{"id":573,"date":"2020-10-23T11:20:13","date_gmt":"2020-10-23T14:20:13","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=573"},"modified":"2020-12-27T13:24:30","modified_gmt":"2020-12-27T16:24:30","slug":"dogville","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/dogville\/","title":{"rendered":"Dogville"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00a0<\/strong>DOGVILLE, (178\u2019), dire\u00e7\u00e3o de Lars Von Trier, Dinamarca\/Su\u00e9cia\/EUA (2003), quebra com alguns paradigmas a que estamos acostumados quando se trata de concep\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios \u2013 interiores e exteriores.\u00a0<em>Dogville<\/em>\u00a0\u00e9 uma cidade. At\u00e9 a\u00ed tudo bem. S\u00f3 que \u00e9 uma cidade desse tamanho, min\u00fascula. E, evidente, h\u00e1 habitantes. Contam-se nos dedos. Quinze adultos. Tirando-se a\u00ed as sete crian\u00e7as. Uma cidade quase invis\u00edvel, perdida nas montanhas, em algum lugar nos Estados Unidos. N\u00e3o tem xerife, n\u00e3o tem prefeitura, hospital, escola, no m\u00e1ximo uma igreja, representada cenicamente apenas pelo topo do campan\u00e1rio. Portanto, h\u00e1 s\u00f3 casas. Poucas. Sem paredes. Sim, as casas n\u00e3o t\u00eam paredes. As paredes s\u00e3o tra\u00e7adas a giz. As portas existem apenas na sonoplastia, quando os trincos s\u00e3o abertos ou fechados. At\u00e9 o cachorro, Mois\u00e9s, \u00e9 desenhado a giz e s\u00f3 vive na sonoplastia de seus latidos. E as casas n\u00e3o t\u00eam teto. As tomadas de c\u00e2meras l\u00e1 de cima envolvem toda a cidade, de onde o espectador poder\u00e1 bisbilhotar o interior de cada casa. Ali\u00e1s, enquanto a c\u00e2mera passeia pela rua principal, focando alguma cena, podemos notar em volta e ao fundo os interiores dos lares e o que neles acontecem. Inclusive o sexo. Diante disso tudo, a que conclus\u00e3o podemos chegar? Que se trata de um teatro a c\u00e9u aberto. Da\u00ed o prop\u00f3sito de a cidade de\u00a0<em>Dogville<\/em>\u00a0ser t\u00e3o min\u00fascula. Ela tem que caber num palco. No caso, num enorme galp\u00e3o, na Dinamarca, onde o filme foi rodado. Um teatro a que podemos assistir em casa ou nos cinemas, e sermos afetados pelas mesmas emo\u00e7\u00f5es a que estar\u00edamos expostos caso estiv\u00e9ssemos sentados numa poltrona de teatro, presenciando tudo ao vivo. Esta \u00e9 a grande sacada de Lars Von Trier. Ele tinha um prop\u00f3sito. Mostrar, a conta gotas, da forma mais pungente poss\u00edvel, os horrores humanos. Para isso, ele se utiliza dos recursos do teatro com o objetivo de trazer o p\u00fablico para bem pertinho do cotidiano da cidade. O p\u00fablico imerso na sua triste intimidade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, vamos l\u00e1. Agora sabemos que \u00e9 filme-teatro. Que n\u00e3o h\u00e1 paredes. E mais. Poucos m\u00f3veis, o necess\u00e1rio, que n\u00e3o atrapalhe os movimentos das cenas. A c\u00e2mera atravessa tudo, e nossos olhos caminham junto com ela. N\u00f3s presenciamos o que os habitantes fazem. Nos quatro cantos. Somos onipresentes. A c\u00e2mera, totalmente livre, nos ajuda a discernir a terr\u00edvel constru\u00e7\u00e3o da narrativa. Os habitantes, n\u00e3o. Eles nada percebem. Est\u00e3o