{"id":552,"date":"2020-10-23T12:25:15","date_gmt":"2020-10-23T15:25:15","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=552"},"modified":"2020-12-27T13:19:48","modified_gmt":"2020-12-27T16:19:48","slug":"era-uma-vez-no-oeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/era-uma-vez-no-oeste\/","title":{"rendered":"Era Uma Vez No Oeste"},"content":{"rendered":"<p>Antes de falarmos do cl\u00e1ssico ERA UMA VEZ NO OESTE (175\u2019), dire\u00e7\u00e3o de Sergio Leone, EUA\/It\u00e1lia (1968), cabe discorrer um pouco sobre este intruso g\u00eanero cinematogr\u00e1fico chamado faroeste, termo originado da express\u00e3o inglesa\u00a0<em>far west<\/em>, l\u00e1 onde as long\u00ednquas terras inabitadas esperam para serem ocupadas por aventureiros. A conquista do oeste, na segunda metade do s\u00e9culo XIX, \u00e9 fruto da expans\u00e3o demogr\u00e1fica e econ\u00f4mica norte-americana, coincidindo com o fim da Guerra da Secess\u00e3o (1861-1865). Com a pol\u00edtica de esvaziar o Sul no p\u00f3s-guerra, ainda um caldeir\u00e3o socioecon\u00f4mico em perigosa ebuli\u00e7\u00e3o, suas popula\u00e7\u00f5es foram estimuladas pelo governo de Washington a tomarem o rumo do Oeste, com promessas de terra f\u00e1cil e riqueza com muito trabalho. E, \u00f3bvio, para o Oeste n\u00e3o foram somente os trabalhadores em busca de um novo lar. Os \u00f3rf\u00e3os da guerra, os que tomaram gosto pelo manuseio das armas, e ainda os ressentidos com a vit\u00f3ria dos nortistas levaram para o Oeste seus rancores e seus sonhos de riqueza e, com eles, a bandidagem. Em terras distantes a Lei era ainda fr\u00e1gil, portanto, exposta a corrup\u00e7\u00f5es. \u00c9 desta paisagem de aventuras, achaques a propriet\u00e1rios de terras, roubos de gado, morte aos \u00edndios, os bares com suas prostitutas, a posse f\u00e1cil de armas, a procura por ouro e riquezas outras, sem contar a expans\u00e3o das linhas f\u00e9rreas que ligariam o Leste ao Oeste, enfim, \u00e9 deste imbr\u00f3glio hist\u00f3rico que surgiria o faroeste, g\u00eanero cinematogr\u00e1fico que ajudaria a afirmar o mito da forma\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o norte-americana. E que seria uma das gl\u00f3rias financeiras de Hollywood por v\u00e1rias d\u00e9cadas. Nos anos 1960, j\u00e1 sofrendo de esgotamento, o faroeste, ao aportar na It\u00e1lia, terra do espaguete, ir\u00e1 encontrar uma dupla do barulho que dar\u00e1 nova roupagem ao g\u00eanero. \u00c9 deste encontro venturoso entre Sergio Leone e Ennio Morricone que o faroeste\u00a0<em>spaghetti<\/em>\u00a0se espalha febrilmente pelo mundo. E n\u00e3o h\u00e1 como falar de\u00a0<em>Era uma vez no Oeste<\/em>\u00a0sem retroceder minimamente no tempo e conhecer a \u201ctrilogia dos d\u00f3lares\u201d criada por Sergio Leone, uma feliz sequ\u00eancia de filmes de faroeste reinventado nos belos\u00a0<em>Por um Punhado de D\u00f3lares\u00a0<\/em>(1964),\u00a0<em>Por uns D\u00f3lares a Mais\u00a0<\/em>(1965), e no festejado\u00a0<em>O Bom, o Mau e o Feio<\/em>\u00a0(1966), que iriam desembocar em 1968 no espaguete ao alho e \u00f3leo\u00a0<em>Era uma Vez no Oeste<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 bom que se diga que quando se fala de faroeste fala-se de fic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de realidade. Isto quer dizer que a abundante viol\u00eancia mostrada em in\u00fameros filmes de bangue-bangue pertence ao mundo criativo dos roteiristas e diretores. \u00d3bvio que houve viol\u00eancia no velho Oeste. Alguns de seus grandes pistoleiros ganhariam