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	<title>Arquivos resenha literária - Roberto Gerin</title>
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	<title>Arquivos resenha literária - Roberto Gerin</title>
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		<title>O Quinze</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Oct 2021 19:35:40 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<h2><strong>UMA ODE À SENSIBILIDADE SOCIAL</strong></h2>
<p>A literatura das secas, relativamente rica em nossa história literária, impingiu na memória coletiva dos brasileiros os sofrimentos dos nordestinos nas suas repetidas labutas para suportar longas ausências de chuvas. Fazem parte do nosso imaginário as carcaças do gado semeando a desolação na paisagem árida. E os retirantes percorrendo o chão trincado pela seca, sob um sol inclemente e silencioso. Dores registradas em relatos pungentes. Dor nordestina que parece não ter fim.</p>
<p>Nesse quadro de realidade da seca transposta para a literatura, chama a atenção, em meio a tantos clássicos, a singela obra da então jovem de dezenove anos Rachel de Queiroz. Obra portentosa para tão pouca experiência. Mas compensada pelo talento e pelos íntimos contatos com esta realidade que se fizeram no dia a dia de sua vida de nordestina abastada, moradora que era da fazenda da família, em Quixadá, cidade enfiada na geografia árida do nordeste cearense. Filha de pai às voltas com a lide da justiça togada e com o cultivo do solo, e de mãe que priorizava a cultura, em especial os livros — foi neste ambiente propício que sua precoce literatura floresceu. E nasceu pronta, destacada, já fulminando a pior das realidades: os sofrimentos gerados pela seca.</p>
<blockquote>
<h2>Conceição, incapaz de agir, ajuda a perpetuar os sofrimentos alheios.</h2>
</blockquote>
<p>A referência do título do livro, <em>O Quinze</em>, nos remete à grande seca de 1915, que assolou o Nordeste de ponta a ponta, com seus espasmos de fome que iam expulsando de seu ventre os nordestinos desesperados. E há algo nesta literatura que vale ressaltar. Talvez pela pouca experiência de vida da jovem autora, ainda imune a certos arroubos ideológicos, ela consegue, com sua força literária dosada na linguagem típica do nordestino, trazer a seca a seu ponto exato. Um fenômeno climático inclemente, de uma lucidez maldosa, cujas consequências vão além da simples e insuportável temperatura. A seca, acima de tudo, constrói uma realidade interior para cada uma de suas vítimas. Seja na itinerância de Chico Bento e Berdolina, seja na resiliente insistência de Alfredo, seja na angústia contemplativa de Conceição, seja no aristocrático conformismo de sua avó, Mãe Nácia. É cada um com a sua função emocional no tabuleiro social da seca.</p>
<p>A simbologia narrativa encontrada por Rachel de Queiroz se fixa nas questões pessoais do amor, movimentos de alma que pairam sobre qualquer situação, seja em tempos de chuva, seja em tempos de seca. É na impossibilidade de se realizar plenamente o amor, diga-se, casamento e filhos, que Conceição vai tecendo as incertezas de uma vida presa às inconclusões de quem vive uma realidade de impossibilidades. Afinal, a injusta estrutura socioeconômica do Nordeste, dedilhada em fantasias de domínio sociopolítico, caracterizado por uma voraz oligarquia que insiste em comandar o destino de milhões de nordestinos à mercê de sonhos inalcançáveis, traduz-se nas entrelinhas deste romance, <em>O Quinze</em>. E Conceição parece se perder em meio a essa perversa estrutura, sem saber para onde ir. Sem se posicionar perante a vida e seu futuro, resta-lhe esperar por um mundo (o amante) que não se dobrará a seus pés. Portanto, incapaz de agir, ajuda a perpetuar os sofrimentos alheios.</p>
<blockquote>
<h2><em><strong>Dou as migalhas esperando que você não queira comer na minha mesa.</strong></em></h2>
</blockquote>
