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	<title>Arquivos Tim Robbins - Roberto Gerin</title>
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	<title>Arquivos Tim Robbins - Roberto Gerin</title>
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		<title>Sobre Meninos e Lobos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Feb 2022 12:00:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>COMO PRODUZIR TRAGÉDIAS O premiado SOBRE MENINOS E LOBOS (137’), direção de Clint Eastwood, EUA/Austrália (2003), é um filme que fala das pequenas tragédias familiares que, enfiadas todas num mesmo roteiro, vão gerar as grandes tragédias. Mas o filme também mostra outra realidade. Quem produz as tragédias somos nós, justamente por sermos muitas vezes incapazes [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h2>COMO PRODUZIR TRAGÉDIAS</h2>
<p>O premiado SOBRE MENINOS E LOBOS (137’), direção de Clint Eastwood, EUA/Austrália (2003), é um filme que fala das pequenas tragédias familiares que, enfiadas todas num mesmo roteiro, vão gerar as grandes tragédias. Mas o filme também mostra outra realidade. Quem produz as tragédias somos nós, justamente por sermos muitas vezes incapazes de suportar as nossas dores. Então, o alerta. Não carreguem o que não podem suportar. Busquem ajuda. Porque o próximo passo será fazermos alguma escolha errada, ingrediente básico para darmos um rumo triste às nossas vidas.</p>
<p>Esta é exatamente a história de Dave Boyle. Houve a decisão errada do menino Dave ao entrar no carro de um desconhecido. Trinta anos depois, o mesmo erro do homem Dave aceitando o convite para entrar no carro de um desconhecido. Este é o gancho dramático que dá a Clint Eastwood a oportunidade de manipular a construção da narrativa de <em>Sobre Meninos e Lobos</em>. E ele nos pega de jeito. O que nos leva a ver Clint Eastwood como um dos maiores trapaceiros do cinema moderno. No bom sentido, claro.</p>
<blockquote>
<h2>O impacto deste trágico acontecimento irá repercutir para o resto de suas vidas.</h2>
</blockquote>
<p>O curioso é que, a despeito da sofisticada engenharia dramática de seus filmes, Clint Eastwood não escapa às receitas de bolo hollywoodianas. Busca a qualidade artística, mas sem colocar em risco a bilheteria. Sabe como ninguém manusear as emoções de modo a alcançar seus objetivos estéticos. E estética é prazer. Neste sentido, seus objetivos são diretos e ousados. Ele faz de <em>Sobre Meninos e Lobos</em> uma ode ao prazer de se assistir a um filme amargo. Como se a dor humana fosse a cereja do bolo. E como não poderia deixar de ser, as dores perpassam pelas famílias, o epicentro das tragédias. Não à toa, a família é um tema caríssimo a Clint Eastwood. E a Hollywood.</p>
<p>Numa mesma noite, quase ao mesmo tempo, dois crimes se entrelaçam e produzem um interminável cardápio de sofrimentos. Este é o núcleo narrativo do roteiro de <em>Sobre Meninos e Lobos</em>. Mas a narrativa começa lá atrás, mais ou menos trinta anos antes, quando três garotos, Jimmy, Sean e Dave, nos seus onze anos, brincam na rua em frente às suas casas. No momento em que gravavam seus nomes no cimento fresco, foram abordados por dois pedófilos disfarçados em policiais. Um dos meninos, Dave Boyle, pressionado, entra no carro e desaparece por quatro dias. E o que aconteceu nestes quatro dias, o espectador, atônito, já deduz.</p>
<blockquote>
<h2>Por que não percebemos que repetimos os mesmos movimentos que nos destroem?</h2>
</blockquote>
<p>O impacto deste trágico acontecimento irá repercutir para o resto de suas vidas. Muito mais para Dave, evidente, a vítima direta. Só que se observarmos os movimentos da vida com uma lupa mais potente, vamos ver que esses movimentos tendem a se repetir. Com Dave Boyle não foi diferente. Ele entrou na sua tragédia e não mais conseguiu sair dela. Tanto é evidente que, já adulto, de novo ele vai entrar no carro. Por que não percebemos que repetimos os mesmos movimentos que nos destroem? Este é um dos princípios terríveis do abuso. Uma vez que ele entra em você, ele fica. E da maneira como você o recebe, ele te destrói.</p>
