{"id":831,"date":"2020-09-18T11:20:38","date_gmt":"2020-09-18T14:20:38","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=831"},"modified":"2021-03-08T13:36:15","modified_gmt":"2021-03-08T16:36:15","slug":"a-hora-do-lobo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/a-hora-do-lobo\/","title":{"rendered":"A Hora Do Lobo"},"content":{"rendered":"<p>Nem sempre \u00e9 poss\u00edvel encontrar respostas sobre o que determinado filme quer nos dizer. \u00c0s vezes, precisamos ir al\u00e9m de simplesmente perguntar. \u00c9 preciso espiar pela fechadura. Ver al\u00e9m das imagens. Investigar. S\u00f3 que esta atitude exige de n\u00f3s alguns esfor\u00e7os que nem sempre estamos dispostos a encarar. Afinal, por que temos que entender tudo que se passa diante dos nossos olhos? Por que n\u00e3o apenas assistir ao filme, sem precisar colocar nossos neur\u00f4nios para trabalhar? E a\u00ed vem a pergunta que queremos fazer. \u00c9 poss\u00edvel manter esta atitude de mero espectador passivo diante dos filmes de Ingmar Bergman? N\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio. Vamos ter que nos levantar da poltrona e nos colocar numa atitude investigativa. De inquieta\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 a proposta art\u00edstica do diretor sueco. Uma exig\u00eancia, quase. E \u00e9 com este \u00e2nimo que devemos assistir a mais este filme de Bergman \u2014 que tamb\u00e9m assina o roteiro \u2014, o quase inescrut\u00e1vel A HORA DO LOBO (83\u2019), Su\u00e9cia (1968). Se Bergman embaralha tudo, tira da ordem e camufla a realidade, ele o faz com o objetivo de criar abismos para que fiquemos tentados a mergulhar neles. Ser\u00e1 que vale a pena esse mergulho? Entendemos que sim. O m\u00e1ximo que pode acontecer \u00e9 continuarmos sem as respostas.<\/p>\n<p>Johan Borg \u00e9 um pintor introspectivo, com algum sucesso, que vai viver com a esposa, Alma, numa das ilhas de Fr\u00edsias, na Su\u00e9cia. O isolamento consentido, a penumbra que amedronta e a claridade que ofusca v\u00e3o expondo a mente perturbada de Johan, colocando-o em posi\u00e7\u00e3o de crise em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua esposa. Johan, com sua mente errante, deixa Alma assustada, sem entender o que est\u00e1 acontecendo com o marido. Escolheram isolarem-se na ilha para serem felizes. No entanto, seres alucinat\u00f3rios, feito convidados indesej\u00e1veis, v\u00e3o ocupando seus lugares \u00e0 mesa, povoando a mente de Johan na confusa mistura de realidades e del\u00edrios.<\/p>\n<p>Vale a pena prestar aten\u00e7\u00e3o, ainda no come\u00e7o do filme, por volta do d\u00e9cimo minuto, na cena em que Johan mostra \u00e0 esposa seus desenhos mais secretos. O que nos \u00e9 descrito por Johan \u2014 j\u00e1 que os desenhos n\u00e3o nos s\u00e3o mostrados \u2014 s\u00e3o conte\u00fados alucinat\u00f3rios, criados por uma mente em vis\u00edvel estado de deteriora\u00e7\u00e3o. E estas proje\u00e7\u00f5es ser\u00e3o confirmadas mais adiante, no formato de realidade, quando da visita de Johan e Alma ao castelo do Bar\u00e3o Von Merkens (Erland Josephson). Mas, antes de tudo, precisamos decidir uma coisa. E aqui reside a import\u00e2ncia da cena acima destacada. A visita ao castelo realmente existiu? H\u00e1, de fato, um castelo na ilha? Habitado pelos fantasmag\u00f3ricos Von Merkens? Esta, pois, \u00e9 a quest\u00e3o b\u00e1sica do filme. Afinal, o que \u00e9 realidade e o que n\u00e3o \u00e9 realidade?<\/p>\n<p>Uma das t\u00e9cnicas que Bergman usa para nos confundir \u00e9 a n\u00e3o linearidade da narrativa. Ora, o que n\u00e3o \u00e9 linear fragiliza o racional! Oferece espa\u00e7os para que a d\u00favida tome conta da nossa percep\u00e7\u00e3o. Mas este, cremos, \u00e9 exatamente o objetivo de Bergman. Colocar o espectador diante de sensa\u00e7\u00f5es primitivas, frutos de viv\u00eancias passadas que moldam nossa forma de sentir e reagir ao cotidiano. N\u00e3o \u00e0 toa, se aproximarmos a lupa, vamos perceber que h\u00e1 muito do Bergman menino neste filme. A impress\u00e3o que nos fica \u00e9 que Bergman escreveu o roteiro e concebeu o filme dentro de um arm\u00e1rio, s\u00edmbolo do terror do menino Bergman em seu reduto de castigos e puni\u00e7\u00f5es paternas. Os espantalhos que terrificavam o menino Ingmar s\u00e3o agora reavivados, em sublima\u00e7\u00e3o art\u00edstica, num dos seus filmes mais autobiogr\u00e1ficos. \u00c9 o Bergman artista acolhendo o menino Ingmar.