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	<title>Arquivos 1992 - Roberto Gerin</title>
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	<title>Arquivos 1992 - Roberto Gerin</title>
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		<title>Cães De Aluguel</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2020 12:00:51 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1>SUCESSO À PRIMEIRA VISTA</h1>
<p>CÃES DE ALUGUEL (99’), com direção de Quentin Tarantino, EUA (1992) é o primeiro filme dele, Tarantino. Primeiro? Sim. Mas… Primeiro, e já tão bom?! Pois é. O cara começa lá em cima, já nos oferecendo uma obra seminal, onde estão pontuadas já algumas marcas tarantinianas que fariam a fama de Quentin. Talvez, desconheço, nenhum outro diretor tenha começado sua carreira cinematográfica com tanto ímpeto. Que o catapultasse à fama quase imediata, a despeito da fraca bilheteria. Nem mesmo um Ingmar Bergman alcançou esta proeza. Mas, o que é que Bergman tem a ver com este sanguinário Tarantino? Nada. Exceto por duas razões. Os dois são brilhantes no que fazem. E, acima de tudo, apesar de os dois trilharem caminhos estéticos totalmente opostos, eles se encontram por uma qualidade que lhes é peculiar e quase imbatível. A genial capacidade de esgrimirem diálogos. Habilidade comum, com fins diferentes. Tarantino se vale dos diálogos cambaleantes e recheados da ideologia pop para preparar a violência brutal. Bergman, do contrário, usa diálogos sutis e pungentes para preparar a dor incontida. Fora, pois, as preferências, não podemos negar que em ambos a palavra e a imagem andam de mãos dadas, numa generosa oferta à grandeza da sétima arte.</p>
<p>A estrutura narrativa de Cães de Aluguel é simples, e nada original. Um velho gângster contrata seis bandidos para executarem um grande roubo de diamantes numa joalheria. E já está determinado. A operação dará errado, com mortes de bandidos, policiais e civis. Alguns dos assaltantes sobreviventes retornam à base, um velho depósito abandonado, onde, de forma linear, a narrativa se desenvolverá. Linear, porque tem, na sequência, o começo, o meio e o fim. Mas Tarantino utiliza-se dos flashbacks para desenhar o perfil psicológico e biográfico de cada personagem bandido, de forma a entendermos o porquê do comportamento de cada um deles, naquele depósito, após o fracasso. Tudo girará em torno de uma única questão, que motiva a narrativa e dá a ela perspectivas dramáticas imprevistas. Imprevistas? – questionaria o espectador. Em se tratando de Tarantino, sabemos o que vai acontecer. Vai espirrar sangue pelas paredes! Sim, vai jorrar sangue pelo chão, mas não precisamos contar como. O que vale dizer, e não é spoiler, é que entre os seis bandidos há um alcaguete. Alguém avisara a polícia do assalto. E a eficiente polícia americana chegará ao local bem na hora em que botam as mãos nos diamantes.</p>
<p>Como dito acima, Cães de Aluguel é o primeiro filme de Tarantino em que se denota a antecipação estilística de um dos grandes artistas do cinema moderno. Está ali a estética do sangue. E o sangue, neste filme, acaba se transformando numa personagem silenciosa, estampada nas camisas branco-avermelhadas dos bandidos.</p>
<p>Outra característica a se ressaltar é a manipulação do cotidiano como forma de manifestação natural da violência, como se, ao se discorrer de uma forma errante sobre uma música da Madonna, Like a Virgin, estaríamos desprezando o impacto da violência na história da humanidade. A humanidade sempre foi violenta, e nossos arquétipos, com nossos pesadelos dos tempos das cavernas, denunciam o mundo violento em que nossos antepassados viveram. Sendo, ao longo dos milênios, apenas domesticados por regras civilizatórias. Mas a violência nunca saiu de nós, é o que os filmes de Tarantino nos avisam. Por isso que, ao assisti-los, eles não causam tanto prazer.</p>
<p>Para encerrar, apenas mais uma das tantas características desta estética de violência na cinematografia de Quentin Tarantino. O duelo. Todos conhecem esta prática aristocrática da defesa da honra, que depois seria transportada para o velho oeste, onde fez história em cenas icônicas espalhadas pelo gênero faroeste, fazendo a delícia apoteótica de muitos bangue-bangues. Ficando com apenas um exemplo, a cena final de Era uma Vez no Oeste, em que finalmente Harmônica (Charles Bronson) vai prestar contas com o seu passado ao duelar com Frank (Henry Fonda). Só que Tarantino sofisticou esse duelo e deu a ele toques bem mais violentos. Agora não se trata de defender a honra. Não se trata de combinar o local onde se dará o duelo. Com testemunhas previamente acordadas. Não. O duelo em Tarantino é espontâneo, movido pelo impulso da sobrevivência, dentro de uma circunstância dada, geradora da tensão, portanto, deste impulso. E mais! Tarantino aboliu as distâncias. Não há como errar. Em algumas cenas, a arma está já espetada na carne. Só falta explodir. Enfim, na dinâmica da disputa, para que alguém viva, alguém terá que morrer.</p>
<p>Mas onde está a diferença com os antigos duelos? A quantidade de sangue? Sim. Por que agora os duelos são múltiplos! “A” aponta a arma para “B”, que está apontando para “C”, que aponta para “D”, cuja arma está apontada para a cabeça de “A”. Não é o duelo final de Cães de Aluguel, aqui omitido, para não darmos spoiler. Enfim, não são mais duelos, portanto. Agora são duelos multiplicados em “trielos”, “quadrielos”, ad infinitum! Caro espectador, quer coisa mais deliciosa do que esta…?!</p>
