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	<title>Arquivos Meryl Streep - Roberto Gerin</title>
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	<title>Arquivos Meryl Streep - Roberto Gerin</title>
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		<title>A Escolha De Sofia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 May 2022 12:00:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>NOSSA HISTÓRIA NOS ACOMPANHA  Quando decidimos assistir a um determinado filme, sempre teremos uma ou várias razões para justificar nossa escolha. Podemos ser motivados pelo título. Ou pela temática. Ou pela maravilhosa atriz. Ou pelo irresistível ator. Há também a escolha por esse ou aquele diretor, atitude usual àqueles que prezam a direção como fonte [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>NOSSA HISTÓRIA NOS ACOMPANHA</strong><strong> </strong></h1>
<p>Quando decidimos assistir a um determinado filme, sempre teremos uma ou várias razões para justificar nossa escolha. Podemos ser motivados pelo título. Ou pela temática. Ou pela maravilhosa atriz. Ou pelo irresistível ator. Há também a escolha por esse ou aquele diretor, atitude usual àqueles que prezam a direção como fonte segura de bons filmes. E assim podemos ir elencando motivações que nos levarão a escolher a que assistir. É o que pretendemos fazer com o doloroso filme A ESCOLHA DE SOFIA (135’), direção de Alan J. Pakula, EUA (1982). Apresentar razões concretas que levem o espectador a desejar assisti-lo. No entanto, preste atenção no adjetivo – doloroso.  Ele pode ser um motivo de escolha ou de rejeição, já que o que não faltam em <em>A Escolha de Sofia</em> são dores.</p>
<p>Primeira razão para assistir ao filme: o título. Instigante. Todo mundo e cada um de nós já passou pelo dilema das escolhas difíceis. Outra razão é a atriz Meryl Streep, no papel de Sofia, uma de suas grandes atuações. Levou, entre outras premiações, a estatueta do Oscar de Melhor Atriz. Outra boa razão é o ator Kevin Kline, injustamente esquecido nas indicações a prêmios, no papel do exuberante Nathan Landau. E tem também a temática, que aborda a relação destrutiva de um casal de namorados, tendo como pano de fundo os horrores do holocausto. E conta ainda, a favor do filme, o roteiro, equilibrando-se entre presente e passado, nos conduzindo, em ritmo seguro, ao inesperado desfecho. Portanto, caro espectador, diante de tudo o que dissemos acima, a escolha agora é sua.</p>
<blockquote>
<h2>Sofia e sua história pessoal, eis o tema que interessa em <em>A Escolha de Sofia</em>.</h2>
</blockquote>
<p>A temática que permeia a narrativa de <em>A Escolha de Sofia</em> é a relação tumultuada e ao mesmo tempo poética entre Sofia Zawistowski, polonesa católica, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, e Nathan Landau, judeu norte-americano, dominado por uma mente brilhante, mas transtornada. Seus rompantes persecutórios se voltam contra Sofia, que, pacientemente, mantém-se fiel ao lado do namorado. E vem se juntar aos dois o jovem sulista Stingo (Peter MacNicol), vizinho de baixo, pretendente a se tornar um grande escritor. Ele vai aos poucos estreitando amizade com o casal e recebendo, com isso, os respingos das brigas que acontecem no andar de cima. Como poderemos observar, o encontro imperfeito destas três almas gera a alquimia propulsora do drama em direção ao trágico.</p>
<p>No entanto, aos poucos vamos percebendo que o tema central do filme não é a relação doentia entre Sofia e Nathan. Sofia e sua história pessoal, eis o tema que interessa.</p>
<p>O filme é baseado no romance de mesmo título, <em>A Escolha de Sofia</em>, de William Styron (1925-2006), um escritor estadunidense sulista, grande nome da literatura norte-americana do século XX, e que tem em Stingo seu alter ego. O autor compõe um painel emocionante de uma história baseada em fatos reais. O que não é real, afinal, em um campo de concentração? Ali não cabem mentiras e dramatizações. E o ponto alto do roteiro é justamente a precisão com que, à medida que o filme avança, a história de Sofia, na Polônia, e sua dolorosa passagem por Auschwitz, vão sendo reveladas, em toda sua crueza e covardia.</p>
