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	<title>Arquivos África - Roberto Gerin</title>
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		<title>Úrsula</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Nov 2022 12:00:34 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>NINGUÉM PODE ESCRAVIZAR NOSSA MENTE &#160; Apesar de ser um romance saído do ventre do romantismo, quando se trata de falar da escravidão e do sistema social que dá razão a essa barbárie, a obra máxima de Maria Firmina dos Reis, ÚRSULA, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, deixa momentaneamente as paixões de lado para [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>NINGUÉM PODE ESCRAVIZAR NOSSA MENTE</strong></h1>
<p>&nbsp;</p>
<p>Apesar de ser um romance saído do ventre do romantismo, quando se trata de falar da escravidão e do sistema social que dá razão a essa barbárie, a obra máxima de Maria Firmina dos Reis, ÚRSULA, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, deixa momentaneamente as paixões de lado para expor ao leitor, sem retoques, a realidade de dores do escravizado. Esse hábil jogo de revelar verdades históricas inseridas na concepção romanesca — forma <em>versus</em> conteúdo — alça o romance de Maria Firmina ao <em>status</em> de literatura a serviço da arte e da política. Não tem como dissociar <em>Úrsula</em> de seu tempo histórico. Não à toa, tornou-se uma obra-prima da nossa literatura romântica.</p>
<p>A despeito do inquestionável mérito literário de <em>Úrsula</em>, causa estranhamento o silêncio que envolveu a obra ao longo de quase todo o século XX. Se percorrermos resenhas e discussões literárias, inclusive no âmbito dos bancos escolares, vamos perceber raros momentos em que esse romance, basilar da nossa literatura, foi objeto de apreço e análise. Só nos últimos anos o silêncio vem se quebrando. E o que vemos agora, como justa reparação, é a participação de Maria Firmina como homenageada na 20ª edição da FLIP – Feira Literária Internacional de Paraty.</p>
<h2>Não há hoje, na proposta política de combate ao racismo, ignorar <em>Úrsula</em>.</h2>
<p>A escravidão é uma temática espinhosa, que costumamos relegar para páginas menores da nossa história, evidenciando a falta de interesse em colocar fato tão vergonhoso diante dos holofotes. Em tempos atuais, em que o racismo é assunto de discussões sérias, em que a literatura de autoras e autores negros vem ganhando destaque nas mídias especializadas e nas estantes de leitores sedentos por conhecer a realidade social do preto, não há mais como ignorar <em>Úrsula</em>. Tornou-se imperativo festejar Maria Firmina dos Reis, atestando sua importância no surgimento dessa literatura voltada para discutir as questões cotidianas da gente preta.</p>
<p>E todo esse movimento começou lá trás, pelas mãos de Maria Firmina dos Reis, mulher negra e letrada (professora no interior do Maranhão), que insistiu em lutar pelo sonho de se transformar numa escritora publicada. <em>Úrsula</em> vem a lume em 1859, ainda no auge da escola romântica. Mas com um detalhe. Maria Firmina publica seu romance sob o pseudônimo de “Uma Maranhense”, para, só depois, em outras edições de outros escritos seus, assumir corajosamente seu nome de mulher e sua condição de escritora negra. Eis o grande feito: ela não só se torna a primeira mulher a publicar um romance no Brasil como revela ser, esta mulher, negra.</p>
<h2>O momento mais pungente da narrativa é protagonizado por Túlio.</h2>
<p>O enredo gira em torno do amor impossível entre Úrsula e Tancredo. O moçoilo bem-apessoado sofre um acidente de cavalo nas cercanias da fazenda onde Úrsula mora com sua mãe, Luiza B. Túlio, o escravo da fazenda, encontra Tancredo gravemente ferido. Leva-o para a casa de sua senhora, onde o enfermo recebe os cuidados de Úrsula. Como não poderia ser diferente, os dois jovens se apaixonam, com trocas de juras de amor eterno. O enlace é adiado tendo em vista compromissos inadiáveis de Tancredo. A ausência do amante possibilita à autora introduzir, primeiro, as questões da escravidão, e, depois, o vilão da trama.</p>
<h2>Do romance <em>Úrsula</em> emerge uma outra África, a terra da liberdade.</h2>
<p>A grande inovação de Maria Firmina foi dar voz própria aos negros que, apesar de coadjuvantes, têm a potência necessária para ecoar as dores geradas pela escravidão e provocar emoções genuínas no leitor. Reside aqui a alma essencial do romance, quando nos é dada a oportunidade de ouvir a voz da preta Susana. O momento mais pungente da narrativa é protagonizado por Túlio. Ao ser alforriado com o dinheiro presenteado por Tancredo, e decidido a abandonar a fazenda de Luiza B., Túlio vai se despedir de Susana. É a oportunidade que a autora se oferece para falar de tema tão caro a ela: a escravidão e suas dores.</p>
