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	<title>Arquivos resenha contos da lua vaga - Roberto Gerin</title>
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	<title>Arquivos resenha contos da lua vaga - Roberto Gerin</title>
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		<title>Contos da Lua Vaga</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Jan 2022 01:14:26 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<h2><strong>O CONTO DA GANÂNCIA</strong></h2>
<p>Nesta obra prima de Kenji Mizoguchi, CONTOS DA LUA VAGA (96’), Japão (1953), o diretor japonês tem como proposta central discutir os efeitos destrutivos que a ganância pode causar na vida das pessoas. Quando se fala em ganância, fala-se em dinheiro. Em querer acumular muita riqueza. O mais rápido possível. E não estamos falando do cenário capitalista moderno. A história de Genjuro e Tobei, os dois gananciosos, está inserida no século 17, no interior de um Japão agrário e mergulhado na Guerra Civil. Como diz Genjuro. “<em>A guerra é propícia para se ganhar dinheiro”.</em> Passa a enxergar no comércio a fonte de ganho ilimitado. E a catequese para justificar a ganância sai da boca do protagonista como uma certeza bíblica. Diz ele. <em>“A ambição tem que ser ilimitada como o oceano. Ambição significa ficar rico”</em>. E acrescenta. <em>“O dinheiro é tudo. Sem ele, a vida é dura e toda esperança perece”.</em> Eis então o formato moral em que se encaixa a proposta de Kenji Mizoguchi. Mostrar que <em>“o sucesso sempre tem um preço, que pagamos com sofrimento”.</em> E o sofrimento virá com certeza a seu tempo, o que prova que a vida não é apenas o fluxo de vontades inabaláveis. Temos que estar preparados para os refluxos, que é quando entram em ação as vontades de um destino implacável.</p>
<p>Genjuro e Tobei são casados com duas irmãs e vivem enfiados nos confins de um vilarejo fincado entre montanhas e terras inóspitas. Genjuro é um exímio ceramista, cujo trabalho se sustenta pela sensibilidade artística e segurança técnica. Só que, tomado pela ambição de ganhar muito dinheiro, põe-se a trabalhar desesperadamente para aumentar a produção.</p>
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<h3>Para muitos, <em>Contos da Lua Vaga</em> pode ser considerado o principal filme de Mizoguchi.</h3>
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<p>Seu concunhado e ajudante Tobei, a quem caberá um terço dos lucros, tem outra ambição, que vai além da acumulação do dinheiro farto. Prende-se à ideia fixa de se tornar samurai. O dinheiro que ele vai ganhar com o carregamento de cerâmica será destinado, para aborrecimento da esposa, à compra de uma armadura e de uma lança, apetrechos bélicos necessários para se tornar vassalo de um grande samurai. São com estas propostas que os dois partem para a cidade, carregando as cerâmicas em meio aos perigosos caminhos da guerra.</p>
<p>Para muitos, <em>Contos da Lua Vaga</em> pode ser considerado o principal filme de Mizoguchi. Independente de opiniões e classificações, é de fato uma obra monumental. Mesmo tendo o diretor tirado de foco uma das suas temáticas recorrentes, o papel do feminino na implacável sociedade machista japonesa. Não que esta temática não esteja presente. Na trama, a mulher se apresenta como o anteparo dos desajustes masculinos numa sociedade em transformação, em que o homem, fugindo aos valores familiares, se transforma num joguete do destino — leia-se, ganância. Caberá à mulher ser o ponto de equilíbrio, a força que irá resgatar o macho dos seus escombros morais. Como fica claro em <em>Contos da Lua Vaga</em>, Genjuro e Tobei parecem atormentados com a obsessão de refazer os seus destinos.</p>
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<h2>A simbologia da ganância sem limites vem representada pelo amor inconsequente de Genjuro por Lady Wakasa.</h2>
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<p>A ganância, portanto, é a protagonista de <em>Contos da Lua Vaga</em>. É o apego à matéria, ao enriquecimento fácil, ao trabalho obsessivo. E a ambição é tão ilimitada, e de certo modo tão natural, que o espectador acaba embarcando nas loucuras de Genjuro e Tobei. Apesar de estarmos falando de um Japão ainda dominado pela estrutura feudal, as transformações econômicas já são visíveis. É o comércio gerando fontes de renda e de prosperidade. E é neste sentido que vem o alerta. A ilusão da prosperidade fácil leva a distorções morais e existenciais que vão cobrar seu alto preço.</p>
<p>E Mizoguchi leva seu intento ao limite quando nos mostra o poder encantatório da ganância. É ela que nos conduz para uma realidade sedutora e perigosa, a deusa que está junto de nós, mas que não nos satisfaz. Porque irreal. Até que a bolha da ilusão estoura e caímos do alto da nossa fantasia em terra árida e pedregosa. É o triste retorno para os braços da realidade. Por sorte, estão lá as mulheres, com seus convites para recomeçarem uma nova vida.</p>
<p>A simbologia da ganância sem limites vem representada pelo amor inconsequente de Genjuro por Lady Wakasa. Ela é o fantasma que vaga pela terra à procura de que algum amante complete sua história. A condição para que o relacionamento se concretize é Genjuro se casar imediatamente com ela. Seria a conquista máxima da vida farta de prazeres e felicidades. Vivida não em terra firme, mas em um paraíso que Genjuro não tem noção de onde possa existir. O encantamento é desfeito pela intervenção da sabedoria de um mestre que vai mostrar a Genjuro o erro que está cometendo ao se entregar às suas ilusões. Desfeita a magia, Genjuro retorna para sua vida comum, na busca silenciosa da sobrevivência cotidiana, material espiritual de que nos alimentamos.</p>
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<h2>Em suma. Em <em>Contos da Lua Vaga</em> há o espaço para a redenção, para a reformulação, para o feliz recomeço.</h2>
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<p>Para seu concunhado Tobei, a realidade bate à porta de uma outra maneira. Através do falso heroísmo, portanto da trapaça, ele consegue alçar-se à condição de um venturoso samurai cercado de servos e regalias, bem ao gosto de seus sonhos. Só que, no estilo moralista das grandes descobertas, Tobei é confrontado com sua realidade interior quando, ao parar no meio do caminho para desfrutar das benesses de prostitutas, depara-se com sua mulher (a quem abandonara) entre elas. É o suficiente para retomar a consciência de sua antiga vida, feita de sabores concretos, como o afeto, o amor e o companheirismo. Ele também retorna para sua casa purificado, a salvo da terrível mancha da ganância que o fez se perder momentaneamente em um mundo para ele totalmente estranho e hostil.</p>
<p>Em suma. Em <em>Contos da Lua Vaga</em> há o espaço para a redenção, para a reformulação, para o feliz recomeço. O arco dos personagens os traz para o mesmo lugar, após passarem não por uma transformação, que no final das contas acaba acontecendo, mas por um processo de autoconhecimento através dos erros, dos enganos e das desilusões. Esta passagem os transformará em seres humanos melhores, portanto, sim, transformados. <em>Contos da Lua Vaga</em> nos encanta justamente porque ele nos recoloca no eixo moral da vida. Do qual nunca deveríamos nos afastar.</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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