<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Arquivos 1964 - Roberto Gerin</title>
	<atom:link href="https://escritorgerin.com.br/tag/1964/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://escritorgerin.com.br/tag/1964/</link>
	<description>Escritor</description>
	<lastBuildDate>Fri, 22 Jul 2022 14:28:53 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9.4</generator>

<image>
	<url>https://i0.wp.com/escritorgerin.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Favicon-Escritor-Gerin.png?fit=32%2C29&#038;ssl=1</url>
	<title>Arquivos 1964 - Roberto Gerin</title>
	<link>https://escritorgerin.com.br/tag/1964/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
<site xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">202945164</site>	<item>
		<title>My Fair Lady</title>
		<link>https://escritorgerin.com.br/my-fair-lady/</link>
					<comments>https://escritorgerin.com.br/my-fair-lady/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2020 14:50:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CINEMA]]></category>
		<category><![CDATA[RESENHAS]]></category>
		<category><![CDATA[@escritorgerin]]></category>
		<category><![CDATA[1964]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[dramaturgo Bernard Shaw]]></category>
		<category><![CDATA[filme]]></category>
		<category><![CDATA[George Cukor]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[my-fair-lady]]></category>
		<category><![CDATA[o voo da pipa]]></category>
		<category><![CDATA[Pigmalião]]></category>
		<category><![CDATA[resenha my fair lady]]></category>
		<category><![CDATA[roberto gerin]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://escritorgerin.com.br/?p=561</guid>

					<description><![CDATA[<p>A IDEALIZAÇÃO DO AMOR Os filmes musicais tiveram seus dias de glória em outros tempos, já um tanto distantes, mas a eles está reservada uma prateleira especial na história do cinema. Para quem interessa conhecer estes clássicos, sempre haverá um catálogo dos melhores, disponível em algum arquivo, nas redes sociais. Vamos nos ater aqui ao [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://escritorgerin.com.br/my-fair-lady/">My Fair Lady</a> apareceu primeiro em <a href="https://escritorgerin.com.br">Roberto Gerin</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h1>A IDEALIZAÇÃO DO AMOR</h1>
<p>Os filmes musicais tiveram seus dias de glória em outros tempos, já um tanto distantes, mas a eles está reservada uma prateleira especial na história do cinema. Para quem interessa conhecer estes clássicos, sempre haverá um catálogo dos melhores, disponível em algum arquivo, nas redes sociais. Vamos nos ater aqui ao nosso objeto de resenha, falando de um desses grandes musicais que atravessou gerações e ainda hoje merece ser visto e aplaudido. Há, sim, muitas razões para se assistir a MY FAIR LADY (175’), direção de George Cukor, EUA (1964). A fotografia é uma delas. Equilibrando-se entre tons fortes e suaves, ela realça os contrastes de cores que, sem pudor, se derramam na tela, diante de nossos olhos. Um espetáculo à parte. As atuações de Rex Harrison e de Audrey Hepburn são inesquecíveis. O roteiro é elegante e firme, e sua força é capaz de sustentar o ritmo às vezes um pouco lento de algumas cenas. E as músicas, o ponto alto. Elas se encaixam à perfeição nas narrativas. São melodias deliciosas, que levam a gente a querer assoviá-las. <em>Woudn’t it Be Loverly</em> e <em>With a Litlle Bit O’Luck</em> são exemplos. Enfim, uma comédia (romântica) que nos arrebata. Até o fim. E nos mantém presos, à espera de saber se o par romântico vai mesmo nos oferecer o grande beijo. Por estas e outras tantas razões é que <em>My Fair Lady</em> merece ser retirado, por três horas, da prateleira. E se diante de todos estes argumentos, o espectador assim mesmo não gostar do filme, sem problemas. Ele ao menos terá entrado em contato com uma ideia clássica que permeia, ao longo dos séculos, a cultura ocidental. A ideia que se baseia no conceito de perfeição.</p>
