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	<title>Arquivos professor Higgins - Roberto Gerin</title>
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		<title>Pigmalião</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 Nov 2019 19:30:52 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1>O IMPASSE AMOROSO</h1>
<p>George Bernard Shaw (1846-1950) é um dramaturgo irlandês que se transformou num feroz guardião da língua inglesa, sendo considerado o fundador do teatro moderno inglês. Eram tempos, final do século XIX, de mudanças importantes na forma de escrever e fazer teatro. Era uma escrita que flertava acintosamente com a realidade, recebendo total apoio das novas técnicas de encenação que foram surgindo à época. É perceptível a influência do realista Henrik Ibsen sobre Shaw. Afinal, Ibsen, dramaturgo norueguês, era tido como um dos grandes inovadores senão o maior nome da dramaturgia mundial na passagem do século XIX para o século XX. Esta influência viria fazer de Shaw um defensor do teatro didático. É necessário apresentar à sociedade uma ideia de mudança, sem o que o próprio teatro deixa de cumprir com sua função artística. Nascido de família pobre, pai alcoólatra e mãe de personalidade forte, artista ela própria, motivo que a levou a incentivar o filho a investir seu talento na arte da escrita, Bernard Shaw, aos vinte anos, mudou-se de Dublin para Londres, em busca de sucesso literário. Após inúmeras recusas de seus escritos, romances e crônicas, consegue, em 1885, aos vinte e nove anos, se inserir no mercado editorial. Desde então, as penúrias financeiras ficariam para trás, e Shaw iria exercer cada vez mais sua influência intelectual nos meios culturais londrinos. Detentor de uma soberba criatividade e absoluto domínio da língua inglesa, bastante afiada, além de socialista convicto, Shaw tem na hipocrisia das estratificadas classes sociais da era vitoriana seu alvo de ataque preferido. É neste contexto, de muita escrita e engajamento social, que, em 1913, Bernard Shaw lança um de seus mais importantes trabalhos, P<em>igmalião</em>.</p>
<p>A famosa peça teatral <em>Pigmalião</em> não parte de uma ideia original. No entanto, isto não impediu que Shaw construísse uma obra original. O mote principal do texto vem de <em>Metamorfoses</em>, do poeta romano Ovídio, que se vale do mito de Pigmalião, rei de Chipre, obcecado escultor que, desiludido com as mulheres do seu reino, resolve esculpir para si a mulher perfeita. E a esculpe tão perfeita e tão bela que acaba se apaixonando pela sua estátua. Afrodite, a deusa da beleza e do amor, apiedando-se de Pigmalião, transforma a escultura em mulher, de carne e osso. Portanto, o que nasceu de uma idealização, torna-se realidade. Pigmalião de Ovídio casa-se com sua Galateia e com ela tem filhos.</p>
<p>Shaw, brilhantemente, cria seu próprio Pigmalião, o intragável, arrogante, preconceituoso, impetuoso e cômico professor Higgins. Henry Higgins se dedica ao estudo da língua inglesa, especializando-se em fonética, o que fez dele um profundo conhecedor dos dialetos universais. Esta extrema habilidade o leva, admiravelmente, através das falas de seus interlocutores ocasionais, a determinar, sem que o digam, o local de nascimento e origem de cada um deles.</p>
<p>O texto começa com o professor Higgins conhecendo, casualmente, à saída do teatro, uma florista, cuja horrível e tenebrosa dicção lhe chama a atenção. É com outro famoso foneticista, coronel Hugh Pickering, que ele próprio acabara de conhecer, também à saída do teatro, que Higgins faz uma aposta. Em seis meses, ele transformaria aquela pobre e inculta florista das ruas escuras de Londres em uma admirada dama da alta sociedade. Eliza Doolittle, este é o nome da florista, circularia pelos salões londrinos se passando por uma duquesa, sem que ninguém jamais desconfiasse das verdadeiras origens da moça. Aposta aceita pelo coronel Pickering, mãos à obra. O professor Higgins, mangas arregaçadas e com um humor infernal, começa a esculpir sua bela dama.</p>
