebra-se a cronologia real, normativa, pois tudo acontece ao mesmo tempo, numa sequencia aleat\u00f3ria. No entanto, \u00e9 poss\u00edvel perceber, as cenas se estruturam a partir de uma proposta do consciente, dando \u00e0 narrativa uma organiza\u00e7\u00e3o inesperada. As imagens v\u00eam e v\u00e3o, algumas r\u00e1pidas, como a imagem da m\u00e3o envelhecida de Jake jovem dirigindo o carro, mas tudo \u00e9 controlado para que se d\u00ea um significado real ao todo. Estou Pensando em Acabar com Tudo \u00e9 um filme de uma clarivid\u00eancia humana terr\u00edvel, quando nos alerta para o perigo de virmos a descobrir o quanto fomos incapazes de viver. Esta \u00e9 a dor solit\u00e1ria da personagem zelador.<\/p>\n<p>Jake, o protagonista, passou a vida no mesmo lugar onde nascera, vivendo com os pais, at\u00e9 eles morrerem, quando passa a tomar conta sozinho da fazenda. Para se sustentar, emprega-se como zelador no mesmo col\u00e9gio rural onde estudara quando jovem. Um ser t\u00e3o apagado (esquisit\u00e3o), t\u00e3o inexpressivo, que sua biografia n\u00e3o cobriria dez p\u00e1ginas. \u00c9 assim que vamos encontr\u00e1-lo, o velho Jake se preparando para mais um dia de trabalho: tomado de amargura, crivado de frustra\u00e7\u00f5es, um homem que n\u00e3o se realizou como tal, sem o exerc\u00edcio saud\u00e1vel do afeto e do sexo, incapaz de se expressar, e este dia \u2014 o dia do filme \u2014 parece que as coisas tomam propor\u00e7\u00f5es ainda mais alarmantes, e incontrol\u00e1veis. Enquanto vai limpando os corredores do col\u00e9gio \u2014 l\u00e1 fora, o sil\u00eancio da neve colore de branco alucinante a noite escura \u2014, ele vai reconstruindo uma felicidade imposs\u00edvel, quando imagina estar namorando uma garota por quem se apaixonara quarenta anos atr\u00e1s, mas que, por total incapacidade de se mover, dela n\u00e3o se aproximara. \u00c9 esta garota que alimenta o filme de ilus\u00f5es, de frustra\u00e7\u00f5es, de mem\u00f3rias, de desesperan\u00e7as, da sensa\u00e7\u00e3o de que a vida se perdera e nada mais resta sen\u00e3o acabar com tudo. \u00c9 dela que ouviremos repetidas vezes \u2014 estou pensando em acabar com tudo \u2014 a decis\u00e3o. Quando a sua alucina\u00e7\u00e3o (o casal) chega de carro ao col\u00e9gio, \u00e9 o momento de parar de alimentar o mundo paralelo e voltar para a realidade indesejada. Ser\u00e1 ent\u00e3o a hora de p\u00f4r fim a tudo.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas pensam de si mesmas como pontos luminosos se movendo no tempo. Mas prov\u00e1vel seja o contr\u00e1rio. Estamos parados, \u00e9 o tempo que passa por n\u00f3s, soprando como o vento frio, roubando nosso calor, nos ressecando e nos congelando.\u201d Esta \u00e9 a vis\u00e3o da exist\u00eancia de Jake pelo pr\u00f3prio Jake! \u00c9 o sentido de inutilidade, de apatia, de preferir se entregar nas m\u00e3os do milagre que nunca acontece, \u00e9 o transferir para outrem a responsabilidade de termos que viver, e viver significa transitar pela realidade, onde vamos encontrar de tudo, os pr\u00f3s a nosso favor, que nos alegrar\u00e1 e nos catapultar\u00e1 para o sucesso, e os contras que nos empurrar\u00e3o penhasco abaixo. Se entrarmos na realidade, vamos ter que agir. N\u00e3o temos como ficar parados, como nos omitir, presos \u00e0 lamenta\u00e7\u00e3o de que a sorte n\u00e3o nos brindou com as qualidades sonhadas de um ser poderoso e ativo. Jake construiu para si uma vida que n\u00e3o viveu, e desta constru\u00e7\u00e3o, em seu \u00faltimo instante, gerou este belo filme que fala da velhice, da solid\u00e3o, do sentimento de fracasso, do medo, da incompreens\u00e3o, e acima de tudo, mostra como a aus\u00eancia do afeto resseca nossa alma e nos torna um fantasma insepulto.