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	<title>Arquivos 2021 - Roberto Gerin</title>
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	<title>Arquivos 2021 - Roberto Gerin</title>
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		<title>Ataque dos Cães</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Mar 2022 17:39:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>QUEM É O CÃO QUE ATACA? Sempre quando surge um filme cuja qualidade artística está acima da média, e que por isso chama a atenção do grande público, passamos a ouvir as mais diversas opiniões e exclamativos sobre a obra em questão. É o que está acontecendo com o enigmático ATAQUE DOS CÃES (128’), direção [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h2>QUEM É O CÃO QUE ATACA?</h2>
<p>Sempre quando surge um filme cuja qualidade artística está acima da média, e que por isso chama a atenção do grande público, passamos a ouvir as mais diversas opiniões e exclamativos sobre a obra em questão. É o que está acontecendo com o enigmático ATAQUE DOS CÃES (128’), direção de Jane Campion, EUA (2021). Inclusive esse ar enigmático já começa pelo título. A que cães se refere o título? Depois ficamos sabendo que a menção vem de uma referência bíblica, um alerta divino à aproximação da maldade. E a presença do cão invisível se materializa na visão de um cão desenhado na encosta das colinas de Montana que cercam a fazenda dos Burbanks. O alerta está lá, estampado no horizonte.</p>
<p>Por ter uma pegada de faroeste, <em>Ataque dos Cães</em> traz embutido em sua proposta um risco considerável, principalmente frente aos amantes desse gênero. Falo do ritmo. Sim, faroestes que se prezam tem uma pegada rudemente frenética, com trotear de cavalos que antecipam o próximo tiroteio. Em <em>Ataque dos Cães</em> sequer uma arma é mostrada na tela. A morte aqui é fermentada de outra forma, lenta, tecida, planejada, oculta, sem estalidos. Reside nesta proposta a força dramática do filme, que desemboca em um desfecho convincente e até surpreendentemente bem-urdido. Portanto, em suas discussões em mesas de bar, não peçam ritmo de faroeste a <em>Ataque dos Cães</em>. Atentem-se para o que o filme oferece. Ritmo intimista, perversamente silencioso.</p>
<blockquote>
<h2><em>Ataque dos Cães</em> é baseado no romance de Thomas Savage, lançado em 1967, cujo título em inglês é <em>The Power of the Dog.</em></h2>
</blockquote>
<p>A personagem mais sedutora de <em>Ataque dos Cães</em>, ocultamente feroz, é Phil Burbank, estrelada por uma feliz (e merecedora do Oscar) atuação de Benedict Cumberbatch, um caubói na verdadeira acepção da palavra. Gosta de gado, da lida da fazenda, toma banho em rios, mas só de vez em quando, afinal os salamaleques sociais não são muito a sua praia. É rude, pretensamente perverso e de inteligência sagaz. Enfim, uma figura marcante, deslocada no tempo e no espaço.</p>
<p>Contrapõe-se ao perfil ameaçador de Phil o seu irmão George Burbank, com a atuação precisa e minimalista de Jesse Plemons. Plemons compõe uma personagem totalmente integrada ao sistema. George Burbank é civilizado, ostenta figurino urbano e se movimenta por meio de poucas palavras e muita sensibilidade. A bem-construída relação de personalidades opostas entre os irmãos, geradora potencial de conflitos, é um dos pontos altos da dramaturgia do filme. Fazendeiros ricos e solteiros que ocupam o imenso casarão da fazenda, gerindo uma bem-sucedida criação de gados, até que&#8230; George se casa com uma conhecida viúva e tal fato descontenta e desequilibra Phil.</p>
<p><em>Ataque dos Cães</em> é baseado no romance de Thomas Savage, lançado em 1967, cujo título em inglês é <em>The Power of the Dog</em>. Savage é um escritor estadunidense que se dedicou ao gênero faroeste e que empresta a este romance muito da sua biografia. Peter, o narrador testemunhal da história, se transforma em alter ego do autor. É a realidade sufocante mostrada a partir de Peter, filho da viúva Rose, com quem George Burbank se casará. E ao ir morar com a mãe no grande casarão, Peter precisará agir para defender Rose dos ataques caninos de Phil, o selvagem.</p>