<blockquote>
<h2>A estrutura narrativa do filme <em>A Escolha de Sofia</em> é construída a partir de mentiras.</h2>
</blockquote>
<p>Entretanto, não cabe aqui entrar em detalhes sobre a história de Sofia. Primeiro, o que se vai mostrar de um campo de concentração já está exaustivamente retratado nas telas dos cinemas — em que pese ser sempre uma temática tão interessante quanto absurda. E inesgotável. Segundo, temos o cuidado de não revelar o desfecho. Portanto, vamos nos ater a duas questões.</p>
<p>A primeira. A estrutura narrativa do filme é construída a partir de mentiras, o que acaba dando consistência ao enredo, uma vez que o provável desfecho de toda mentira é ser desmascarada. Em <em>A Escolha de Sofia</em>, as mentiras tecem uma realidade que nos é mostrada em detalhes, com muita verossimilhança. Nesse sentido, verdades e mentiras se entrelaçam diante de nossos olhos. Se o propósito é confundir o espectador, tudo bem, o filme consegue. E como dito acima, o único lugar em que não cabem mentiras é o que acontece em um campo de concentração. Portanto, quanto mais o filme se aproxima de Auschwitz, mais as verdades vão sendo reveladas.</p>
<p>A segunda questão é mais visível em <em>A Escolha de Sofia</em>. Fala da relação de codependência entre Sofia e Nathan. Sofia foi presa fácil para a loucura de Nathan. Sem estrutura alguma, nem física nem psicológica, ela se deixou ser capturada por ele. Não basta apenas nos perguntarmos por que as pessoas se destroem numa relação em que os momentos felizes são oferecidos a conta-gotas. Precisamos também entender por que não se consegue evitar a chegada da próxima tempestade (briga), mesmo sabendo que ela está próxima e virá para destruir mais um pouco do que ainda resta. Porque ela destrói, praticamente tudo. Menos a relação, pois um continuará preso ao outro, para juntos produzirem novos e dolorosos confrontos.</p>
<blockquote>
<h2><em>“Você não vê que estamos morrendo?”</em>.</h2>
</blockquote>
<p>Essa é a questão que se coloca. Temos dificuldade de entender por que as pessoas se sentem tão impotentes em sair de relações abusivas. No caso de Sofia, à medida que o filme vai nos mostrando como foi desenhado, nos últimos anos, o seu perfil emocional, passamos a entender seus movimentos psíquicos. Ela precisava se destruir para expiar suas culpas. E encontrou quem a ajudasse a fazer isso, um louco chamado Nathan. É o que ele diz para ela, logo no começo do filme. <em>“Você não vê que estamos morrendo?”</em>. Não era isso que ela queria?</p>
<p>Em suma. O que temos que aceitar, e admitir, é que nossas dores precisam da mentira. Apesar de assustadora, essa conclusão parece ser um fato. Afinal, temos que nos proteger da verdade. Somos amáveis, frágeis, perplexos e sonhadores. Mas parece que perdemos nossas virtudes ao longo do caminho. E essa perda não está ligada ao que somos, mas à maneira como passamos pela nossa história. Portanto, só temos uma saída. Se quisermos nos resgatar, temos que abrir, uma a uma, as caixinhas das nossas verdades. Mesmo que isso nos aterrorize. Pois, se assim não o fizermos, provavelmente seremos presas fáceis. Como Sofia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<blockquote><p>&nbsp;</p></blockquote>
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		<title>Kramer vs. Kramer</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 16 Oct 2021 15:24:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>QUAIS SÃO AS NOSSAS PRIORIDADES DE VIDA? Hollywood não demonstra o menor constrangimento em recorrer a receitas de bolo para desenhar os contornos narrativos dos seus filmes. Afinal, elas são infalíveis e dão muito dinheiro. E se estivermos falando daquela receita bem especial, caprichada, feita com ingredientes bem ao gosto do espectador, então o sucesso [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h2>QUAIS SÃO AS NOSSAS PRIORIDADES DE VIDA?</h2>
