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	<title>Arquivos 1953 - Roberto Gerin</title>
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		<title>Uma Lição De Amor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 12 Sep 2020 16:19:05 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1>AMOR EM RITMO DE COMÉDIA</h1>
<p>Na comédia, sabemos, as tramas urdidas pelo amor são tratadas como um jogo inocente e, ao mesmo tempo, inevitável. E para que este jogo prossiga, desconsideram-se, mesmo que momentaneamente, as emoções básicas que gravitam em torno do gesto de amar. Nada de ciúmes, de descontroles, de brigas irreconciliáveis. Nada de gritos e sussurros. A adesão ao riso exige o adiamento de dores e lágrimas. O que nos leva a crer que a comédia sempre estará, nestes casos, a um centímetro do trágico. E esta é a sua principal fonte de humor. Acharmos que o amor será destruído no próximo lance. Mas, habilmente, ele sobreviverá, provocando o próximo riso. Pois este será sempre o grande desafio do artista. A necessária habilidade para quem conduz a comédia. Tratar temas, <em>a priori</em> sérios, com humor. Mas humor que vai além do simples riso. Humor que nos coloca no limite do espanto. Pois, esta é a atitude artística do delicioso filme UMA LIÇÃO DE AMOR (100’), roteiro e direção de <a href="https://www.assistoporquegosto.com.br/blog/index.php/novembro-especial-ingmar-bergman/">Ingmar Bergman</a>, SUÉCIA (1953). Sim, caro espectador, Bergman fez algumas comédias. Leves, apesar do forte cheiro de obra prima. E <em>Uma Lição de Amor</em> é uma delas, onde o epicentro do riso é a tentativa de reconciliação do casal após a separação por traição. Ah, a traição, eis o prato preferido da comédia! A traição escancara qualquer relação, abre possibilidades cômicas, como uma forma de ludibriar o trágico. Caberá aos envolvidos optarem pelo que eles querem. Apenas se enganarem e, depois, se perdoarem, eis a comédia. Ou irem diretamente aos tabefes e, depois, às facas de cozinha, eis a tragédia.</p>
<p>O que se pergunta, então, é: como fazer uma comédia sobre o amor se, a princípio, sabemos que o amor é algo inerentemente sério quando tomado como uma atitude em direção ao outro? Como fazer humor de algo que está enraizado no nosso modo de expressar afeto e compromisso? Que não raras vezes vêm acompanhado de dores e ansiedades? Pois é. Como?</p>
<p>David Erneman (o sempre magnífico Gunnar Björnstrand) é um ginecologista com certa vulnerabilidade aos encantos femininos, o que torna difícil a tarefa de manter-se fiel no casamento. E, por tabela, manter o casamento. E o que era previsto, acontece. Marianne (Eva Dahlbeck), sua mulher, flagra o marido David em quarto de hotel, com a amante. O divórcio está declarado.</p>
<p>Só que o filme inicia sua trajetória narrativa mais adiante no tempo, estabelecendo o caminho inverso, quando os primeiros embates acontecem com a amante, a quem David pretende abandonar, com o objetivo de tentar a reconciliação com a ex-esposa. Eis como termina, comicamente, sua relação com a amante. Ela pergunta. “Então, realmente acabou?” E ele responde. “Sim. Obrigado por tudo.” E ela, ressentida, ainda retruca, mostrando a carnificina emocional do casamento. “Volte para sua esposa clemente, certamente ela está na estante esperando para você espaná-la”. E é o que David faz, seguindo a sugestão da agora ex-amante. Pega o trem, e vai atrás da mulher, na certeza de reconquistá-la. Certeza? Sim, absoluta. Não esqueça, caro espectador, que a principal obsessão da comédia é fugir ao trágico.</p>
<p>Só mais um pouquinho de carnificina, antes de prosseguirmos. Em trajeto à estação de trem que o levará a Copenhagen, David pergunta a seu motorista. “Sam, você nunca teve problemas com as mulheres?” E Sam, impassível, responde. “Não, desde que matei a minha noiva.”</p>