<p>Dentro da proposta do enredo, a incômoda temática do abuso vai ocupando todas as entrelinhas da narrativa. No entanto, o fio condutor da trama é o crime que ocorre logo no início do filme. Um crime fortuito, a princípio. Só que, como vamos perceber, de fortuito não tem nada, uma vez que ninguém morre por morrer, principalmente na ficção.</p>
<p>Katherine, a filha de Jimmy Markum (Sean Penn), um dos meninos abordados pelos pedófilos, é assassinada. As buscas pelo assassino vão retroalimentar a tensão dramática, que ganha contornos fortíssimos quando a suspeita recai sobre Dave Boyle (Tim Robbins). E mais. O desespero do pai pela perda da filha — que clama mais por vingança que por justiça — e as ações detetivescas de um Estado titubeante elevarão a tensão do filme a altas voltagens, obrigando o espectador a dobrar a dose de pipoca.</p>
<blockquote>
<h2>No entrecho do roteiro de <em>Sobre Meninos e Lobos</em>, os papéis femininos justificam a insanidade.</h2>
</blockquote>
<p>Clint Eastwood, de posse de um roteiro inteligente, parte para a construção de uma alegoria sobre a ausência de controle moral por parte de uma sociedade que compactua com a delinquência como desculpa para não ter que tirar, em hipótese alguma, o capuz da hipocrisia. Neste caso, a ação individual e a ação coletiva ocuparão os mesmos espaços. E é o que nos mostra o final do filme que, como é sabido, desagrada a uma boa parte dos que já assistiram a <em>Sobre Meninos e Lobos</em>. Portanto, cabe uma explicação.</p>
<p>Após o desfecho traumático, o filme termina com as cenas que se passam na rua, onde ocorre um desfile assistido pelas famílias que estão ali para aplaudirem seus filhos encavalados em carros alegóricos. Banda festiva, olhares apreciando a evolução do desfile. A atmosfera de harmonia e convivência pacífica cria uma tênue camada de cinismo, que deixa antever claramente que novas tragédias estão sendo gestadas. Este é o final necessário para que o espectador fique, de uma vez por todas, incomodado. E o espectador traduz seu incômodo não gostando do final, “que não precisava”, “que podia ter terminado antes”, enfim, manifesta suas opiniões para lidar com o próprio incômodo. E o incômodo mais aumenta quando vemos, antes das cenas do desfile, o emblemático diálogo entre Marianne e Jimmy, na cama, quando ela, ciente do engano trágico do marido, faz-lhe a apologia do herói. Herói, um delinquente? Criminoso? E aqui nos encaminhamos para uma outra questão a se observar no filme. A força dramaticamente propulsora dos papéis femininos.</p>
<p>Infelizmente, no entrecho do roteiro, os papéis femininos justificam a insanidade. Vale observar que, sem a paranoia de Celeste (a premiada Laura Linney), talvez o trágico pudesse ter sido abortado. Na esteira do cinismo egoísta de Marianne (a fabulosa Márcia Gay Harden), o trágico fará novas vítimas. Eis o infeliz peso do feminino na execução do roteiro.</p>
<blockquote>
<h2>No jogo entre a verdade e a mentira, vence a mentira.</h2>
</blockquote>
<p>E antes de finalizar, vamos falar um pouco do brilhantismo deste premiado roteiro. Extremamente bem urdido. Demasiado tecido. Chega a lembrar um tapete persa. Quem for candidato a escrever roteiros de cinema, eis uma aula indispensável. Vemo-nos envolvidos numa trama novelística tal que, mesmo tendo <em>Sobre Meninos e Lobos</em> mais de duas horas de duração, não conseguimos sentir o tempo passar. Estica sem dó os nervos do espectador. E é simples. Simples porque trabalha em torno de uma pergunta bem novelesca. Quem matou Katie?</p>
<p>E muitos prêmios e muitas indicações! Oscar, Globo de Ouro, Bafta. E com uma trilha sonora que se encaixa direitinho no ritmo ofegante de nossos batimentos cardíacos.</p>