<blockquote>
<h2>O desenho do perfil equilibrado do irmão George vai funcionar como a batuta que determinará o ritmo de <em>Ataque dos Cães</em>.</h2>
</blockquote>
<p>O filme exibe em seu início a chegada dos caubóis e seu gado a uma estalagem onde pensam em comer e pernoitar. As cenas do jantar desenham todas as relações que irão compor o roteiro nas próximas duas horas. São cenas para o espectador prestar muita atenção se quiser fazer uma leitura mais precisa do filme. Apresentam-se ali as quatro personagens responsáveis por uma teia de relações doentias e perigosas.</p>
<p>Nesse contexto, o desenho do perfil equilibrado do irmão George vai funcionar como a batuta que determinará o ritmo do filme, mantendo o entrecho em sua firme trajetória rumo ao desfecho. George, na figura de Jesse Plemons, é a personagem menos badalada pela crítica e pelos prognósticos de prêmios. No entanto, a nosso ver, é esta personagem que dá total verossimilhança e identidade artística à trama.</p>
<p>George Burbank, naquela mesma noite do jantar, se descobre apaixonado por Rose, a dona da estalagem. O filho Peter, que a ajuda nos serviços de cozinha e restaurante, é alvo das zombarias de Phil. Diante das risadas dos caubóis sobre as maldosas insinuações do patrão a respeito da sexualidade do adolescente, resta ao contrariado George consolar a mãe. George se casa com Rose sem pedir consentimento aos pais e ao irmão. Ao se mudarem para o casarão, um cenário sombrio, à base de madeira escura, portanto perfeito para a proposta estética da diretora, inicia-se a longa e lenta jornada de pequenas agressões, sutis infâmias, maldades distribuídas em cada degrau da escada que leva aos quartos, estampando na tela em close o rosto desamparado e assustado de Rose, em perfeita atuação de Kirsten Dunst, com certeza também merecedora de uma estatueta.</p>
<blockquote>
<h2>Peter aceita a aproximação de Phil, mas não aceita Phil.</h2>
</blockquote>
<p>São duas as relações que movimentam o enredo. A primeira delas, menos sutil, mas não menos perversa, é a forma como Phil se aproxima de Rose. Ele não fez questão de esconder o quanto ficou contrariado com o casamento do irmão, e menos ainda faz questão de esconder seu maldoso descontentamento com a presença da intrusa em sua casa. Ao saber pelo irmão George de que este havia se casado com Rose, o espectador vai poder, na sequência, presenciar uma das cenas mais icônicas do filme. O inveterado Phil vai até o estábulo e começa a espancar uma bela égua, enquanto aos berros a chama de vagabunda e puta.</p>
<p>A segunda relação é bem mais complexa, pois se cerca de várias temáticas que transitam pelo filme, ora de forma poética, ora com uma nocividade que só os machos ameaçados em sua virilidade conseguem construir. A ambígua aproximação de Phil em relação a Peter define o núcleo dramático da trama. E a base comportamental dessa relação parte de Peter, não de Phil, cuja incerta sexualidade é a base do conflito. Peter aceita a aproximação de Phil, mas não aceita Phil. É esta problemática que vai impulsionar a narrativa rumo a seu clímax, numa feliz tessitura do que é uma relação abusivo-destrutiva.</p>
<p>Os figurinos, um dos pontos altos da produção, definem à perfeição os perfis das personagens. É só observar como cada uma delas se veste para tirar as conclusões sobre suas estruturas psíquicas.</p>
<blockquote>
<h2>Toda essa riqueza de mínimas atitudes e delicadezas de gestos faz de <em>Ataque dos Cães</em> uma sinfonia de silêncios.</h2>
</blockquote>
