{"id":865,"date":"2020-09-07T13:39:21","date_gmt":"2020-09-07T16:39:21","guid":{"rendered":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/?p=865"},"modified":"2021-04-19T13:18:47","modified_gmt":"2021-04-19T16:18:47","slug":"persona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/escritorgerin.com.br\/antigo\/persona\/","title":{"rendered":"Persona"},"content":{"rendered":"<p>O que falar de um\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/www.assistoporquegosto.com.br\/blog\/index.php\/novembro-especial-ingmar-bergman\/\">Bergman<\/a><\/strong> abusado, entrando furiosamente na psique de suas personagens, e se comportando como um visitante intruso? E, \u00e0s vezes, inescrupuloso? \u00c9 assim que Bergman se aproxima de suas duas personagens, Elisabet Vogler (Liv Ullmann) e Alma (Bibi Andersson), em um de seus mais insond\u00e1veis e belos filmes, PERSONA (83\u2019), Su\u00e9cia (1966). Belo, sim, mas principalmente insond\u00e1vel, pois, para onde olhamos, vemos um ponto de interroga\u00e7\u00e3o. A primeira impress\u00e3o que o filme nos traz \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o de estarmos diante de uma rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica entre duas mulheres que se encontram em situa\u00e7\u00e3o de dor. E que fazem desse encontro um painel assustador de como a mente humana est\u00e1 \u00e0 merc\u00ea de impulsos, sobre os quais n\u00e3o temos nenhum dom\u00ednio. E nenhuma compreens\u00e3o. Mesmo que queiramos entender e, quem sabe, mapear as conex\u00f5es ps\u00edquicas desenhadas por Bergman, dif\u00edcil ser\u00e1 chegarmos a conclus\u00f5es definitivas. A verdade \u00e9 que Bergman, mais uma vez, n\u00e3o hesita em nos lan\u00e7ar na escurid\u00e3o. Para quem gosta desse jogo, eis uma magn\u00edfica oportunidade de entrar em contato com mais esta obra prima do diretor sueco. E fiquem certos. \u00c9 um jogo em que o espectador entra para ganhar. Sempre.<\/p>\n<p>Uma famosa atriz de teatro, enquanto encenava o espet\u00e1culo Electra, texto de S\u00f3focles, sofre um inesperado colapso mental que a deixa calada e im\u00f3vel. Caso de psiquiatria, caso de interna\u00e7\u00e3o. No entanto, seu estado mental e f\u00edsico \u00e9 est\u00e1vel, a despeito de inspirar cuidado em tempo integral. Para isso, \u00e9 contratada uma enfermeira, Alma, que acompanhar\u00e1 a paciente no seu dia a dia. E para que a recupera\u00e7\u00e3o seja mais r\u00e1pida, Elisabet \u00e9 levada, juntamente com Alma, a uma casa \u00e0 beira-mar, onde boa parte da narrativa sobre a rela\u00e7\u00e3o de conflito entre as duas mulheres ter\u00e1 lugar. Bergman, novamente se valendo de sua habilidade em estruturar situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas no tempo e espa\u00e7o, tem neste lugar calmo e isolado mais uma oportunidade para fazer seu laborat\u00f3rio da alma humana. E ele faz. Com um bisturi afiado. E incisivo.<\/p>\n<p>Para conseguir o efeito est\u00e9tico que deseja, Bergman se vale mais uma vez do seu monumental diretor de fotografia, Sven Nykvist. Nykvist posiciona a c\u00e2mera em \u00e2ngulos cuidadosamente escolhidos, de onde, atrav\u00e9s da luz natural e direta, com embates precisos entre claros e escuros, capta com exatid\u00e3o a visceralidade do sil\u00eancio de Elisabet e a inquietude corporal de uma Alma verborr\u00e1gica, cada vez mais desamparada com o sil\u00eancio da outra.<\/p>\n<p>E Bergman se vale tamb\u00e9m de seus di\u00e1logos cortantes para escancarar a intimidade das duas mulheres. Os di\u00e1logos, na verdade mon\u00f3logos, agem como se fossem crostas de velhas feridas que v\u00e3o se desprendendo da alma e deixando supurar, suavemente, os pequenos monstros que habitam as profundezas do universo feminino. S\u00e3o for\u00e7as ocultas que precisam se manifestar e, para isso, contam com a m\u00e3ozinha generosa de um Bergman inquieto e essencialmente humano. E esta habilidade, vale ressaltar, \u00e9 um dos maiores trunfos que fizeram de Bergman um dos grandes diretores da hist\u00f3ria do cinema. Estamos falando da sua ex\u00edmia capacidade de encaixar os di\u00e1logos nas cenas, com uma precis\u00e3o inesgot\u00e1vel, visivelmente teatral. Esta habilidade art\u00edstica faz da presen\u00e7a humana na fria tela do cinema a confirma\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 limites para uma personagem se confundir com a atriz. \u00c9 a oportunidade m\u00e1gica de corporificar a ideia de dor aos olhos do espectador.