{"id":814,"date":"2020-11-17T10:48:25","date_gmt":"2020-11-17T13:48:25","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=814"},"modified":"2021-07-10T15:03:06","modified_gmt":"2021-07-10T18:03:06","slug":"rebecca-a-mulher-inesquecivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/rebecca-a-mulher-inesquecivel\/","title":{"rendered":"Rebecca \u2013 A Mulher Inesquec\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">O filme REBECCA \u2013 A MULHER INESQUEC\u00cdVEL (124\u2019), dire\u00e7\u00e3o de Ben Wheatley, EUA (2020), \u00e9 baseado no romance hom\u00f4nimo da escritora inglesa Daphne Du Maurier, lan\u00e7ado em 1938, com grande sucesso de p\u00fablico. O produtor David Selznick \u2014 de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">E o Vento Levou&#8230;<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2014 se apaixonaria de tal modo pelo romance que j\u00e1 em 1940 lan\u00e7aria o filme, com dire\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m menos que Alfred Hitchcock. Como se pode ver, a produ\u00e7\u00e3o 2020 de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Rebecca \u2013 A Mulher Inesquec\u00edvel<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> tem \u00e0s suas costas, assombrando-a, um romance de sucesso, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Rebecca<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, e o respectivo filme g\u00f3tico cl\u00e1ssico thriller psicol\u00f3gico <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Rebecca \u2013 A Mulher Inesquec\u00edvel<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, ganhador do Oscar de Melhor Filme, em 1941. Este \u00e9 o grande desafio de qualquer remontagem (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">remake<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">). Enfrentar, com galhardia e compet\u00eancia, o passado. E se for um passado glorioso, a\u00ed a responsabilidade aumenta. As compara\u00e7\u00f5es entre as duas produ\u00e7\u00f5es s\u00e3o inevit\u00e1veis. Pipocam de todos os lados, com vantagens para a produ\u00e7\u00e3o antiga. Em outras palavras, a produ\u00e7\u00e3o atual vai para o grande p\u00fablico com algumas retic\u00eancias. E aqui reside talvez a grande inc\u00f3gnita do filme de Ben Wheatley. Parece que o passado intimidou o diretor, que ficou entre homenagear o filme de 1940, repetindo inclusive cenas ic\u00f4nicas (a cena da luva, por exemplo), ou produzir sua pr\u00f3pria vis\u00e3o do romance de Daphne Du Maurier, na busca de trazer algo moderno. Talvez o erro \u2014 quase fatal \u2014 do roteiro e da dire\u00e7\u00e3o foi ter ficado a meio caminho. Houve tentativas, principalmente nas solu\u00e7\u00f5es finais, de se distanciar do original. Mas foi pouco. No frigir dos ovos, fica para o espectador a decis\u00e3o de gostar ou n\u00e3o da nova Rebecca. Tem qualidades, cumpre seu papel como divers\u00e3o, mas talvez ter\u00e1 dificuldades de se firmar como uma obra a ser aplaudida.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O roteiro pode ser dividido em tr\u00eas partes distintas. Na primeira, que ocupa os trinta minutos iniciais do filme, Maxim de Winter (Armie Hammer), aristocrata ingl\u00eas, vi\u00favo recente, encontra-se em f\u00e9rias em Monte Carlo, quando conhece uma dama de companhia (Lily James) de uma senhora tamb\u00e9m inglesa aristocrata, antiga frequentadora das famosas festas na magn\u00edfica casa de Manderley, resid\u00eancia do outrora casal De Winter. A paix\u00e3o entre os dois, o aristocrata e a dama de companhia, rapidamente acontece e o casamento \u00e9 precipitado pela iminente viagem \u00e0 Nova Iorque da aristocrata inglesa. Casados, retornam \u00e0 suntuosa casa de Manderley.