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	<title>Arquivos Jabuti 2021 - Roberto Gerin</title>
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		<title>O avesso da pele</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Jun 2022 12:00:24 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>A METÁFORA DA DOR</strong></h1>
<p>O premiado romance de Jeferson Tenório, autor carioca radicado em Porto Alegre, O AVESSO DA PELE, 189 p., Ed. Companhia das Letras, como se revela no próprio título, traz à luz o debate entre a aparência e a essência. E o autor coloca o dedo na ferida. O que somos além da pele que nos veste? Para ele, a cor da pele parece dizer mais sobre nós do que nossas qualidades intrínsecas, que nos definem e nos transformou no sujeito que somos. Sermos inteligentes, de personalidade firme, caráter reto, comportamentos atrelados a atributos morais indevassáveis, não são estas as características que colocam o homem acima de qualquer suspeita. Infelizmente, há atributos outros que antecedem estas virtudes humanas. No caso da mulher e do homem preto, estas virtudes perdem valor no triste mercado do racismo.</p>
<p>O romance se transforma em um grito de dor quando desfila por suas páginas vidas comuns de indivíduos negros inseridos em um cotidiano socioeconômico tão igual quanto o cotidiano das outras pigmentações de pele. O negro dirige o carro, o negro é professor, o negro mora em um apartamento, o negro consome restaurantes, degusta vinhos, o negro é, portanto, um ser social e economicamente visível. Só que esta visibilidade é anulada quando ele apresenta ao mundo a sua cor.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>O Avesso da Pele</em>, as pequenas histórias, trazidas pelo narrador, são oferendas de desilusões e desencontros.</h2>
</blockquote>
<p>Após a morte recente do pai, e como forma de expiar a dor da perda, Pedro se põe a relembrar fatos que trazem de volta a figura paterna, pessoa que marcou a sua vida e a quem está ligado pelas mesmas angústias provocadas pela presença cotidiana do racismo. As angústias e as revoltas do pai serão as angústias e revoltas do filho, fazendo cumprir mais um giro desse círculo vicioso sem fim. Dentro da estrutura narrativa, portanto, o que dá início, meio e fim à trama é a figura paterna.</p>
<p>À medida que o narrador vai trazendo o pai para o centro do palco, outras vidas vão se achegando, silenciosamente. Suas pequenas histórias são oferendas de desilusões e desencontros. É assim que Jeferson Tenório vai orquestrando uma dança frenética de memórias e sentimentos resgatados. E neste processo quase catártico de visitar o passado de seus pais e avós, Pedro vai se encontrando consigo mesmo. Com a cor da sua pele.</p>
<p>Jovem ainda, Pedro vai se fortalecendo nas dores, vai se preparando para refazer os passos do pai. A tomada de consciência da sua condição social de pessoa preta será o escudo que o protegerá das ameaças futuras. Quer se fazer crer que a luta contra o racismo não é uma luta vã. Tampouco solitária. Portanto, ao colocar o pai no centro da cena, como o protagonista das dores geradas pelo racismo, a dor da perda acaba sendo um pretexto para outras discussões mais urgentes. E mais dolorosas.</p>
<blockquote>
<h2>Este é o sumo existencial que empurra a dolorosa trama de <em>O Avesso da Pele</em> para dentro de nossas consciências.</h2>
</blockquote>
<p>Um dos traços que mais define o perfil do filho é sua coragem em encarar a própria realidade. Uma realidade — eis a consciência — que vai além das questões pessoais. É preciso se colocar como um ser vivente disposto a encarar a si, posto que, ao se encarar, estará tomando uma atitude política em relação às questões do racismo que impregnam os desastrosos comportamentos sociais.</p>
<p>Ao refazer os caminhos biográficos do pai, o jovem Pedro, em seu processo de amadurecimento, vai se reposicionando frente à luta que ele sabe terá que combater cotidianamente. São lutas que se travam dentro de si, ao redor de si e diante dos noticiários das tevês. Este é o sumo existencial que empurra a dolorosa trama de <em>O Avesso da Pele</em> para dentro de nossas consciências. Conhecer corajosamente o passado é se preparar para a luta. E essa é exatamente a postura central da personagem.</p>
<p>É nesse caminho de memórias e edificações de realidades esquecidas, e na necessidade de compreender como sua vida se estruturou em cima desses embates cotidianos, um cotidiano que o ameaça por causa da cor da sua pele, que Pedro, o narrador onisciente, vai tentando entender a sua origem. E para que esta compreensão se faça, ele precisa ir além da pele, mergulhar no seu avesso, em busca de sua verdadeira identidade, que definirá seu papel de cidadão. O primeiro passo é não se sentir acuado.</p>
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<h2>São capítulos soltos, à mercê das memórias e dos impulsos, aparentemente incompletos.</h2>
</blockquote>
<p>O escritor Jeferson Tenório habilmente abandona a ideia de espaço e tempo para mergulhar livremente dentro de outros tempos e espaços inventados por ele como tática para trazer à tona o avesso das realidades vividas. Ele fatia histórias para compor um painel aparentemente desconexo, obrigando o leitor a se distanciar para construir o todo. Nada parece se encaixar. São capítulos soltos, à mercê das memórias e dos impulsos, aparentemente incompletos. No entanto, o leitor sabe que não está sendo abandonado pelo autor e que será premiado lá na frente com as surpresas do desfecho.</p>