<p>Hollywood não demonstra o menor constrangimento em recorrer a receitas de bolo para desenhar os contornos narrativos dos seus filmes. Afinal, elas são infalíveis e dão muito dinheiro. E se estivermos falando daquela receita bem especial, caprichada, feita com ingredientes bem ao gosto do espectador, então o sucesso estará garantido. Foi o que aconteceu com o filme KRAMER VS. KRAMER (105’), direção de Robert Benton, EUA (1979), vencedor de vários óscares, entre eles o de Melhor Filme e de Melhor Ator para o incomparável Dustin Hoffman. Amparado pelo sucesso imediato, <em>Kramer vs. Kramer</em> abateu, um a um, seus principais concorrentes ao óscar. E depois de mais de quarenta anos de sua estreia, ele ainda hoje conserva o mesmo sabor especial. Uma receita de bolo que quase virou um clássico.</p>
<p>Não resta dúvida que <em>Kramer vs. Kramer</em> segue à risca a receita de sucesso dos filmes hollywoodianos. A preocupação com a bilheteria não é um pecado quando se assume que o cinema não passa de mais uma indústria dentre as tantas que sustentam a ganância do capitalismo. Ironias à parte, <em>Kramer vs. Kramer</em> toca numa realidade que é muito comum em sociedades capitalistas. A busca incontrolável pelo lucro, em um cenário extremamente competitivo, acaba distorcendo a ideia do que é ser um indivíduo na sua plenitude humana. Ao nos transformar em uma máquina de fazer dinheiro, nos distanciamos de nós mesmos. Perdemos vínculos cotidianos com as pessoas que amamos, desprezando rotinas que privilegiam a simplicidade. Aquelas receitinhas básicas de vida que a ganância pelo lucro nos impede de degustar.</p>
<blockquote>
<h2>Como todo drama romântico, <em>Kramer vs. Kramer</em> também traz sua lição de moral.</h2>
</blockquote>
<p>Ted Kramer é um destes gananciosos por conquistar posição e poder na indústria do marketing. Dá pouca atenção à esposa e ao filho, que ele ama, mas que são peças secundárias no seu cotidiano voltado inteiramente para a empresa em que trabalha. A certa altura, a esposa, de saco cheio, o abandona. Aliás, abandona marido e filho, por entender que a crise do casamento está nela e não nas atitudes egoístas do marido. Ela se condena a ir em busca de si mesma, e para isso tem que deixar a família para trás.</p>
<p>Ted Kramer agora terá que se voltar para os cuidados do filho. Preparar o café da manhã, levar o garoto para a escola e, à noite, colocá-lo na cama. Mas logo ficamos sabendo que Ted mostra total inabilidade em lidar com coisas tão simples, mas cercadas — ele vai descobrindo — do mais genuíno prazer. As prioridades, aos poucos, vão se invertendo.</p>
<p>Após o empurrão inicial para que a narrativa ande por si só — a mãe que vai embora e deixa o filho aos cuidados do pai —, vem a cena icônica, em que pai e filho, na cozinha, tentam fazer rabanada, o prato preferido do garotinho. O desastre é total. E este desastre é apenas o ponto de partida para a construção do arco de transformação da personagem Ted. Sim. O filme singelamente fala da transformação de um ser humano que sai de uma condição de incompletude e infelicidade para o reencontro com sua essência, cuja realização está no convívio com a família e não na insana busca pelo poder.</p>
<p>Armada a situação dramática, cabe ao filme colocar em prática, e com total habilidade, a sua receita de bolo. Poucos filmes talvez tenham desenhado um arco de transformação com tanta perfeição quanto <em>Kramer vs. Kramer</em>, o que se confirma na penúltima cena, quando pai e filho estão na cozinha fazendo a rabanada. A rabanada é feita com tanta naturalidade e companheirismo que chega a nos comover.</p>
<blockquote>
<h2><em>Kramer vs. Kramer</em> apresenta contradições conceituais que o fragilizam.</h2>
</blockquote>