fama e se tornariam lenda, fornecendo muito caldo dram\u00e1tico para a constru\u00e7\u00e3o de \u00f3timas narrativas. Nesta transi\u00e7\u00e3o da realidade para a fic\u00e7\u00e3o podemos pensar, como exemplo, em Billy The Kid. De fato, no mundo real, Billy the Kid, morto aos 21 anos, alimentaria o imagin\u00e1rio norte-americano com suas bravatas e fugas espetaculares. Segundo um jornal de Santa F\u00e9, Novo M\u00e9xico, Billy The Kid teria matado 21 homens. Na verdade, afirmam os estudiosos, fora bem menos que isso. No entanto, o que interessa \u00e9 a lenda. Sua fama percorreu o tempo, e hoje, s\u00e9culo XXI, uma de suas duas fotos conhecidas, tirada em 1878, mostrando Billy The Kid jogando cr\u00edquete, tem seu valor estimado em cinco milh\u00f5es de d\u00f3lares! Sem falar do ressentido sulista Jesse James, famoso pela rapidez no gatilho. E Wyatt Earp, que espantosamente sobreviveria a v\u00e1rios tiroteios, o mais famoso deles o do Curral O. K., que viria a inspirar muitas produ\u00e7\u00f5es. Wyatt Earp morreria de velhice aos 90 anos, de causas naturais, em 1929. Como se v\u00ea, o faroeste \u00e9 um g\u00eanero que sobrevive de lendas, e como lendas n\u00e3o acabam, o faroeste tem motivos para permanecer ainda por muito tempo nas telas dos cinemas. E na mem\u00f3ria dos f\u00e3s.<\/p>\n<p>A estrutura narrativa de\u00a0<em>Era uma Vez no Oeste<\/em>\u00a0se divide em duas motiva\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas distintas, que caminham juntas, mas sem se tocarem, a n\u00e3o ser, evidente, no grande final. S\u00e3o elas a ambi\u00e7\u00e3o e a vingan\u00e7a. Frank \u2014 o insuper\u00e1vel Henry Fonda \u2014 \u00e9 o capataz do dono da famosa ferrovia que atravessa o Oeste rumo ao Pac\u00edfico. \u00c9 pago pelo Mr. Morton (Gabriele Ferzetti) para proteger os neg\u00f3cios da companhia dos ataques de pistoleiros. S\u00f3 que a ambi\u00e7\u00e3o de Frank o leva para al\u00e9m de suas fun\u00e7\u00f5es, criando pontos de tens\u00e3o dos quais o roteiro vai, generosamente, se alimentar. Do outro lado aparece Harm\u00f4nica \u2014 sempre ele, Charles Bronson \u2014, que desembarca na esta\u00e7\u00e3o com o \u00fanico objetivo de se vingar. S\u00f3 que saberemos disto, e das raz\u00f5es, mais adiante. Enquanto n\u00e3o executa seu plano, Harm\u00f4nica se envolve na trama com a fun\u00e7\u00e3o de proteger Jill McBain \u2014 a exuberante Cl\u00e1udia Cardinale \u2014 do fac\u00ednora Frank. Frank acabara de matar a fam\u00edlia McBain de olho em suas terras, por onde passar\u00e1 a ferrovia rumo ao Oeste. Nas terras de McBain, no meio do deserto, h\u00e1 \u00e1gua em abund\u00e2ncia, necess\u00e1ria para as caldeiras que movem as locomotivas. S\u00f3 que Frank n\u00e3o contava com uma surpresa. O vi\u00favo irland\u00eas Brett McBain (Frank Wolff) havia se casado com Jill, em segredo, um m\u00eas antes, em New Orleans, o que faz dela tamb\u00e9m uma Mcbain, portanto, herdeira. E por sorte, e azar de Frank, ela chega ao local logo depois das execu\u00e7\u00f5es. Frank agora precisa tir\u00e1-la tamb\u00e9m do caminho. \u00c9 na prote\u00e7\u00e3o de Harm\u00f4nica a Jill que se dar\u00e1 finalmente o decisivo encontro entre os dois pistoleiros, Frank e Harm\u00f4nica. Mas a\u00ed j\u00e1 ser\u00e1 o final do filme.