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	<title>Arquivos Jack Nicholson - Roberto Gerin</title>
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	<title>Arquivos Jack Nicholson - Roberto Gerin</title>
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		<title>Um Estranho no Ninho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Mar 2022 12:00:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>OS REMÉDIOS PARA A LOUCURA  É a hora dos remédios! Ou como repete a enfermeira, em inglês, junto ao guichê, em frente do qual se alinham os loucos: medication time! Pois é. Este é o filme dos remédios. E também o filme da loucura como porta de entrada para a tão sonhada liberdade. Estamos falando [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1>OS REMÉDIOS PARA A LOUCURA<strong> </strong></h1>
<p>É a hora dos remédios! Ou como repete a enfermeira, em inglês, junto ao guichê, em frente do qual se alinham os loucos: <em>medication time!</em> Pois é. Este é o filme dos remédios. E também o filme da loucura como porta de entrada para a tão sonhada liberdade. Estamos falando do premiadíssimo UM ESTRANHO NO NINHO (133’), dirigido por Milos Forman, EUA (1975), e que tem no magistral Jack Nicholson (Oscar de Melhor Ator), na pele de McMurphy, a encarnação do humanismo irreverente, um modo de viver que se confunde com loucura, mas que não passa de uma tentativa desesperada de viver fora das linhas civilizatórias. É um se destruir nos excessos, tendo como ponto de referência a máscara sagrada da insubordinação.</p>
<blockquote>
<h2>A avaliação dos profissionais sobre o estado mental de McMurphy é inconclusiva.</h2>
</blockquote>
<p>Essa é a história a ser contada. Todos aqueles que tentam pular a cerca da refinada normalidade serão estraçalhados por lobos de plantão. Neste caso, em <em>Um Estranho no Ninho</em>, estamos falando da estrutura do sistema psiquiátrico, com suas leis perversas, onde não cabe olhar para o humano, senão pelo que o ”louco” representa de ameaça para a sociedade. Randle Patrick McMurphy é a quintessência da busca tresloucada pela liberdade sem concessões. A liberdade perigosa. Ameaçadora. Portanto, uma busca que pretensamente terá que terminar em loucura.</p>
<blockquote>
<h2><em>Um Estranho no Ninho</em> fala dos sonhos que não puderam se realizar.</h2>
</blockquote>
<p>McMurphy é um presidiário que cumpre pena por delitos de agressão física e sexual. Um descontrolado que acha que a vida pode ser vivida sem que lhe cuspam regras. E estes comportamentos transgressores ele os reproduz na prisão, obrigando a que o encaminhassem para um hospital psiquiátrico. É sua entrada nessa instituição que dá existência a uma narrativa pungente, em que se discute como é ser um estranho num mundo em que o limite entre normalidade e loucura é tênue, discutível e, em algumas situações, mentiroso. A avaliação dos profissionais sobre o estado mental de McMurphy prova isso. É inconclusiva.</p>
<p>A inconclusão, à primeira vista, vem da manipulação. E toda manipulação tende a gerar dúvidas.  Não estaria o presidiário fingindo-se de louco para fugir à prisão? Se sim, McMurphy saiu de uma loucura para entrar em outra.</p>
<blockquote>
<h2><em>Um Estranho no Ninho</em> antevê as distorções, o conservadorismo e o despotismo vigentes nos hospitais psiquiátricos mundo afora.</h2>
</blockquote>
<p>O filme nos leva a discussões que vão além da imaginação narrativa de um roteiro que se empenha, com sucesso, em construir mais um belo filme para Hollywood. E aqui, juntamente com a magnífica atuação de Jack Nicholson, incluindo-se aí também todos os outros atores que deram vida à loucura, reside a consistência clássica do filme. <em>Um Estranho no Ninho</em> antevê as distorções, o conservadorismo e o despotismo vigentes nos hospitais psiquiátricos mundo afora. Estes hospitais não são um lugar de cura, são um lugar de aprisionamento.</p>