<p>A transformação de Ted Kramer reflete a transformação de Joanna Kramer — representada pela sempre eficiente Meryl Streep, vencedora de vários prêmios por esta atuação. Mas não nos esqueçamos de uma coisa. Para que a família seja perfeita e viável, todos têm que se transformar. E aqui voltamos a tecer mais um elogio ao filme. O seu final. Ele é esplendoroso. Porque trabalha com a elipse, que é quando o diretor transfere o fecho da cena para fora do foco da câmera. Ou arma uma situação de desfecho, deixando as conclusões a cargo do espectador.</p>
<p>Quando Joanna, à porta do elevador, diz a Ted que a casa do filho Billy “é aqui”, quer dizer, morando com Ted, ela simplesmente está dizendo que ali também é a casa dela. Não há a reconciliação explícita, que seria o desfecho das transformações, mas, ao se fechar a porta do elevador, antes do “<em>The End</em>”, o espectador estará convencido de ter assistido a um belo drama romântico com final feliz. E como todo drama romântico, este também traz sua lição de moral. Temos que saber exatamente quais são as nossas verdadeiras prioridades. Serão elas que garantirão nosso equilíbrio emocional vida afora.</p>
<p>Vale ressaltar a atuação do ator mirim Justin Henry no papel de Billy Kramer. Ele entra em cena com a naturalidade de quem sabe o que tem que fazer. Acreditamos que a química de Justin com Dustin Hoffman veio dar o equilíbrio cênico necessário para que a verossimilhança das cenas não ficasse comprometida. Lembra, em tons de emoção, o chapliniano filme <em>O Garoto</em>, em que, na mesma comovente eficiência, o ator mirim Jackie Coogan contracena com Charlie Chaplin com a desenvoltura de um veterano.</p>
<blockquote>
<h2>Dois fatores concorrem para salvar o filme do desastre.</h2>
</blockquote>
<p>Antes de encerrar, cabe justificar a declaração feita no final do primeiro parágrafo desta resenha: a de que o filme quase se transformou em um clássico. Por que quase? Porque <em>Kramer vs. Kramer</em> apresenta contradições conceituais que o fragilizam.</p>
<p>O pai Ted Kramer é um homem que está se desdobrando para cuidar do filho, a ponto de perder o poderoso emprego. A mãe Joanna é uma mulher que simplesmente abandona o filho, sem uma razão que vá além de uma crise existencial. Esta contraposição de papéis coloca o filme numa posição delicada. Faz com que o roteiro caia numa perigosa armadilha. O espectador tem que escolher entre torcer pelo pai ou pela mãe. Pelo marido ou pela esposa. Definir quem é o mocinho e quem é o vilão. E aí o bicho pega.</p>
<p>Veja o que acontece. O pai, até então ausente e relapso, e o marido, até então também ausente e relapso, passa a ser um pai maravilhoso e um marido injustamente abandonado. E a mãe acaba sendo vilanizada, sem que haja uma justificativa psicológica e moral que venha socorrê-la. Afinal, como assim uma mãe abandonar um filho?!</p>
<blockquote>
<h2><em>Kramer vs. Kramer</em> cumpriu à risca sua função de acariciar os bolsos de Hollywood.</h2>
</blockquote>
<p>Este imbróglio narrativo, confundindo as verdades de um e outro, acaba comprometendo a verossimilhança da própria narrativa. Fica-nos a impressão de que o afastamento da mãe, que vai embora sem quê nem pra quê — há razões, mas elas são um tanto frágeis —, é apenas um titubeante pretexto para que o filme conte a comovente história de um pai e de um filho que vão se ajustando numa bela relação de companheirismo. Cabe à mulher assumir a responsabilidade moral de ter se afastado para dar passagem ao núcleo narrativo principal.</p>
<p>Dois fatores concorrem para salvar o filme do desastre. A atuação magnífica dos atores, em particular de Meryl Streep, que construiu uma Joanna Kramer madura, autoconsciente e justa, fazendo com que ela escapasse do julgamento moral do espectador. E segundo, a cena do tribunal, com a disputa pela guarda de Billy. Prevaleceu o direito da mãe, um desfecho natural, mas que soa compensatório para o sacrifício a que foi submetida. Joanna pode ter ido embora, mas a justiça continua reconhecendo nela a mãe.</p>
<p>Em suma. Pelo sucesso de bilheteria, pelos prêmios, inclusive superando injustamente o fabuloso <em>Apocalypse Now</em> na disputa pelo Oscar de Melhor Filme, pela sua temática existencial, Kramer vs. Kramer cumpriu à risca sua função de acariciar os bolsos de Hollywood. Uma receita perfeita. Mas que, por pouco, não passa do ponto.</p>