<\/p>\n<p>O roteiro de\u00a0<em>Era uma Vez no Oeste<\/em>\u00a0\u00e9 aparentemente frouxo, sem conex\u00e3o imediata de causa e efeito, mas trama t\u00e3o bem urdida, e de consist\u00eancia inquestion\u00e1vel, que o que poderia parecer um perigoso defeito torna-se uma surpreendente qualidade. E no meio desta aparente desconex\u00e3o entre as cenas entra o terceiro protagonista, cuja fun\u00e7\u00e3o no enredo poder\u00edamos at\u00e9 questionar, mas se o tirarmos, o filme, \u00e9 certo, perder\u00e1 parte substancial da sua carne. A introdu\u00e7\u00e3o desta personagem permitiu a\u00a0<em>Era uma Vez no Oeste<\/em>\u00a0desgarrar-se de r\u00f3tulos e al\u00e7ar-se como um dos grandes filmes do cinema mundial, pois possibilitou aos roteiristas Sergio Donati e Sergio Leone envolverem a trama em uma tessitura complexa e ambiciosa, alcan\u00e7ando a proposta de fazer um comp\u00eandio das realidades do velho Oeste. A partir do momento em que o pistoleiro Cheyenne, este \u00e9 o nome do terceiro protagonista, se junta a Harm\u00f4nica na defesa de Jill, temos fechada a composi\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica do roteiro, portanto, sua concep\u00e7\u00e3o bem-sucedida.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 algo em Cheyenne que vai al\u00e9m dos clich\u00eas dos her\u00f3is do velho Oeste. Ele \u00e9 arredio, desconfiado, quase um rom\u00e2ntico. \u00c0s vezes, um menino abandonado pelo destino. Pode-se considerar Cheyenne a mais humana das personagens criadas por Sergio Leone at\u00e9 ent\u00e3o. Ali\u00e1s, uma das caracter\u00edsticas inovadoras do diretor foi trazer para o faroeste tipos bem humanos, ao alcance da nossa realidade. E Cheyenne seria, sem d\u00favida, o ponto alto desta busca. E ele est\u00e1 resumido nesta fala, quando se despede de Jill McBain.\u00a0<em>\u201cJill, voc\u00ea me faz lembrar minha m\u00e3e. Ela era a maior vadia de Alameda e a melhor mulher que j\u00e1 viveu. Seja l\u00e1 quem fosse meu pai, por uma hora ou por um m\u00eas, ele deve ter sido um homem feliz\u201d.<\/em>\u00a0Se Sergio Leone perseguiu o objetivo de humanizar Tuco (Eli Wallach) em\u00a0<em>O bom, o Mau e o Feio<\/em>\u00a0com relativo sucesso, Cheyenne proporcionou, na atua\u00e7\u00e3o monumental de Jason Robards, o surgimento de sua mais perfeita possibilidade, a de elevar\u00a0<em>Era uma Vez no Oeste<\/em>\u00a0\u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica, onde, num suspiro \u00e9pico, a viol\u00eancia n\u00e3o desumaniza a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>E cabe um necess\u00e1rio par\u00eantesis para a atua\u00e7\u00e3o da exuberante Cl\u00e1udia Cardinale. Ela trouxe para a trama a consist\u00eancia da mulher como fonte de vida e de esperan\u00e7a em meio a uma terra de homens em constantes conflitos. Prostituta de New Orleans, chega a\u00a0<em>SweetWater<\/em>\u00a0(\u00c1gua Doce) trazendo na personagem Jill respingos de uma Blanche DuBois. Mas diferente desta famosa personagem de Tennessee Williams, Jill desfila no meio dos homens com a seguran\u00e7a e a decis\u00e3o que se espera da mulher que se sabe pronta para os embates da vida. E para fechar de forma pungente seu vigoroso perfil, cobre-lhe de honras e emo\u00e7\u00f5es a trilha sonora que Ennio Morricone soberbamente lhe oferece.