<p>Para falar de <em>My Fair Lady</em> não há como não mencionar a obra prima literária em que o roteiro do filme se baseou. Trata-se do magnífico texto teatral <a href="https://escritorgerin.com.br/pigmaliao/"><em>Pigmalião</em></a>, de George Bernard Shaw, dramaturgo irlandês, que viria a escrever esta obra em 1913, com imediato sucesso nos palcos londrinos. E que, diga-se de passagem, é inspirada na obra <em>Metamorfoses</em>, Livro X, do poeta romano Ovídio, lançada no ano 8 dC, em que narra a paixão do rei de Chipre, Pigmalião, pela estátua de uma mulher, Galateia, que ele mesmo havia esculpido, com tanta perfeição. E, sabe-se, Ovídio foi buscar na mitologia grega a fonte destas suas inspirações. E seguindo a linhagem, estas obras seriam o ponto de partida para a construção do roteiro de um dos mais completos filmes românticos produzidos por Hollywood, na década de 1990, <em><a href="https://escritorgerin.com.br/uma-linda-mulher/">Uma Linda Mulher</a></em>. Como se pode constatar, a ideia de perfeição movimenta a literatura ocidental desde seus primórdios. Inclusive William Shakespeare, em sua A Megera Domada, bebe um pouco desta ideia.</p>
<p>A despeito das influências, sem dúvida, o filme <em>My Fair Lady</em> originou-se diretamente da obra de Bernard Shaw, Pigmalião. O mais perceptível é como o roteiro, observadas, evidente, as adaptações para uma outra linguagem, o cinema, que precisa ser mais narrativo que o teatro, seguiu à risca a obra original. Tanto isto pode ser verdade que o próprio ator, Rex Harrison, que representou a fenomenal personagem criada por Bernard Shaw, o professor de fonética Henry Higgins, veio da Broadway, onde ele já representava, no musical homônimo, de 1956, esta personagem. Fica claro por que Rex Harrison domina tão ferozmente a personalidade tonitruante do professor Higgins, e a prova deste domínio está nos prêmios que ele carregou para casa, incluindo aí a estatueta de Melhor Ator, no Oscar de 1965. Rex conhecia profundamente o professor Higgins de Shaw.</p>
<p>Henry Higgins, um dedicado guardião da língua inglesa, torna-se um dos mais renomados foneticistas ingleses, fazendo desta profissão sua razão de vida. Certa feita, à saída do teatro, em Convent Garden, Londres, Higgins depara-se com uma pobre florista, Eliza Doolittle, cuja horrível dicção causa tumultos inexplicáveis nos ouvidos do professor de fonética. Sejam quais forem as impressões que a moça causara em Higgins, ele, de imediato, faz uma aposta inusitada com outro foneticista, coronel Pickering, a quem Higgins havia acabado de conhecer, também à saída do teatro. Em seis meses, ele, Higgins, transformaria aquela inculta e horrorosa pobretona florista em uma dama da alta sociedade. E o mais importante. A perfeição com que ele criaria sua dama impediria que qualquer pessoa, mesmo o mais teimoso foneticista, percebesse a real origem da criatura. Aceita a aposta, Higgins, feito um trovão, faz o filme pegar ritmo, graça e força.</p>
<p>Após seis meses de muito trabalho, rompantes de mau humor, humilhações machistas, ansiedades, decepções, Henry Higgins e o coronel Pickering apresentam Eliza Doolittle à alta sociedade, fazendo-a passar por uma duquesa, em uma grande festa de recepção oferecida a uma rainha estrangeira, visitante. E assim, festejada como a dama perfeita, cortejada pelo príncipe, Eliza Doolittle, junto com seus criadores, retornam à casa, felizes com o sucesso da empreitada. Higgins ganha a aposta e cabe ao coronel Pickering pagar todas as despesas que tiveram com a florista. Mas… E agora? O que fazer com ela, a florista?</p>
<p>Esta é a questão que tanto o texto de Bernard Shaw quanto o filme de George Cukor trazem embutida na trama. Eliza Doolittle já não era mais a mesma pessoa. Havia passado por uma profunda transformação. Um brinquedo nas mãos de dois marmanjos solteirões e machistas, Eliza Doolittle transformara-se numa pessoa com extrema consciência de si mesma, a ponto de colocar em cheque a obra do professor. Eis o impasse, que parece não ter preocupado Bernard Shaw, posto que o recado que ele queria dar, o de que o esforço pessoal, idealizado, pode sim possibilitar a transposição de barreiras sociais, estava muito bem dado. Mas Hollywood, sempre com os dois olhos grudados na bilheteria, pensava diferente. Teria que oferecer a Eliza um destino. Algo concreto. Óbvio, um romance.</p>