<p>&nbsp;</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Entre Dois Amores</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Jul 2021 11:42:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>ENTRE DOIS FUJÕES É muito comum querermos insistir em sonhos que se confundem com necessidades. E não interessa de onde vem a ideia fixa de se cumprir um destino. Parece que só nos completaremos se chegarmos lá aonde intimamente nos propusemos chegar. Portanto, é comum alguém querer, a todo custo, a maternidade, a paternidade, uma [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2>ENTRE DOIS FUJÕES</h2>
<p>É muito comum querermos insistir em sonhos que se confundem com necessidades. E não interessa de onde vem a ideia fixa de se cumprir um destino. Parece que só nos completaremos se chegarmos lá aonde intimamente nos propusemos chegar. Portanto, é comum alguém querer, a todo custo, a maternidade, a paternidade, uma viagem para determinado lugar, morar naquele bairro, conseguir aquele emprego, aquela profissão — ou simplesmente se casar. O sonho de que alguém chegue até você e lhe abra o coração com uma simples pergunta. Quer se casar comigo? Isto é sonho ou é uma condição de vida (normal) que se impõe? Querer se casar com alguém e que esse alguém queira se casar com ela, este foi o sonho de vida da protagonista Karen. E Karen é uma dinamarquesa que vai até a África na esperançosa certeza de se tornar uma mulher para um homem que queira lhe oferecer uma aliança e, de quebra, uma saudável vida de casada. Parece simplista essa proposta tão humana, mesmo que amparada por convenções. Mas é dessa busca de Karen, inspirada no romance autobiográfico <em>Den Afrikanske Farm</em>, de Isak Dinesen, publicado em Londres em 1937, que nasce o glamouroso filme ENTRE DOIS AMORES, de Sidney Pollak, drama romântico estadunidense, rodado em 1985. Na tela, o par romântico nas atuações de Meryl Streep e Robert Redford. Para quem procura por momentos de sonhos românticos, não tem filme melhor. Mas fica o aviso. É um amor que paira no ar, sem, contudo, conseguir pousar.</p>
<p>A rica dinamarquesa Karen não entra na relação amorosa pela porta da frente. Ou como se queira, pela porta de uma igreja. Transforma-se em amante de um barão e por este é traída. A traição abala sua autoestima. Vê cada vez mais distante a possibilidade de contrair um casamento normal. Procura no irmão do amante, até então um amigo assíduo, a forma de entrar honrosamente no matrimônio abençoado. Ele, um <em>bon vivant</em>, com título mas sem dinheiro, topa a proposta. Uma boa quantia por um casamento sonhado. Por ela.</p>
<blockquote>
<h2>Denys, introduzindo-o, é a outra ponta do conflito amoroso.</h2>
</blockquote>
<p>Vão se casar na África, numa pequena cidade do Quênia, onde adquirem (paga por ela) uma fazenda, ao sopé das montanhas Ngong. O barão Bror, que fora na frente para resolver as questões de investimentos, já a decepciona no primeiro dia. Se o combinado era criar gado, o marido resolve plantar café, quando todos sabem que a região é imprópria para esse tipo de cultivo. Está dada a partida para uma relação insatisfatória, frustrante, que traria para Karen uma coleção de desilusões. O casamento (dela) termina, lógico. Diante de um rosário de traições (dele).</p>
<p>Mas essa história vai sendo contada aos poucos, em doses quase homeopáticas, entremeadas pela vigorosa cultura africana dos nativos que trabalham na fazenda, pela demorada floração do café, e embelezada pelas lindíssimas paisagens, com relevância para as tomadas aéreas a partir do sobrevoo do pequeno avião de Denys. Denys, introduzindo-o, é a outra ponta do conflito amoroso. Não é um barão, como Bror. É o verdadeiro príncipe! Ora encantado, ora desencantado.</p>
<blockquote>
<h2>Mas Karen não desiste.</h2>
</blockquote>