<p>Em suma. As dores que remoemos silenciosamente por traumas ocorridos em algum tempo de nossas vidas acabam por tomar conta da nossa identidade. Se não as expulsarmos, ou pelo menos se não as acalentarmos, é o que irá acontecer. E o que o filme nos mostra, através da maldade criativa de um Clint Eastwood diretor, é que as dores geram uma tragédia injusta.  No jogo entre a verdade e a mentira, vence a mentira. E quando a mentira for desmascarada, já será tarde. Aqui está o punhal que <em>Sobre Meninos e Lobos</em> enfia em nosso peito. Pior que uma tragédia é uma tragédia da qual a vítima não precisava estar participando. Mas, ao participar, terá vivido inutilmente. Desfigurada pelas suas dores.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Um Sonho de Liberdade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Jan 2022 00:47:05 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>A OBSESSÃO PELA LIBERDADE</strong></h1>
<p>O drama clássico UM SONHO DE LIBERDADE (140’), direção de Frank Darabont, EUA (1994), é baseado no romance <em>Rita Hayworth and Shawshank Redemption</em>, publicado em 1982 pelo escritor norte-americano Stephen King, com quem o diretor divide o eficiente roteiro. O próprio título em português traz a feliz solução que resume o ponto central do filme — a busca para lá de obsessiva pela liberdade como única forma de se redimir da injustiça de que o protagonista fora vítima ao ser acusado pelo assassinato da esposa e seu amante.</p>
<blockquote>
<h2><em>Um Sonho de Liberdade</em> transforma-se num exercício de existência silenciosa.</h2>
</blockquote>
<p>O problema é que todas as evidências levaram à condenação de Andy Dufresne à prisão perpétua. E agora, diante da indiferença do sistema penitenciário sobre sua inocência, resta-lhe munir-se de paciente inteligência para lidar, sem maiores atritos, com o desumano cotidiano prisional. O que lhe interessa é tecer cuidadosamente seu longo sonho de liberdade. Nesse sentido, o filme <em>Um Sonho de Liberdade</em> transforma-se num exercício de existência silenciosa. O protagonista constrói em torno de si uma relação de empatia com seus companheiros raramente vista em ambientes tão hostis. Foi a tática (humana) que ele espertamente adotou para seguir adiante. Afinal, para Andy, a busca pela liberdade simboliza tão somente a busca pela verdade.</p>
<blockquote>
<h2>Red aposta suas fichas no arrumadinho Andy, para ele a peça humana mais frágil daquele comboio de sentenciados.</h2>
</blockquote>
<p>Um dos pontos felizes do roteiro é ter ele delegado ao detento Ellis Boyd “Red” Redding (Morgam Freeman) a responsabilidade de narrar o drama do jovem bancário Andy Dufresne (Tim Robbins), preso em 1946, acusado de matar, como já se disse, a esposa e seu amante. É através da voz de Red que vamos conhecendo quem é esse inquebrantável Andy Dufresne.</p>
<p>A narrativa começa com os detentos observando a chegada dos novos condenados, entre eles Andy. O contrabandista Red propõe apostas para ver qual dos novos detentos vai primeiro sucumbir às primeiras violências da prisão. Red evidentemente aposta suas fichas no arrumadinho Andy, para ele a peça humana mais frágil daquele comboio de sentenciados. É o momento crucial para <em>Um Sonho de Liberdade</em> pincelar, com sagaz sensibilidade, os sofrimentos psicológicos a que estes seres humanos são submetidos, independente do crime que trazem no currículo. O silencioso autocontrole do seu escolhido surpreende Red, levando-o a perder as apostas.</p>
<blockquote>
<h2><em>Um Sonho de Liberdade</em> se apoia na relação entre os dois amigos como veio condutor da trama.</h2>
</blockquote>
<p>A partir de então, Red estabelece com Andy uma relação de respeito e admiração. A aproximação se dá primeiro pela curiosidade, depois pelas afinidades, caracterizadas pela forma como ambos enxergam a vida acontecendo dentro e fora da prisão. Dividem suas angústias, seus sonhos e suas esperanças, formando uma dupla respeitada (mas não temida) por boa parte dos presidiários. E mesmo Andy sofrendo por anos de violência sexual coletiva, ele se mantém, para espanto de Red, calmo e frio. A amizade de Red servirá para Andy como um escudo emocional necessário para atravessar incólume seus insuportáveis anos de penitenciária.</p>
<p>Neste sentido, estrategicamente <em>Um Sonho de Liberdade</em> se apoia na relação entre os dois amigos como veio condutor da trama, formatada pela versão do narrador Red. A admiração que Red nutre pela inteligência, frieza e solicitude de Andy é que dá o tom e o ritmo ao filme, conferindo ao drama uma dimensão de factível realidade. Numa disputa de inteligências, jogos de paciência e manobras financeiras, Andy vai cimentando, no esforço inabalável de uma formiga, seu sonho de liberdade.</p>
