{"id":843,"date":"2020-09-14T11:51:13","date_gmt":"2020-09-14T14:51:13","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=843"},"modified":"2021-01-11T19:14:08","modified_gmt":"2021-01-11T22:14:08","slug":"tempos-modernos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/tempos-modernos\/","title":{"rendered":"Tempos Modernos"},"content":{"rendered":"<p>Quando Charlie Chaplin come\u00e7ou a produzir TEMPOS MODERNOS (83\u2019), EUA (1936), j\u00e1 se pressentia que este seria o \u00faltimo filme estrelado pelo ador\u00e1vel Vagabundo <em>(The Tramp)<\/em>. Falamos de uma \u00e9poca em que o cinema sonoro j\u00e1 era unanimidade. \u00c9poca em que milhares de filmes despejavam seus intermin\u00e1veis di\u00e1logos nas telas dos cinemas e os musicais dominavam a cena com suas produ\u00e7\u00f5es suntuosas. Chaplin entendeu que era chegada a hora de calar para sempre o seu Carlitos. \u00c9 com este olhar de despedida que devemos assistir a <em>Tempos Modernos<\/em>. Uma decis\u00e3o dif\u00edcil para Chaplin ter que se desfazer de sua genial cria\u00e7\u00e3o, a base do seu sucesso como artista. Seria o ponto final da figura mais humana e talvez mais completa que jamais se viu como arte cinematogr\u00e1fica, cuja longa trajet\u00f3ria tornara-se a s\u00edntese da hist\u00f3ria das primeiras d\u00e9cadas do cinema. Este \u00e9 o principal cart\u00e3o de visitas de <em>Tempos Modernos<\/em>. Ter sido o \u00faltimo filme realmente mudo do roteirista e diretor Charlie Chaplin. A consci\u00eancia de que o tempo chegara ao fim para seu Vagabundo \u00e9 t\u00e3o percept\u00edvel que Chaplin n\u00e3o poupou cuidados art\u00edsticos e est\u00e9ticos, e nem pantom\u00edmicos, para elevar <em>Tempos Modernos<\/em> ao n\u00edvel m\u00e1ximo de obra prima. Em Chaplin, <em>Tempos Modernos<\/em> simboliza o resumo mais que perfeito de sua genialidade.<\/p>\n<p>O filme inicia com uma imagem inusitada, quando Chaplin, numa sequ\u00eancia de segundos, compara as ovelhas em movimento com o bando de oper\u00e1rios encarneirados entrando numa f\u00e1brica. Entre as ovelhas\u00a0 \u2014 aten\u00e7\u00e3o! \u2014, uma \u00e9 negra. \u00c9 sinal de que o filme cumprir\u00e1 \u00e0 risca o que \u00e9 declarado logo em seu in\u00edcio. \u201cUma hist\u00f3ria sobre a ind\u00fastria, a iniciativa privada e a humanidade na busca pela felicidade.\u201d Previa-se que Chaplin iria entrar com seu Vagabundo na f\u00e1brica e de l\u00e1 n\u00e3o mais sairia, levando talvez a narrativa a um esgotamento precoce. Felizmente, depois de dezessete minutos, numa bel\u00edssima sequ\u00eancia em que Chaplin nos mostra como a ind\u00fastria desfigura o ser humano, vemos nosso her\u00f3i sendo carregado em uma ambul\u00e2ncia, acometido por um estresse avassalador e genialmente c\u00f4mico. A mecaniza\u00e7\u00e3o, com seus absurdos gestos repetitivos, enlouquece nosso her\u00f3i. Mas, para que o filme continue, o Vagabundo logo sai do hospital e a narrativa ganha as ruas, quando ent\u00e3o vamos ficar apenas com a \u00faltima parte da declara\u00e7\u00e3o acima, a de que a humanidade n\u00e3o desistir\u00e1 nunca da sua busca pela felicidade.