<p>É espantoso ver uma menina de dezenove anos expressar tamanha lucidez histórica, radiografada por suas personagens, as quais, parece-nos, não são totalmente do conhecimento íntimo da escritora. Íntimo no sentido de deixar-se imergir em num ambiente histórico profundo, enraizado nos preconceitos, nos abusos trabalhistas, na inclemência da terra e na busca desesperada de seus habitantes pela mínima sobrevivência. O nordeste recontado neste romance escapole do próprio romance para adquirir vida própria. A despeito da autora. Que tem o talento, mas que ainda não tem a compreensão racional do que está narrando. E nem precisa. A arte se encarrega de denunciar.</p>
<p>Rachel de Queiroz faz a voz de Mãe Nácia desenhar as contradições sociais a partir de dois movimentos emocionais. A defesa dos seus interesses econômicos contrapostos à compaixão pelas vítimas desses interesses. Em outras palavras. Pra eu continuar a ser rico preciso te explorar. Mas nem por isso minha alma deixa de se compadecer da sua triste condição. Dou as migalhas esperando que você não queira comer na minha mesa. Esta análise, aparentemente simplista, retrata a dinâmica do domínio baseado na falsa sensibilidade pela desventura do outro. Esta sensibilidade vai até o limite de não perturbar a ordem social que é favorável. A seca não muda a sociedade, apenas a escancara. Portanto, a seca é uma visita indesejável também para a Mãe Nácia.</p>
<blockquote>
<h2>E é certo que, após a leitura de <em>O Quinze</em>, o leitor fará suas próprias reflexões.</h2>
</blockquote>
<p>Enfim. Não é objetivo aprofundar a análise socio-literária do romance de Rachel de Queiroz. O objetivo é apenas tecer loas a esta magnífica obra, ainda tão viva nos dias de hoje, após quase cem anos de sua publicação. Foi um presente oferecido a um povo que segue seu destino imposto por forças externas, sobre as quais ele pouco tem controle. Mas sua história está registrada com os aplausos efusivos das palavras.</p>
<p>Portanto, fica o convite ao leitor para ler — ou reler — esta magnífica literatura das secas, <em>O Quinze. </em>Que, ao lado de tantos outros romances, como <em>A Bagaceira</em>, de José Américo, e <em>Vidas Secas</em>, de Graciliano Ramos, parece ter normalizado a fatalidade climática do nordestino. Mas não é culpa da sensibilidade e talento artístico de Rachel de Queiroz, nem de José Américo de Almeida, tampouco de Graciliano Ramos a insistência histórica em colocar o dedo na ferida da seca. Como se quiséssemos nos furtar à responsabilidade de admitir que nosso conforto sempre tem um custo pago pelo sofrimento alheio. Ler esse tipo de literatura exige de nós responsabilidade social. E é certo que, após a leitura, o leitor fará suas próprias reflexões. E esperamos que estas reflexões passem pela miserabilidade humana, isto é, a de que o homem, para rejeitar seu próprio sofrimento, acaba causando sofrimento nos outros, prendendo-se às grades de ouro de sua própria insensibilidade, que é a vida vista a partir tão somente de si, jamais do outro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
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		<title>O Seminarista</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Jun 2021 15:55:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>AINDA É POSSIVEL SER ROMÂNTICO? Muitas perguntas sobre o que é ser romântico podem ser feitas a partir da perspectiva histórica do clássico romance brasileiro O Seminarista, de Bernardo Guimarães. Como sabemos, esse romance é um dos belos representativos da escola literária romântica, que teve seu auge no Brasil em meados do século XIX. Naquela [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h2><strong>AINDA É POSSIVEL SER ROMÂNTICO?</strong></h2>
<p>Muitas perguntas sobre o que é ser romântico podem ser feitas a partir da perspectiva histórica do clássico romance brasileiro <em>O Seminarista</em>, de Bernardo Guimarães. Como sabemos, esse romance é um dos belos representativos da escola literária romântica, que teve seu auge no Brasil em meados do século XIX. Naquela época, ser romântico era sinônimo de sofrimento. Da alma. E hoje em dia? Como andam os românticos? Eles existem? Se existem, é possível compará-los com seus pares de antigamente? Ou a pegada agora é outra? E as perguntas não param por aí. Há as mais específicas. O que é ser romântico? Sabemos ser? Somos? São tantas as perguntas, talvez caiba nos preocuparmos com apenas uma delas. É possível ser romântico nos dias de hoje?</p>