<blockquote>
<h2><em>Um Sonho de Liberdade</em> reforça a ideia de que é possível alcançar o que parece ser inalcançável.</h2>
</blockquote>
<p>No entanto, o que nos é mostrado no cotidiano da prisão não traz tantas novidades, uma vez que essa temática sempre foi muito explorada pelo cinema. Para quem quiser ir um pouco além, podemos mencionar, dentre tantos clássicos, dois deles. <a href="https://escritorgerin.com.br/o-expresso-da-meia-noite/"><em>O Expresso da Meia-noite</em></a>, que conta a história de um presidiário norte-americano nas perversas prisões turcas, e <em>Alcatraz: a fuga impossível</em>, com Clint Eastwood, que narra a fuga de três homens do mais seguro complexo penitenciário de que se tem notícia, plantado em uma ilha em frente à São Francisco, na Califórnia.</p>
<p>Cabe mencionar também um dos principais romances do escritor russo Fiódor Dostoiévski, <em>Recordação da Casa dos Mortos</em>, em que o autor narra, com plena sensibilidade, análise de perfis psicológicos e indisfarçada crueza, os quatro anos em que ficou preso nos confins da Sibéria, condenado por suposta subversão ao regime czarista dos Romanov.</p>
<blockquote>
<h2>Era disso que Andy precisava: chegar ao centro do poder.</h2>
</blockquote>
<p>A despeito de todas as obras mencionadas terem em comum a obstinada busca pela liberdade, o filme <em>Um Sonho de Liberdade</em> traz um sabor diferente, todo peculiar. Afinal, ninguém passa vinte anos metodicamente cavando um túnel com uma picareta tão minúscula que cabe na palma da mão. Haja resiliência!</p>
<p>O outro lado oferecido pela trama é a aproximação do hábil e tarimbado Andy com a administração da penitenciária. Seus conhecimentos contábeis servirão como um salvo conduto, trazendo-lhe pequenas vantagens, muitas das quais ele as oferece aos seus amigos. Até chegar ao gabinete do religioso e corrupto diretor do presídio, Samuel Norton (Bob Gunton), e se tornar seu fiel contador. Era disso que Andy precisava: chegar ao centro do poder.</p>
<p>Andy se apodera aos poucos de uma rede de relações e interferências que vão possibilitar não só a sua fuga como também permitir a vingança contra seus algozes. No entanto, a sede de vingança não é o mote que alimenta a narrativa. É apenas a consequência de uma estratégia pessoal de agir, onde o que interessa, em cada movimento, é a conquista da liberdade.</p>
<blockquote>
<h2><em>Um Sonho do Liberdade</em> nos ensina que preservar o que somos é condição <em>sine qua non</em> para continuarmos livres.</h2>
</blockquote>
<p>Em suma. <em>Um Sonho de Liberdade</em> se transforma num grito de sensibilidade ao humanizar homens que foram condenados a passar a vida trancafiados por um sistema presidiário implacável e corrupto. E no caso específico de Andy, por um sistema jurídico também corrupto. Os detentos são estigmatizados por seus crimes, portanto, ignorados pela sociedade, como se não merecessem tratamento digno. A desfiguração da identidade os leva muitas vezes a perderem justamente seu sentido de liberdade, não suportando serem reconduzidos a viver em sociedade. A prisão torna-se seu <em>habitat</em> natural.</p>
<p>No entanto, Andy sai incólume deste jogo perverso, o que dá ao filme seu sentido máximo. Somos seres humanos capazes de nos adaptarmos, sem, contudo, para isso, precisarmos abrir mão da nossa identidade. Preservar o que somos é condição <em>sine qua non</em> para continuarmos livres.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h2><span style="font-size: 16px;">Conheça </span><a style="font-size: 16px;" href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a><span style="font-size: 16px;">, uma obra de Roberto Gerin.</span></h2>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
<p>O post <a href="https://escritorgerin.com.br/um-sonho-de-liberdade/">Um Sonho de Liberdade</a> apareceu primeiro em <a href="https://escritorgerin.com.br">Roberto Gerin</a>.</p>
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