<p>Primeiro, o figurino sulfúrico de Rose. Ele mostra a mulher frágil e assustada que se apoia na bebida (a temática do alcoolismo) como forma de suportar as pressões de Phil. Este veste o figurino do vaqueiro, que esconde atrás de uma exuberante masculinidade todas as suas inquietações existenciais motivadas justamente na sexualidade. Peter soma a seu figurino comportado os belos gestuais que compõem a delicadeza firme de um rapaz aparentemente desprotegido, mas que se constitui num perfil moldado na determinação e na coragem. O contraste perfeito para a falsa masculinidade do vaqueiro, diríamos. E por fim o figurino impecável de George, o gentil homem que se engaja perfeitamente nos ritos sociais, mas que conserva a alma pura e um espírito, se não sagaz, com certeza protegido por princípios dos quais ele não abre mão. Portanto os contrastes bem-definidos determinam o papel de cada peça no jogo cênico.</p>
<p>Antes de terminar, permitam uma última análise. O filme, pela forma como foi tramado, pelo ritmo intimista adotado e, acima de tudo, por se tratar de relações puramente familiares, presta-se, no frigir dos ovos, a nos mostrar como cada um de nós ocupa seu espaço no mundo. Parece que esta é a dinâmica existencial do filme. Vivemos o tempo todo, dia após dia, tentando buscar o significado da nossa presença, seja na estrutura familiar seja na estrutura de trabalho, até na rua, quando, ao caminhar, somos obrigados a nos desviar de outro corpo que se apresenta diante de nós, em direção contrária. É esta perspectiva, parece-nos, que dá razão à existência artística do filme. É quando concluímos que nenhum movimento é gratuito, portanto, livre. Sempre teremos que ocupar algum espaço, esta é a nossa sina.</p>
<p>Em suma. Pode-se dizer que do espectador é exigido que ele saiba assistir ao filme. Parece estranho dizer isso, mas como <em>Ataques de Cães</em> se estrutura em cima de olhares, pausas, sutilezas de intenções, delicadezas de gestos, simbologias que tentam trazer à tona desejos ocultos e impulsos perigosos, principalmente de cunho sexual, toda essa riqueza de mínimas atitudes faz do filme uma sinfonia de silêncios, exigindo que o espectador coloque suas sensibilidades em alerta. Neste sentido, o filme procura privilegiar o espectador, convidando-o a ocupar seu papel de coadjuvante.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
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<p>&nbsp;</p></blockquote>
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		<title>O Seminarista</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Jun 2021 15:55:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>AINDA É POSSIVEL SER ROMÂNTICO? Muitas perguntas sobre o que é ser romântico podem ser feitas a partir da perspectiva histórica do clássico romance brasileiro O Seminarista, de Bernardo Guimarães. Como sabemos, esse romance é um dos belos representativos da escola literária romântica, que teve seu auge no Brasil em meados do século XIX. Naquela [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h2><strong>AINDA É POSSIVEL SER ROMÂNTICO?</strong></h2>
<p>Muitas perguntas sobre o que é ser romântico podem ser feitas a partir da perspectiva histórica do clássico romance brasileiro <em>O Seminarista</em>, de Bernardo Guimarães. Como sabemos, esse romance é um dos belos representativos da escola literária romântica, que teve seu auge no Brasil em meados do século XIX. Naquela época, ser romântico era sinônimo de sofrimento. Da alma. E hoje em dia? Como andam os românticos? Eles existem? Se existem, é possível compará-los com seus pares de antigamente? Ou a pegada agora é outra? E as perguntas não param por aí. Há as mais específicas. O que é ser romântico? Sabemos ser? Somos? São tantas as perguntas, talvez caiba nos preocuparmos com apenas uma delas. É possível ser romântico nos dias de hoje?</p>