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o que percorre as variadas an\u00e1lises sobre o filme se at\u00e9m em querer saber se as mulheres se fundem uma na outra. Ou quem se funde em quem. A verdade \u00e9 que algo nos escapa, algo nos intriga, algo pode ser ou pode n\u00e3o ser. A verdade \u00e9 que, para onde quisermos ir com nossas suposi\u00e7\u00f5es, haver\u00e1 sempre uma base l\u00f3gica e ps\u00edquica que sustentar\u00e1 nossa abordagem. Essa \u00e9 a aventura intelectual que o filme nos prop\u00f5e.<\/p>\n<p>Vamos l\u00e1, n\u00f3s tamb\u00e9m, tentar apreender alguma ideia b\u00e1sica do filme. Com quantas tem\u00e1ticas Bergman trabalha em <em>Persona<\/em>? Muitas. Algumas mais vis\u00edveis. A arte redentora. A sensualidade, recorrente em sua filmografia. A destrutividade. A culpa. Os arqu\u00e9tipos, revelados em imagens rapid\u00edssimas mostradas no in\u00edcio e meio do filme. Mas h\u00e1 uma tem\u00e1tica que toma propor\u00e7\u00f5es mais devastadoras para as duas mulheres e que se transforma no seu ponto de fus\u00e3o: a maternidade. Eis o tema, para n\u00f3s, desencadeador da narrativa. Ali\u00e1s, este tema fora abordado com maestria em 1958, portanto, oito anos antes, em <em>No Limiar da Vida<\/em>, e seria aprofundado, em 1978, em seu magistral e doloroso filme <em>Sonata de Outono,<\/em> o que faz da maternidade um dos pilares tem\u00e1ticos da obra de Ingmar Bergman.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, Bergman costura sua narrativa em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s dores das duas mulheres. Sabemos que a maternidade \u00e9 uma das m\u00e1scaras sociais mais rigidamente vigiadas e protegidas pela sociedade. \u00c9 onde a mulher \u00e9 intoc\u00e1vel. E \u00e9 justamente onde ela se aprisiona. Ter que amar o filho, eis a chave do aprisionamento. Algu\u00e9m, em s\u00e3 consci\u00eancia, aceita que uma m\u00e3e n\u00e3o ame seu filho? A ponto de desejar-lhe a morte? Este \u00e9 o sentimento de Elisabet, que, for\u00e7ada a assumir o papel da maternidade, passa a odiar o filho desde sua concep\u00e7\u00e3o. Faz de tudo para elimin\u00e1-lo e n\u00e3o consegue. Esta \u00e9 Alma, que tem uma rela\u00e7\u00e3o casual com um menino, de quem engravida, e que n\u00e3o hesita em rejeitar o filho no aborto. A fus\u00e3o da dor se d\u00e1, no filme, em uma de suas cenas finais, quando Alma, em cena repetida duas vezes, com molduras on\u00edricas, revela, no sil\u00eancio incomunic\u00e1vel da outra, a dor da incapacidade de amarem os pr\u00f3prios filhos. Cavem-lhe, portanto, a sepultura da culpa! Culpa esta que uma expia no sil\u00eancio, dando voz \u00e0 dor na fala da outra. S\u00e3o duas mulheres numa s\u00f3 mulher. Partilham o sentimento oculto da nega\u00e7\u00e3o da maternidade. Oculto, sempre. Para que ningu\u00e9m lhes atire a primeira pedra.<\/p>\n<p>A base da inseguran\u00e7a humana \u00e9 n\u00e3o termos controle sobre nossos sentimentos. Eles s\u00e3o espont\u00e2neos e traduzem, \u00e0 nossa revelia, quem realmente somos. Portanto, somos terrivelmente frutos de algo intang\u00edvel e vol\u00e1til, que nos molda no dia a dia e nos obriga, muitas vezes, a fingirmos ser o que n\u00e3o somos. Dentro de uma sociedade rigorosamente predeterminada, seremos sempre alvos fr\u00e1geis de nossos sentimentos e pensamentos. E quanto mais tentamos control\u00e1-los para n\u00e3o sermos punidos, ou rejeitados, mais nos distanciamos de n\u00f3s mesmos. Eis o dilema. Qual a m\u00e1scara que melhor nos serve? Que melhor nos protege? A impress\u00e3o que fica \u00e9 que n\u00e3o sendo a nossa pr\u00f3pria m\u00e1scara (persona), qualquer uma servir\u00e1. Afinal, j\u00e1 fomos condenados, desde o nascimento, a n\u00e3o conhecermos quem somos. Essa \u00e9 a dor dos homens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que falar de um\u00a0Bergman abusado, entrando furiosamente na psique de suas personagens, e se comportando como um visitante intruso? 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