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	<title>Arquivos Steven Spielberg - Roberto Gerin</title>
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	<title>Arquivos Steven Spielberg - Roberto Gerin</title>
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		<title>A Cor Púrpura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Dec 2020 01:38:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A DOR PÚRPURA O filme A COR PÚRPURA (154’), direção de Steven Spielberg, EUA (1985), é baseado no belo livro homônimo de Alice Walker, publicado em 1982, que daria a ela o Prêmio Pulitzer, no ano seguinte. Esse livro surgiu das vísceras do mundo agrário no interior negro do sul dos Estados Unidos, portanto, surgiu [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h2>A DOR PÚRPURA</h2>
<p>O filme A COR PÚRPURA (154’), direção de Steven Spielberg, EUA (1985), é baseado no belo livro homônimo de Alice Walker, publicado em 1982, que daria a ela o Prêmio Pulitzer, no ano seguinte. Esse livro surgiu das vísceras do mundo agrário no interior negro do sul dos Estados Unidos, portanto, surgiu lá dos confins de uma África que teve seus filhos exportados para a escravidão nas Américas. Se é um hino à amizade e ao amor, é, antes de tudo, um hino à vida. É preciso denunciar as barbáries do patriarcado e do racismo, mas também se faz necessário entender como se constituem as relações familiares e seus reflexos nas relações sociais. É um filme sobre os fracassos convertidos em esperanças, dores que se perdem em meio ao riso. O lema é não deixar que os sofrimentos do passado atrapalhem o viver. Nada mais desejável que um dia após o outro para aplainar as dores e retroalimentar os sonhos.</p>
<blockquote>
<h2><em>A Cor Púrpura</em> de Steven Spielberg respeita <em>A Cor Púrpura</em> de Alice Walker.</h2>
</blockquote>
<p>Este é o hino cantado em cada página do livro de Alice Walker, e é esta mesma esperança que Steven Spielberg leva para a tela, conservando a grandeza humana que permeia os fatos a serem repudiados. O feliz roteiro de Menno Meyjes, que respeita o livro, inclusive utilizando-se dos diálogos de Alice Walker, vem preservar o grito original da obra literária: o de que a vida, a despeito de tudo, tem que continuar.</p>
<p>Antes de analisarmos o filme, cabe falar um pouco de Alice Walker, para entender como surgiu essa obra prima da literatura norte-americana, transformada em belíssimo filme. Menina feliz e extrovertida, nascida no interior da Geórgia — o coração negro do sul dos Estados Unidos —, Alice acaba sofrendo, na infância, um grave acidente. Ao brincar com os irmãos, perde a visão do olho direito. Este fato marcaria sua vida. Mais introspectiva, volta-se inteiramente para a leitura e a escrita.</p>
<blockquote>
<h2>Na ausência da cor púrpura, vem a dor machucada de Celie na gravidez do abuso.</h2>
</blockquote>
<p>Ativista, ao trazer para dentro da sua literatura as dores do racismo, ela não endeusa os negros em nome de uma causa superior — as lutas pela igualdade racial. No embate com o branco, o que se discute são os cotidianos das famílias negras. E nesses cotidianos, o que vamos ver são manifestações de poder, de abusos, de amores mal resolvidos, amizades duradouras, enfim, a santidade dos palcos das lutas por igualdade de direitos não será a mesma santidade entre quatro paredes. Esta abordagem honesta, trazida inteira para o filme, dá credibilidade humana e filosófica à narrativa fílmica.</p>
<p>O filme já começa impactando com a cor púrpura envolvendo as duas irmãs, Celie e Nettie, que, num caminhar afogueado de dança e felicidade, compõem a paisagem de um mundo idílico, do qual jamais pretendem se separar. Assim diz a letra da brincadeira: <em>“Makidada, nada vai afastar minha irmã de mim. Makidada, eu e você nunca vamos nos separar”. </em>Na ação seguinte, na mesma paisagem, mas sem a cor púrpura, vem a dor machucada de Celie na gravidez do abuso. O idílio já não é mais o mesmo, mas a obsessão de nunca se separarem está ainda mais viva. Sabem que precisam estar juntas para enfrentarem o mundo. Leia-se, machismo, abuso, racismo, ignorância.</p>
<blockquote>