<p>Susana rememora seus dias livres de infância e adolescência vividos na sua mãe-África. Por meio dos relatos de Susana, a autora nos traz uma África diferente, exaltada como a terra da liberdade. É o lugar onde os negros, agora escravizados, eram felizes. Casada, mãe de filhos pequenos, é capturada e transportada para uma terra distante: a terra do sofrimento, a terra da escravidão. É a chaga que o Brasil, visto por meio de sua história oficial, sempre tentou esconder.</p>
<h2><em>Úrsula</em> simboliza a tragédia moral em que se transformou a escravidão.</h2>
<p>O romance ganha fôlego dramático com a introdução do vilão, o agente de sofrimentos e tragédias. É o Comendador, irmão e vizinho de Luiza B. Em um encontro fortuito com a sobrinha Úrsula, o tio se apaixona por ela. É uma paixão incontrolável, que gera um amor egoísta e vingativo. O ódio que o Comendador nutre por sua irmã, Luiza B., por ter esta se casado com um rapaz de origem inferior, fora do círculo social da família, é transferido para Úrsula. A recusa incondicional de Úrsula em se casar com o Comendador, preservando seu amor por Tancredo, coloca em movimento o desfecho trágico previsível. É a partir da construção de conflitos familiares, exacerbados pelo triângulo amoroso — portanto, motivados por paixões soberbas —, que a obra de Maria Firmina vai se desenhar em direção à tragédia romântica.</p>
<p>Maria Firmina, munida de rigoroso estilo, sente-se à vontade para falar daquilo que lhe interessa e que lhe dói na pele. São os frutos doloridos de vivências de mulher negra. Sua capacidade de ir além de si a credenciou para tratar de assuntos de interesse social, trazendo o negro para a ribalta, ao lhe dar voz, sentimentos e memórias. É um jogo concomitante de amor e ódio, de escravidão e liberdade, e, acima de tudo, da consciência de que é nosso direito inalienável podermos usufruir do nosso corpo e da nossa alma. O corpo, na visão de Maria Firmina, foi aprisionado; a alma, jamais. Afinal, ninguém tem o poder de escravizar nossa mente.</p>
<p>&nbsp;</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>Cidadã de Segunda Classe</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Nov 2021 16:50:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>JAMAIS ESMORECER, EIS O LEMA! Em CIDADÃ DE SEGUNDA CLASSE, tradução de Heloisa Jahn, editora Dublinense, 251 pg., a escritora nigeriana Buchi Emecheta nos apresenta, em estilo cativante, a heroica trajetória da mulher, esposa e mãe Adah. Adah é a mulher que vê no estudo e na formação pessoal um caminho seguro para escapar ao [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2>JAMAIS ESMORECER, EIS O LEMA!</h2>
<p>Em CIDADÃ DE SEGUNDA CLASSE, tradução de Heloisa Jahn, editora Dublinense, 251 pg., a escritora nigeriana Buchi Emecheta nos apresenta, em estilo cativante, a heroica trajetória da mulher, esposa e mãe Adah. Adah é a mulher que vê no estudo e na formação pessoal um caminho seguro para escapar ao modelo de miséria e submissão a que as mulheres nigerianas estão condenadas. Adah sonha em imigrar para a Inglaterra, a terra prometida, de que a Nigéria é uma ex-colônia. Imigrar é a forma de se livrar da terrível opressão cultural conferida às mulheres nigerianas. Com as economias de um bom emprego, Adah finalmente embarca em um navio, com seus dois filhos pequenos, em direção ao porto de Liverpool. De Liverpool ela ruma para Londres, onde o marido a espera. Mas, ao chegar a Londres, o que ela encontra não é bem uma terra prometida.</p>
<blockquote>
<h2>Uma mulher que acredita em si, apesar de negra e estrangeira.</h2>
</blockquote>
<p>Somados já aos problemas culturais trazidos de seu país de origem, e que se configurariam na relação opressiva e abusiva com o marido nigeriano, o qual exige que ela o sustente enquanto ele estuda para conseguir uma bolsa e se formar em direito, Adah ainda encontra pelas ruas a xenofobia e o racismo, dois preconceitos com os quais não estava acostumada a conviver. Assim ela inicia sua trajetória em busca de um lugar ao sol, sem esmorecer, lidando com os problemas cotidianos de criar cinco filhos, enquanto tenta se livrar do marido explorador. E vai se ajustando o quanto pode à forma de vida londrina, onde, seja qual for seu emprego e condições intelectuais privilegiadas, será sempre vista como uma cidadã de segunda classe.</p>
<p>Em suma. Convido o leitor a entrar em contato com a deliciosa literatura de Buchi Emecheta que, com base em um estilo empático, sem demonstrar rancores, esmiúça os sofrimentos e as esperanças de uma mulher que acredita em si, apesar de negra e estrangeira, e que quer para seus filhos o usufruto da dignidade em um país que lhes é estranho e arredio. Comovente.</p>
<p>&nbsp;</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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