<p>Já em Cães de Aluguel, Tarantino nos traz esta deliciosa orgia de horrores, que se perpetuará em outros de seus filmes, com a ressalva para o grande múltiplo banho de sangue a ocorrer no subterrâneo de uma taverna francesa, em <a href="https://escritorgerin.com.br/bastardos-inglorios/"><em>Bastardos Inglórios</em></a>. Na verdade, Tarantino soube, como ninguém, escolher os ingredientes narrativos certos para alcançar seus fins estéticos. E ele sabia o que fazer já quando se propusera a rodar o seu primeiro filme. Não à toa, Cães de Aluguel é o que é: um filme para ser assistido. E cultuado.</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>Parente É Serpente</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Aug 2020 16:39:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>NATAL EM FAMÍLIA, CONFLITOS RENOVADOS Pergunta-se: o que nos vem à mente ao ler o título do filme PARENTE É SERPENTE, (100’), direção de Mário Monicelli, Itália (1992)? (Silêncio). Podem imaginar, porque é exatamente isto que estão pensando! Tudo começa bem. Abraços e risos, recordações, piadinhas e esquisitices de infância, defeitos e algumas qualidades, enfim, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1>NATAL EM FAMÍLIA, CONFLITOS RENOVADOS</h1>
<p>Pergunta-se: o que nos vem à mente ao ler o título do filme PARENTE É SERPENTE, (100’), direção de Mário Monicelli, Itália (1992)? (Silêncio). Podem imaginar, porque é exatamente isto que estão pensando! Tudo começa bem. Abraços e risos, recordações, piadinhas e esquisitices de infância, defeitos e algumas qualidades, enfim, saudades, fotografias e a ceia de Natal. Reencontro anual na casa dos pais, felicidade completa. O peru assado é tão grande que dá pra todo mundo comer. E olha que não é pouca gente. Avô e avó, nas respectivas cabeceiras da enorme mesa (estamos falando de família italiana), os irmãos e as irmãs, netos e netas, tios e primos, e os chamados agregados, os cunhados chatos e as cunhadas enxeridas, genros e noras. Família completa, pois. Todos felizes. Felizes… será? Aí é que mora o perigo. Felicidade e harmonia duram pouco, principalmente num filme italiano, sobre família italiana. Eis a comédia!</p>
<p>A família é tão grande que, permita-nos, vamos nos abster de elencar as personagens e respectivos atores, aliás, ótimos.</p>
<p>Deixem-nos fazer mais uma pergunta. Pra que serve o Natal? Ora, para reencontrar os familiares e agregados (parentes) e colocarem em dia a conversa e, principalmente, as fofocas. E também para dar e ganhar presentes. E comer leitoa assada… Nada disso. Não? Não. O Natal em família serve para renovar os conflitos. Reabastecer as emoções. Principalmente as negativas. Desenterrar as velhas mágoas. Por isso, o conselho. Nunca fiquem mais do que três dias em uma festa de natal em família. Acima disso, é correr riscos. E é o que acontece nesta saborosa comédia. Os parentes ficaram tempo demais, até o ano novo. E deu no que deu.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="padding-left: 80px;"><img data-recalc-dims="1" fetchpriority="high" decoding="async" class="" src="https://i0.wp.com/istoe.com.br/wp-content/uploads/sites/14/2020/04/40-4.jpg?resize=595%2C334&#038;ssl=1" alt="Parente é serpente - ISTOÉ Independente" width="595" height="334" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Parente é Serpente</em> é uma comédia que mostra com muito humor, muito ritmo, com diálogos precisos e personagens bem definidos o reencontro de irmãos que foram passar o Natal na casa dos pais. Tudo caminhava bem, tirando, lógico, as farpas, as descaracterizações, as lembranças maldosas, as piadinhas machistas para lá de picantes (descobrem-se até traições entre cunhados!), mas isto tudo faz parte de uma relação familiar saudável, portanto, nada de novo no <em>front</em>. A coisa começa a pegar fogo quando a matriarca comunica aos filhos e filhas que ela e o patriarca, sofrendo este já de escleroses variadas, e ambos entrados nos oitenta, iriam morar com um deles. E que a escolha com que filho morar caberia aos próprios filhos decidirem. Caro espectador, aqui a película do filme se parte ao meio. O que já era sombra vira uma tenebrosa nuvem negra.</p>
<p>Todos cometeram o mesmo erro. Ficaram juntos dias demais e deixaram-se aprisionar pela ilusão dos inquebrantáveis laços familiares. Estamos diante de uma das coisas mais comuns na história das famílias, sejam quais forem suas condições socioeconômicas. Estamos falando do envelhecimento. E com o envelhecimento, a doença. Os filhos gostam muito de serem cuidados e amados, mas não de cuidar e amar. E aí?</p>
<p>A comédia serve para isso. Para que olhemos de banda o que tinha que ser olhado de frente. Pelo menos no título o filme disse a que veio. Cada fio de macarrão que a família italiana “mangia” (come) é uma serpente que engolem. Pois, o título do filme não usou de meias palavras nem ficou de banda. A sorte é que tudo vira comédia, e na comédia desgraça não é levada a sério. Feliz Natal!</p>
<p>&nbsp;</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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