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	<title>Arquivos resenha destacamento blood - Roberto Gerin</title>
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		<title>Destacamento Blood</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Nov 2020 22:04:48 +0000</pubDate>
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<h1>A LUTA TEM QUE CONTINUAR</h1>
<p>O filme DESTACAMENTO BLOOD (135’), direção de Spike Lee, EUA (2020), nos leva para dois lugares bem conhecidos: de um lado, as lutas por direitos iguais entre negros e brancos e, do outro, a Guerra do Vietnã. É a partir destes dois fatos históricos, marcantes na vida dos norte-americanos na década de 1960, que Spike Lee, que também assina o roteiro com Kevin Willmott, Danny Bilson e Paul Demeo, tira sua seiva político-dramática para nos brindar com mais um belo filme. E em <em>Destacamento Blood</em> Spike Lee continua sendo Spike Lee. Não disfarça sua irritação com a sociedade norte-americana, incluindo aí as decisões políticas de recrutamento de soldados afro-americanos para servirem de “bucha de canhão” em mais uma guerra desastrosa.</p>
<blockquote>
<h2>Spike Lee não se cala sobre a política nefanda em relação à composição étnica das forças de guerra.</h2>
</blockquote>
<p>Segundo estatística veiculada no filme pela rádio inimiga — os vietcongues —, à época, década de 1960, a população negra somava apenas onze por cento do total da população dos Estados Unidos. No entanto, trinta e dois por cento do efetivo das tropas que lutaram no Vietnã eram de jovens negros, o que deixa exposta a política nefanda em relação à composição étnica das forças de guerra. Spike Lee não perde a oportunidade de escancarar essas verdades. Em um gesto de puro protesto, insere no filme imagens de heróis negros, além de composições de Marvin Gaye, em mais uma homenagem à cultura afro-americana.</p>
<p>O filme chega em boa hora. Evidencia os horrores racistas que teimam em se alastrar mundo afora, ano após ano, em suas mais diversas maldades — seja em um campo de futebol, seja nas ruas de Minneapolis, seja nas favelas do Rio de Janeiro. No entanto, cabe deixar claro: o filme não trata só dessa temática. O que vamos ver são relações humanas construídas em bases frágeis, onde as questões histórico-raciais se confundem com as questões pessoais, de foro íntimo, mas que são determinantes na condução da trama.</p>
<blockquote>
<h2><em>Destacamento Blood</em> existe para que quatro amigos cumpram uma promessa.</h2>
</blockquote>
<p>Nesse diapasão, <em>Destacamento Blood</em> não economiza imagens para alcançar seu objetivo. O de nos mostrar como o mundo parece trilhar por caminhos equivocados. Em dado momento, ficamos com a sensação de que todas as maçãs apodreceram. Para que renasça em nós a esperança por dias melhores, é preciso urgente colher maçãs saudáveis para substituir as antigas. A impressão que nos fica é clara: a luta tem que continuar.</p>
<p>Quatro amigos negros que haviam feito parte de uma operação de resgate de uma vultosa quantidade de ouro presa nas entranhas de um avião abatido pelos norte-vietnamitas agora se reencontram na cidade de Saigon, Vietnã, em pleno século XXI, com dois objetivos a serem alcançados.  Reúnem-se, primeiro, para resgatar o corpo do chefe, o também negro Norman (Chadwick Boseman), um ativista social na linha de um Martin Luther King Jr. — Spike Lee ressalta esta semelhança com toda precisão —, e que fora morto na operação (fracassada) de resgate do ouro. Apenas vão cumprir uma promessa feita lá trás — a de que um dia retornariam ao Vietnã para levar o corpo do amigo, enterrado nas selvas vietnamitas, de volta para os Estados Unidos.</p>
<blockquote>
<h2>Acima de tudo, é preciso prender a atenção do espectador.</h2>
</blockquote>
<p>A segunda missão é mais delicada. Envolve encontrar a caixa cheia de barras de ouro, também enterrada por eles em alguma encosta da selva. O ouro pertence aos Estados Unidos, mas eles o querem para si, por justiça, pois se veem no direito de reivindicar o tesouro. Não se trata de um roubo, e sim do pagamento de uma dívida. Afinal, milhares de negros deram suas vidas por uma guerra que não lhes pertencia. Este é o acabamento moral a que se agarram para justificar a decisão ilegal.</p>
<p>Qualquer roteiro, para funcionar bem, tem que se submeter a um quebra-cabeça montado à revelia da realidade. Não que a realidade não interesse. Ela apenas não pode ditar todas as regras. Acima de tudo, é preciso prender a atenção do espectador. Se este é o fim último, tudo é válido, inclusive virar as costas para o óbvio.</p>
<blockquote>
<h2><em>Destacamento Blood</em> privilegia a exposição das questões pessoais, tão ao gosto de Hollywood.</h2>
</blockquote>