<p>Denys é o romântico que preza a liberdade, portanto, preza a si mesmo. Doa-se a uma mulher, porém não muito, pois será preciso, em algum momento, se despedir. Há um mundo de aventuras infinitas lá fora, à sua espera. Lá onde o coração amante sente saudades, mas se demora em retornar para os braços da amada. Configura-se aqui a estrutura masculina das relações trazidas pelo filme. Tanto o barão quanto o forasteiro veem na despedida o portão dourado para a liberdade. E lá, ao longe, o vulto solitário cada vez menor da abandonada Karen. Ama na solidão da espera, ama no desespero da despedida. Talvez o título pudesse ser outro. Entre Dois Fujões.</p>
<p>Mas Karen não desiste.</p>
<p>A vida da baronesa é povoada de incertezas, em meio a um mundo que lhe é hostil, falsamente acolhedor. No entanto, valendo-se de seu esforço de mulher desbravadora, e mais do que isso, movida pela necessidade de se fazer amada, ela busca, em perigosas aventuras, uma oportunidade de se afastar da solidão e, de quebra, arquitetar mais uma tentativa para conquistar definitivamente a pessoa amada. Tudo em vão. Pois tudo será destruído lentamente, numa visão esfumaçada de interesses que não se revelam, afinal, a África é um espaço imensamente aberto, onde os dominadores desenraizados não encontram abrigo senão em suas próprias e mesquinhas intenções.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>Entre Dois Amores</em>, fica a sensação de que Karen foi procurar o casamento no lugar errado.</h2>
</blockquote>
<p>Ademais, não se pode exigir muito do homem largado no fim do mundo em nome de uma colonização que deve se perpetuar na oferta de sacrifícios em troca de pequenos confortos e falsos privilégios. Karen não percebeu que, tirante os burocratas encasacados abraçando frouxamente suas mulheres, os homens sem ligação com a burocracia, para aceitar se enfiar nas savanas africanas, sujeitos a doenças e a ataques de animais ferozes, precisam antes de tudo de um inabalável espírito aventureiro. Karen não percebeu esse contraste incompleto entre amor e aventuras. Continuou, em vão, a implorar por um casamento normal.</p>
<p>Em suma. Denys é o símbolo deliciosamente romântico desta liberdade sem fim. Em um dia aprende a pilotar um avião, e passa a singrar os céus com sua pequena aeronave amarela, como o símbolo da irreverência diante de um mundo enquadrado nos conceitos colonialistas do domínio do forte sobre o fraco, do “civilizado” sobre o “selvagem”. Denys não faz parte desta torpe estirpe de homens que exploram seu semelhante em benefício de uma política expansionista inconsequente. E que sempre estará à espera do reconhecimento da rainha e das condecorações que cintilam no reflexo do copo de uísque. Denys é um homem glamouroso, desejável, mas, infelizmente, inalcançável em seus voos solitários. Bem que Karen tentou. Mas, mais uma vez em sua vida, perde a batalha para a poderosa atração chamada liberdade sem responsabilidade afetiva. Fica a sensação de que Karen foi procurar o casamento no lugar errado. Para estrangeiros, a África não é um lugar para se casar. É um lugar para se amar.</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>As Pontes De Madison</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jul 2020 20:24:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>SOMOS AS ESCOLHAS QUE FAZEMOS Em AS PONTES DE MADISON (135’), direção de Clint Eastwood, EUA (1995), vamos nos deparar com uma questão básica que nos aflige toda vez que iniciamos uma relação de afeto com alguém. Estamos mesmo fazendo a escolha certa? Será que ele/ela me ama? O pior é quando se trata de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1>SOMOS AS ESCOLHAS QUE FAZEMOS</h1>
<p>Em AS PONTES DE MADISON (135’), direção de Clint Eastwood, EUA (1995), vamos nos deparar com uma questão básica que nos aflige toda vez que iniciamos uma relação de afeto com alguém. Estamos mesmo fazendo a escolha certa? Será que ele/ela me ama? O pior é quando se trata de deixar o antigo amor para assumir um novo. Aí a dúvida nos consome de vez. Esta é a problemática que <em>As Pontes de Madison</em> nos coloca. Aliás, escancara — o risco da troca.</p>