<\/p>\n<p>E como ser\u00e1 essa busca? Para Chaplin esta \u00e9 uma resposta simples. Por meio do afeto. O Vagabundo se apaixona. Por uma \u00f3rf\u00e3 andarilha. Como ele. Ela se chama Ellen Peterson, encarnada por Paulette Goddard. O Vagabundo ent\u00e3o se d\u00e1 conta, assustado, de que ele ter\u00e1 que trabalhar se quiser constituir um lar. E ele quer um lar. \u00c9 o seu sonho. \u00c9 o pren\u00fancio do seu fim, por isso ele sabe que ter\u00e1 que buscar um lugar onde se recolher. Prov\u00e1vel em nenhum filme anterior de Chaplin um papel feminino tenha ocupado tanto espa\u00e7o como protagonista. A andarilha movimenta os passos do Vagabundo. Motivado pela paix\u00e3o, come\u00e7a para ele o p\u00e9riplo em busca de um emprego (felicidade) numa Nova Iorque arrasada pela depress\u00e3o econ\u00f4mica, fruto da quebra da Bolsa de Valores, em 1929.<\/p>\n<p>Nem precisamos dizer que nada vai dar certo para o Vagabundo. E n\u00e3o tem que dar mesmo! Sen\u00e3o, como ter filme? O velho Chaplin necessita de pretextos, de infort\u00fanios, de enganos, da inefici\u00eancia do Estado, do bom e dispon\u00edvel policial, enfim, tudo \u00e9 muito bem arranjado para que ele possa exibir diante de nossos olhos seu encantador repert\u00f3rio de pantomimas desenhadas pela precis\u00e3o art\u00edstica, pelo gesto afetivo e pela ironia c\u00e1ustica. A cena inicial, ainda na f\u00e1brica, em que ele surta, \u00e9 o exemplo mais contundente e memor\u00e1vel do uso do corpo como uma linguagem de irrever\u00eancia e grito. Portanto, como n\u00e3o esperar que Chaplin nos desenhe, na tela, em preto e branco, o pr\u00f3ximo gesto, com a leveza e a gra\u00e7a de quem carrega em si o peso de uma humanidade esperan\u00e7osa?<\/p>\n<p>Cabe falar um pouco do processo criativo do artista Chaplin. Quando iniciava uma nova produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o necessariamente tinha um roteiro em m\u00e3os. Pasmem! Ele n\u00e3o come\u00e7ava o projeto sentado em cima de um roteiro seguro e testado. Charles Chaplin trabalhava com argumentos. Tinha a ideia do que queria, mas n\u00e3o sabia por onde exatamente encaminharia a constru\u00e7\u00e3o da narrativa. Juntando-se \u00e0 sua mania de perfei\u00e7\u00e3o, podemos imaginar o alto custo de esfor\u00e7os e dinheiro despendidos at\u00e9 a finaliza\u00e7\u00e3o do projeto. Dezenas de refilmagens de uma \u00fanica cena. E, n\u00e3o \u00e0 toa, \u00e0s vezes se obrigava a refilmar determinada cena pela simples raz\u00e3o de mudan\u00e7as na dire\u00e7\u00e3o da narrativa. A antiga cena n\u00e3o mais se encaixava na nova proposta. Para quem vai ao cinema e v\u00ea a arte pronta, n\u00e3o pode imaginar o herc\u00faleo esfor\u00e7o mental e financeiro de Chaplin para dar \u00e0 sua criatura o acabamento art\u00edstico que ela merecia. Ela, e o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Chegada a hora de irmos ao ponto central da nossa discuss\u00e3o. \u00c9 vis\u00edvel a inquietude de Chaplin em ter que trabalhar com o sonoro. Esta preocupa\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia transparecido antes, em menor intensidade, em 1931, com <em>Luzes da Cidade<\/em>. E, agora, eis que seu grande conflito, manter o Vagabundo mudo, sem a voz dos di\u00e1logos, reaparece. Com mais for\u00e7a. Teria mesmo o Vagabundo que falar alguma coisa? Chaplin construiu uma linguagem corporal l\u00facida, eloquente e fabulosamente original! Pra que a voz se o corpo diz tudo o que \u00e9 necess\u00e1rio para a constru\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica da narrativa? Carlitos \u00e9 corpo, e o corpo \u00e9 a sua voz.