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	<title>Arquivos conto - Roberto Gerin</title>
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	<title>Arquivos conto - Roberto Gerin</title>
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		<title>A GATA ABUSIVA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2020 17:00:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Tenho quinze anos, indo pros dezesseis, e tenho uma gata que se chama Jade. Linda, dengosa, companheira, a gata que eu sempre quis ter. Faz seis meses que ela mora comigo. Foi uma festa nos primeiros dias. E continuou sendo nos seguintes. Era meu sonho, de anos, ter uma gata. E quanto não me custou [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho quinze anos, indo pros dezesseis, e tenho uma gata que se chama Jade. Linda, dengosa, companheira, a gata que eu sempre quis ter. Faz seis meses que ela mora comigo. Foi uma festa nos primeiros dias. E continuou sendo nos seguintes. Era meu sonho, de anos, ter uma gata. E quanto não me custou convencer minha mãe&#8230;! Enfim, consegui. Tenho minha gata. Mas, ao longo do tempo, as coisas mudaram um pouco.</p>
<p>Hoje esteve aqui em casa uma tia, a tia Madalena, que é bióloga, mora no Rio, e estava de passagem com destino a Chapadão do Céu, que, confesso, não sei onde fica. A primeira coisa que ela viu ao entrar em casa foi a gaiola encostada à parede, onde a Jade estava presa. O que é isso!? — perguntou, sem esconder o espanto. Uma gata&#8230; Presa! Numa gaiola!? Mais essa agora&#8230; Parece uma jaula! E depois desabafou. Merecia uma denúncia! Minha mãe tentou contemporizar. Exagero, Lena! Mas minha tia não se conformava. Como é que você deixa sua filha fazer uma coisa dessas? É temporário, Lena! Fiquei insegura, mas logo me dominei, empinei o queixo e antes que minha tia dissesse mais alguma coisa, retruquei. A gata é minha, tia. Faço com ela o que eu quiser. Ela vai continuar presa. E ironizei. Aí, na jaula. Tia Madalena me olhou e disse. Sorte  sua que você é minha sobrinha!</p>
<p>Este foi então o diálogo desta manhã de domingo, em minha casa, onde moramos eu, minha mãe e Jade, a enjaulada, presa por necessidade — temporariamente (só por algumas horas), como disse minha mãe. Acreditem. Jade se transformou, ao longo dos meses, numa gata abusiva.</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<p>Ainda pequena, logo se revelou uma gata fujona. Não à toa, traz no currículo uma fuga da casa anterior. Perdera-se na rua. Mas não perdeu o hábito de querer fugir. Dentre as tantas peripécias, além de ter alcançado o apartamento do vizinho através do forro do corredor, o último lance de fuga foi ter, apesar da tela, pulado do primeiro andar, lá embaixo, caindo sobre uma motocicleta estacionada, daí estatelando-se no chão. Ficou imóvel, fingindo-se de morta, à espera de socorro. Nem miava. Avisada pelo porteiro, minha mãe desceu correndo.</p>
<p>Foi crescendo, acostumou-se à casa, resolveu ficar de vez. E se apegou a mim. Tão manhosa, tão dengosa, a ponto de eu não aguentar mais vê-la se espichar à minha frente, barriga para cima, à espera das minhas mãos. Me persegue pela casa, adiantando-se e se espichando no chão. Eu estico o passo por cima dela, ignorando-a. Até que, no próximo ataque, vencida, eu me agacho e encho seu pelo eriçado com a carícia dos meus dedos. E ela rola, de lado a outro, oferecendo-se aos carinhos. Alívio, só quando está dormindo. Ou observando da janela o que se passa na rua. Até que acabaram as férias e eu retornei pra escola. Jade ficou só, em casa. Cada vez mais inconformada com minhas longas ausências.</p>