<\/p>\n<p>O mais interessante na constru\u00e7\u00e3o do roteiro, mesmo que dominado por vigorosos di\u00e1logos, em um formato existencial inigual\u00e1vel, \u00e9 estar ele intimamente colado \u00e0s imagens, numa constru\u00e7\u00e3o art\u00edstica bastante pr\u00f3xima de um Ingmar Bergman. Os di\u00e1logos existem para fazer as imagens gritarem, clamarem para serem vistas e compreendidas, numa constru\u00e7\u00e3o f\u00edlmica que se al\u00e7a em pungentes sensa\u00e7\u00f5es de uma alma em desespero. E neste desespero fica a impress\u00e3o para o espectador de que as pontas est\u00e3o soltas, nada faz sentido, a vis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 panor\u00e2mica, pelo contr\u00e1rio, rasteja na silenciosa melancolia do zelador.<\/p>\n<p>Outro ponto elogi\u00e1vel do filme s\u00e3o as interpreta\u00e7\u00f5es dos atores, que carregam suas personagens como seres humanos sofridos, derrotados, destoando de todo ritmo que a vida lhes imp\u00f5e. Recusam-se a serem seres humanos normais. Jake jovem, com seu tom enigmaticamente monoc\u00f3rdio, de um pobre coitado inteligente e culto, o que por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o, que apenas vive para purgar o pecado de estar existindo. Ou como ele diz, na loteria gen\u00e9tica, deu azar. Ficou com a pior parte. Projeta na namorada, que varia de nome, conforme a idealiza\u00e7\u00e3o que ele faz dela \u2014 ora pintora, ora poeta, ora&#8230; \u2014, o seu pr\u00f3prio eu. Ela \u00e9 o eu de Jake, sem que Jake d\u00ea ao feminino a oportunidade de ser mulher. Tanto \u00e9 verdade que o momento especial de afeto e como\u00e7\u00e3o e entrega se d\u00e1 no encontro, no col\u00e9gio, do velho Jake (o real) com sua desejada namorada (o imagin\u00e1rio) de quarenta anos atr\u00e1s. \u00c9 quando a consci\u00eancia da perda vai tir\u00e1-lo da fantasia e direcion\u00e1-lo para a decis\u00e3o final. A dan\u00e7a ser\u00e1 apenas a \u00faltima alegoria do acasalamento que nunca aconteceu. E na sequ\u00eancia, a morte do noivo pelo Jake na meia idade ser\u00e1 o golpe fatal. Um basta!<\/p>\n<p>Assim, para mencionar o elenco, em constru\u00e7\u00f5es de perfis primorosos, temos o Jake jovem encarnado por Jesse Plemons, Lucy, a namorada, por Jessie Buckley, os pais de Jake, fenomenais, variando seus perfis como que projetados por um ilusionista, ela, a m\u00e3e, Toni Collete, o pai, David Thewlis. E o zelador, o que alucina a narrativa e lhe d\u00e1 sentido, Guy Boyd.<\/p>\n<p>Antes de finalizar, vale fazer uma pequena demonstra\u00e7\u00e3o do grau de efici\u00eancia da volatilidade temporal a que o filme nos submete. Parece-nos \u00e0 primeira vista indecifr\u00e1vel, mas n\u00e3o \u00e9. S\u00f3 d\u00e1 um certo trabalho para entender.