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	<title>Arquivos 1976 - Roberto Gerin</title>
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	<title>Arquivos 1976 - Roberto Gerin</title>
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		<title>Taxi Driver</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Oct 2022 12:00:12 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>UMA SOLIDÃO PERIGOSA</strong></h1>
<p>O filme <em>TAXI DRIVER</em> (95’), direção de Martin Scorcese, EUA (1976), apresenta-se como uma obra cinematográfica perturbadora. Um angustiante tratado sobre a solidão. É o homem que escolhe ser motorista de táxi para suportar suas longas noites de insônia. Ao percorrer as ruas de Nova Iorque madrugada adentro, por meio da observação do outro, ele vai entrando em contato consigo mesmo. E se depara com a falta de significados existenciais que o coloquem no eixo normal da vida. A ideia de não existir em lugar nenhum faz dele um ser humano errante. Transforma-o em presa fácil, pronta para ser tragada pela fogueira da violência. A busca inútil por um objetivo de vida — esta é a razão que coloca Travis, o protagonista de <em>Taxi Driver</em>, em constante movimento.</p>
<blockquote>
<h2>O protagonista de <em>Taxi Driver</em> busca na violência uma razão imediata para tornar a vida menos entediante.</h2>
</blockquote>
<p>A trama é uma sequência episódica do cotidiano de um ser humano solitário. Travis encontra no trabalho noturno uma forma de se manter vivo. Já que fica o tempo todo acordado, melhor então ser pago por isso — essa é a origem medular da ideia de ser taxista. As coisas começam a mudar quando ele se interessa por uma assistente que trabalha no comitê do presidenciável Charles Palantine. Sua aproximação é obsessiva, inoportuna e insistente, a ponto de Betsy (também solitária) não ter outra alternativa senão aceitar o convite para uma ida ao cinema.</p>
<p>No entanto, o mundo de Travis não se encaixa no padrão social de Betsy. Travis se alimenta do submundo, das noites repletas de vícios, sexo comprado, brigas de rua, seres degenerados (como ele próprio define) vagando por calçadas imundas, recobertas de néons e desesperanças. Dentro dessa lógica, Travis leva Betsy (Cybill Shepherd) para uma sessão de filme pornô. Sem perder tempo, ela reage e abandona Travis. O namoro, que mal começava, chega ao fim.</p>
<blockquote>
<h2>Nova Iorque é um mundo em louca efervescência, para onde Travis nunca devia ter ido.</h2>
</blockquote>
<p>Arrastando-se ao longo de dias intermináveis sem que nada aconteça, e ainda tendo que assimilar o fracasso de sua relação com Betsy, Travis busca na violência uma razão imediata para tornar a vida menos entediante. Envolve-se com armas de vários calibres, que ele compra ilegalmente. Pratica tiros em uma academia e modula o corpo com exercícios extenuantes. O objetivo é se preparar (meticulosamente) para uma batalha que, para ele, está prestes a acontecer. De fato, ao se colocar como o paladino da moral e dos bons costumes, encaminhará o confronto anunciado: eliminar da face da terra toda “essa escória humana” que toma conta das madrugadas de Nova Iorque. Travis parece ter encontrado, enfim, um objetivo de vida.</p>
<p>Travis Bickle — representado pelo inominável Robert de Niro — é um jovem que veio para Nova Iorque em busca de oportunidades. No entanto, desenraizado, o que ele encontra é a dura solidão. Incomunicável, relações sociais quase inexistentes, resta-lhe fantasiar uma vida ideal — apresenta-se como um agente secreto do governo. Sua vida vem idealizada nas cartas que envia aos pais, com quem estabelece um distanciamento afetivo calculado. Ao ler as cartas em voz alta, Travis possibilita que o espectador entre em contato com seus sentimentos e apreensões. E o que ele descreve é uma vida que ele não vive — tem bom emprego, ganha muito dinheiro e namora uma linda mulher chamada Betsy. Enfim, Nova Iorque é um mundo em louca efervescência, para onde Travis nunca devia ter ido.</p>
<blockquote>
<h2>A amostragem social de elementos noturnos transforma <em>Taxi Driver</em> num laboratório de misérias humanas.</h2>
</blockquote>