<p>As investidas em busca de atenção e afeto se intensificaram. Passou a ocupar todo meu espaço, a tomar todo meu tempo. Eu perdia a concentração. Não, pelo amor de Deus, Jade, não! Quero tocar meu violão, mas como?! Tocar meu ukulele, ouvir minhas músicas, quero pintar minhas aquarelas, estudar, quero falar com minhas amigas, quero sair, viver!</p>
<p>Jade aos poucos começou a me afrontar. Um dia cheguei da escola, encontrei duas cordas do meu violão arrebentadas. Mas tinha o ukulele. Fui encontrá-lo na sala, a capa com rasgos de unhas, o corpo de madeira todo arranhado. Sou exímia maquiadora, tenho prazer, aprendo técnicas. Encontrei meu espelho espatifado no chão! Ah, perdi o controle! Parti pra cima dela. Sem convicção, admito, mas aos gritos. Ela correu se esconder sob a minha cama  <em>box</em>, um buraco no tecido, por onde ela entra. Ali se esconde quando as coisas não vão bem pro seu lado. Fica, nestes instantes, fora do alcance das minhas raivas. Mas como ter raiva de uma gata tão linda?! Não resisto, agacho-me, chamo. Aos poucos ela reaparece e tudo acaba em beijos.</p>
<p>Mas não desiste! Arranha minhas cortinas, deita-se sobre o meu livro, caminha pelas teclas do meu computador, toma abusivamente conta da minha vida! Até que passou a destruir meus fones de ouvido. Três em um mês! Dois num prazo de três dias! Cento e quarenta e quatro reais cada um! Tenho o hábito de ouvir música, enquanto desenho, enquanto estudo, enquanto me preparo pra dormir. Durante meu sono pesado, Jade corta o fio. Por castigo (falta de responsabilidade, né, minha filha!), minha mãe parou de me comprar fones. Eu até argumentei. Mãe, você está justo fazendo o que a Jade quer!</p>
<p>Até que chegou o dia em que tudo desaguou em choro e ódio. E foi por causa do que vou contar que Jade foi parar na gaiola. Passou a ter ciúmes do meu coelho de pelúcia, que dorme comigo, aconchegado em meu rosto, todas as noites.</p>
<p>Quando eu tinha dois anos de idade, meu pai me presenteou com um coelho de pelúcia, da cor suavemente rosa. Havia um mecanismo que fazia com que suas enormes orelhas se abanassem, enquanto tocava uma doce música. Nas patas dianteiras, presa, uma enorme cenoura! Era comum, e delicioso, meu pai usar uma das enormes orelhas pra fazer cócegas nas minhas próprias orelhas! O coelho me parecia enorme aos dois anos. Dormia a meu lado, silencioso e simpático, por quem eu estaria desde então afetivamente presa, como se ele fosse fazer eternamente parte da minha vida. E faria, já que eu ia pelos meus seis anos quando meus pais se separaram. O coelhinho passou a me acompanhar todas as noites, nos meus momentos de saudades do meu pai. Era a presença que eu tinha dele. Jade passou a dormir entre meu rosto e o coelho. Não escondia o ciúme. Até que um dia o destruiu. Foi aí que veio a ideia da gaiola.</p>
<p>Voltando ao diálogo desta manhã de domingo, depois que eu terminei minha fala arrogante, depois que eu havia dito pra minha tia que a gata era minha e que ela continuaria presa, eu ainda pensei em dizer mais algumas coisinhas. Tipo. Pode ir lá, tia, me denunciar. Por maus tratos! Tira uma foto e publica nas redes sociais! Mas não. Disse mais nada. Só me abaixei, abri a portinhola e Jade sorriu. Depois ela saiu, espichou-se, oferecendo seu corpo aos meus carinhos. Inclinei-me quase ao chão, e como ela sempre faz, aproximou-se do meu rosto, fechou os olhinhos verdes e me beijou.</p>
<blockquote>
<h3><strong>Clique abaixo para ler toda a sequência dos contos da gata JADE.</strong></h3>
</blockquote>
<ul>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-triste/">A gata triste</a>,</li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-fujona/">A gata fujona</a></li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-suspeita/">A gata suspeita</a></li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-beijoqueira/">A gata beijoqueira</a>,</li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-ressentida/">A gata ressentida</a></li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-esperta/">A gata esperta</a></li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-observadora/">A gata observadora</a></li>