<\/p>\n<p>Vamos pegar a cena em que Jake jovem est\u00e1 dando papinha para a m\u00e3e j\u00e1 decr\u00e9pita numa cadeira de rodas vestindo camisola. A cena se inicia por volta do minuto sessenta e dois do filme. Aqui temos dois tempos distintos. Jake jovem e m\u00e3e decr\u00e9pita. A namorada abandona o quarto alegando deixar os dois, filho e m\u00e3e, na sua intimidade. Na sequ\u00eancia, ap\u00f3s a bela cena da escada \u2014 que se rebobina \u2014, a namorada, ao descer, por volta do minuto sessenta e cinco, encontra o pai, tamb\u00e9m na decrepitude, acompanhado do Jake jovem. O pai oferece a ela a mesma camisola agora manchada da papinha do beb\u00ea Jake. S\u00e3o tr\u00eas tempos distintos. Beb\u00ea Jake, Jake jovem, pai decr\u00e9pito. Na sequ\u00eancia, minuto sessenta e sete, a dita camisola est\u00e1 agora nas m\u00e3os da m\u00e3e na meia idade de Jake, que pede \u00e0 namorada que coloque a camisola manchada da papinha do beb\u00ea Jake na m\u00e1quina de lavar roupa que se encontra no por\u00e3o. Aqui temos tr\u00eas tempos convivendo simultaneamente, m\u00e3e meia idade, namorada do Jake jovem e o beb\u00ea Jake. A namorada, na sequ\u00eancia, minuto sessenta e oito, desce at\u00e9 o por\u00e3o, e ao abrir a m\u00e1quina de lavar roupa j\u00e1 em funcionamento descobre que os uniformes de zelador do velho Jake est\u00e3o sendo lavados. Aqui se d\u00e1 o encontro fant\u00e1stico entre o nascimento (camisola) e a morte (uniforme), o beb\u00ea Jake com o velho Jake zelador, e no meio deles o terceiro tempo, a namorada. Portanto, percebam a alucina\u00e7\u00e3o temporal, de uma precis\u00e3o cir\u00fargica, que o filme nos oferece nas suas magn\u00edficas met\u00e1foras.<\/p>\n<p>Uma \u00faltima percep\u00e7\u00e3o, na tentativa de explanar mais claramente a quest\u00e3o da confus\u00e3o aparente que o filme parece gerar, conduzindo a compreens\u00e3o do espectador para caminhos diversos. Se \u00e9 ponto pac\u00edfico que o filme \u00e9 movido pelas alucina\u00e7\u00f5es do solit\u00e1rio velho Jake, apenas Zelador, esta percep\u00e7\u00e3o o filme n\u00e3o nos oferece de imediato \u2014 em que pese as cenas iniciais da casa da fazenda e o velho Jake, depois o Jake jovem (ou meia idade?) espiando da janela enquanto a namorada espera, na cal\u00e7ada, o namorado. No entanto, cenas insuficientes para nos alertar sobre o que realmente est\u00e1 acontecendo. O que temos \u2014 eis o golpe! \u2014 \u00e9 o namorado pegando a namorada em determinado ponto de uma cidade, e aos poucos ficamos sabendo que est\u00e3o indo para uma fazenda, em visita aos pais dele. Portanto, um filme normal, come\u00e7o, meio e fim, onde os ind\u00edcios de alucina\u00e7\u00e3o, com suas imprecis\u00f5es temporais, v\u00e3o-nos sendo mostrados aos poucos, como migalhas jogadas aos pombos. Quando estamos quase sendo capazes de montar o quebra cabe\u00e7a, o filme j\u00e1 est\u00e1 praticamente no fim. Na \u00e2nsia de entender o que se passa, fomos perdendo detalhes importantes e decisivos, o que nos trar\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de um filme confuso. Da\u00ed aconselharmos a assisti-lo pela segunda vez. J\u00e1 em seu in\u00edcio, o espectador saber\u00e1 onde a narrativa come\u00e7a. Na cabe\u00e7a do velho Jake. Quando ent\u00e3o perceber\u00e1 que se trata o filme da significa\u00e7\u00e3o da dor de ver uma vida que passou sem que tivesse sido vivida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O QUE FIZ DA MINHA VIDA? O filme ESTOU PENSANDO EM ACABAR COM TUDO (134\u2019), roteiro e dire\u00e7\u00e3o de Charlie Kaufman, EUA (2020), tem causado estranheza e certa confus\u00e3o nos espectadores. 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