<\/p>\n<p>Algumas peculiaridades est\u00e9ticas de S\u00e9rgio Leone chamam a aten\u00e7\u00e3o. O ritmo \u00e9 a primeira. Nada de acelerar a cena, nada da verborragia hollywoodiana. Em\u00a0<em>Era uma Vez no Oeste<\/em>\u00a0foram dez minutos para apresentar os cr\u00e9ditos iniciais, portanto, dez minutos esperando o trem chegar \u00e0 esta\u00e7\u00e3o. E sem di\u00e1logos. Enquanto as imagens v\u00e3o contando a hist\u00f3ria de uma mosca e das gotas d\u2019\u00e1gua pingando em um chap\u00e9u. O feio e o grotesco s\u00e3o outras caracter\u00edsticas suas, pr\u00f3ximas neste sentido das est\u00e9ticas de um Pier Paolo Pasolini e um Bernardo Bertolucci. Seres normais, que n\u00e3o tomam banho, usam roupas rotas, botas empoeiradas, cabelos desgrenhados, barbados e desdentados, uma mir\u00edade de tons e fei\u00e7\u00f5es escalavradas pelo tempo e pelo sofrimento. E mais. Sergio Leone d\u00e1 aulas de tipos de rev\u00f3lveres, adere\u00e7o assumidamente central em sua dramaturgia cinematogr\u00e1fica. Sem falar dos longos sil\u00eancios das cavalgadas e dos duelos. Os closes exaustivos fundindo-se com as paisagens em plano aberto, e mais do que tudo, a trilha sonora, desenhada para sugerir cada atmosfera, para acolher cada protagonista, numa soberba arquitetura musical a servi\u00e7o da constru\u00e7\u00e3o das cenas. As trilhas sonoras de Ennio Morricone antecediam as c\u00e2meras. Inspiravam o diretor. Guiavam os atores. E em\u00a0<em>Era uma Vez no Oeste<\/em>\u00a0Sergio Leone levaria esta pr\u00e1tica ao extremo.<\/p>\n<p>Outra obsess\u00e3o art\u00edstica de Sergio Leone eram os duelos, quase sempre o cl\u00edmax dos bons faroestes. S\u00f3 que o diretor pensava cuidadosamente cada cena de duelo, na busca da originalidade. \u00c9 s\u00f3 come\u00e7armos pelo filme\u00a0<em>Por um Punhado de D\u00f3lares<\/em>, quando vemos o duelo final entre Joe (Clint Eastwood) e Ram\u00f3n Rojo (Gian Maria Volont\u00e9), cuja din\u00e2mica de tempo e espa\u00e7o se resume em quem primeiro carregar\u00e1 a arma vazia depositada no ch\u00e3o, diante de cada contendor. Em\u00a0<em>Por uns D\u00f3lares a Mais<\/em>, S\u00e9rgio Leone avan\u00e7a na ousadia, caracterizada no confronto entre os dois ca\u00e7adores de recompensa, o Pistoleiro sem Nome (novamente Clint Eastwood) e o Coronel Douglas (Lee Van Cleef). Talvez a melhor cena de duelo em um faroeste, mas sem necessariamente ter sido um duelo. Ao final do filme, o duelo decisivo se dar\u00e1 em um c\u00edrculo, onde se encontram tr\u00eas pistoleiros, um deles, no entanto, como mero espectador. Esta observa\u00e7\u00e3o nos leva para o pr\u00f3ximo filme, a coroa\u00e7\u00e3o dos duelos na filmografia\u00a0<em>spaghetti<\/em>\u00a0de Sergio Leone,\u00a0<em>O Bom, o Mau e o Feio<\/em>, com o ic\u00f4nico duelo no cemit\u00e9rio de Sad Hill, em seu c\u00edrculo central, agora com os tr\u00eas homens participando diretamente do jogo. Mas s\u00f3 na apar\u00eancia. Ao tirar as balas do rev\u00f3lver de Tuco, Sergio Leone tira-o do duelo e resolve o impasse, permitindo o confronto direto entre o Bom (Clint Eastwood) e o Mau (Lee Van Cleef). E finalmente\u00a0<em>Era uma Vez no Oeste<\/em>. Neste o duelo toma um formato \u00e9pico, da vingan\u00e7a sagrada, onde cabem quase nove minutos de espera, com direito a\u00a0<em>flashbacks\u00a0<\/em>(a famosa cena do arco), em que a maldade, no seu sentido moral, \u00e9 destilada na sua raz\u00e3o mais desumana poss\u00edvel. Harm\u00f4nica vence Frank. O bem vence o mal. Afinal, \u00e9 dever dos faroestes nos dar o pr\u00eamio da reden\u00e7\u00e3o, mesmo que o vencedor seja t\u00e3o fora da lei (anti-her\u00f3i) quanto o perdedor.