<h2>Sem alternativa, o desespero leva Nettie a fugir de casa.</h2>
</blockquote>
<p>Celie e Nettie são duas irmãs que perdem o pai ainda pequenas e vão morar na casa do padrasto, de quem sofrerão ameaças psicológicas; e Celie, abusos sexuais. Muito pequenas, crescem apegadas uma a outra, com juras de nunca se separarem. São estas juras a fortaleza de um amor que nunca se renderá ao esquecimento e à distância. E a poesia, sobrevoando a obra, compõe os gestos de afeto que repercutirão ao longo de suas existências.</p>
<p>Celie (Desreta Jackson, menina), após gerar duas crianças por conta dos abusos de quem ela considerava ser seu pai, casa-se com Sinhô Albert (Danny Glover, perfeito), viúvo que precisava de uma mãe e de uma doméstica (mais doméstica que mãe) para cuidar de sua casa e prole. Logo se revela também um homem cruel, insensível aos sentimentos de Celie, fazendo dela uma mera propriedade, a quem pode espancar sob o menor pretexto, na maioria das vezes, inexistente. Ao receber como hóspede Nettie (Akosua Busia, expressiva), que fugira dos assédios do pai, Albert vai replicar os mesmos comportamentos abusivos. Sem alterna</p>
<blockquote>
<h2>Será a dor da saudade, simbolizada na cor púrpura, que moverá Celie para a vida.</h2>
</blockquote>
<p>Está montado o arco narrativo que vai explorar com muita sensibilidade e força dramática a história de Celie, cujo relato percorrerá praticamente a primeira metade do século XX. São histórias que se pulverizam em inúmeras personagens que vão nascendo e crescendo junto com a narrativa, tendo sempre como força motriz a obsessiva esperança de Celie de um dia receber uma carta com notícias da irmã.</p>
<p>Ao se separarem, esta foi a promessa: a de que manteriam contato por cartas. E eis a principal maldade do Sinhô Albert, e que se constituirá no fel criativo da trama de <em>A Cor Púrpura</em>. Por vingança — foi rejeitado por Nettie —, Albert recolhe e esconde todas as cartas enviadas por Nettie ao longo de trinta anos! Será a dor da saudade que moverá Celie para a vida.</p>
<blockquote>
<h2>A questão racial não é mero pano de fundo em <em>A Cor Púrpura</em>.</h2>
</blockquote>
<p>Na obra literária, a história de Celie é contada em forma de cartas que ela escreve para Deus — “Querido Deus”, é assim que ela inicia as cartas. Deus é o único ser, mesmo que ausente, com quem Celie pode conversar e ressignificar seus sofrimentos. É em cima desta singela estrutura epistolar que a narrativa se conduz nas suas dolorosas verdades. O filme mantém a mesma estrutura, aproveitando a voz de Celie como narradora onipresente. Esta opção dará ritmo e pulsão às imagens que vão se construindo diante de nossos olhos.</p>
<p>A questão racial não é mero pano de fundo em <em>A Cor Púrpura</em>. Apresenta-se em cada cena, em cada diálogo. Mas o que salta aos olhos é a narrativa da condição da mulher negra naquela sociedade rural. Traz a síntese do heroísmo feminino. A menina que nasce em meio a homens veio ao mundo para sofrer, eis a questão básica desta incansável discussão da vulnerabilidade feminina diante do machismo abusivo. Sofia, a corajosa nora de Albert, vai à luta o tempo todo. E sua grande decepção foi, depois de ter lutado contra pai, tios e irmãos, ter agora que lutar contra o marido. Prefere abandoná-lo.</p>
<blockquote>
<h2><em>A Cor Púrpura</em> seria a primeira direção de drama de Steven Spielberg.</h2>
</blockquote>
<p>O contraponto das belíssimas construções do feminino negro nas figuras de Celie, Shug Avery e Sofia surge da histriônica figura da mulher branca do prefeito, Millie (Dana Ivery). Ela parafraseia a insensibilidade sociorracial na poderosa sequência de cenas, talvez uma das manifestações mais cínicas que já se viu no cinema, em que Sofia ensina a patroa a dirigir. A fragilidade do branco diante de sua obra macabra (o racismo) extrapola qualquer possibilidade de deleite e riso por parte do espectador. Antes, é motivo de espanto.</p>
<p>Steven Spielberg, à época em que foi indicado para dirigir o filme, era visto como um diretor talentoso e promissor, mas que havia feito apenas filmes infanto-juvenis de grandes sucessos. <em>A Cor Púrpura</em> seria sua primeira direção de drama e o resultado era esperado com grande expectativa e alguma desconfiança. Diretor branco, jovem em processo de amadurecimento encarando temáticas espinhosas, qual seria o resultado? Qual seria o mergulho?</p>
