{"id":555,"date":"2020-10-23T12:20:40","date_gmt":"2020-10-23T15:20:40","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=555"},"modified":"2020-12-27T13:20:29","modified_gmt":"2020-12-27T16:20:29","slug":"cidade-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/cidade-de-deus\/","title":{"rendered":"Cidade De Deus"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 com orgulho por este grande momento do cinema brasileiro que devemos assistir a CIDADE DE DEUS (130\u2019), dire\u00e7\u00e3o de Fernando Meireles, Brasil (2002). N\u00e3o cabe outro sentimento, que vai sendo fortalecido \u00e0 medida que o filme se desenrola diante de nossos olhos. Est\u00e1 ali tudo o que h\u00e1 de melhor. O roteiro, a dire\u00e7\u00e3o, a fotografia, o grande elenco e, para deixar tudo redondinho, no ritmo exato, a edi\u00e7\u00e3o. Portanto, raz\u00f5es para assistir ao filme h\u00e1 muitas. De sobra. O que impacta \u00e9 vermos retratada na tela uma realidade quase \u00edntima de n\u00f3s mesmos, este Brasil violento que nos assusta cotidianamente. E mesmo que estejamos morando a mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia do Rio de Janeiro, a impress\u00e3o que nos fica \u00e9 a de que os tiros ecoam debaixo de nossas janelas. A viol\u00eancia, infelizmente, \u00e9 uma componente da nossa civiliza\u00e7\u00e3o, e comungamos de seus horrores numa atitude de abissal impot\u00eancia. A favela Cidade de Deus, d\u00e9cada de 1980, transformara-se em um doloroso s\u00edmbolo deste cancro nacional. O filme <em>Cidade de Deus<\/em> nos traz, numa constru\u00e7\u00e3o art\u00edstica quase perfeita, a dimens\u00e3o dos horrores anunciados, onde a vida \u00e9 um atributo meramente material, desprovida de toda sua ess\u00eancia divina. A gan\u00e2ncia pelo poder vai triturando vidas ao longo do caminho, sem que nada se possa fazer, mesmo que gritemos para que o servi\u00e7o p\u00fablico, na decis\u00e3o do Estado e na a\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia, venha frear a barb\u00e1rie. Se ainda temos alguma esperan\u00e7a no papel do Estado como agente preparado para erradicar a viol\u00eancia, ledo engano. Ao assistirmos a <em>Cidade de Deus<\/em>, esta convic\u00e7\u00e3o cai, crivada de balas, por terra. Este \u00e9 o grande m\u00e9rito do filme. Colocar-nos, sem m\u00e1scaras, dentro da nossa triste realidade.<\/p>\n<p>A narrativa \u00e9 constru\u00edda a partir do olhar do protagonista-narrador Buscap\u00e9 (Alexandre Rodrigues), o menino que cresce na comunidade Cidade de Deus, e vai presenciando, com sensibilidade, a transforma\u00e7\u00e3o de um abrigo de itinerantes sem teto em um ninho de viol\u00eancia e dor. Tudo come\u00e7a nos anos sessenta, in\u00edcio do assentamento Cidade de Deus, na periferia de um Rio de Janeiro que precisava expandir seu territ\u00f3rio para acolher os milhares que iam chegando \u00e0 cidade maravilhosa, dentro do movimento migrat\u00f3rio que o Brasil vinha conhecendo, principalmente nos anos 1950 e 1960. Junto com o crescimento da favela veio o crime, organizado por grupos que v\u00e3o impondo o seu dom\u00ednio atrav\u00e9s da viol\u00eancia sem limites. A maioria, jovens, marginais ao mercado de trabalho formal, que viam nos pequenos roubos, depois no tr\u00e1fico de drogas, a oportunidade de ascens\u00e3o social f\u00e1cil e r\u00e1pida. E o sentido de ascens\u00e3o social para eles era a manuten\u00e7\u00e3o do poder sobre a favela e a capacidade de consumir o que desejavam, carros, joias e mulheres. Portanto, uma perspectiva de encaixe socioecon\u00f4mico muito limitada. Sem uma estrutura funcional cidad\u00e3 que os encaminhasse para a vida produtiva, n\u00e3o havia outra sa\u00edda para a gl\u00f3ria, mesmo que passageira, sen\u00e3o o crime.