<p>Pela estrutura das personagens criada por Bernard Shaw, tornara-se quase impossível, senão inverossímil, a união romântica entre Higgins e Eliza. Higgins, empedernido solteirão, agarrava-se na idealização feminina que fazia da mãe, como a mulher perfeita e inalcançável, o motivo para rechaçar qualquer possibilidade de envolvimento afetivo e sexual com outra mulher, inclusive com sua obra prima perfeita, a duquesa Eliza Doolittle. Há, neste aspecto, uma arrogante infantilidade em Higgins que acaba por afastar qualquer ideia em Eliza de querer se envolver com seu criador. Eliza tinha ideias muito claras sobre o que ela representava para um homem, e ela sabia que, mesmo sendo criatura do professor, jamais concordaria em se submeter a seus caprichos de menino mimado. Hollywood havia seguido à risca este roteiro, o que dificultou construir, a partir dele, um conto de fadas.</p>
<p>Hollywood preferiu ficar no meio do caminho. Satisfeita com o resultado do filme, cujo sucesso não viria a depender do grande beijo final, como aconteceria em <em>Uma Linda Mulher</em>, o filme deixa em aberto a possibilidade futura de uma relação de amor entre os dois. No entanto, ao dar esta solução, Hollywood quebra a espinha dorsal da personagem Eliza. Eliza havia optado por sua independência, o que significava não mais voltar para a casa de Higgins, de onde ela havia fugido, decidida a cuidar da própria vida. Mas, em <em>My Fair Lady</em>, Eliza não só concorda em voltar, como vai continuar se submetendo aos caprichos do criador, simbolizados pela obediência à ordem de lhe trazer, imediatamente, os chinelos. É desta forma que o filme termina. Dentro da estrutura criada por Shaw. Portanto, sem ter resolvido o impasse. Que continuará. Para sempre.</p>
<p>O filme, assim como o texto teatral de Shaw, traz uma perspectiva redentora para o ser humano. Quem não almeja por transformações? Cobertos de defeitos e fraquezas, sonhamos em sermos o herói de nós mesmos. Buscamos na perfeição o equilíbrio ideal para alimentar a ideia de felicidade e bem-estar. E a forma objetiva de nos movimentarmos em direção à busca da perfeição é idealizarmos situações positivas para nossas vidas. É a força da mente que irá moldar nossas atitudes na busca pelo objetivo idealizado. Óbvio que nada é fácil, mas a possibilidade de nos transformarmos, seja do ponto de vista existencial seja do ponto de vista socioeconômico, é que poderá dar às nossas vidas um sentido concreto. E esta é a grande razão de ser das comédias românticas. Não há coisa mais concreta que o amor. É isto que as comédias nos oferecem. A possibilidade da transformação através do amor. Mas, para que tal aconteça, o amor precisa, antes de tudo, ser idealizado. E ninguém sabe fazer isso melhor que o cinema.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
<p>&nbsp;</p>
<p>O post <a href="https://escritorgerin.com.br/my-fair-lady/">My Fair Lady</a> apareceu primeiro em <a href="https://escritorgerin.com.br">Roberto Gerin</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://escritorgerin.com.br/my-fair-lady/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>1</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">561</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Zorba, O Grego</title>
		<link>https://escritorgerin.com.br/zorba-o-grego/</link>
					<comments>https://escritorgerin.com.br/zorba-o-grego/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Aug 2020 20:02:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CINEMA]]></category>
		<category><![CDATA[RESENHAS]]></category>
		<category><![CDATA[@escritorgerin]]></category>
		<category><![CDATA[1964]]></category>
		<category><![CDATA[Antony Quinn]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[escritor Níkos Kasantzákis]]></category>
		<category><![CDATA[filme]]></category>
		<category><![CDATA[filme zorba o grego]]></category>
		<category><![CDATA[Lila Kedrova]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[livro de romance]]></category>
		<category><![CDATA[Michael Cacoyannis]]></category>
		<category><![CDATA[o voo da pipa]]></category>
		<category><![CDATA[prosa]]></category>
		<category><![CDATA[resenha]]></category>
		<category><![CDATA[resenha zorba o grego]]></category>
		<category><![CDATA[roberto gerin]]></category>
		<category><![CDATA[romance]]></category>
		<category><![CDATA[romance Zorba o Grego]]></category>
		<category><![CDATA[teatro]]></category>
		<category><![CDATA[Zorba O Grego]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://escritorgerin.com.br/?p=1449</guid>