<\/p>\n<p>E o Bergman artista que quer nos confundir utiliza t\u00e9cnicas de filme de terror para conseguir os efeitos est\u00e9ticos que deseja para expressar suas ang\u00fastias pessoais.\u00a0 Mas nada de querer assustar, muito menos aterrorizar. Apenas evidenciar. O que interessa \u00e9 impactar o espectador para que ele se deixe aprofundar no universo ps\u00edquico conturbado de Johan. Os olhares s\u00e3o silenciosos, as vozes, caladas, e os passos cadenciados nos levam diretamente ao medo. H\u00e1 representa\u00e7\u00f5es de personagens levemente excessivas, portanto, misteriosamente teatrais. A maquiagem \u00e9 fria, o sorriso \u00e9 enigm\u00e1tico e a fotografia de Sven Nykvist, amedrontadora. E os movimentos de c\u00e2mera, lentos e torturantes. Foi mais um passo nas aventuras art\u00edsticas de Bergman que, como ningu\u00e9m, se disp\u00f5e a usar de qual seja a t\u00e9cnica e a est\u00e9tica para atingir seu objetivo maior. Fazer do cinema arte.<\/p>\n<p>E aqui retornamos ao ponto central da nossa discuss\u00e3o, isto \u00e9, se \u00e9 mesmo poss\u00edvel compreender o que Bergman quer nos dizer em <em>A Hora do Lobo<\/em>. O foco da estrutura alucinat\u00f3ria de Johan, sabemos, gira em torno de sua antiga amante, Ver\u00f4nica Vogler, a quem sua alma perturbada est\u00e1 presa. \u00c9 em torno deste n\u00facleo alucinat\u00f3rio que gira a narrativa. Neste caso, a sa\u00edda \u00e9 definirmos v\u00e1rias sinopses que nos levem a entender, em parte, o filme. Depende de aceitarmos esta ou aquela pista psicol\u00f3gica. Vamos dizer que Ver\u00f4nica Vogler era uma prostituta por quem Johan se apaixonara doentiamente. E que viria a ser assassinada por motivos de ci\u00fames entre amantes. E vamos dizer tamb\u00e9m que os disparos, tr\u00eas, um deles fatal, tenham sido feitos por Johan, o que veio a causar sua desintegra\u00e7\u00e3o ps\u00edquica. Outra sinopse. A morte do menino pode simbolizar o desaparecimento do menino Bergman. A pr\u00f3pria Ver\u00f4nica Vogler pode surgir como a alegoria do an\u00e3o dentro do arm\u00e1rio, que tanto terrificara Bergman, como ele mesmo relata em sua biografia. Afinal, o arm\u00e1rio era o ninho alucinat\u00f3rio dos seus castigos. Poder\u00e1 o espectador, ele pr\u00f3prio, munido de suas percep\u00e7\u00f5es, fazer a sua sinopse. Pode ser um caminho tortuoso, mas que valer\u00e1 a pena trilhar. Principalmente se tivermos em mente que, em se tratando de Bergman, nada \u00e9 assim t\u00e3o definitivo. O que nos d\u00e1 a possibilidade de arriscar.<\/p>\n<p>Em suma. Precisamos nos dar conta de que a raz\u00e3o nem sempre precisa ocupar todos os espa\u00e7os do cotidiano. O que \u00e9 inexplic\u00e1vel tamb\u00e9m \u00e9 algo que pode ser apenas sentido, portanto, apreciado. Mas, l\u00f3gico, para tudo existe uma tentativa de compreens\u00e3o. Est\u00e1 em n\u00f3s esta inquieta\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, fa\u00e7amos o seguinte. N\u00e3o vamos ficar passivos. Primeiro, vamos sentir, deixar nossas sensa\u00e7\u00f5es nos dominarem. Depois, sim, vamos tentar elucidar os significados constru\u00eddos por Bergman. Muitas s\u00e3o as pistas narrativas que <em>A Hora do Lobo<\/em> nos oferece, algumas at\u00e9 citadas acima. Basta nos dedicarmos ao esfor\u00e7o de procur\u00e1-las. Mas todos v\u00e3o prometer uma coisa. Aceitar a ideia de que os monstros que habitam em n\u00f3s s\u00e3o invis\u00edveis. Por que, se vis\u00edveis, j\u00e1 ter\u00edamos tido a oportunidade de elimin\u00e1-los. E n\u00e3o precisar\u00edamos passar a vida achando que tudo vai ser compreendido, as nossas dores e os nossos pesadelos. Engano. Continuaremos sempre a esperar pela hora do lobo, aquele exato momento entre a madrugada e o amanhecer, que \u00e9 quando o lobo vai aparecer para nos livrar da nossa loucura. S\u00f3 que o lobo n\u00e3o existe. Ele \u00e9 apenas uma lenda. Que vem para nos atormentar. Sem que saibamos por qu\u00ea.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem sempre \u00e9 poss\u00edvel encontrar respostas sobre o que determinado filme quer nos dizer. \u00c0s vezes, precisamos ir al\u00e9m de simplesmente perguntar. \u00c9 preciso espiar pela fechadura. Ver al\u00e9m das imagens. Investigar. S\u00f3 que esta atitude exige de n\u00f3s alguns esfor\u00e7os que nem sempre estamos dispostos a encarar. 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