<p>Se os quatro Blood — Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock), além do filho de Paul, David (Jonathan Majors) — chegassem ao Vietnã, calados, e de lá saíssem mudos, com o corpo de Norman e as bolsas abarrotadas de barras de ouro, pouco se tiraria de tensão dramática e expectativas de tragédia. É preciso expandir a trama para fora de seu núcleo básico, para que ela seja retroalimentada — exposta a descontroles, a ganâncias e a imprevisibilidades. Para que isso aconteça, às vezes a realidade de fato atrapalha.</p>
<p>E foi o que aconteceu. Antes de adentrarem a selva em busca do ouro, os quatro amigos se encontram com um agente da ilegalidade, um distinto francês, Desroche (Jean Reno), que facilitará a lavagem do “roubo” do ouro, dando um destino clandestino mais seguro aos sete milhões de dólares em barras. Ao denunciarem a existência de tamanha fortuna, ativam polos contrários, desestabilizando o equilíbrio do grupo. Os conflitos se expandirão nas ações emocionais de cada um dos envolvidos, elevando a mil as possibilidades de desfecho da trama.</p>
<blockquote>
<h2><em>Destacamento Blood</em> aproveita para expor os erros cometidos pelos Estados Unidos na desastrada guerra do Vietnã.</h2>
</blockquote>
<p>A partir do imbróglio acima delineado, transparece uma proposta interessante do diretor — a de trazer para dentro do grupo as angústias geradas pela desastrada Guerra do Vietnã, que dizimaria milhares de norte-americanos e vietnamitas, deixando na região marcas profundas que subsistem até hoje. Não à toa, os ressentimentos dos cidadãos vietnamitas em relação ao grupo de veteranos são trazidos à tela, sem qualquer sutileza. O objetivo de Spike Lee, nos parece, é repetir a história. Inclusive com seus erros. Que (com certeza) foram importados dos Estados Unidos. Afinal, Spike Lee quer falar do negro no mundo, não do negro no Vietnã.</p>
<p>Mas há uma outra faceta que <em>Destacamento Blood</em> explora e que vai possibilitar a consistente construção artística do filme, afastando-o de veleidades panfletárias e de cunho documentarista. Spike Lee não é bobo. Ele sabe que precisa se valer das relações humanas para impulsionar seus voos políticos, sem correr o risco de perder fôlego. Por isso, traz para a tela a personalidade complexa, conturbada, e às vezes incompreensível, de Paul, um dos quatro Blood, o mais próximo do chefe amigo Norman.</p>
<blockquote>
<h2>Foge à tirania funcional dos <em>flashbacks</em>, tornando o ritmo mais fluido e envolvente.</h2>
</blockquote>
<p>A imagem — ou fantasma — de Norman persegue Paul dia após dia, desde que retornara da Guerra do Vietnã. Sua participação na trama é tão forte e decisiva, que poderia ser eleito o protagonista. E o mais importante. O que sustenta a composição conflituosa da personagem Paul é a culpa. Eis o que o move em direção ao desastre. A última cena de Paul, sozinho na selva, fugindo de seus gananciosos perseguidores, é de um primor de representação que por si só valeria a indicação ao Oscar para Delroy Lindo. Paul precisou da expiação para entender que ele não teve culpa pelo que aconteceu no passado. É a partir da expiação de Paul que entendemos as motivações subliminares que conduz o filme à sua grandeza.</p>
<p>Vale ressaltar uma decisão interessante (e feliz) tomada pelo diretor. A narrativa de <em>Destacamento Blood</em> acontece em dois tempos, separados um do outro por quase cinquenta anos. No entanto, o principal foco narrativo concentra-se nos dias atuais. Ao tomar a decisão de utilizar os mesmos atores, sessentões, para representar também acontecimentos antigos — a operação de resgate do ouro —, o diretor dá uma outra dimensão aos fatos. Foge à tirania funcional dos <em>flashbacks</em>, tornando o ritmo mais fluido e envolvente. Como se tudo fizesse parte de um só tempo e espaço. Essa linearidade temporal favoreceu o envolvimento do espectador com a trama, colo</p>
<blockquote>
<h2><em>Destacamento Blood</em> reforça a ideia de que o silêncio pode ser a pior das cumplicidades.</h2>
</blockquote>
<p>Em suma. As receitas de bolo que Hollywood impõe a seus filmes às vezes chegam a ser irritantes. Mas não podemos desprezá-las. Ao abrir a vultosa conta bancária para produzir um filme, sabe-se que não se podem cometer erros, afinal, o dinheiro tem que voltar para o bolso. <em>Destacamento Blood</em> não foge à regra. No entanto, cabe ao artista contornar essas imposições com algumas doses de ousadia, em que imporá seu estilo pessoal à produção da obra. Os grandes diretores trilham essa máxima, e Spike Lee é um deles, quando se propõe a usar a arte como um campo de luta social.</p>
<p>Sabemos que fazer arte é um ato político, e não há nada de errado nisso. Pelo contrário. Ao revelar atitudes políticas é que a arte se faz e se perpetua. Diante de tantas desigualdades e preconceitos que solapam a civilização moderna, o silêncio é uma atitude perigosa, que apenas reforçará uma realidade indesejada. O silêncio pode ser a pior das cumplicidades. Eis a razão por que Spike Lee faz tanta questão de gritar.</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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