<blockquote>
<h2>O filme <em>A cor Púrpura</em> eleva o feminino à sua grande máxima.</h2>
</blockquote>
<p>Quando do lançamento, houve reticências quanto a seu trabalho, tanto que o filme foi indicado a onze estatuetas, nenhuma delas a de Melhor Diretor. Será que um diretor mais experiente em dramas, de preferência negro, traria uma pegada mais forte e fidedigna às realidades trazidas pelo livro? Como saber. Mas não se pode negar que <em>A Cor Púrpura</em> de Steven Spielberg demonstra qualidades que fazem o filme sobreviver ao tempo. E hoje fica difícil entender (ou não) por que o filme não levou, em 1986, sequer uma estatueta. Das onze indicações!</p>
<p>Em suma. O filme, amparado por maravilhosa obra literária, é um cântico de esperança em meio às trágicas vivências de mulheres pretas aprisionadas, pela terrível máscara do preconceito, em becos sociais. E ali são esquecidas por uma sociedade que se nega a reconhecê-las. A aplaudi-las.</p>
<blockquote>
<h2>É um ato de humildade reconhecer que a dor não pode ser confinada à ficção.</h2>
</blockquote>
<p>No entanto, o filme, nas figuras estonteantes das atrizes Whoopi Goldberg (Celie), Margaret Avery (Shug Avery) e Oprah Winfrey (Sofia), eleva o feminino à sua grandeza máxima. Elas funcionam como condutoras de realidades contra as quais as mulheres pretas têm que lutar o tempo todo. Mesmo a subjugada Celie, vai ela aos poucos sendo conduzida para sua consciência de ser humano mulher, preta, feia e pobre, fazendo destes “atributos” suas armas de viver. E é tão forte, tudo, que a força humana do livro conduz a narrativa cinematográfica. É o cinema se debruçando humildemente diante de temáticas que ele apenas tenta reproduzir, com o cuidado de não se apoderar de verdades absolutas. É um ato de humildade reconhecer que a dor não pode ser confinada à ficção.</p>
<p>&nbsp;</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
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		<title>A Lista de Schindler</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 Nov 2020 13:21:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>UM FILME DE ARREPIAR! A LISTA DE SCHINDLER (197’), direção de Steven Spielberg, EUA (1993), ganhador de sete Oscar, sete Bafta e três Globos de Ouro, é um daqueles filmes que são produzidos para colocar a história no seu devido lugar. Por isso não poupa os horrores, não poupa realismo. O que vamos ver na [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1>UM FILME DE ARREPIAR!</h1>
<p>A LISTA DE SCHINDLER (197’), direção de Steven Spielberg, EUA (1993), ganhador de sete <em>Oscar</em>, sete <em>Bafta</em> e três Globos de Ouro, é um daqueles filmes que são produzidos para colocar a história no seu devido lugar. Por isso não poupa os horrores, não poupa realismo. O que vamos ver na tela é uma réplica terrível de fatos que assombram a história do holocausto. E para dar certificado à verdade, vamos ver no final do filme a singela cerimônia dos idosos sobreviventes — eis o belo toque documental —, salvos pela corajosa intervenção do empresário alemão Oskar Schindler. É por causa dele que os mil e cem sobreviventes são também conhecidos como os judeus Schindler.</p>
<p>Trocando em miúdos, <em>A Lista de Schindler</em> nos coloca diante de reais fatos históricos. E o filme acaba sendo uma homenagem justa a este homem cuja coragem trouxe alívio para muitos em meio aos sofrimentos causados pela guerra e pela perseguição aos judeus. Como tantas outras histórias de generosidade, esta também tem a marca do heroísmo.</p>
<blockquote>
<h2>Por trás de uma alma cheia de vícios, existia o humano pronto para seguir caminhos inesperados.</h2>
</blockquote>