<p>A próxima sequência de cenas, aliás, uma longa sequência, que ocupa boa parte do filme, acontece na cabine do trem. Lá, David encontra uma mulher e um homem, já sentados. David senta-se ao lado da mulher, que está sendo cobiçada pelo homem sentado à frente dela. Parece boba esta configuração, mas é dela que Bergman tirará todo o humor para conduzir o filme a seu desfecho. Mas quem é a mulher? Ora, Marianne, a ex-esposa! Que está a caminho de Copenhagen para cair nos braços do amante, na verdade, seu ex-noivo, que ela, lá trás, deixara sozinho no altar, à sua espera, enquanto caía nos braços do amigo do noivo, ele, o próprio David, o irresistível. Eis que está preparado o alicerce cômico do filme. E todo alicerce cômico terá por base, lógico, a confusão de intenções.</p>
<p>A graça risível do filme está no fato de os dois se tratarem como estranhos diante do galanteador. E diante de si mesmos. Afinal, o distanciamento vai permitir que um lance farpas contra o outro sem que corram o risco de se ferirem. Como sabemos, eles não estão ali para se digladiarem, estão ali para desconsiderar as dores de cada um e cultivarem o esquecimento que os levará à atitude de perdão. Perdoar, eis o princípio do final feliz exigido por toda comédia. Ora, sem pequenos perdões diários não há casamento que se sustente. E perdoar uma traição é apenas uma atitude maior. Simples, não? A comédia é o melhor biombo para a dor.</p>
<p>Os diálogos entre David e Marianne, no embate da reconquista, supuram ressentimentos em forma de escárnio. A mágoa escarrada da boca treinada para o ataque, esta é a tática cômica de Bergman. Como quebrar estes ataques defensivos, este é o jogo incerto de David. À medida que o filme vai se encaminhando para o seu final, David tem a difícil tarefa de fazer com que as peças se encaixem. Sabe-se que está tudo armado (eis a comédia), resta saber se o que foi combinado será feito. As pernas ágeis da comédia talvez não sejam suficientemente rápidas para alcançarem o coração feminino atingido pela traição. É preciso dar um empurrãozinho. E é exatamente o que David faz. Dá o primeiro passo. Espera-se que Marianne faça o mesmo. Mas como ela fará isso? Sim, retornando ao drama. Na comédia, ama-se a esposa, mas não se dispensa a amante. Portanto, caro espectador, para sairmos da comédia e voltarmos para a realidade, vamos ter que dispensar a amante. Ou a esposa. Eis o verdadeiro drama.</p>
<p>Em suma. Em se tratando de comédia, não podemos aprofundar nenhum tipo de análise. Não cabe. Portanto, vamos terminar em tom de riso. David dirá duas vezes, uma para a amante e, depois, outra vez, para a esposa. “A cama conjugal é a morte do amor.” É neste diapasão terrível que Bergman constrói sua deliciosa comédia. Podemos não concordar com David. Mas fica aí o alerta. Não oferecer, nunca, uma cama conjugal para a amante. Senão, vamos ter que traí-la com a nossa esposa. E foi exatamente isto que aconteceu com David. Que morreu pela boca. Eis a comédia!</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>Monika E O Desejo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2020 14:00:08 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1>SÃO TANTOS OS DESEJOS DE MONIKA&#8230;</h1>
<p>MONIKA E O DESEJO (92’), Suécia (1953), é um filme um pouquinho menor que as grandes obras primas de Ingmar Bergman, mas, como tantos dos seus filmes que viriam depois, este também traz embutida em sua narrativa uma força humana incontrolável. A lupa da realidade é colocada inteira sobre a mulher, e o que se vê é uma esplendorosa configuração da alma feminina às voltas em satisfazer seus desejos, de um lado, e a obrigação de assumir os papeis sociais que lhe são impostos, do outro. São eles compatíveis, desejo e obrigação? Para Monika, parece que não.</p>