<p>O autor do livro homônimo em que se baseia o filme, Ken Kesey, trabalhou em hospital psiquiátrico, por isso pôde sintetizar nas páginas do seu romance a realidade histórica destas instituições. E para situar o espectador em relação à época em que o filme foi realizado, podemos falar do famoso psiquiatra italiano Franco Basaglia, surgido no pós-guerra, e talvez o nome que mais representa a reação ao confinamento como método terapêutico para doenças mentais. A humanização e a socialização no tratamento dos pacientes era o que ele defendia. E era também o que defendia à época Nise da Silveira, nossa grande psiquiatra do Centro Psiquiátrico Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, retratada no belo filme <em>Nise &#8211; o Coração da Loucura</em>.</p>
<blockquote>
<h2>Pelo contrário. Gostariam muito de seguir os passos daquele maluco do McMurphy!</h2>
</blockquote>
<p>O que vamos presenciar em <em>Um Estranho no Ninho</em> é justamente o contrário: a insistência no confinamento. No excesso de regras. Autoritarismo, rigidez, frieza, remédios, mais remédios, muito remédio! Burocracia. Culpabilização do sexo. A ausência do afeto familiar. Que psíquico, por menos perturbado que seja, aguentaria tamanha falta de ingredientes humanos! Este foi o ambiente que McMurphy encontrou ao adentrar o hospital psiquiátrico. Como dissemos. Se se fingir de louco foi a sua manobra, ele caiu, em cheio, no lugar errado.</p>
<blockquote>
<h2>McMurphy logo percebe o quão felizes eles se sentiam toda vez que transgrediam.</h2>
</blockquote>
<p>Ao levar seu estilo inconsequente de viver para os outros internos, McMurphy vai, a princípio, encontrar grandes resistências por parte dos “loucos”. E muita má vontade. Logo percebe, no entanto, que não se trata de recusar o que ele lhes sugere e oferece. Pelo contrário. Gostariam muito de seguir os passos daquele maluco do McMurphy! A recusa se deve ao medo de quebrarem as regras estabelecidas, pois sabiam que a punição, os abomináveis choques elétricos, acontecia ali, na sala ao lado.</p>
<p>Mas McMurphy não se intimida, nunca! Ele ajuda seus companheiros a se rebelarem. Ele os conduz. E logo percebe o quão felizes eles se sentiam toda vez que transgrediam. O que se via, nestes momentos, não eram indivíduos mentalmente ausentes, mas seres humanos vibrantes que se sentiam honrados por estarem participando daquelas pequenas transgressões. Era a vida passando por dentro deles, numa dinâmica de prazer e lucidez impróprios ao rótulo de loucos.</p>
<blockquote>
<h2><em>Um Estranho no Ninho</em> é um hino à possibilidade de nos livrarmos de nossas loucuras.</h2>
</blockquote>
<p>A fuga do hospital em um ônibus escolar, dirigido loucamente por McMurphy, que no caminho ainda pega a sua namorada que será cobiçada por todos, afinal louco também quer afeto, quer sexo, o passeio, enfim, vai se tornar para todos um acontecimento memorável. McMurphy os leva para uma fantástica viagem de barco mar adentro, onde pescam um peixe de tamanho nunca antes imaginado por eles. Cenas antológicas e emocionantes, de uma pureza e de uma insana vitalidade, acontecem no barco, naqueles instantes o reduto inviolável da vida saudável.</p>
<p>E, para encerrar, vamos apenas descrever um efeito colateral deste furacão chamado McMurphy. Na companhia de outro furacão, Jack Nicholson.</p>
<blockquote>
<h2>Para fugirmos à loucura, entregamos nossa liberdade nas mãos dos outros.</h2>
</blockquote>
<p>McMurphy, em seu plano de fuga, introduz na enfermaria sua namorada e uma amiga dela. Para isso, ele suborna o vigia noturno. Há bebida, há festa, há vida. Mas antes da fuga, querendo atender ao desejo de afeto e sexo do “louco” Billy Bibbit (Drad Dourif), McMurphy oferece sua namorada para Billy, que assim poderá vivenciar seus mais recônditos e agora incontidos desejos. Enquanto todos esperam a noitada de Billy acabar, eles bebem, embebedam-se, depois dormem, e ninguém foge.</p>