<p>Oskar Schindler, nascido em 1908, no que conhecemos hoje como República Checa, deixa a mulher no interior e vai para a Cracóvia tentar se fazer na vida. Homem de traços finos, gostos requintados, elegância meticulosa, colecionador de amantes, de grandes festas e farta bebida, este ser profano tinha um único objetivo: ficar rico. E espertamente logo percebe que a guerra, e em particular a perseguição aos judeus, poderia lhe render enormes vantagens. Em 1939, com a ajuda de judeus ricos, compra uma fábrica de esmaltados falida. Alemão, nazista, articulado, inescrupuloso, ele consegue, com subornos, corromper as altas patentes do Reich, transformando-se num dos homens mais ricos e influentes da Polônia.</p>
<blockquote>
<h2><em>A Lista de Schindler</em> monta um vigoroso painel das perseguições aos judeus na Cracóvia.</h2>
</blockquote>
<p>Este é o início da trajetória de um homem ambicioso, que de bem-intencionado não tinha nada, pelo contrário, com movimentos claramente egoístas aproveitou-se dos pobres judeus como mão de obra barata para atingir seus objetivos. Aliás, muitos industriais à época aproveitaram-se de mão de obra gratuita para, sob o disfarce do esforço de guerra, alavancar seus negócios. Neste panorama, o que Oskar Schindler tinha de diferente era que ele tratava com urbanidade os seus empregados. Por trás de uma alma cheia de vícios, existia o humano pronto para seguir caminhos inesperados.</p>
<p>Ao relatar a trajetória da personagem Oskar Schindler (Liam Neeson, fenomenal), <em>A Lista de Schindler</em> monta um vigoroso painel das perseguições aos judeus na Cracóvia, desde a invasão da Polônia, em setembro de 1939, até a derrocada do regime nazista, com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.</p>
<blockquote>
<h2>Depois de matar alguns “ratos”, deposita o fuzil e vai urinar.</h2>
</blockquote>
<p>A primeira parte de <em>A Lista de Schindler</em> se ocupa em esboçar a figura de Oskar Schindler, com suas manobras duvidosas para adquirir a fábrica e aparelhá-la com mão de obra judia. A partir do instante em que o gueto é desocupado (1943), e todos os judeus — inclusive os empregados de Schindler — encaminhados para o campo de concentração, inicia-se aqui, com cruel acabamento de cenas, toda uma sucessão de horrores que irá representar a história dos milhões de judeus mortos nos campos de concentração alemães.</p>
<p>Para sedimentar a estrutura da maldade, surge a personagem do mal no comandante do campo de concentração, Amon Goeth (Ralph Fiennes). Ele vai nos proporcionar uma bateria de cenas horripilantes, em detalhes clamorosos — comporta-se como um imperador romano —, com especial atenção para a cena que acontece no minuto 75 do filme, uma das piores a que se pode assistir em qualquer produção sobre o holocausto. É o auge da barbárie, é a anulação do ser humano provido de racionalidade, é a cena em que Amon, da sacada de sua casa, faz tiro ao alvo em seres humanos, quer dizer, em judeus. Depois de matar alguns “ratos”, deposita o fuzil e vai urinar.</p>
<blockquote>
<h2>A Lista de Schindler nos oferece um cardápio de cenas de pura humanidade.</h2>
</blockquote>
<p>A parte mais emblemática da longa narrativa é quando Oskar Schindler passa a conviver com o sanguinário Amon Goeth. Afinal, a fábrica também teve que ser transferida para dentro do campo de concentração. Na base desta convivência “amistosa” está o suborno. Na visão dos oficiais alemães, Schindler sabia o que era gratidão. Não era uma ideia vaga, dinheiro é concreto e aparece com facilidade sobre as mesas dos que decidem. E Oskar Schindler sempre fica agradecido quando seus interesses são atendidos. E os oficiais ficam ainda mais agradecidos com os agradecimentos de Oskar. É esta dinâmica de corrupções que vai possibilitar a Schindler executar seu plano de salvar mil e cem judeus. Cada vida terá seu preço.</p>
<p>Do tripé de personagens que move a narrativa, falta falar do hábil contador que comandará a fábrica de panelas, o judeu Itzhak Stern (Ben Kingsley, perfeito). Como ótimo farejador de oportunidades, Oskar Schindler encontra em Stern sua garantia de sucesso comercial. E será Stern quem o ajudará na execução do plano de libertação dos judeus. A conversa de apresentação entre os dois define como será a relação entre eles. Diz Itzhak. <em>“Por lei, tenho que avisar que sou judeu.”</em>. No que Oskar responde. <em>“E eu sou alemão. Assunto encerrado.”</em>.</p>
<blockquote>
<h2>Esta cena não estava no cardápio comercial de Schindler.</h2>