					<description><![CDATA[<p>O INESGOTÁVEL PRAZER DE SE VIVER A VIDA Talvez seja este um filme que mereça ser assistido deitado no tapete, a cabeça acomodada sobre duas ou três almofadas. Ou no sofá mesmo, de fato, mais cômodo para se comer pipoca enquanto vamos degustando o saboroso ZORBA, O GREGO (142’), direção de Michael Cacoyannis, Grécia/EUA (1964). [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://escritorgerin.com.br/zorba-o-grego/">Zorba, O Grego</a> apareceu primeiro em <a href="https://escritorgerin.com.br">Roberto Gerin</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h1>O INESGOTÁVEL PRAZER DE SE VIVER A VIDA</h1>
<p>Talvez seja este um filme que mereça ser assistido deitado no tapete, a cabeça acomodada sobre duas ou três almofadas. Ou no sofá mesmo, de fato, mais cômodo para se comer pipoca enquanto vamos degustando o saboroso ZORBA, O GREGO (142’), direção de Michael Cacoyannis, Grécia/EUA (1964). O filme é tirado do belíssimo romance homônimo do escritor grego Níkos Kazantzákis (1883-1957), publicado em 1946. Apesar do convite à descontração, motivado pelo carisma do protagonista Zorba, o filme nos conduz miseravelmente para dentro da realidade quando nos traz de volta a velha máxima de que se quisermos experimentar sabores diferentes nessa vida, temos que nos entregar a umas boas doses de loucura.</p>
<p>Não precisa ser aquela loucura que suprime a razão. Não. A loucura a que nos referimos é a de se voltar para o homem primitivo, cuja essência está em se entregar, sem regras e convenções, aos mais puros e às vezes incontroláveis desejos. É o retorno ao simples, ao que é e não ao que queremos que seja. É o retorno à mãe terra. E nos parece que só a mãe terra está autorizada a nos livrar das amarras sociais que nos aprisionam e nos desfiguram. O belo <em>Zorba, o Grego</em>, em suma, é um convite à liberdade, baseada na consciência de que o existir não cabe em apenas um ponto de vista. E esse convite, quem no-lo faz é o exuberante Zorba!</p>
<blockquote>
<h2>Zorba entra na vida do interlocutor sem pedir licença.</h2>
</blockquote>
<p>Um escritor inglês viaja para a ilha de Creta, na Grécia, para retomar a exploração de uma mina de linhito, que pertencia a seu pai. Prestes a embarcar no navio que o levaria à ilha, uma forte tempestade interrompe a partida, motivo suficiente para que Basil, o escritor, seja abordado, de forma inusitada, por um homem simples, aspecto de camponês, riso expansivo, nascido grego, e que logo se apresentaria como sendo Zorba. Alexis Zorba, incorporado pelo não menos exuberante Antony Quinn.</p>
<p>A abordagem é desprovida de qualquer senso de etiqueta e de rapapés sociais. Zorba entra na vida do interlocutor sem pedir licença. Não há em suas atitudes o pudor das reticências, muito menos seus gestos obedecem a imposições sociais. A aproximação é tão vívida que não resta ao inglês alternativa senão dar as boas vindas ao intruso. É o primeiro encontro entre Zorba e Basil, e os dois precisavam mesmo se encontrar para que a narrativa começasse a fluir. Eis o filme condensado nessa primeira cena. Assistam-na com atenção, porque é dessa relação tensionada na cumplicidade e no companheirismo entre o grego e o inglês que surgirá a beleza poética do filme.</p>
<blockquote>
<h2>Em seguida, Zorba despeja no rosto do encantado inglês uma sonora gargalhada.</h2>
</blockquote>
<p>E assim, vencidas as desconfianças, e contratado pelo inglês para ser seu braço direito na exploração da mina, Zorba embarca com seu novo chefe para Creta, sem saberem, ambos, o que irão encontrar pela frente. E precisam mesmo saber? Ora, se a vida é para ser vivida, o próximo passo poderá muito bem ser uma nova descoberta. Essa é a razão da ousadia. Estarmos sempre preparados para enfrentar o desconhecido. Sermos destemidos e ao mesmo tempo otimistas, eis as condições para não termos que voltar ao nosso berço esplêndido, ornado de medos e inseguranças.</p>
<p>Vamos logo à definição da personagem que dá título ao filme. Eis. Zorba, o epidêmico! Estamos falando de uma personagem complexa, então essa nos parece ser a melhor definição de Zorba, dada por ele mesmo, de forma jocosa e sublime. Mas, por que epidêmico? Vamos colocar a resposta na boca do próprio interessado, quando ele diz ao escritor, antes de embarcarem para Creta. “Epidêmico, porque aonde quer que eu vá, dá tudo errado”. Em seguida, Zorba despeja no rosto do encantado inglês uma sonora gargalhada. Esta desconexão com o mundo erigido pelas civilizações é a base existencial da personagem.</p>
<blockquote>