<p>Na manhã seguinte, aquele circo de vida iluminada é descoberto pelos agentes da enfermaria. E Billy, evidente, no quarto, deitado, nu, ao lado da namorada de McMurphy, é surpreendido pela cruel e autoritária enfermeira Ratched (Louise Fletcher, que levou o Oscar de Melhor Atriz, e não podia ser diferente).</p>
<blockquote>
<h2>Que preço aceitaríamos pagar por uma dose de liberdade?</h2>
</blockquote>
<p>E assim é a vida. Para fugirmos à loucura, entregamos nossa liberdade nas mãos dos outros. Do Estado. Dessa e daquela instituição. Entregamos nossa liberdade para o patrão, para o amigo, para quem nem conhecemos. Qual será o preço que McMurphy irá pagar ao se recusar a entregar sua liberdade para a enfermeira Ratched? E nós, que preço aceitaríamos pagar por uma dose de liberdade? Se toparmos encarar algum momento de loucura, uma coisa tem que ficar clara. Não há negociação. Se é negociado, não é loucura. Será apenas mais uma prisão.</p>
<p>Bem, paremos por aqui, porque agora é a hora dos remédios. Quem se candidata a entrar na fila? Da pipoca.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
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</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Sem Destino</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Feb 2021 21:01:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>AS POSSIBILIDADES DOS SONHOS O filme SEM DESTINO (95’), direção de Dennis Hooper, Estados Unidos (1969), parece, à primeira vista, ter-se fixado lá atrás, em uma época que ele tão bem retrata, mas que já não mais existe. Esta pode ser a sua fragilidade. Ser um cinema datado. O filme de uma geração. Mas hoje, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h3>AS POSSIBILIDADES DOS SONHOS</h3>
<p>O filme SEM DESTINO (95’), direção de Dennis Hooper, Estados Unidos (1969), parece, à primeira vista, ter-se fixado lá atrás, em uma época que ele tão bem retrata, mas que já não mais existe. Esta pode ser a sua fragilidade. Ser um cinema datado. O filme de uma geração. Mas hoje, olhando à distância, com as lentes da história (do cinema), vemos que o filme vai além de apenas representar a tumultuada década de 1960. Foi uma década de muita agitação cultural, que levaria multidões, principalmente os jovens, a sonharem com outras realidades possíveis. Foi uma época em que couberam os sonhos de liberdade (às vezes total), as contestações ao que era opressivo, dominador e vigente, os grandes protestos contra a voracidade do capital e a ganância militar americana. O que o filme vem nos mostrar é que estes sonhos libertários foram se distanciando perigosamente da realidade. Para muitos, <em>Sem Destino</em> coloca a pá de cal que encerra a contracultura. Era o ano de 1969, e o mundo aos poucos ia voltando a ser como ele sempre foi.</p>
<p>O que coloca o filme <em>Sem Destino</em> para além da sua época foi ter sido ele produzido fora dos padrões hollywoodianos, o que obrigou Hollywood a sair do marasmo criativo e ir em busca de novas alternativas artísticas, além de ter que remodelar seus modos de produção cinematográfica. Surgem daí novos conteúdos dramáticos, novas estéticas, diretores em ascensão com mais liberdade de decidirem que ideias colocarem nas telas. Era o começo do cinema de autor, uma autoria preocupada em falar o que o público queria ouvir. O chefão do estúdio teve que ficar um pouco mais manso, e menos rançoso.</p>
<blockquote>
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</blockquote>