<p>Fica-nos a impressão de que o amor que nos é oferecido por alguém que acabamos de conhecer sempre vai parecer instável, por mais que recebamos dele sucessivas provas desse amor. E nem se trata de saber se a pessoa nos ama. A questão é: até onde este amor resistirá? Na alegria, com certeza. Mas, e na tristeza?</p>
<blockquote>
<h2><em>As Pontes de Madison</em> é uma história de amor que não se conclui.</h2>
</blockquote>
<p>O filme não resolve as questões colocadas acima. O filme <em>As Pontes de Madison </em>apenas tenta nos arrastar para a realidade. E, para tanto, traz outra questão. O encontro entre os dois amantes, Francesca e Robert, é rápido, portanto não é suficiente para servir de laboratório para o amor. E aqui falamos daquele amor que temos que renovar todos os dias, incansavelmente, anos a fio.</p>
<p>Paradoxalmente, o que vamos ver na tela é um amor inesquecível, mas vivido em apenas quatro dias, portanto passageiro. Opa! Se é inesquecível, não pode ser passageiro! Ademais, o amor entre Francesca e Robert sobreviveu até eles morrerem! Por mais de vinte anos! Mesmo que nunca mais tenham se visto! Este nos parece ser o sabor peculiar de <em>As Pontes de Madison</em>. E sua contradição. Para ser inesquecível, o amor, na falta da vivência do cotidiano, teve que acontecer na esfera da fantasia. Nessa perspectiva, podemos dizer que <em>As Pontes de Madison</em> é uma história de amor que não se concluiu. O amor simplesmente ficou ali, à espera dos amantes. Até que a morte os separasse.</p>
<blockquote>
<h2>Ao se casar, Francesca foi violentamente sugada pelo sistema matrimonial.</h2>
</blockquote>
<p>Robert Kincaid é um fotógrafo da National Geographic que vai para o interior dos Estados Unidos, Iwoa, com a missão de fotografar as pontes cobertas de Madison. Perdido, acaba chegando à fazenda dos Johnsons. E ele chega bem no dia em que o marido e os dois filhos tinham viajado, por quatro dias, para participar de uma feira de gado. O charmoso forasteiro (Clint Eastwood) estaciona o carro apenas para pedir a Francesca (Meryl Streep) informações sobre o paradeiro de uma determinada ponte. Naquela época, 1967, não existia <em>Google Maps</em>. Dar informações sobre estradas e encruzilhadas era um tanto complicado. Francesca resolveu o dilema de forma diferente. Calçou os sapatos e foi com Clint Eastwood, quer dizer, Robert Kincaid, procurar a tal ponte.</p>
<blockquote>
<h2><em>“Os velhos sonhos eram bons sonhos, não</em><em> se realizaram, mas foi bom tê-los.”</em></h2>
</blockquote>
<p>Caímos no erro de muitas vezes acharmos que uma relação está se esgotando em função de os comportamentos do outro serem inadequados ou insuficientes. Isto é, o outro é responsabilizado pela nossa infelicidade e nossas insatisfações. Se atentarmos para o jogo de equilíbrio entre as forças dramáticas de <em>As Pontes de Madison</em>, vamos perceber que o marido de Francesca é um sujeito normal, pregado naquela fazenda herdada de sua família que sempre esteve ali, há mais de cem anos. Ele se mostra amoroso, dedicado, acredita que sua função patriarcal é prover a família, e isto ele faz muito bem. Se quiserem, podem conferir o relatório. Bebe? Não. Fuma? Não. Bate na mulher? Não. Deixa-a passar fome? Não. Então, o que falta? Eis o desafio. Como traduzir a infelicidade de Francesca? Aliás, de onde vem esta infelicidade?</p>
<blockquote>
<h2>O filme <em>As Pontes de Madison</em> quer falar de amor, não de casamento.</h2>
</blockquote>
<p>Ao se casar, Francesca perdeu o sentido de liberdade. Foi violentamente sugada pelo sistema matrimonial. Tirada de Bari, Itália, no auge dos seus sonhos, enfiou-se no interior americano, numa tal cidade de Madison. Fica claro o espanto dela quando Robert Kincaid, logo nos primeiros minutos em que se conheceram, sabendo que Francesca nascera em Bari, relata sua passagem por aquela cidade. Da janela do trem achou a cidade linda. Então, resolveu descer e por lá ficou vários dias. Francesca então pergunta. Você saltou do trem só por que achou a cidade bonita? Sim, responde Robert. É exatamente este o sentido de liberdade que Francesca carrega dentro de si, sem, no entanto, exercê-la.</p>