<p>Para aprofundar a colocação acima, vamos nos valer do exemplo de uma das tantas histórias que compõem o romance. Trazemos a tumultuada relação da mãe de Pedro com seu primeiro namorado, e depois marido, Vitinho. Intrinsecamente, a pequena história é escrita de forma linear, com o começo, o meio e o desfecho. No entanto, o autor a divide em quatro partes e as distribui ao longo de uma das sessões do romance, O AVESSO, como sendo os capítulos 5, 8, 11 e 13, dos 14 que formam esta parte do livro. Percebe-se que a sequência é interrompida com a intercalação de outros capítulos que, neste caso, remetem à história de seus pais, ao casamento deles, ao nascimento de Pedro, à relação de Pedro com o pai, enfim, esse é o eficiente jogo de estruturas narrativas interpostas, muito bem utilizado pelo autor premiado com o Jabuti de 2021.</p>
<blockquote>
<h2>Ao percorrer <em>O Avesso da Pele</em>, somos atirados em um espaço de aparente inverossimilhança.</h2>
</blockquote>
<p>Esse ir e vir no tempo e espaço é fundamental para que percebamos aos poucos para onde o autor está querendo nos levar. A vida é o conjunto de realidades soltas que se atropelam e que são necessárias para sentirmos intensamente o nosso viver. E Jeferson Tenório nos envolve e nos aquece nessa terrível malha de dores e sonhos, nos livrando da perigosa monotonia da narrativa linear.</p>
<p>Por outro lado, quando o autor chega ao ponto central da sua proposta, que é preparar o desfecho para o ponto trágico do racismo, ele abandona a técnica do fatiamento narrativo para falar diretamente das abordagens preconceituosas dos policiais a seu pai. São sete breves narrativas relatadas na sessão DE VOLTA A SÃO PETERSBURGO, em seu capítulo 4. Veja que em um único capítulo ele enumera sete situações de abordagens, sufocando o leitor com uma sequência de dolorosas (e perversas) injustiças — praticadas pelo Estado. Com certeza Jeferson Tenório quis imprimir à narrativa uma maior efetividade dramática, alimentando cuidadosamente as tensões que nos encaminharão para o desfecho.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>O Avesso da Pele</em>, o pai é o pretexto para que o narrador invente histórias alheias.</h2>
</blockquote>
<p>Seguindo nas nossas considerações, destacamos que o autor se vale de uma outra artimanha para alçar o drama à sua necessária eficácia. Habilmente Jeferson Tenório manipula as vozes que compõem a sinfonia narrativa. Temos aqui duas vozes que se imbricam, se alternam e se provocam. E essa interminável esgrimia de vozes provoca o efeito esperado. Obriga o leitor, de modo inconsciente, a mergulhar nos incômodos da narrativa. E reside aqui, a nosso ver, o ponto alto que traz à obra a sua magnitude artística.</p>
<p>Quando o autor se propõe, numa atitude de monólogo, se dirigir a um alvo, no caso o pai, ele estabelece com o leitor um contrato emocional titubeante. Somos atirados em um espaço de aparente inverossimilhança. O pai é o pretexto para que o narrador invente histórias alheias. O narrador-filho, para não se comprometer, sai do eu (primeira pessoa) e se dirige para o tu (segunda pessoa), o que nos faz não só duvidar das realidades que nos são apresentadas, como nos leva, a partir do que vivenciamos na leitura, a criar nossas próprias realidades.</p>
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<h2>Ao nos jogar na irrealidade do real, até a morte do pai pode se apresentar incompreensível.</h2>
</blockquote>
<p>Quando o narrador-filho entra na intimidade dos pais, seja de caráter sexual, emocional, sentimental e mesmo factual (de fato o que está sendo contado aconteceu?), causa-nos a sensação de incompletude, de algo não vivido e não realizado, o que torna a narrativa cruel e exponencialmente dolorida. No entanto, o autor corre um certo risco, porque, ao nos jogar nessa irrealidade do real, até a morte do pai pode se apresentar incompreensível. Sorte que sua habilidade de artista faz-nos passar ao largo desta equivocada percepção.</p>
<p>Por outro lado, quando o narrador retorna para a primeira pessoa, quando fala de si e de suas vivências, o sol lá fora se abre intenso, tirando-nos da penumbra causada por nuvens tormentosas. É um jogo terrível e extremamente eficiente do ponto de vista da cooptação das sensibilidades do leitor. Não há maior comodidade para o leitor do que conhecer a história na primeira pessoa, o narrador-testemunha dos fatos, o que nos dá a feliz sensação de que não estamos sendo ludibriados pela visão parcial de um narrador onipresente.</p>
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<h2>O romance <em>O Avesso da Pele</em> chega aonde ele precisa chegar. Sem disfarces, sem recursos mirabolantes de estilo, sem falsas metáforas.</h2>
</blockquote>
<p>Finalizando, ao entrar na história passada do pai como um intruso que, para lidar com a dor da perda, “inventa” esse pai, as dores na verdade ficam suspensas, sem pouso e sem consolo. E aqui reside a grande força dramática do romance. A morte do pai é simplesmente inexplicável porque provocada por um cancro social, e é este cancro que Jeferson Tenório quer supurar diante de nossos olhos assustados. Assustados porque percebemos que fazemos parte dessa sociedade, portanto, do cancro que ajudamos a alimentar: o racismo.</p>
<p>Em suma. O romance chega aonde ele precisa chegar. Sem disfarces, sem recursos mirabolantes de estilo, sem falsas metáforas. E se quiser falar de uma metáfora, ela está no título. De uma contundência inominável porque antecipa as dores. O avesso da pele é o único lugar plausível onde podemos viver com decência, com naturalidade, com harmonia, posto ser o único lugar onde o ser humano realmente se iguala e se une na sua essência.</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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