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na segunda parte, a mais epis\u00f3dica, vemos a imagem de Rebecca, a falecida esposa de Maxim, rondar insistentemente a rotina da atual Sra. de Winter. Ela ter\u00e1 que conviver, em cada detalhe (guardanapos, len\u00e7os, cartas, agendas, o incompar\u00e1vel quarto conjugal da ala oeste), com a inc\u00f4moda imagem que vai sendo constru\u00edda da outra, a de uma mulher bela (a mais bela), inteligente, elegante, de origem nobre, e que misteriosamente desaparece no mar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por fim, na terceira parte, que se encaminha para o desfecho, e que ocupa os \u00faltimos quarenta minutos do filme, h\u00e1 uma reviravolta na trama, em que tudo \u00e9 desvendado, mostrando ao espectador que as coisas n\u00e3o eram bem como pareciam ser. S\u00e3o os segredos que emergem do mar e v\u00e3o respingar lama no passado. E assim cumpre-se a finalidade da literatura de Dauphne Du Maurier, e dos respectivos filmes, a de mostrar que todo casamento tem seus segredos. E que \u00e0s vezes (ou muitas) as rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o passam de felizes constru\u00e7\u00f5es de fachada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por exig\u00eancia do produtor Selznick, e para desgosto do diretor Hitchcock, a produ\u00e7\u00e3o de 1940 preservou em boa parte o livro de Daphne Du Maurier. Na vers\u00e3o atual houve tamb\u00e9m esta preocupa\u00e7\u00e3o, o que talvez, como j\u00e1 dissemos, tenha sido uma decis\u00e3o equivocada. Podia explorar certas quest\u00f5es, hoje em voga, que o livro oferece (conflitos sociais, papel da mulher na sociedade, o determinismo do passado), o que talvez possibilitaria \u00e0 produ\u00e7\u00e3o fugir da inc\u00f4moda sombra do cl\u00e1ssico de 1940. O que se pode dizer em comum \u00e0s duas vers\u00f5es \u00e9 que ambas vendem uma coisa, mas o espectador, ao chegar ao final, acaba comprando outra. Esta \u00e9 a principal for\u00e7a criativa da trama armada por Dauphne Du Maurier, al\u00e7ando a narrativa a patamares humanos e filos\u00f3ficos consistentes. \u00c9 a velha e feroz disputa entre amor e \u00f3dio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o vamos descer a detalhes, visto que a hist\u00f3ria, como foi ela concebida pela pr\u00f3pria autora, traz desafios que podem se transformar em armadilhas para roteiristas e diretores. Com certeza, roteiristas e diretores, tiveram que se virar nos trinta para poderem calibrar a trama de forma que seguisse naturalmente seu curso narrativo em linguagem cinematogr\u00e1fica. S\u00f3 para citar, prendemo-nos a tr\u00eas dificuldades b\u00e1sicas. Primeiro, os sil\u00eancios de Maxim, que tomam ares de segredo, a respeito do seu passado com Rebecca. A vers\u00e3o de 1940 trabalhou melhor estes sil\u00eancios; segundo, a constru\u00e7\u00e3o de Rebecca no imagin\u00e1rio do espectador \u2014 menos eficaz na produ\u00e7\u00e3o de 2020; e terceiro, como a Sra. de Winter lida com estas quest\u00f5es, no que tange aos sil\u00eancios do marido, e a esta mulher fabulosa que vai sendo desenhada diante de si, colocando em risco sua autoestima e seu casamento. Quanto maior vai ficando Rebecca, menor parece se sentir a Sra. de Winter. Incomodada, sabe que tem que agir. S\u00e3o estas estruturas que sustentam a narrativa e lhe d\u00e3o vigor, servindo para prender, em atmosferas de tens\u00e3o e suspense, a aten\u00e7\u00e3o do espectador. Neste jogo, 1940 foi mais h\u00e1bil que 2020, o que acaba sendo o calcanhar de Aquiles da recente produ\u00e7\u00e3o. A maldosa literatura de Dauphne Du Maurier pede aprofundamentos psicol\u00f3gicos e boas doses de tens\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Mas o que interessa \u00e9 a personagem que n\u00e3o aparece no filme. Ela \u00e9 a protagonista. \u00c9 ela que o espectador quer conhecer a fundo. Afinal, quem \u00e9 esta mulher que todos admiram, veneram, e n\u00e3o esquecem?