<p><em>Monika e o Desejo</em> é o primeiro filme de Bergman que tem distribuição mundial, um sintoma claro de como o jovem diretor já começa a se firmar como uma voz imponente na cinematografia da época. E mais. Este filme traz as primeiras amostras das ousadias do diretor, como a nudez exuberante de Harriet Andersson, tendo tido, inclusive, sérios problemas com a censura. É Bergman nos apresentando a mulher por inteiro, nua por dentro e por fora.</p>
<p>Monika é uma jovem ambiciosa, sonhadora, cheia de vida, dominada por desejos que exalam uma urgência indomável e que vai desembocar nas atitudes sensualmente impulsivas da Monika mulher. Ainda mais que Harriet empresta à personagem uma característica que é da atriz Harriet, o sorriso carnal, que escancara o malicioso desejo de liberdade que Monika faz questão de não esconder. Ela quer mais, ela quer tudo. Ela quer a vida para si, inteira, sem as amarras do cotidiano.</p>
<p>Pois é esta personagem vibrante que vai entrar pela porta de um Café, numa rua qualquer, em Estocolmo, e vai tomar a iniciativa de começar um namoro com o rapaz que ela acaba de escolher. Sim, é ela quem pede a Harry (Lars Ekborg) para acender-lhe o cigarro. É ela quem inicia e dirige a conversa. É ela quem, em poucas palavras, combina com ele uma ida ao cinema, à noite. Sua capacidade de tomar decisões é sua marca de mulher que quer para si o pleno controle da sua alma e do seu corpo. E este jeito de ser é tão natural em Monika que quase não percebemos que é ela quem conduz a narrativa. Para onde ela vai, nosso olhar de espectador vai atrás.</p>
<p>Mas para seguir sua trajetória, ela precisa antes rejeitar a família, reduto de angústias e frustrações. E muito conflito. Rejeita a mãe ocupadíssima, o pai bêbado e os irmãos insuportáveis. E, no final da cena, pega a sua mala e vai embora para o mundo. Dos adultos. E aqui começa o que chamamos a busca pelo sentido de ser mulher livre, assumindo, sem culpas, seus desejos. O problema é que são só os desejos. Sem as responsabilidades.</p>
<p>Monika e Harry navegam de barco, ancoram numa ilha, em pleno verão, em busca do ar puro, do silêncio, de um paraíso idealizado onde não há família, não há patrão, não há horário, não há a atmosfera sufocante da cidade grande. Há apenas o relógio sem ponteiros, a sensualidade sem culpa, o sorriso e as bebidas. Mas, inevitavelmente, estamos inseridos num mundo de causas e efeitos. Então, Monika engravida.</p>
<p>É a partir deste momento que tudo muda. O verão acabou, é hora de retornar para a sufocante Estocolmo, onde Harry encontrará um bom emprego, e onde Monika, a mãe dedicada, Monika, a mulher que cuida da casa, Monika, a esposa que espera pelo marido, Monika, esta mulher terá que aparecer, urgente. Mas ela não aparece. Eis a Monika parada no tempo, fixa no desejo de liberdade, no desejo do amor romântico, no desejo do sexo, no desejo de chorar diante de um filme romântico, no desejo de ter dinheiro pra comprar vestidos, casacos, sonhos… Maliciosamente, Bergman, ao não fazer com que sua personagem transponha o limite da maturidade, ele se dá a oportunidade de dissecar esta alma feminina na sua essência jovem. E Harry, agora trabalhador e dedicado, que cumpre seu papel social de provedor, equivocadamente aceita as irresponsabilidades da esposa. É o convite para a destruição.</p>
<p>Para finalizar, vamos colocar na boca de Monika a frase basilar que resume sua avaliação do casamento como fonte de frustrações. “Não estaríamos assim se não vivêssemos essa vida de família.” O que se vê é o Bergman querendo colocar Monika fora dos seus papeis femininos previamente determinados. E ao fazer isto, Bergman traz à luz o arquétipo feminino construído ao longo de milênios, baseado na enigmática frase “e Deus criou a mulher…”. Que mulher? Bem, não sabemos, mas deve, com certeza, ser uma mulher muito parecida com Monika, cujo desejo é nunca ter saído do paraíso.</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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