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	<title>Arquivos drogas - Roberto Gerin</title>
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	<title>Arquivos drogas - Roberto Gerin</title>
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		<title>Os supridores</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jun 2022 12:00:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>NÃO EXISTE SONHO PERFEITO Uma das boas surpresas do mercado literário atual é o romance de estreia de José Falero, OS SUPRIDORES, 301 pg., Ed. TODAVIA. O romance é vigoroso, tem uma escrita portentosa. O autor maneja as palavras com tamanha naturalidade, como se elas fossem o sangue que corre em suas veias — jorram [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h2>NÃO EXISTE SONHO PERFEITO</h2>
<p>Uma das boas surpresas do mercado literário atual é o romance de estreia de José Falero, OS SUPRIDORES, 301 pg., Ed. TODAVIA. O romance é vigoroso, tem uma escrita portentosa. O autor maneja as palavras com tamanha naturalidade, como se elas fossem o sangue que corre em suas veias — jorram aos borbotões, que o leitor acaba sendo tragado pela fluidez escorregadia de narrativa tão saborosa quanto bem arquitetada. Lógico, para atender a essa sede de palavras escritas, Falero compôs personagens tagarelas. A língua precisando se apressar para acompanhar o ritmo mental do protagonista Pedro. Ele não cabe em si de tantas ideias transformadas em sonhos, ideias que escapolem de sua mente fértil como pipocas pulando de uma panela sem tampa. Pedro é, antes de tudo, o sujeito que move a história: essa foi a missão imposta a ele pelo autor.</p>
<p>O título <em>Os Supridores</em> vem da função que os amigos Pedro e Marques exercem em um supermercado. Sim, são aquelas pessoas que repõem produtos nas prateleiras. No entanto, ao longo da narrativa, esse conceito se expandirá, dando outra conotação à palavra “supridor”. Referimo-nos aos protagonistas que passam a suprir a periferia com papelotes de maconha.</p>
<blockquote>
<h2>São cinco companheiros de jornada que transitam pelas páginas nervosas de <em>Os Supridores</em>.</h2>
</blockquote>
<p>Podemos falar, sim, de protagonistas, no plural, já que a estrutura do romance acolhe outros agentes que, unidos pela amizade, percorrem a mesma trajetória narrativa. São cinco companheiros de jornada que transitam pelas páginas nervosas de <em>Os Supridores</em>. Quando uma ação inimiga atinge um, estará atingindo a todos. Essa corresponsabilidade de colorir a história com as mesmas emoções é que faz de <em>Os Supridores</em> um hino à lealdade.</p>
<p>Pedro e Marques, enquanto repõem os produtos nas prateleiras, vão tecendo seus sonhos e pesadelos. Rapazes pobres da periferia, cujos sonhos se concentram numa única possibilidade futura: ter dinheiro, muito dinheiro, para poderem viver bem. No entanto, simples empregados de supermercado, as chances de amealhar riqueza são bastante remotas. Estão destinados, como os avós e os pais, a continuarem pobres, tendo que se contentar com um salário que mal lhes oferece sobrevivência digna.</p>
<blockquote>
<h2>Só que agora as coisas serão diferentes. É contravenção séria.</h2>
</blockquote>
<p>Esse impasse social e, lógico, econômico, é o mote que fará girar a roda da fábula. E tudo acontecerá porque Pedro nem pensa em se submeter ao legado de pobreza herdado de seus antepassados. Arquiteta um plano: vender maconha na periferia. Em meio às gôndolas, não só convida o amigo Marques a fazer parte do negócio, como vai expondo suas ideias, reforçando a certeza de que vender drogas é o único ponto de fuga para saírem da miséria.</p>