<\/p>\n<p>O Trio Ternura, ainda nos anos 1960, apresentado nas figuras de Marreco (Renato de Souza), Cabeleira (Jonathan Haagensen) e Alicate (Jefechander Suplino), representa o crime incipiente, sem objetivos precisos, com uma leve tend\u00eancia a copiar o esp\u00edrito de Robin Hood. Levavam em considera\u00e7\u00e3o as dificuldades da comunidade, e por ela lutavam, em troco, evidente, de prote\u00e7\u00e3o. Mas a segunda gera\u00e7\u00e3o, cuja trajet\u00f3ria ocupa a maior parte do filme, moleques que assistiam com admira\u00e7\u00e3o \u00e0s perip\u00e9cias do extinto Trio Ternura, ser\u00e3o os que, na d\u00e9cada seguinte, v\u00e3o levar o crime \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, com suas barb\u00e1ries e obsess\u00f5es. O vale tudo, o poder como fonte de autopromo\u00e7\u00e3o, e o desvio moral, que logo desembocaria na amoralidade, s\u00e3o a t\u00f4nica festiva de <em>Cidade de Deus<\/em>.<\/p>\n<p>O outrora Dadinho (Douglas Silva), o menino precocemente perverso, irm\u00e3o menor de Cabeleira, um dos Trio Ternura, \u00e9 rapidamente absorvido pelos f\u00e1ceis encantos do crime. Sua ambi\u00e7\u00e3o, desde cedo, \u00e9 ser dono da Cidade de Deus. Na base da bala, toma todos os pontos de venda de drogas instalados na favela, menos um, o do Cenoura (Matheus Nachtergaele), amigo do bra\u00e7o direito de Dadinho, Ben\u00e9 (Phellipe Haagensen). Dadinho, agora crescido e dono da Cidade de Deus, troca o apelido para Z\u00e9 Pequeno (Leandro Firmino), numa clara atitude de autoconsci\u00eancia de sua condi\u00e7\u00e3o de jovem de baixa estatura, negro e nada belo. Para tornar-se definitivamente grande e poderoso, falta tomar o ponto do Cenoura, advers\u00e1rio \u00e0 sua altura, traficante que se insere na comunidade mais pela simpatia do que pelo terror. Com a morte de Ben\u00e9 \u2014 ali\u00e1s, numa sequ\u00eancia bel\u00edssima \u2014, Dadinho est\u00e1 livre para conquistar o seu imp\u00e9rio. Est\u00e1 armado, assim, o \u00faltimo e mais violento confronto. Z\u00e9 Pequeno <em>versus<\/em> Cenoura.<\/p>\n<p>O roteiro, baseado no romance hom\u00f4nimo de Paulo Lins, lan\u00e7ado, com boa repercuss\u00e3o, em 1997, acabou sendo um dos grandes trunfos do sucesso de <em>Cidade de Deus<\/em>. \u00c9 sabido que o roteiro passou por muitos tratamentos, at\u00e9 chegar ao d\u00e9cimo segundo, tratamento este escolhido para ser utilizado nas filmagens. Este esfor\u00e7o criativo para construir uma hist\u00f3ria real adaptada \u00e0 linguagem do cinema prova que, se n\u00e3o se pode prever o sucesso, pode-se, a partir de um trabalho bem planejado, almejar um resultado art\u00edstico que deixe o produto bem perto do reconhecimento p\u00fablico. Tanto \u00e9 verdade que, lido o roteiro, os produtores n\u00e3o tiveram d\u00favida do seu potencial de sucesso. Para um grande filme \u00e9 importante que se tenha em m\u00e3os um grande roteiro.<\/p>\n<p>Neste sentido, o roteiro de <em>Cidade de Deus<\/em> nos apresenta uma facilidade e uma ousadia. A facilidade est\u00e1 por conta de a trama se apoiar na eficiente t\u00e9cnica do protagonista-narrador. Para fins de clareza e ritmo, em <em>Cidade de Deus,<\/em> esta escolha narrativa foi fundamental. A pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o da personagem Buscap\u00e9, jovem sens\u00edvel, observador, que luta para fugir \u00e0 criminalidade, morador da favela, vai facilitar, como testemunha ocular dos acontecimentos, que se coloque o espectador em \u00edntimo contato com o que est\u00e1 ocorrendo diante de seus olhos. A narrativa flui, sem pontos cegos.