\u00a0 E que morta, parece vagar pelos corredores e quartos da famosa mans\u00e3o de Manderley? Fica-nos a impress\u00e3o de que esta Rebecca sugou toda a vida da casa. Organizou tudo, vivenciou tudo, pensou em tudo, e tudo executou de forma maravilhosa e pr\u00e1tica, de modo que n\u00e3o sobrou nada para a outra Sra. de Winter fazer sen\u00e3o se subjugar \u00e0 superioridade de sua antecessora. E para sustentar as mem\u00f3rias \u2014 manter o passado vivo \u2014, entra aqui o feliz achado composicional da escritora ao introduzir a famigerada dama de companhia de Rebecca, a Sra. Sanders (Kristin Scott Thomas). \u00c9 ela quem deve manter a alta voltagem da narrativa. \u00c9 ela que n\u00e3o deixa ningu\u00e9m esquecer sua adorada Rebecca. \u00c9 ela a origem da maldade, do ci\u00fame, da pervers\u00e3o, cujo \u00fanico objetivo \u00e9 afastar a nova Sra. de Winter da casa de Manderley. E suas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o toleradas pela complac\u00eancia do Sr. de Winter, motivado pela secreta culpa que ele nutre em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte da esposa. \u00c9 esta fragilidade psicol\u00f3gica de Maxim que torna a constru\u00e7\u00e3o da trama fact\u00edvel e verossimilhante. E por entre estes imbr\u00f3glios caminha a fr\u00e1gil, bondosa e \u00e0s vezes sem gra\u00e7a Sra. de Winter.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em suma. Pode parecer uma atitude cruel fazer compara\u00e7\u00f5es. E na maioria das vezes, \u00e9. Em se tratando de pessoas, sempre ser\u00e1. Na arte, as compara\u00e7\u00f5es s\u00e3o inevit\u00e1veis, mas nem sempre desej\u00e1veis. Para os cr\u00edticos \u00e9 compreens\u00edvel, afinal, \u00e9 seu of\u00edcio. Para os espectadores, \u00e9 sempre uma tenta\u00e7\u00e3o. No caso da produ\u00e7\u00e3o atual de Rebecca, compar\u00e1-la com o cl\u00e1ssico pode ser um exerc\u00edcio \u00fatil para apreender a ess\u00eancia de cada obra. Ben Wheatley n\u00e3o \u00e9 Hitchcock, nem 2020 \u00e9 1940. Hitchcock \u00e9 mestre do suspense, Wheatley passa um pouco longe. Um filme \u00e9 em preto e branco, limitado por esta t\u00e9cnica. O recente \u00e9 colorido e explora esse recurso com elogi\u00e1vel eleg\u00e2ncia, despejando cores nos figurinos e cen\u00e1rios. Hitchcock explora o suspense e as tens\u00f5es psicol\u00f3gicas, Weahtley, o romantismo, inserindo sensualidade e nudismo, impens\u00e1veis em 1940. E por a\u00ed vai. O que nos fica claro \u00e9 que a atual vers\u00e3o teve dificuldades em nos entregar o soberbo retrato de Rebecca. Jogou dezenas de evid\u00eancias na tela, mas n\u00e3o conseguiu amalgam\u00e1-las na imagem da mulher inesquec\u00edvel. Rebecca vem incompleta. Rebecca fica emba\u00e7ada no imagin\u00e1rio do espectador, o que nos faz crer que a Rebecca 2020 n\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o inesquec\u00edvel quanto \u00e9 a outra, a cl\u00e1ssica. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O filme REBECCA \u2013 A MULHER INESQUEC\u00cdVEL (124\u2019), dire\u00e7\u00e3o de Ben Wheatley, EUA (2020), \u00e9 baseado no romance hom\u00f4nimo da escritora inglesa Daphne Du Maurier, lan\u00e7ado em 1938, com grande sucesso de p\u00fablico. 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