<p>Mas que fique bem claro. São trabalhadores que vão se aventurar, de forma honesta, no mundo do crime. Já experimentam o sabor da transgressão ao roubarem guloseimas dos depósitos do supermercado para satisfazerem seus desejos de consumo. Só que, agora, as coisas serão diferentes. É contravenção séria. Mas segura, promete Pedro a Marques. Afinal, Pedro não é bobo, conhece os riscos, que são, por ele, engenhosamente calculados.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>Os Supridores</em>, Pedro é o homem de confiança do autor.</h2>
</blockquote>
<p>O autor apresenta a feliz solução ao construir a premissa que embasará a estrutura dramática e que servirá para justificar os passos duvidosos a serem dados por dois jovens pobres e honestos, que até então cresceram à margem da bandidagem, a despeito de toparem com ela pelas ruas dos bairros onde moram. Pedro percebe que os traficantes se voltaram para as drogas pesadas, muito mais lucrativas, abandonando o comércio da maconha. Portanto, a maconha é uma demanda reprimida, à espera de ser explorada.</p>
<p>O sucesso da empreitada se deve às ações positivas de Pedro. Ele é o homem de confiança do autor. O autor precisa da capacidade de articulação de Pedro para levar a cabo a sua história. Nenhum contratempo poderá perturbar o encaminhamento do feliz enredo, mesmo que estejam envolvidos numa atividade tão ferozmente competitiva quanto a venda de drogas.</p>
<blockquote>
<h2>Falero conhece muito bem as vozes da periferia de Porto Alegre.</h2>
</blockquote>
<p>Ao assim projetar a trajetória segura para suas cinco personagens, Falero cumpre seu desejo de preservar a integridade moral deles. Pedro espertamente evita invadir os territórios alheios. Apenas pede permissão para entrar. E a permissão é dada, posto que o negócio de Pedro e sua gangue não competirá com os lucrativos negócios dos barões do tráfico.</p>
<p>Um dos aspectos que mais chama a atenção do leitor é a habilidade com que José Falero trabalha a oralidade em suas personagens. Consegue aproximá-las do meio em que vivem. Aliás, Falero conhece muito bem as vozes da periferia de Porto Alegre. Ele oferece ao leitor a sensação de estar convivendo com pessoas pinçadas da realidade — portanto, construídas em carne e osso. É o fabuloso mundo do escritor, fotografado por meio da fala.</p>
<p>Vale lembrar que a norma culta só é utilizada nos momentos em que o autor se distancia de suas personagens para fazer avançar a trama.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>Os Supridores</em>, ao estabelecer regras equitativas que privilegiam o convívio harmonioso, o autor cria um mundo de emoções e sentimentos perigosamente irreal.</h2>
</blockquote>
<p>Muito habilidoso, Pedro nos é (também) apresentado como uma figura intelectualmente antenada, a ponto de discorrer sobre as teorias marxistas com grande intimidade. Acredita que todos somos iguais, e que, para viver bem e em harmonia, as riquezas produzidas terão que ser igualmente divididas — independentemente da maior ou menor capacidade de cada um em produzi-las. É a partir dessas idiossincrasias que Pedro estrutura a convivência da gangue e, por conseguinte, a distribuição equitativa dos ganhos pela venda da maconha.</p>
<p>Entretanto, ao estabelecer regras equitativas que privilegiam o convívio harmonioso, o autor cria um mundo de emoções e sentimentos perigosamente irreal. Ao compor para suas personagens um quadro social baseado em convivências idealizadas, mesmo em se tratando de um negócio ferozmente competitivo, posto que envolve o fluxo de muito dinheiro, José Falero impede que aflore nas dinâmicas das relações cotidianas entre os membros do grupo os perigosos sentimentos da cobiça, da ganância, do ciúme e, em última instância, do poder. O que fazer com tais sentimentos? Como neutralizá-los?</p>
<blockquote>
<h2>O romance <em>Os Supridores</em> surpreende pela sua agilidade em cooptar o leitor sem que ele tenha tempo de resistir.</h2>