<p>Nesta perspectiva, vemos um quase inexperiente Dennis Hooper se aventurando na direção do filme. E seu companheiro de estrada, agora também produtor Peter Fonda, disposto a botar a mão na massa para além dos closes das câmeras. As mudanças de atitude perante o fazer cinema vieram possibilitar voos artísticos mais ousados e mais próximos do público. Para isso bastava ter ideias claras e criativas que pudessem ser filmadas. Nisto <em>Sem Destino</em> é inquestionável. Ele foi a ruptura de uma era que chegava a seu esgotamento. E teve a capacidade de resumir uma década com a simplicidade da arte. Está certo que a primeira versão do filme chegou a quase quatro horas de duração, o que obrigou a edição a afiar a tesoura e ir cortando, até chegar na bela montagem de apenas 90 minutos. O suficiente para dizer o que tinha que ser dito.</p>
<p>Dois motoqueiros, Wyatt e Billy (referência aos dois famosos heróis do faroeste, Wyatt Earp e Billy The Kid) — respectivamente Peter Fonda e Dennis Hooper —, ganham a vida traficando drogas a partir do México. Depois de uma grande e rendosa negociata, resolvem acionar os motores de suas possantes motos recém-adquiridas e pegar a estrada. A sinopse do filme, portanto, é uma linha reta traçada por rodovias tortuosas, que sai do México, percorre o sul dos Estados Unidos, até chegar a New Orleans, onde os dois pretendem passar o Mardi Gras (carnaval). E eles têm apenas uma semana para percorrer o longo trajeto.</p>
<p>Enquanto aceleram, vão encontrando pelo caminho belas paisagens, que o filme mostra em demoradas sequências, e sempre acompanhadas por uma bem selecionada trilha sonora — as músicas são um item de luxo no filme. Passam por situações típicas de quem viaja pelo interior e se envolve em episódios nem sempre agradáveis, evidenciando o perigoso embate entre o retrógado sul dos Estados Unidos e a irreverência da cultura hippie. Este é o roteiro. Aliás, um quase não roteiro. Peter Fonda e Dennis Hopper tinham uma ideia de fazer algo assim&#8230; que fosse parecido com um <em>road movie</em>. Surfando em alucinógenos, foram organizando suas idéias até colocá-las em ação. Pegaram a estrada, só pra ver no que ia dar. E deu no que deu. Um clássico do cinema.</p>
<blockquote>
<h2>O belo filme <em>Sem Destino</em> representa a caráter uma geração, uma década, um tempo que se foi.</h2>
</blockquote>
<p>Mas é certo que o filme não foi um simples e feliz acidente. A estrutura narrativa é bem pensada, bem amarrada, e sua condução para o desfecho é de uma precisão tal que não há quem não se surpreenda com o final. Até cenas aparentemente insignificantes, e aqui damos um exemplo, têm sua função na arquitetura dramática da narrativa. No começo do filme, prestes a pegar a estrada, já acelerando sua moto, Wyatt — também conhecido como Capitão América, em função do seu figurino raiz, desfraldando várias bandeiras americanas nas roupas e na moto — olha para o relógio, consulta as horas, depois tira o relógio do pulso e o joga fora. Eis uma atitude bem contracultura. Dane-se o tempo, a liberdade é minha!</p>
<p>Ainda evidenciando a inteligência narrativa do filme, vale lembrar que o cenário escolhido foi o sul dos Estados Unidos, um ambiente sabidamente retrógrado, preconceituoso e culturalmente fragmentado. É deste ambiente hostil que a dramaturgia se sustenta e leva a seu fim trágico. Eis o oportunismo criativo dos roteiristas Dennis Hopper, Peter Fonda e Terry Southern.</p>
<p>Devemos concentrar a análise do filme em duas cenas em sequência, porque está nelas a base conceitual do filme.</p>