<\/p>\n<p>Chaplin vai resolver esta quest\u00e3o de uma maneira muito habilidosa. Nenhum som sair\u00e1 da boca de qualquer personagem. Mas sair\u00e1 por outras circunst\u00e2ncias. Da vitrola, quando uma voz explica as absurdas utilidades de uma m\u00e1quina alimentadora. Dos tel\u00f5es instalados na f\u00e1brica, de onde sai a imagem e voz (muda) do patr\u00e3o. Sons de trilhas sonoras que acompanham, quase na intimidade, a evolu\u00e7\u00e3o das cenas. Temos ainda os curtos-circuitos das m\u00e1quinas, os sinos, a campainha, apito, tiro de rev\u00f3lver, not\u00edcias de r\u00e1dio, sirene de cambur\u00e3o, e at\u00e9 ru\u00eddos de indigest\u00e3o estomacal. Todos os sons poss\u00edveis est\u00e3o no filme, menos a voz humana <em>in natura.<\/em> Diante disto, <em>Tempos modernos<\/em> parece ficar a meio caminho em dire\u00e7\u00e3o ao sonoro. Mas, na sua ess\u00eancia, permanece mudo.<\/p>\n<p>E chegamos ao ponto onde vamos ouvir o som da voz do Vagabundo. Chaplin reservou o momento para a genial \u00faltima cena do filme, quando ele canta e dan\u00e7a no sal\u00e3o de um Caf\u00e9 em que trabalha com sua amada. Nervoso, ele se p\u00f5e a ensaiar e a decorar a letra da m\u00fasica. Ora, dever\u00edamos ouvir as palavras emitidas pelo Vagabundo! S\u00f3 que no sal\u00e3o h\u00e1 uma outra apresenta\u00e7\u00e3o musical, um coral, cujas vozes e instrumentos abafam a voz de Chaplin. O Vagabundo continua mudo, portanto. At\u00e9 entrar no sal\u00e3o para executar o seu n\u00famero, quando perde a c\u00f3pia da letra da m\u00fasica, o que o obriga a inventar sons inintelig\u00edveis e incompletos para disfar\u00e7ar o esquecimento da letra original. Ele fala, mas ele n\u00e3o fala, eis! Apenas grunhidos! E assim, o m\u00e1ximo que Chaplin permitiu para a hist\u00f3ria do seu Vagabundo foi que tiv\u00e9ssemos uma vaga ideia do timbre da sua voz. O que valeu mesmo e o que nos fica \u00e9 a \u00faltima cena memor\u00e1vel do seu \u00faltimo filme mudo.<\/p>\n<p>Para finalizar, um toque de mem\u00f3ria afetiva. A ma\u00e7\u00e3 de Chaplin. Ela aparece em duas ocasi\u00f5es no filme e nos remete \u00e0 sua inf\u00e2ncia, quando o menino Chaplin vivia em um orfanato em Londres. Certo dia cobi\u00e7ara tanto uma ma\u00e7\u00e3, s\u00edmbolo de requinte, que, ao tentar se apoderar dela, acabou sendo ferozmente punido pela institui\u00e7\u00e3o. Sendo um pouco sentimental, parece-nos, na despedida do Vagabundo, Chaplin tamb\u00e9m se despede de sua dolorosa ma\u00e7\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando Charlie Chaplin come\u00e7ou a produzir TEMPOS MODERNOS (83\u2019), EUA (1936), j\u00e1 se pressentia que este seria o \u00faltimo filme estrelado pelo ador\u00e1vel Vagabundo (The Tramp). 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