\u00a0 Enfim, a introdu\u00e7\u00e3o do narrador vem dar clareza e for\u00e7a r\u00edtmica descomunal ao filme.<\/p>\n<p>E a ousadia fica por conta da tessitura da trama. S\u00e3o v\u00e1rias narrativas que agem de forma paralela, apoiadas sempre em uma personagem central, portanto, v\u00e1rias personagens para v\u00e1rias narrativas, que se encontram pelos becos da favela, e se entrela\u00e7am, e se explicam, conduzindo, com extrema seguran\u00e7a, a evolu\u00e7\u00e3o aparentemente complexa, mas em nenhum momento confusa, da trama. H\u00e1 uma cronologia linear, mas h\u00e1 outros tempos, que se atrasam ou se adiantam, veiculando informa\u00e7\u00f5es essenciais para o entendimento do enredo, preparando o espectador para o grande cl\u00edmax. Tudo o que \u00e9 essencial \u00e9 narrado. Na velocidade das imagens e na precis\u00e3o art\u00edstica da edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para finalizar, n\u00e3o podemos deixar de falar de outra ousadia. A produ\u00e7\u00e3o do elenco. Optou-se por contratar um elenco amador, moradores de favelas, que nunca tinham estado diante de uma c\u00e2mera. A exce\u00e7\u00e3o ficou por conta de Matheus Nachtergeale. Fugir dos nomes consagrados, alheios \u00e0 realidade das favelas, foi o grande acerto. Nada de teatralidade, nada de t\u00e9cnicas invasivas de prepara\u00e7\u00e3o de elenco. O que importava era a verossimilhan\u00e7a, o representar o mundo real em que estavam inseridos, sem que as emo\u00e7\u00f5es, e at\u00e9 os di\u00e1logos, tivessem uma pr\u00e9via e exaustiva constru\u00e7\u00e3o. Neste ponto, o acerto foi brutal. Se a algum espectador interessar, remetemos ao document\u00e1rio <em>Cidade de Deus &#8211; Dez Anos Depois <\/em>(68\u2019). A partir deste document\u00e1rio, temos uma clara ideia da ousadia na sele\u00e7\u00e3o e na prepara\u00e7\u00e3o do elenco, meninos de favela que de repente se veem retratados, por eles mesmos, na tela. E tudo \u00e9 t\u00e3o real que, dez anos depois, a grande maioria continua na insana luta para se inserir no mercado produtivo. E mais. Ficamos sabendo que a quase totalidade do elenco, na sua maioria negros, n\u00e3o conseguiram espa\u00e7o no mundo art\u00edstico. Este \u00e9 o grande problema de um pa\u00eds em desequil\u00edbrio, onde n\u00e3o h\u00e1 lugar para todos. Principalmente se for negro.<\/p>\n<p>Em suma.<em> Cidade de Deus<\/em> \u00e9 um filme que ficar\u00e1 para a hist\u00f3ria do cinema brasileiro como uma de nossas grandes inspira\u00e7\u00f5es. E nos deixa um legado. O cinema brasileiro poderia receber muito mais apoio, os talentos e for\u00e7as criativas est\u00e3o a\u00ed, por toda parte, \u00e0 espera do apoio financeiro para colocar seus projetos em pr\u00e1tica. E mais do que isso. Precisamos do cinema nacional para discutir nossa realidade. Realidade que vivenciamos, mas que s\u00f3 o cinema, retratando-a nas telas, nos d\u00e1 a real dimens\u00e3o do mundo em que vivemos, cotidianamente. Ademais, ao transformar nosso cotidiano em arte, estamos fazendo cultura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 com orgulho por este grande momento do cinema brasileiro que devemos assistir a CIDADE DE DEUS (130\u2019), dire\u00e7\u00e3o de Fernando Meireles, Brasil (2002). 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