<p><em>Taxi Driver</em> encontra seu principal veio dramático quando o protagonista enfim vai realizar sua grande missão — salvar da prostituição uma menina de doze anos, Iris (Jodie Foster). Conhece-a circunstancialmente, quando ela entra em seu táxi para fugir do cafetão. Após a fracassada tentativa de assassinar o candidato à presidência — o senador Charles Palantine —, Travis se volta para sua nova missão, que o conduzirá para um trágico tiroteio, do qual, inesperadamente, sai como herói. Afinal, na feliz tentativa de salvar Iris da prostituição (receberá uma carta de agradecimento dos pais da menina), Travis desbarata uma quadrilha de gângsteres, a tal escória que ele tanto abomina. Recuperado dos ferimentos, volta com seu táxi para as ruas de Nova Iorque, levando consigo sua inseparável solidão.</p>
<blockquote>
<h2>Parece não haver lugar para todos nesse mundo.</h2>
</blockquote>
<p>A amostragem social de elementos noturnos transforma <em>Taxi Driver</em> num laboratório de misérias humanas. As câmeras focam (às vezes timidamente) indivíduos fora de seus enquadramentos ditos civilizados. Agem como seres desnaturalizados, expostos numa vitrine pública, destinados a produzirem pequenos horrores. E o taxista, blindado pela moral tradicional, sonha em combater essas anormalidades que tanto o incomodam. É o que ele diz para Iris, nas várias tentativas de convencê-la a abandonar a vida de prostituta: “<em>O lugar de menina é em casa</em>”. Quer dizer, vestir-se apropriadamente, namorar e ir para a escola. Para Iris, esta é uma visão quadrada da vida. E ela não deixa por menos ao contestá-lo: “<em>Por que você banca o santo comigo?</em>” Esta é a falácia moral na qual Travis está envolvido: ao se preocupar com a vida do outro, se perde na sua.</p>
<p>Em suma. <em>Taxi Driver</em> opera como uma narrativa de alertas. Não há como glamourizar uma realidade que precisa produzir horrores para se manter nos trilhos da normalidade. Esse é o preço a ser pago. Uma parcela de indivíduos agirá como escória, condenados a vagarem pelas calçadas sujas, para que a outra parcela da humanidade durma em travesseiros de plumas. Afinal, parece não haver lugar para todos nesse mundo.</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>Face A Face</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Sep 2020 17:19:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>TUDO EM NOME DO AMOR O emblemático filme FACE A FACE (130’), de Ingmar Bergman, Suécia/Itália (1976), além de dar continuidade às temáticas preferidas do diretor sueco, a velhice, a morte, a opressão, a arte como fonte de redenção, a relação mãe e filha, a mulher, o casamento, o sexo…, não que Bergman passe ao largo [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1>TUDO EM NOME DO AMOR</h1>
<p>O emblemático filme FACE A FACE (130’), de <a href="https://www.assistoporquegosto.com.br/blog/index.php/novembro-especial-ingmar-bergman/">Ingmar Bergman</a>, Suécia/Itália (1976), além de dar continuidade às temáticas preferidas do diretor sueco, a velhice, a morte, a opressão, a arte como fonte de redenção, a relação mãe e filha, a mulher, o casamento, o sexo…, não que Bergman passe ao largo destas temáticas, mas, nesta obra, em específico, nos parece que ele se dobra à sua biografia, colocando na tela sintomáticos indícios de que elegeu este filme para falar um pouco de si mesmo. E mais. Colocou seus gritos e sussurros na interpretação exuberante de Liv Ullmann, com quem, sabia Bergman, podia contar para expressar em cores vivas sua infância opressiva de menino solitário. Não é autobiografia. São pinceladas aqui e ali, que o espectador, sutilmente, irá percebendo. Portanto, não é um Bergman nu. Digamos, um Bergman insinuando alguma nudez. Disfarçada em arte. Disfarçada em Liv Ullmann.</p>