</blockquote>
<p>Falero opta por jogar o conflito para além do grupo, quando a turma começa a ser ameaçada por outra gangue, perigosa e violenta. Ao unir o grupo em torno da defesa do seu território, essa coesão evitará que conflitos internos se manifestem. E, para impedir a eclosão desses conflitos, Falero joga os bons companheiros na fogueira da violência. É quando o autor contará mais uma vez com a força mental idiossincrática de Pedro, seu comparsa no encaminhamento do desfecho da narrativa. A rígida flexibilidade do arco da personagem Pedro facilitará a solução, dando a ela, talvez, um alcance menor, mas não menos impactante.</p>
<p>Em suma. Estamos diante de mais um autor com imensa capacidade criativa e técnica para se consolidar como expoente da nossa literatura. O romance <em>Os Supridores</em> surpreende pela sua agilidade em cooptar o leitor sem que ele tenha tempo de resistir. Essa é uma das qualidades necessárias para nos engajarmos nas grandes estórias. Sentirmo-nos participantes delas. No caso do romance de Falero, depois de intensa participação, sairemos da história com uma amarga certeza: a de que não existem sonhos perfeitos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>Cidade De Deus</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Oct 2020 15:20:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O PROTAGONISMO DA VIOLÊNCIA COTIDIANA É com orgulho por este grande momento do cinema brasileiro que devemos assistir a CIDADE DE DEUS (130’), direção de Fernando Meireles, Brasil (2002). Não cabe outro sentimento. À medida que o filme se desenrola diante de nossos olhos, vamos tendo a certeza de estar apreciando o que há de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1>O PROTAGONISMO DA VIOLÊNCIA COTIDIANA</h1>
<p>É com orgulho por este grande momento do cinema brasileiro que devemos assistir a CIDADE DE DEUS (130’), direção de Fernando Meireles, Brasil (2002). Não cabe outro sentimento. À medida que o filme se desenrola diante de nossos olhos, vamos tendo a certeza de estar apreciando o que há de melhor na produção cinematográfica do país. O roteiro, a direção, a fotografia, o grande elenco e, para deixar tudo redondinho, no ritmo exato, a edição. Portanto, esta é a primeira razão para assistirmos a <em>Cidade de Deus</em>: ficha técnica impecável. Mas há outras razões. E uma delas é incontestável. Nenhum outro cinema, só o nosso, tem a capacidade (e a missão) de escancarar o Brasil.</p>
<blockquote>
<h2>A favela Cidade de Deus transformou-se no doloroso símbolo da violência sem limites.</h2>
</blockquote>
<p>O que impacta em <em>Cidade de Deus</em> é vermos retratada na tela uma realidade quase íntima de nós mesmos: o Brasil violento que nos assusta cotidianamente. E mesmo que estejamos morando a mil quilômetros de distância do Rio de Janeiro, a impressão que nos fica é a de que os tiros ecoam debaixo de nossas janelas. A violência é um componente da nossa civilização, e a favela Cidade de Deus é apenas mais um triste capítulo dessa tragédia.</p>
<p>A favela, na década de 1980, transformara-se no doloroso símbolo da violência sem limites. A vida passa a ser um atributo meramente material, desprovida de toda sua essência divina. A ganância pelo poder vai triturando vidas ao longo do caminho, sem que nada se possa fazer. Passamos quase a implorar que o serviço público, na decisão do Estado e na ação da Polícia, venha dar um basta na barbárie. Entretanto, se ainda temos alguma esperança no papel do Estado como agente preparado para erradicar a violência, ledo engano. Ao assistirmos a <em>Cidade de Deus</em>, esta convicção cai, crivada de balas, por terra.</p>
<blockquote>
<h2>O crime é a única saída, mesmo que passageira, para a conquista do sucesso.</h2>
</blockquote>