<\/p>\n<p>\u00daltimo par\u00eantesis. Se fizermos uma an\u00e1lise mais cuidadosa da trajet\u00f3ria de roteiriza\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o dos quatro filmes que comp\u00f5em a fase faroeste de Sergio Leone, vamos perceber uma interpenetra\u00e7\u00e3o criativa entre estes filmes em sua sequ\u00eancia temporal, tanto do ponto de vista est\u00e9tico quanto da t\u00e9cnica. E esta \u00e9 a pergunta que se pode fazer. Sem os tr\u00eas filmes anteriores, teria S\u00e9rgio Leone alcan\u00e7ado a excel\u00eancia art\u00edstica e t\u00e9cnica de\u00a0<em>Era uma Vez no Oeste<\/em>? Se admitirmos que todo artista, com rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, passa por um processo de conhecimento e amadurecimento do seu of\u00edcio, vamos admitir que os quatro filmes t\u00eam que ser pensados em conjunto, e que caberia um estudo para identificar as interconex\u00f5es entre eles. O que podemos adiantar \u00e9 que, nos parece, n\u00e3o s\u00e3o poucas.<\/p>\n<p>E por fim cabe falar um pouco da suntuosa parceria dos dois colegas de sala de aula, portanto, de mesma idade, Sergio Leone e Ennio Morricone. Faz-nos lembrar de outra parceria famosa, entre Ingmar Bergman e seu diretor de fotografia Sven Nykvist. Se para Bergman foi a fotografia, para Sergio Leone foi a trilha sonora que deu o diapas\u00e3o est\u00e9tico de suas obras. H\u00e1 pouco o que se falar de Ennio Morricone justamente do tanto que h\u00e1 para se escrever dele. \u00c9 sabido que Sergio Leone fazia quest\u00e3o de prolongar certas cenas apenas para dar tempo de a m\u00fasica chegar ao seu fim. Sem nos esquecermos da sofisticada trilha sonora de\u00a0<em>O Bom, o Mau e o Feio<\/em>, vamos ficar apenas em um exemplo, nos referindo a uma das mais emocionantes cenas de viol\u00eancia na filmografia de Sergio Leone, justo em\u00a0<em>O Bom, o Mau e o Feio<\/em>, quando o feio Tuco \u00e9 torturado pelo mau Angel Eyes para que revele o lugar onde est\u00e1 enterrada a caixa com os duzentos mil d\u00f3lares. Enquanto a longa cena de cinco minutos de cruel tortura vai acontecendo l\u00e1 dentro, a trist\u00edssima melodia\u00a0<em>The Story of a Soldier<\/em>\u00a0vai sendo tocada pela orquestra aqui fora, no p\u00e1tio. E o\u00a0<em>close<\/em>\u00a0fatal. Violino e violonista choram.<\/p>\n<p>Em suma.\u00a0<em>Era uma Vez no Oeste<\/em>\u00a0\u00e9 a consagra\u00e7\u00e3o de uma trajet\u00f3ria feita de inspira\u00e7\u00f5es, ousadias, parcerias, aprendizagem e tenacidade comercial, quando Sergio Leone consegue do est\u00fadio de Hollywood dinheiro suficiente para executar um filme de grande alcance art\u00edstico e exigente acabamento t\u00e9cnico. \u00c9 um presente para todos aqueles que adoram filmes de faroeste, e tamb\u00e9m para aqueles que gostam de grandes filmes, independente do g\u00eanero. Sergio Leone, em poucos anos, quis fazer com\u00a0<em>Era uma Vez no Oeste<\/em>\u00a0um resumo de sua obra ligada ao g\u00eanero faroeste. Com certeza foi al\u00e9m. Ofereceu-nos um filme que retrata uma \u00e9poca gestada por um processo doloroso de conquistas e gl\u00f3rias, intrigas e supera\u00e7\u00f5es. Sergio Leone acertou em reproduzir realidades fotografadas nas suas mais vis situa\u00e7\u00f5es, sem se preocupar com a r\u00edgida m\u00e9trica dram\u00e1tica. Importava-lhe o voo criativo. A exuber\u00e2ncia visual. A atmosfera teatral. Neste sentido, sua ousadia conspirou a seu favor. E assim nasceu\u00a0<em>Era uma vez\u2026<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de falarmos do cl\u00e1ssico ERA UMA VEZ NO OESTE (175\u2019), dire\u00e7\u00e3o de Sergio Leone, EUA\/It\u00e1lia (1968), cabe discorrer um pouco sobre este intruso g\u00eanero cinematogr\u00e1fico chamado faroeste, termo originado da express\u00e3o inglesa\u00a0far west, l\u00e1 onde as long\u00ednquas terras inabitadas esperam para serem ocupadas por aventureiros. 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