cegos, presos a um cotidiano que os faz insens\u00edveis \u00e0s suas m\u00edseras condi\u00e7\u00f5es. Mois\u00e9s, o cachorro desenhado no ch\u00e3o da rua, poderia simbolizar a revela\u00e7\u00e3o, o anunciado do que est\u00e1 por acontecer, no entanto, c\u00e3o n\u00e3o narra, portanto, para o que acontecer\u00e1 em\u00a0<em>Dogville<\/em>\u00a0n\u00e3o haver\u00e1 resposta. Resta aos pobres habitantes se enxergarem atrav\u00e9s de seu narrador que, ao criar uma sem\u00e2ntica filos\u00f3fica confusa, nos leva \u00e0 beira do absurdo. O narrador suprime, em alguns momentos, a necessidade de di\u00e1logos para mostrar como a mente humana funciona diante de situa\u00e7\u00f5es de ignor\u00e2ncia \u00e9tica.<\/p>\n<p>A vida pacata de\u00a0<em>Dogville<\/em>\u00a0come\u00e7a a se alterar com a chegada de uma bela e misteriosa mulher, Grace Margaret Mulligan, encarnada na beleza implac\u00e1vel de Nicole Kidman. Sabe-se que Grace chegara a\u00a0<em>Dogville<\/em>\u00a0fugindo de tiros ecoados naquela noite, montanha abaixo, e ouvidos por Tom Edison (Paul Bettany), jovem escritor que pretende escrever um livro, mas que, no momento, est\u00e1 mergulhado na dura tarefa de construir o que ele chama de rearmamento moral. O que isto significa jamais saberemos. Mas \u00e9 com base neste seu comportamento de l\u00edder intelectual junto \u00e0 comunidade, uma lideran\u00e7a titubeante, covarde e narcisista, que o filme encontrar\u00e1 seu ritmo, seu desregramento moral, sua evolu\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, sua explos\u00e3o tr\u00e1gica. Acompanhado de perto pelo onipresente narrador, Tom levar\u00e1 Grace ao inferno, permitindo e compactuando com os comportamentos imorais dos habitantes de\u00a0<em>Dogville<\/em>. Tom teria uma escolha. Onde todos se salvariam. Mas ele \u00e9 fraco e esconde sua fraqueza na omiss\u00e3o. Deixa que Grace, por quem est\u00e1 apaixonado, seja lentamente entregue aos c\u00e3es.<\/p>\n<p>A estrutura narrativa se divide em um pr\u00f3logo e nove cap\u00edtulos. O pr\u00f3logo \u00e9 utilizado para apresentar ao espectador a cidade de\u00a0<em>Dogville<\/em>\u00a0e seus habitantes. A partir do primeiro cap\u00edtulo, vamos presenciar a evolu\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica do conv\u00edvio de Grace com a cidade. Naquela mesma noite, logo ap\u00f3s a chegada de Grace, entram pela rua principal da cidade alguns carros, ao estilo dos anos 1930, \u00f3bvio, procurando pela fugitiva. S\u00e3o g\u00e2ngsteres, logo se percebe, e agora fica claro para Tom de quem ela est\u00e1 fugindo. A partir da\u00ed, a motiva\u00e7\u00e3o narrativa de\u00a0<em>Dogville<\/em>\u00a0torna-se \u00f3bvia. Em troca de acolhimento por parte da cidade, assustada e apreensiva com a inesperada visita dos g\u00e2ngsteres, Grace ter\u00e1 que prestar servi\u00e7os dom\u00e9sticos de casa em casa, dia ap\u00f3s dia. No entanto, a cada visita da pol\u00edcia \u00e0 procura da fugitiva, aumenta a tens\u00e3o. E o jogo de barganhas, eufemismo para a palavra maldade. Eis a proposta existencial do filme. Mostrar como o poder induz o ser humano \u00e0 maldade. Aos desvios de conduta. Somos um vulc\u00e3o querendo eruptir! Com o poder nas m\u00e3os, eis a oportunidade! E o filme, dentro de sua estrutura e proposta, s\u00f3 se viabiliza em fun\u00e7\u00e3o do comportamento covarde de Tom. Ele \u00e9 um biombo de vidro transparente, atrav\u00e9s do qual o espectador poder\u00e1 observar, at\u00f4nito, a podrid\u00e3o humana.