<p>Jenny Isaksson (Liv Ullmann em um de seus melhores momentos, ganhadora de vários prêmios mundo afora por este papel, inclusive a indicação ao Bafta e ao Oscar, de melhor atriz, em 1977), é uma médica psiquiatra que se vê às voltas com seus fantasmas do passado, os quais passam a atormentá-la, a ponto de vir a tentar o suicídio. Socorrida, enquanto se debate entre a vida e a morte, vai revivendo pedaços de infância. Revê sua inconclusiva relação com os pais, mortos por acidente quando ela ainda tinha nove anos, e também sua confusa convivência emocional com a avó, por quem fora criada e com quem mantinha uma relação disfarçada pelo manto da gentileza, mas que, na verdade, tecia invisíveis teias de domínio, opressão e ódio. E tudo, evidente, vai desembocar numa atitude redentora de percepção do que de fato ocorrera com ela ao longo de sua vida. É o encontro consigo mesma. Temporário, esse encontro? Ou definitivo? Melhor, caro espectador, não nos fazer tal pergunta. Encontrar-se consigo mesmo é uma atitude muito individual, afinal, cada um de nós tem a sua expectativa sobre as possibilidades de ressignificar a própria história.</p>
<p>A partir da breve sinopse acima, podemos antever a estrutura narrativa do filme. A princípio, <em>Face a Face</em> fora concebido para a televisão e, por isso, dividido em quatro episódios. Logo em seguida, Bergman viria a compilar tudo em um filme que, felizmente, ao herdar a estrutura da montagem original, favoreceu o ritmo narrativo da trama.</p>
<p>A primeira parte da narrativa é conduzida a partir dos influxos emocionais de uma de suas pacientes, Mary. Perceptiva, com uma simples frase sobre as precárias condições internas de Jenny, “Pobre Jenny!”, Mary parece rasgar a terra para que as lavas de um vulcão invisível jorrem sobre o cotidiano da psiquiatra. Jenny está só. Os avós viajaram. O marido, sempre ausente, também viajou. E a filha está a passeio em um acampamento. Mas Jenny conhece alguém disposto a ampará-la, o doutor Jacobi. Só que, nesse meio tempo, ela vê seu espaço sendo ocupado por agentes delirantes que irão desestabilizar seu mundo interior, culminando com a tentativa de suicídio.</p>
<p>A segunda parte inicia-se com a personagem agora no hospital. É a hora de o Bergman roteirista ressuscitar os fantasmas desenhados durante a infância solitária, opressora e afetivamente confusa de Jenny (e de Bergman?). É a hora dos delírios propriamente ditos, projetados numa parede de ferro, com a marca indelével do passado. É como se a personagem ficasse parada, deitada na cama, sedada, e por trás do biombo a sua narrativa inconsciente explodisse em vivências reais, sempre na busca de compreender o que, para nós, já adultos, parece inexplicável. Afinal, o que fazer com a nossa infância?</p>
<p>Recuperada, já pronta para sair do hospital, vem a terceira parte, a conclusiva, a catártica, quando Bergman traz a narrativa para o consciente e tudo é dito com clareza e discernimento. Aos gritos, e com muita dor. Muita dor, sim, porque esta é a maneira de nos conhecermos, quando nos encontramos com nós mesmos numa encruzilhada da qual só conseguiremos sair se tomarmos a decisão correta. Enquanto não a tomarmos, os caminhos ficarão ali, nos levando para lugar nenhum.</p>
<p>Esta terceira parte, vale destacar, é uma belíssima e rara sequência de exposição psicológica, em que o roteirista Bergman, enfiando com toda a força a caneta no papel, marca encontro com a própria história. E, diga-se, uma história meramente humana, que pode ser calçada, como uma luva, em infinitas histórias escritas por cada um de nós. A essência do humano não está na sua originalidade, mas na sua honestidade em repetir os ecos, muitos deles arquetípicos, que nos fazem parecer imensamente iguais e previsíveis. A individualidade está em como cada um de nós ouve e reage a estes ecos. É como nós reagimos às nossas dores é que nos faz únicos e verdadeiros.</p>
<p>E vem o desfecho para Jenny. A percepção de si mesma. É quando as coisas são colocadas nos seus devidos lugares, que é quando se descobre qual o papel de cada agente na formação da nossa história. É quando Jenny dá nome aos seus fantasmas. E vem o espanto. É quando se percebe que tudo, tudo mesmo, é feito em nome do amor. E este é o limite da nossa percepção. O de ter que compreender que, em nome do amor, tudo vale. Inclusive o erro.</p>
<p>É hora, então, de Jenny se levantar e retomar seu trabalho no hospital psiquiátrico. Um novo ser humano? Bem, se é novo, não sabemos. Mas diferente, é bem provável. Que algo ao menos tenha mudado, o suficiente para que nossa infância nos assuste um pouco menos. Se assim for, significa que estamos preparados para receber a próxima dor.</p>
<p>&nbsp;</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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