<p>A narrativa é construída a partir do olhar do protagonista-narrador Buscapé (Alexandre Rodrigues), o menino que cresce na comunidade Cidade de Deus e vai presenciando, com sensibilidade, a transformação de um abrigo de itinerantes sem teto em um ninho de violência e dor. Tudo começa nos anos sessenta, início do assentamento Cidade de Deus, na periferia de um Rio de Janeiro que precisava expandir seu território para acolher os milhares que iam chegando à cidade maravilhosa. Eram os tempos de intenso movimento migratório, principalmente nas décadas de 1950 e 1960. Junto com o crescimento da favela veio o crime, organizado por grupos que vão impondo o seu domínio através da violência a toda prova.</p>
<p>A maioria são jovens — marginais ao mercado de trabalho formal — que viam nos pequenos roubos, depois no tráfico de drogas, a oportunidade de ascensão social fácil e rápida. E o sentido de ascensão social para eles era a manutenção do poder sobre a favela e a capacidade de consumir o que desejavam: carros, joias e mulheres. Portanto, uma perspectiva de encaixe socioeconômico muito limitada. Sem uma estrutura funcional cidadã que os encaminhasse para a vida produtiva, não havia outra saída para a glória, mesmo que passageira, senão o crime.</p>
<blockquote>
<h2>O vale tudo, o poder como fonte de autopromoção e o desvio moral são a tônica festiva de <em>Cidade de Deus</em>.</h2>
</blockquote>
<p>O Trio Ternura, ainda nos anos 1960, apresentado nas figuras de Marreco (Renato de Souza), Cabeleira (Jonathan Haagensen) e Alicate (Jefechander Suplino), representa o crime incipiente, sem objetivos precisos, com uma leve tendência a copiar o espírito de Robin Hood. Levavam em consideração as dificuldades da comunidade e por ela lutavam, em troco, evidente, de proteção.</p>
<p>Mas a segunda geração, cuja trajetória ocupa a maior parte do filme, moleques que assistiam com admiração às peripécias do extinto Trio Ternura, serão os que, na década seguinte, vão levar o crime às últimas consequências. O vale tudo, o poder como fonte de autopromoção, e o desvio moral, que logo desembocaria na amoralidade, são a tônica festiva de <em>Cidade de Deus</em>.</p>
<blockquote>
<h2>O roteiro se transforma, desde cedo, no grande trunfo de <em>Cidade de Deus</em>.</h2>
</blockquote>
<p>O outrora Dadinho (Douglas Silva), o menino precocemente perverso, irmão menor de Cabeleira, um dos Trio Ternura, é rapidamente absorvido pelos fáceis encantos do crime. Sua ambição, desde cedo, é ser dono da comunidade Cidade de Deus. Na base da bala, toma todos os pontos de venda de drogas instalados na favela, menos um, o do Cenoura (Matheus Nachtergaele), amigo do braço direito de Dadinho, Bené (Phellipe Haagensen). Dadinho, agora crescido, troca o apelido para Zé Pequeno (Leandro Firmino), numa clara atitude de autoconsciência de sua condição de jovem de baixa estatura, negro e nada belo.</p>
<p>Para se tornar definitivamente grande e poderoso, falta tomar o ponto do Cenoura, adversário à sua altura, traficante que se insere na comunidade mais pela simpatia do que pelo terror. Com a morte de Bené — numa sequência belíssima de cenas —, Dadinho está livre para conquistar o seu império. Está armado, assim, o último e mais violento confronto. Zé Pequeno <em>versus</em> Cenoura.</p>
<blockquote>
<h2>A narrativa flui, sem pontos cegos.</h2>
</blockquote>
<p>O roteiro, baseado no romance homônimo de Paulo Lins, lançado, com boa repercussão, em 1997, acabou sendo um dos grandes trunfos para o sucesso de <em>Cidade de Deus</em>. É sabido que o roteiro passou por muitos tratamentos, até chegar ao décimo segundo, o escolhido para ser utilizado nas filmagens. Este esforço criativo para construir uma história real adaptada à linguagem do cinema prova que, se não se pode prever o sucesso, pode-se, a partir de um trabalho bem planejado, almejar um resultado artístico que deixe o produto bem perto do reconhecimento público. Tanto é verdade que, lido o roteiro, os produtores não tiveram dúvida do seu potencial. Para um grande filme é importante que se tenha em mãos um grande roteiro.</p>