<p>No século XIX, havia tempo e espaço para o romantismo. As demandas externas eram pouquíssimas. Sem as redes sociais, sem as tecnologias, sem o carro na garagem, sem as possibilidades de percorrer o mundo em menos de um dia, em outras palavras, à época não havia tantas variedades felizes de vida. Tinham que se contentar com o que havia ao alcance. E o que havia, além de cavalos, lamparinas e folguedos? Os sonhos ao luar. E foi o que fizeram os protagonistas do romance “<em>O Seminarista</em>”, Eugênio e Margarida. Sonharam e sonharam, até que o roteiro tipicamente romântico lhes destruísse o sonho.</p>
<blockquote>
<h2>Impedidos de fazer valer a paixão, cria-se o cenário de sofrimentos, de saudades e de tragédia.</h2>
</blockquote>
<p>O menino Eugênio mora com seus pais em uma fazenda no interior de Minas Gerais, lá pras bandas de Ouro Preto. Na mesma fazenda, em uma casinha pobre mas limpa, mora a viúva Umbelina com sua filha Margarida. Eugênio e Margarida são amigos de infância, e depois amigos de adolescência. No entanto, o sonho da rica família é tornar Eugênio padre. Enviam-no para o seminário, em Congonhas do Campo. Ao se separarem, os adolescentes se descobrem perdidamente apaixonados um pelo outro. Impedidos de fazer valer a paixão, cria-se o cenário de sofrimentos, de saudades e de tragédia. Bernardo Guimarães, hábil escritor romântico, eleva a voltagem da narrativa a tensões máximas, quase insuportáveis. Afinal, o amor entre os dois jovens é proibido, portanto, tem que ser destruído. Esta é a batalha a ser travada. No entanto, o amor romântico resiste, é indestrutível. Mantém-se inteiro mesmo diante da morte. Aliás, sabemos disto desde os tempos de Romeu e Julieta. A paixão como uma feliz temporalidade cercada de infortúnios por todos os lados.</p>
<p>A pegada moderna é outra. Bem diferente. Os espaços destinados ao amor se reduziram perigosamente. Tudo hoje é acelerado. O tempo urge, as demandas são muitas, os apelos para se viver a vida vêm de todos os lados, festas e compromissos, cliques e <em>selfies</em>, cansaço e esgotamento, irritabilidade, enfim, o custo emocional para suportar tanta transitoriedade é muito alto. Se não formos práticos, como nos mantermos em pé diante de tanta agitação? Portanto, numa relação contemporânea a dois, nada de romantismo. Cabe apenas a praticidade. Beijinhos rápidos, porque a vida segue.</p>
<blockquote>
<h2>É possível ser romântico em um mundo assim tão sincero? Que escancara a realidade?</h2>
</blockquote>
<p>No entanto, se a proposta for cultuar o velho romantismo, vamos precisar abrir mão de alguns estilos de vida. Vamos precisar diminuir a velocidade, os excessos, os celulares, evitar interesses paralelos que consomem nossa atenção. Vamos precisar refazer o tempo. Entrar em outra órbita. Aguçar a sensibilidade. Dedicarmo-nos, enfim, por mais tempo à pessoa amada. Ouvir, assuntar, demorar-se com ela. A verdade é que o romantismo pede algumas coisas bem complicadas, com as quais já não estamos tão acostumados. Vamos ter que aceitar o parceiro e a parceira como ele e ela realmente são. Sem retoques. Sem reclamar. Conviver com as imperfeições do outro. Sem que sejam objetos de contestação. Como se não existissem. Para o romantismo, a regra é uma só. Não quebrar o encanto, jamais!</p>
<p>Mas como não quebrar o encanto se a realidade que pisamos todos os dias é tão dura? Cruel, às vezes? Oferecer flores custa caro e não duram cinco dias no vaso! Não poder sentir raiva dele? Dela? Não poder dizer, tipo, sua roupa está ridícula! Olha a sua barriga! Só te beijo se você escovar os dentes. Correr abrir a porta do carro pra ela? Atitude machista. Uma ofensa à mulher independente! Escolher o perfume dele? Até gostaria, mas não sei se eu quero. Antes ele precisa é de um bom desodorante. Não se diz para um romântico como você quer que ele explore o seu corpo. O romântico tem que saber tudo! Ter a sensibilidade radiográfica dos seus desejos! Enfim. É possível ser romântico em meio a tantos cacarecos do dia a dia?</p>