<p>No século XIX, havia tempo e espaço para o romantismo. As demandas externas eram pouquíssimas. Sem as redes sociais, sem as tecnologias, sem o carro na garagem, sem as possibilidades de percorrer o mundo em menos de um dia, em outras palavras, à época não havia tantas variedades felizes de vida. Tinham que se contentar com o que havia ao alcance. E o que havia, além de cavalos, lamparinas e folguedos? Os sonhos ao luar. E foi o que fizeram os protagonistas do romance “<em>O Seminarista</em>”, Eugênio e Margarida. Sonharam e sonharam, até que o roteiro tipicamente romântico lhes destruísse o sonho.</p>
<blockquote>
<h2>Impedidos de fazer valer a paixão, cria-se o cenário de sofrimentos, de saudades e de tragédia.</h2>
</blockquote>
<p>O menino Eugênio mora com seus pais em uma fazenda no interior de Minas Gerais, lá pras bandas de Ouro Preto. Na mesma fazenda, em uma casinha pobre mas limpa, mora a viúva Umbelina com sua filha Margarida. Eugênio e Margarida são amigos de infância, e depois amigos de adolescência. No entanto, o sonho da rica família é tornar Eugênio padre. Enviam-no para o seminário, em Congonhas do Campo. Ao se separarem, os adolescentes se descobrem perdidamente apaixonados um pelo outro. Impedidos de fazer valer a paixão, cria-se o cenário de sofrimentos, de saudades e de tragédia. Bernardo Guimarães, hábil escritor romântico, eleva a voltagem da narrativa a tensões máximas, quase insuportáveis. Afinal, o amor entre os dois jovens é proibido, portanto, tem que ser destruído. Esta é a batalha a ser travada. No entanto, o amor romântico resiste, é indestrutível. Mantém-se inteiro mesmo diante da morte. Aliás, sabemos disto desde os tempos de Romeu e Julieta. A paixão como uma feliz temporalidade cercada de infortúnios por todos os lados.</p>
<p>A pegada moderna é outra. Bem diferente. Os espaços destinados ao amor se reduziram perigosamente. Tudo hoje é acelerado. O tempo urge, as demandas são muitas, os apelos para se viver a vida vêm de todos os lados, festas e compromissos, cliques e <em>selfies</em>, cansaço e esgotamento, irritabilidade, enfim, o custo emocional para suportar tanta transitoriedade é muito alto. Se não formos práticos, como nos mantermos em pé diante de tanta agitação? Portanto, numa relação contemporânea a dois, nada de romantismo. Cabe apenas a praticidade. Beijinhos rápidos, porque a vida segue.</p>
<blockquote>
<h2>É possível ser romântico em um mundo assim tão sincero? Que escancara a realidade?</h2>
</blockquote>
<p>No entanto, se a proposta for cultuar o velho romantismo, vamos precisar abrir mão de alguns estilos de vida. Vamos precisar diminuir a velocidade, os excessos, os celulares, evitar interesses paralelos que consomem nossa atenção. Vamos precisar refazer o tempo. Entrar em outra órbita. Aguçar a sensibilidade. Dedicarmo-nos, enfim, por mais tempo à pessoa amada. Ouvir, assuntar, demorar-se com ela. A verdade é que o romantismo pede algumas coisas bem complicadas, com as quais já não estamos tão acostumados. Vamos ter que aceitar o parceiro e a parceira como ele e ela realmente são. Sem retoques. Sem reclamar. Conviver com as imperfeições do outro. Sem que sejam objetos de contestação. Como se não existissem. Para o romantismo, a regra é uma só. Não quebrar o encanto, jamais!</p>
<p>Mas como não quebrar o encanto se a realidade que pisamos todos os dias é tão dura? Cruel, às vezes? Oferecer flores custa caro e não duram cinco dias no vaso! Não poder sentir raiva dele? Dela? Não poder dizer, tipo, sua roupa está ridícula! Olha a sua barriga! Só te beijo se você escovar os dentes. Correr abrir a porta do carro pra ela? Atitude machista. Uma ofensa à mulher independente! Escolher o perfume dele? Até gostaria, mas não sei se eu quero. Antes ele precisa é de um bom desodorante. Não se diz para um romântico como você quer que ele explore o seu corpo. O romântico tem que saber tudo! Ter a sensibilidade radiográfica dos seus desejos! Enfim. É possível ser romântico em meio a tantos cacarecos do dia a dia?</p>
<blockquote>
<h2>Eis o que nos inspira <em>O Seminarista</em>: a construção da cumplicidade na relação, esta é a verdadeira batalha moderna!</h2>