<p>Há muitas discussões sobre como Bernard Shaw acabou por construir o enredo da peça. Evidente, ele não estava preocupado em formatar mais uma comédia romântica, mesmo que, ao longo do tempo, Broadway e Hollywood, através do belo musical <a href="https://www.assistoporquegosto.com.br/blog/index.php/my-fair-lady/"><em>My Fair Lady</em></a>, tenham se esforçado para transformar o texto original em um conto de fadas. Para Shaw, interessava discutir a terrível estratificação sociocultural através da linguagem e dos comportamentos sociais dela decorrentes. É pela forma como as pessoas falam que passamos a catalogá-las socialmente. E mesmo que pessoas com educação precária e condição social inferior venham a melhorar de vida (o pai de Eliza), elas necessariamente vão se trair pela linguagem, o que as prenderão eternamente à sua origem pobre. O contrário também se faz verdadeiro. Mesmo que o rico se descuide da linguagem, isto não abalará sua posição social. Ele, afinal, nasceu rico, e este é um privilégio indissolúvel. O que Shaw tenta mostrar é que se pode esculpir o ser humano desde que ele próprio se idealize numa perspectiva superior e persiga esta idealização. Pois é. O ser humano pode, sim, idealizar seu destino. Esta é a ideia didática de Shaw. A ascensão social através da transformação pela linguagem. É a crença no poder transformador do ser humano, desde que ele obsessivamente se proponha a tal. É com esta obsessão que o professor Higgins ganha a aposta feita com o coronel Pickering. Ele de fato transforma a ignorante e estúpida florista Eliza Doolittle numa encantadora <em>lady</em>.</p>
<p>Só que há um detalhe, acima, que passa despercebido. A obsessão não é do professor, é da aluna. A despeito da aposta feita à porta do teatro, entre o professor Higgins e o coronel Pickering, foi Eliza quem, dias depois, vai procurar o professor Higgins com o objetivo (idealizado) de apurar a linguagem e poder assim sair das ruas e se empregar numa loja de flores. Este dado é importante por fazer notar a proposta social de Shaw, a de que o próprio ser humano é o idealizador do seu destino e que, portanto, não há, em princípio, portas fechadas para os sonhos.</p>
<p>Por que Bernard Shaw não se preocupou em unir o casal ao final da peça, quando Higgins tinha a seus pés a sua própria Galateia?</p>
<p>Diferente do mito de Pigmalião, Shaw constrói em Higgins um ser totalmente avesso ao amor. É um homem intelectualmente arrogante, impaciente com as fraquezas humanas, mesquinho com as misérias alheias, insensível a dores, atitudes estas que revelam nele uma infantil irresponsabilidade social. E mais. Higgins disfarça sua incapacidade de amar pela idealização que faz da mãe, a única mulher naturalmente dotada dos mais elevados atributos femininos. Ao prender Higgins à mãe, idealizando-a, transformando Higgins num empedernido solteirão como forma de disfarçar seu complexo de Édipo, Shaw afasta a possibilidade de um desejado final romântico.</p>
<p>E o contraponto do amor, em Eliza, também é verdadeiro. Ela, chocada, desde o início, com a personalidade agressiva e estúpida de Higgins, de um lado, e sendo, por outro lado, perseguida com cartas de amor pelo jovem e encantador (e pobre) Freddy, Eliza não está disposta, feito uma <em>Mirandolina</em>, a conquistar o homem Higgins. Finda a aposta, ela se pergunta o que fazer da vida, já que é impossível, nas atuais circunstâncias, voltar para as ruas e recomeçar a vender flores. Caberia a ela entrar no mercado de casamentos? É o que propõe Higgins. Qualquer um quer transformá-la numa rainha, diz ele, mordendo-se de ciúmes. No fundo, o que o professor Higgins quer é que ela continue morando com ele, cuidando da sua vida pessoal, como se uma secretária fosse, e, ao mesmo tempo, usufruindo das benesses sociais que um homem rico pode proporcionar a uma mulher, mesmo que com ela não queira absolutamente nada. Mas Eliza se recusa a voltar para a casa de Higgins, decidida que está a lutar por sua independência. A mulher já não tem no casamento a única forma de ascensão social, estes eram os ventos que sopravam na Londres das sufragistas. Afinal, Shaw tinha em Nora, a personagem feminina de Ibsen, a desculpa para fazer de Eliza uma mulher também independente. E Shaw o faz, com muito gosto e prazer. Para a infelicidade de Higgins.</p>
<p><em>Pigmalião</em> pode não passar de uma comédia satírica, simples, rápida, mas é tão bem arquitetada, tão bem escrita, vai ao ponto em questões de relacionamentos e de sonhos, esta ilusão transformadora que carregamos dentro de nós, nos mostrando que quando idealizamos algo bom para nós já estaremos pelo menos afastando a ideia de impossibilidade, por estas e muitas razões, não à toa, o texto de Shaw acaba se transformando num grande clássico da literatura mundial. E que fique bem claro. A idealização de transformação é nossa, está em nós, não no outro. Diferente do que pensa o famigerado Higgins, não se esculpem seres humanos.</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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