<h2>O furacão Zorba desperta em Alan Bates sua origem grega.</h2>
</blockquote>
<p>O único ator predestinado a interpretar Zorba parece mesmo ser Anthony Quinn. Não haveria outro. Ator e personagem se misturam de forma tão simbiótica que passamos a aceitar, sem o perceber, que estamos diante de uma pessoa real, de carne e osso. É, sem dúvida, uma daquelas composições de personagem que se eternizam em nosso imaginário. E que desejaríamos que estivesse sentado à nossa mesa, que fosse nosso colega de faculdade, até nosso chefe, para lembrarmos que liberdade não é sinônimo de desrespeito e agressão, e sim um estado de espírito que nos disponibiliza inteiramente para a vida.</p>
<p>E temos também que falar de Alan Bates, no papel do escritor inglês. Ele é convincente e preciso nos seus maneirismos contidos e, ao mesmo tempo, pronto para explodir e se libertar das suas origens britânicas. Será, desde o começo, provocado pelo furacão Zorba, até explodir lá na frente, reencontrando-se na sua origem grega.</p>
<blockquote>
<h2>Zorba, delicadamente, cumpre o seu papel de rei até o fim.</h2>
</blockquote>
<p>Não menos decisivas são as figuras femininas, a começar pela premiada Lila Kedrova, ganhadora do Oscar de melhor atriz coadjuvante, que deu voz e corpo a Madame Hortense, a Bouboulina. Esta sim atendeu aos desejos de todos os homens, e se viu abandonada por cada um deles. O último sopro de vida ela encontra na força arrebatadora, floreada de galanteios, do homem que a trata como a última das rainhas. Mas Zorba também quer abandoná-la. E ela percebe, preferindo a morte. Mas — cá pra nós —, Zorba, delicadamente, cumpre o seu papel de rei até o fim.</p>
<p>Por outro lado, temos a figura trágica e silenciosa da viúva, desenhada com perfeição pela bela Irene Pappás. A atriz faz a personagem desfilar sua exuberante e sensual beleza pela aldeia, onde todos os homens a desejam, e onde todos os homens, por se verem rejeitados, a odeiam. Quando ela dá sinais claros de querer acolher os desejos de Basil, começa a rodar a engrenagem da tragédia, expondo ao espectador a miserabilidade tirânica e machista de uma longínqua aldeia na ilha de Creta. Essa aldeia, nas mãos do diretor Michael Cacoyannis, torna-se, para nós, terrivelmente universal.</p>
<blockquote>
<h2>O filme <em>Zorba, o Grego</em> nos leva a pensar no ser humano que gostaríamos de ter sido.</h2>
</blockquote>
<p>A fotografia é tão limpa, tão mediterrânea, que nos dá a impressão de que o filme foi lavado com um daqueles produtos de limpeza que deixa tudo branquinho. E a música, tirada da alma grega por Mikis Theodorákis, vem para traduzir a dor de sermos humanos incompletos, expressa na famosa cena final, a da dança, simbolizando o reencontro com as origens, seja na dor seja na alegria.</p>
<p>Enfim, tudo no filme precisaria ser comentado, um parágrafo para cada sequência de cenas. Não há espaço. Mais breve, então, será convidar o espectador para, ele mesmo, se deliciar com esta personalidade ímpar e contagiante, que nos irradia a ilusão do ser humano que gostaríamos de ser. Ou de ter sido.</p>
<blockquote>
<h2>Zorba, sensível que é, faz a leitura rápida da alma humana.</h2>
</blockquote>
<p>E fica também o convite para, na sequência, assistirem a <em><a href="https://escritorgerin.com.br/sociedade-dos-poetas-mortos/">Sociedade dos Poetas Mortos</a></em>, quando logo vão perceber que o professor John Keating é da mesma linhagem de Zorba, cuja disposição pela busca da eterna liberdade veste a personalidade de ambos como um terno de corte perfeito.</p>
<p>Em suma. Zorba, sensível que é, faz a leitura rápida da alma humana. Mas ele não entra em conflito com a sua sensibilidade. Quando ele está prestes a mergulhar na dor, há uma explosão de movimentos efusivos que o redireciona para o sentido bom da vida. Ele apenas acolhe a dor humana com o manto da compaixão. Esse é o estado de pureza máxima a que um ser humano privilegiado pode almejar. O que nos leva a concluir que Zorba talvez seja, para nós, nossa alma perdida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>O post <a href="https://escritorgerin.com.br/zorba-o-grego/">Zorba, O Grego</a> apareceu primeiro em <a href="https://escritorgerin.com.br">Roberto Gerin</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://escritorgerin.com.br/zorba-o-grego/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">2959</post-id>	</item>
	</channel>
</rss>