<p>Neste sentido, o roteiro de <em>Cidade de Deus</em> nos apresenta uma facilidade e uma ousadia. A facilidade está por conta de a trama se apoiar na eficiente técnica do protagonista-narrador. Para fins de clareza e ritmo, em <em>Cidade de Deus</em> esta escolha narrativa foi fundamental. A própria construção da personagem Buscapé, jovem sensível, observador, morador da favela, que luta para fugir à criminalidade, vai facilitar, como testemunha ocular dos acontecimentos, que se coloque o espectador em contato íntimo com o que está ocorrendo diante de seus olhos. A narrativa flui, sem pontos cegos.</p>
<blockquote>
<h2><em>Cidade de Deus</em> trabalhou com um elenco amador, tirado da realidade que tão bem conheciam — as próprias favelas.</h2>
</blockquote>
<p>E a ousadia fica por conta da tessitura da trama. São várias narrativas que se convivem de forma paralela, apoiadas sempre em uma personagem central. Portanto, são várias personagens para várias narrativas. E são narrativas que se encontram pelos becos da favela e vão se desdobramento em novos conflitos. E dentro dessa sequência linear surgem pequenos núcleos de cenas que se atrasam ou se adiantam no tempo, com a proposta de trazer ao espectador informações essenciais para o entendimento da trama. Portanto, tudo o que é essencial é narrado. Na velocidade das imagens e na precisão dos cortes da edição.</p>
<p>Para finalizar, não podemos deixar de falar de outra ousadia: a produção do elenco. Optou-se por contratar um elenco amador, moradores de favelas, que nunca tinham estado diante de uma câmera. Fugir dos nomes consagrados — a exceção ficou por conta de Matheus Nachtergeale —, alheios à realidade das favelas, foi o grande acerto. Nada de teatralidade, nada de técnicas invasivas de preparação de elenco. O que importava era a verossimilhança, o representar o mundo real em que estavam inseridos, sem que as emoções e os diálogos tivessem uma prévia e exaustiva construção teatral.</p>
<blockquote>
<h2>Precisamos do cinema nacional para discutir nossa realidade.</h2>
</blockquote>
<p>Neste ponto, o acerto foi brutal. Se a algum espectador interessar, remetemos ao documentário <em>Cidade de Deus &#8211; Dez Anos Depois </em>(68’). A partir deste documentário, temos uma clara ideia da ousadia na seleção e na preparação do elenco: meninos de favela que de repente se veem retratados, por eles mesmos, na tela. E tudo é tão real que, dez anos depois, a grande maioria continua na insana luta para se inserir no mercado produtivo. E mais. Ficamos sabendo que a quase totalidade do elenco, na sua maioria negros, não conseguiram espaço no mundo artístico. Esse é o grande problema de um país em eterno desequilíbrio, em que não há lugar para todos. Principalmente para os pretos.</p>
<p>Em suma.<em> Cidade de Deus</em> é um filme que ficará para a história do cinema brasileiro como uma de nossas grandes inspirações. E nos deixa um legado. O cinema brasileiro poderia receber muito mais apoio, pois, os talentos e forças criativas estão aí, por toda parte, à espera de aportes financeiros para colocar seus projetos em prática. E mais do que isso. Precisamos do cinema nacional para discutir nossa realidade. Realidade que vivenciamos no nosso dia a dia, mas que só o cinema, retratando-a nas telas, nos dá a real dimensão do mundo em que vivemos. E, de quebra, ao transformar nosso cotidiano em arte, estamos construindo cultura.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
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