</blockquote>
<p>Itzhak Stern, homem simples, objetivo e cauteloso, é quem irá estimular o lado “bom” de Oskar Schindler. Até certo momento do filme, a dicotomia entre bom e mau em Schindler será uma convivência linear, pouco conflituosa. Mas a construção do arco da personagem em direção à sua transformação para o bem se dará ainda no começo do filme, quando Itzhak introduz o senhor idoso e maneta que vem agradecer a Schindler pelo emprego na fábrica. Quem lhe dera o emprego foi o próprio Itzhak. Schindler reage à presença do homem e censura Itzhak pela sua ação humanitária. Esta cena não estava no cardápio comercial de Schindler. Mas é ela que vai acender em Oskar a primeira chama da bondade.</p>
<blockquote>
<h2>O filme <em>A lista de Schindler</em> traz a bondade como passaporte para a sobrevivência.</h2>
</blockquote>
<p>(No minuto 125 de <em>A Lista de Schindler</em> é quando se dá a transformação definitiva em direção acelerada ao homem “bom”. É quando Schindler, compadecido, pega a mangueira e banha os judeus empilhados nos sufocantes vagões do trem.)</p>
<p>Vale ressaltar uma das características mais bem construídas da personalidade de Oskar Schindler. Ele reage à ideia de ser uma pessoa bondosa (diferente de Amon, que não reage à ideia de ser mal). Para Schindler, a bondade não está na base da construção da sua fortuna. Ele reage a todo pedido que pressupõe o ato de ser bondoso. Às vezes, com fria agressividade. É como se batessem à porta, ele abrisse, visse quem é, batesse a porta na cara, para logo em seguida abri-la e convidar a pessoa para entrar. Esta dinâmica constitui o fundamento original da personagem Schindler, que possibilitará encaminhar o seu arco para a ação máxima do filme — a de salvar os mil e cem judeus.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>A Lista de Schindler</em>, a realidade transcende as veleidades ficcionais e vai bater à nossa porta, impiedosamente.</h2>
</blockquote>
<p>Ainda analisando os movimentos de Schindler, percebemos que sua forma de reagir à bondade é pender perigosamente para o mal. Chega a defender o humanismo em Amon! Na guerra, diz ele, mostramos nosso lado ruim. Mas se estivesse tudo normal, também Amon seria uma pessoa boa! Veja a perversa dialética construída para justificar o injustificável. Inclusive para si mesmo, pois Schindler não era tolo o suficiente para não conseguir separar a maldade de suas circunstâncias. Neste caso, o mesmo pé que pisa o tapete vermelho é o pé que depois pisará a lama. Mudam as circunstâncias, mas o pé é o mesmo.</p>
<p>Cabe mencionar de passagem a famosa cena da menina de vermelho caminhando pela rua do gueto, e lá em cima Oskar Schindler, a cavalo, observando os trágicos acontecimentos.  É um dos pontos mais sensíveis e bem-acabado de <em>A Lista de Schindler</em>. O vermelho inocente em meio às barbáries em preto e branco — escolha estética decisiva — pode nos trazer várias simbologias. Deixamos aqui apenas uma. A significação do momento em que Schindler de fato toma consciência dos horrores em que ele próprio está envolvido.</p>
<blockquote>
<h2>A realidade em <em>A Lista de Schindler</em> suplanta as veleidades ficcionais.</h2>
</blockquote>
<p>Em suma. As terríveis situações de guerra e a implacável perseguição aos judeus é que vão construindo a alma virgem de Oskar Schindler. Vem do interior para a cidade grande com o sonho de encher duas malas de dinheiro. Enche mais que isso. Crava seu nome na história. E quem burila sua alma é o silencioso contador Itzhak que, serenamente, vai alimentando em Schindler o fogo brando da infinita compaixão.</p>
<p>Temos, e é nosso desafio, que olhar com muita atenção (e espanto) para o que o filme nos mostra. Pode parecer ficção, imaginação de roteirista e idiossincrasias de diretor. E são. Só que a realidade transcende as veleidades ficcionais e vai bater à nossa porta, impiedosamente. O que está ali na tela não aconteceu exatamente daquele jeito. Nem podia. Aconteceu pior! Posto que a arte, por mais nobre, jamais é corajosa o suficiente para abraçar a realidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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