<p>Neste cenário, vamos ver que, com a chegada de Robert à fazenda, interrompe-se, para Francesca, a dura realidade. Francesca é uma mulher presa às cruéis rotinas de esposa e mãe, mulher que um dia teve sonhos que precisou engavetar. E na presença do forasteiro, parece que ela os tira momentaneamente da gaveta. Robert tenta consolá-la. Diz. <em>“Os velhos sonhos eram bons sonhos, não</em><em> se realizaram, mas foi bom tê-los.”.</em> Caro Robert Kincaid, sonho não é só para ser sonhado. Tem que ser realizado. E quando é realizado, já não é mais sonho, é a realidade desejada! Entendeu?</p>
<blockquote>
<h2>O que interessa a Meryl Streep é como a personagem se comporta como mulher.</h2>
</blockquote>
<p>A partir do momento que Francesca fosse embora com o forasteiro, terminariam os sonhos dos quatro dias e começaria uma nova realidade. Francesca logo percebera que tudo poderia ser apenas uma troca. De realidades. Valeria a pena?</p>
<p>O filme <em>As Pontes de Madison</em> também não responde à pergunta acima. Mesmo que ela esteja diante de um homem sensível, que declama poesias, vê cores ao amanhecer, vê cores ao entardecer, homem divertido, espirituoso, cozinha e lava, adora blues&#8230; O que uma mulher casada, acorrentada às mediocridades sociais, vai fazer com um homem desses? Com certeza, terá que enfiá-lo dentro de uma realidade provavelmente tão dura quanto a atual. E dentro da dura realidade, ver cores ao amanhecer e ver cores ao entardecer não se encaixa no paradigma dos pequenos sofrimentos cotidianos. E mais. O que fazer com a realidade anterior? Afinal, terá que abandonar marido e filhos. Pobre Francesca!</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>As Pontes de Madison</em>, o homem não nos apresenta, de forma convincente, o seu masculino.</h2>
</blockquote>
<p>Agora, antes de finalizar, vamos falar de Meryl Streep.</p>
<p>Mais do que apenas representar uma personagem, o mais importante é dar um sentido plenamente humano ao que se quer representar. Esse é o desafio dos grandes atores e das grandes atrizes. E Meryl Streep parece não fazer o menor esforço para tornar Francesca tão viva diante de nós. E não importa o destino traçado para Francesca. O que importa é sentir suas reações diante de fatos inesperados que a obrigaram a se movimentar internamente. E são estes movimentos que Meryl Streep nos oferece com sutil intensidade. O que interessa à atriz é como a personagem se comporta como mulher. É aqui que Meryl Streep nos dá uma aula de feminino.</p>
<p>Infelizmente, por outro lado, Clint Eastwood, o homem, fica a meio caminho. Não nos apresenta com clareza o masculino. Não nos convence. Fica-nos parecendo que o que ele tem a oferecer é apenas a casca, pintada de elegantes trejeitos. Mas, sem o miolo, o que fazer com a casca? Talvez seja por isso que Francesca — leia-se Meryl Streep — não embarcou na aventura proposta por Robert — leia-se Clint Eastwood. Por segurança, ela preferiu ficar na esfera das fantasias.</p>
<blockquote>
<h2><em>As Pontes de Madison</em> fala do cotidiano pela voz amargurada de Francesca.</h2>
</blockquote>
<p>Em suma. O que nos parece ser um sonho pode, na verdade, ser uma oportunidade. E é das oportunidades que nascem as escolhas. E escolher é correr riscos. E correr riscos é enfiar os dois pés na jaca da realidade. Este é o preço a se pagar. Agora, podemos escolher permanecer no mundo dos sonhos. Mesmo que isto possa nos parecer um ato de covardia. Se lembrarmos que sonhar é nos convidar para iniciar uma nova jornada, podemos então dizer que permanecer no sonho é renunciarmos a dar o passo. E é disso que <em>As Pontes de Madison</em> quer falar pela voz amargurada de Francesca. Robert Kincaid não lhe deixou claro se valia ou não a pena mudar de escolha.</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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