<blockquote>
<h2>Eis o que nos inspira <em>O Seminarista</em>: a construção da cumplicidade na relação, esta é a verdadeira batalha moderna!</h2>
</blockquote>
<p>Vamos ser sinceros. Não dá pra ficar calado diante das inúmeras contrariedades do cotidiano. Em meio a tantas pequenas e irritantes imperfeições! E tem o agravante. Os direitos e deveres da mulher se equiparam aos direitos e deveres do homem. É assim hoje em dia. Pé de igualdade total. Um fala, o outro tem que escutar. E o que escuta tem o direito de ser ouvido! É quase que dizermos que a relação se faz num ringue. A cada palavra um embate, a cada vontade um impasse. É possível ser romântico em um mundo assim tão sincero? Que escancara a realidade?</p>
<p>Ou seria este o mundo ideal para o florescimento de manifestações românticas? O mundo das sinceridades! Em que a mulher não precisa do feminismo para se proteger e o homem não precisa usar suas armaduras para se esconder. A igualdade será o terreno fértil para o cultivo do verdadeiro amor. Sem os medos de colocar as diferenças sobre a mesa, com todas as suas consequências. Seria, portanto, este um outro romantismo? Reciclado?</p>
<blockquote>
<h2>Uma sólida relação se começa pelo exercício da cumplicidade.</h2>
</blockquote>
<p>Chegamos aqui ao ponto crucial. Diante da independência de gêneros, calcada na liberdade e na sua consequente igualdade, estaria o casal disposto a comprar, ambos, a ideia do romantismo? A dar o seu quinhão de fantasias, de sensibilidades, de secretas ilusões? É preciso pensar bem antes de darem o passo. Por uma simples razão. Uma vez que só se é plenamente romântico a dois, os dois terão que se jogar, juntos, na banheira de espuma. Não pode existir romantismo a um. Romantismo a um, sabemos, leva ao sofrimento calado. E à solidão.</p>
<p>Enfim. Não é objetivo deste artigo destrinchar as possibilidades românticas dos tempos modernos. O que predominam aqui são as perguntas sem respostas. Mas não terminaria sem antes dar um norte ao romantismo contemporâneo. Entendemos até ser possível acreditar nele. Ser possível desenvolver um tipo de relação em que os amantes se levem profundamente em consideração, a ponto não só de se suportar no dia a dia como também de construir, para ambos, momentos inesquecíveis. Seja uma pequena delicadeza, seja um gesto que antecipe, seja um jantar à luz de velas. E para se chegar a isso acreditamos existir um caminho interessante. E sólido. A construção da cumplicidade na relação. Esta é a verdadeira batalha moderna! Se cúmplices um do outro, será mais fácil serem românticos um com o outro. A cumplicidade seria apenas a sustentação madura para os exercícios românticos. Fica aí a sugestão para o leitor. Começar uma sólida relação pelo caminho da cumplicidade.</p>
<blockquote>
<h2>É sim possível ser romântico nos dias de hoje.</h2>
</blockquote>
<p>E para finalizar, um convite. Convido você a ler este belo romance “<em>O Seminarista</em>”, e a mergulhar numa realidade que se pode dizer ilusória, mas que é também esteticamente prazerosa. Conheça a obra. Ou a releia.  Estão ali os ingredientes necessários para o sublime voo romântico. Terminada a leitura, aí sim o leitor poderá retornar ao século XXI e analisar suas possibilidades quanto a ser romântico nesta nossa contemporaneidade. Eu cá deixo um pouco da minha esperança. É possível. Desde que toda atitude romântica repercuta, ressoe, reverbere mutuamente um no outro, sob pena de se transformar num frustrante ato solitário. Para evitar os desgastes cotidianos, a cumplicidade protegerá o romantismo. Este pode ser o segredo moderno da relação! A cumplicidade gera a independência sem culpa e sem cobranças. Ao exercitá-la, e respondendo à pergunta do primeiro parágrafo, é sim possível ser romântico nos dias de hoje. No século XIX, o romantismo se alimentava de sonhos e de sofrimentos. Hoje ele se alimenta da pura realidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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