</blockquote>
<p>Vamos ser sinceros. Não dá pra ficar calado diante das inúmeras contrariedades do cotidiano. Em meio a tantas pequenas e irritantes imperfeições! E tem o agravante. Os direitos e deveres da mulher se equiparam aos direitos e deveres do homem. É assim hoje em dia. Pé de igualdade total. Um fala, o outro tem que escutar. E o que escuta tem o direito de ser ouvido! É quase que dizermos que a relação se faz num ringue. A cada palavra um embate, a cada vontade um impasse. É possível ser romântico em um mundo assim tão sincero? Que escancara a realidade?</p>
<p>Ou seria este o mundo ideal para o florescimento de manifestações românticas? O mundo das sinceridades! Em que a mulher não precisa do feminismo para se proteger e o homem não precisa usar suas armaduras para se esconder. A igualdade será o terreno fértil para o cultivo do verdadeiro amor. Sem os medos de colocar as diferenças sobre a mesa, com todas as suas consequências. Seria, portanto, este um outro romantismo? Reciclado?</p>
<blockquote>
<h2>Uma sólida relação se começa pelo exercício da cumplicidade.</h2>
</blockquote>
<p>Chegamos aqui ao ponto crucial. Diante da independência de gêneros, calcada na liberdade e na sua consequente igualdade, estaria o casal disposto a comprar, ambos, a ideia do romantismo? A dar o seu quinhão de fantasias, de sensibilidades, de secretas ilusões? É preciso pensar bem antes de darem o passo. Por uma simples razão. Uma vez que só se é plenamente romântico a dois, os dois terão que se jogar, juntos, na banheira de espuma. Não pode existir romantismo a um. Romantismo a um, sabemos, leva ao sofrimento calado. E à solidão.</p>
<p>Enfim. Não é objetivo deste artigo destrinchar as possibilidades românticas dos tempos modernos. O que predominam aqui são as perguntas sem respostas. Mas não terminaria sem antes dar um norte ao romantismo contemporâneo. Entendemos até ser possível acreditar nele. Ser possível desenvolver um tipo de relação em que os amantes se levem profundamente em consideração, a ponto não só de se suportar no dia a dia como também de construir, para ambos, momentos inesquecíveis. Seja uma pequena delicadeza, seja um gesto que antecipe, seja um jantar à luz de velas. E para se chegar a isso acreditamos existir um caminho interessante. E sólido. A construção da cumplicidade na relação. Esta é a verdadeira batalha moderna! Se cúmplices um do outro, será mais fácil serem românticos um com o outro. A cumplicidade seria apenas a sustentação madura para os exercícios românticos. Fica aí a sugestão para o leitor. Começar uma sólida relação pelo caminho da cumplicidade.</p>
<blockquote>
<h2>É sim possível ser romântico nos dias de hoje.</h2>
</blockquote>
<p>E para finalizar, um convite. Convido você a ler este belo romance “<em>O Seminarista</em>”, e a mergulhar numa realidade que se pode dizer ilusória, mas que é também esteticamente prazerosa. Conheça a obra. Ou a releia.  Estão ali os ingredientes necessários para o sublime voo romântico. Terminada a leitura, aí sim o leitor poderá retornar ao século XXI e analisar suas possibilidades quanto a ser romântico nesta nossa contemporaneidade. Eu cá deixo um pouco da minha esperança. É possível. Desde que toda atitude romântica repercuta, ressoe, reverbere mutuamente um no outro, sob pena de se transformar num frustrante ato solitário. Para evitar os desgastes cotidianos, a cumplicidade protegerá o romantismo. Este pode ser o segredo moderno da relação! A cumplicidade gera a independência sem culpa e sem cobranças. Ao exercitá-la, e respondendo à pergunta do primeiro parágrafo, é sim possível ser romântico nos dias de hoje. No século XIX, o romantismo se alimentava de sonhos e de sofrimentos. Hoje ele se alimenta da pura realidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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