<p>A primeira cena é ilustrativa. A segunda é uma reflexão sobre a primeira. E para que estas reflexões chegassem aos dois motoqueiros, fez-se necessária a introdução de uma terceira personagem. No meio do caminho, após uma incômoda intervenção dos motoqueiros em um desfile cívico em uma das pequenas cidades do interior, os estranhos são levados à delegacia e presos. Na cela, encontram o advogado George Hanson, um pândego alcoólatra <em>playboy</em>, que funcionará como o ponto de consciência sobre tudo o que está acontecendo nos Estados Unidos. Será da boca de George, na espetacular interpretação de Jack Nicholson, que o levaria a ser indicado à estatueta de Melhor Ator Coadjuvante, que nós espectadores, de qualquer época, ouviremos as explanações sobre o que acontece (aconteceu) na década de 1960.</p>
<p>A primeira cena, como colocada acima, são os três (já que o advogado topou seguir de carona com os motoqueiros até New Orleans) sentados em uma lanchonete, em mais uma cidadezinha sulista. O pouco tempo que ali ficam, presenciam uma avalanche de preconceitos que são lançados contra eles, sem nenhuma reticência. É o atraso cultural em sua mais perfeita insolência. Percebendo a pressão, as ofensas e as ameaças, os três resolvem se retirar e seguir caminho rumo ao Mardi Gras.</p>
<p>A segunda cena que se segue é a que explica a anterior e prepara o desfecho. E aqui entra a personagem George Hanson, em diálogo com Billy, enquanto Waytt, mais apático, apenas observa. George vai mostrar a América se estranhando com a contracultura (cultura hippie).  É a cultura da contestação, dos cabelos longos, da maconha, do amor livre, dos figurinos estranhos, cultura que é contra o opressivo modelo capitalista, contra o genocídio no Vietnã&#8230; George Hanson diz. “Eles não têm medo de vocês, mas do que vocês representam”. No que Billy responde. “Para eles nós representamos alguém que devia cortar os cabelos”. E George retruca. “Não! Para eles vocês representam a liberdade”. É neste ponto que a personagem do advogado se encaixa à perfeição no roteiro do filme. Filho de industrial, mas libertário, ele faz a ponte entre o sistema e a contracultura. “Mas a liberdade é possível!” — contesta Billy, que esquece o fato de que o tanque de sua moto está cheio de dólares sujos. George Hanson fecha as portas da liberdade ao dizer. “É difícil ser livre quando se é comprado e vendido no mercado”. Eis a pá de cal. Não foi possível varrer o capitalismo da face da terra. Tampouco o capitalismo que está entranhado no hippie Billy.</p>
<blockquote>
<h2>Para muitos, <em>Sem Destino</em> coloca a pá de cal que encerra a contracultura.</h2>
</blockquote>
<p>A repercussão da cena acima vai acontecer lá na frente, já no encaminhamento do desfecho, pela boca, agora sim, de um Wyatt desencantado, quando ele conclui que “nós estragamos tudo”. Esta é a frase oculta do filme, sobre a qual recaem inúmeras interpretações. E talvez o segredo da interpretação esteja na frase seguinte, agora de Billy. “Você fatura uma grana alta e aí é livre, sacou?”. O dinheiro traz liberdade, este é um dos lemas (falso) mais queridos do capitalismo. Ao se agarrar ao dinheiro, de fato estragaram tudo.</p>
<p>Em suma. O belo filme <em>Sem Destino</em> representa a caráter uma geração, uma década, um tempo que se foi. Houve sonhos, houve esperanças, mas a engrenagem da história é tão rígida, tão inexorável, que faz nos sentirmos seres indefesos diante do determinismo histórico que nos aprisiona, nos frustra e nos faz agir como se fôssemos apenas agentes de destinos sobre os quais não temos a menor ingerência, e muito menos o controle. Isto tanto é verdade que podemos, a qualquer momento, sermos abatidos feito uma mosca. Ah, mas ainda nos restam os sonhos renovados! As esperanças de nos livrarmos desta condenação de não pertencermos a nós mesmos! Afinal, somos seres pensantes, seres providos de vontade e capazes de escolhas. Estas dádivas ninguém nos tira.</p>
<blockquote>
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</blockquote>
<blockquote>
<ul>
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