<\/p>\n<p>A maldade exala do filme de uma forma t\u00e3o asquerosa que nos leva a nos perguntarmos se \u00e9 assim mesmo que somos. E aqui est\u00e1 toda a quest\u00e3o. Quando encontramos a maldade dilu\u00edda no dia a dia, manifestando-se aqui e ali, individualmente, ou em pequenos grupos, parece que estamos protegidos dela, podemos ver a maldade l\u00e1 longe, fora do nosso alcance, de prefer\u00eancia nos notici\u00e1rios. Chegamos at\u00e9 a nos acostumarmos com ela. E, de t\u00e3o corriqueira, nos parece inofensiva. Assassinatos? T\u00eam aqueles que matam. Roubos? T\u00eam aqueles que roubam, estupram, escravizam\u2026 S\u00f3 que quando a maldade se torna coletiva, a\u00ed a coisa muda, radicalmente. \u00c9 quando nos inserimos nela. Fazemos parte da pr\u00e1tica do mal. Eu fa\u00e7o a maldade, o vizinho tamb\u00e9m faz a mesma maldade, a minha cunhada, o amigo, e assim o que era apenas uma maldade identificada como tal, torna-se uma conduta coletiva, portanto, aceita, portanto, desprovida da sua ess\u00eancia moral. Tiramos de n\u00f3s mesmos a responsabilidade da pr\u00e1tica do mal. Esta responsabilidade n\u00e3o existe porque, naquele momento, n\u00e3o existe, aos olhos de todos, a maldade. Este \u00e9 o horror da desumanidade! \u00c9 quando adulteramos o indiv\u00edduo como entidade \u00edntegra e inoculamos nele uma percep\u00e7\u00e3o in\u00fatil de certo e errado.\u00a0<em>Dogville<\/em>\u00a0traz isto com toda clareza. E caso o espectador queira se aprofundar, atrav\u00e9s da arte, nesta realidade t\u00e3o ao nosso alcance, indicamos uma pe\u00e7a de teatro, de Friedrich D\u00fcrenmatt,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.assistoporquegosto.com.br\/blog\/index.php\/avisitadavelhasenhora\/\"><em>A Visita da Velha Senhora\u00a0<\/em><\/a>(1956), pe\u00e7a com a qual\u00a0<em>Dogville<\/em>\u00a0divide muitas semelhan\u00e7as, em especial na constru\u00e7\u00e3o do perfil psicol\u00f3gico de Tom e Schill. Ambas as obras nos ensinam o que \u00e9 tomar uma atitude de maldade como padr\u00e3o de conviv\u00eancia aceit\u00e1vel. \u00c9 quando n\u00e3o existe mais a humanidade e, sim, apenas a carca\u00e7a dela. \u00c9 que o homem, j\u00e1 morto, se antecipou \u00e0 morte de si mesmo. Ele n\u00e3o \u00e9 mais uma entidade espiritual. Apenas um punhado de ossos despreparados para viver. \u00c9 desta forma que o tr\u00e1gico se anuncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0DOGVILLE, (178\u2019), dire\u00e7\u00e3o de Lars Von Trier, Dinamarca\/Su\u00e9cia\/EUA (2003), quebra com alguns paradigmas a que estamos acostumados quando se trata de concep\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios \u2013 interiores e exteriores.\u00a0Dogville\u00a0\u00e9 uma cidade. At\u00e9 a\u00ed tudo bem. S\u00f3 que \u00e9 uma cidade desse tamanho, min\u00fascula. E, evidente, h\u00e1 habitantes. Contam-se nos dedos. Quinze adultos. 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