</ul>
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		<title>A GATA TRISTE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2020 16:30:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Quando apresentei minha gata Jade, no meu relato anterior, a que dei o título de A Gata Abusiva, de tanto que ela passou a tomar conta da minha vida, a ponto de querer eliminar tudo que pudesse me afastar dela, e só pra dar alguns exemplos, tipo quebrar meu espelho de maquiar, cortar o fio [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando apresentei minha gata Jade, no meu relato anterior, a que dei o título de <em>A Gata Abusiva</em>, de tanto que ela passou a tomar conta da minha vida, a ponto de querer eliminar tudo que pudesse me afastar dela, e só pra dar alguns exemplos, tipo quebrar meu espelho de maquiar, cortar o fio do meu fone de ouvido pra que eu não ouvisse música, arrebentar as cordas do meu violão, enfim, tudo era destruído pra que minha atenção se voltasse exclusivamente para ela, pois, tanto foi a minha aflição em falar da minha gata que deixei de apresentar o meu querido cão maltês, o Totó. Sim, o delicioso cãozinho que ganhei da minha mãe quando eu acabava de fazer sete anos. Portanto, lá se vão nove de convivência! Mas agora, com a chegada da Jade, as coisas mudaram um tanto. O Totó ficou magoado. E não foi pouco. A Jade, evidente, passou a dominá-lo como se ele fosse um brinquedinho casual. Totó se ressentiu, mudou alguns hábitos, em vão tentou cercar seu território, enfim, renunciou à vida (à minha cama) e passou a dormir na cama da minha mãe. Ficava lá quase o dia todo, disposto a brigar pelo pouco espaço que lhe restara. Abateu-se sobre ele uma tristeza silenciosa, que se refletia no latido desafinado e frouxo. Entronizado em seu maravilhoso mundo de cãozinho bajulado por sua beleza, não contava com esse terrível lance. Aliás, e aqui introduzo meu segundo relato, nem a própria Jade, a protagonista da história, contava com o que viria a acontecer. Ela também iria mergulhar em silenciosa e prostrada tristeza.</p>
<p>Meu pai acaba de me presentear com outro gato! Sim, macho. Yoda. Agora somos cinco nesta casa. Eu, minha mãe, Totó, Jade e Yoda, o caçula! Todos isolados pela pandemia do coronavírus. E tivemos que, em pouco espaço, ajustar nossas convivências. O que não está sendo fácil.</p>
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<p>Jade não se conformou absolutamente com a chegada do Yoda. Surpreendeu-nos com suas reações. Encolheu-se, desapareceu, abandonou o afeto. Passou a me rejeitar. Recusava-se a entrar no meu quarto. Em hipótese alguma! Caminhava pelo corredor, nem olhava pela porta adentro. Sequer entrava pra comer e beber. Carinhos, abraços e beijos? Sumiram. Tive que colocar a comida e a água no corredor, pra que ela não morresse de fome e sede. E o que come é quase nada. Deprimiu-se. Perambula pela casa, sem rumo. Até o Totó, sobre quem ela tinha total domínio, passou a persegui-la, o focinho tenso, querendo saber o que estava acontecendo. Por mais que eu tentasse pegá-la no colo, fugia. Era como se deixasse de existir. E me perguntava. Como tirar a Jade dessa tristeza&#8230;?</p>
<p>O Yoda chegou quase bebê ainda, tive que dispensar a ele muita atenção, e, confesso, desliguei-me momentaneamente da Jade. Não que a tirasse do meu campo de afeto. Pelo contrário. Sentindo-lhe o desamparo, redobrei-o. Em vão. Ela me olhava, seus olhinhos verdes brilhavam, mas não tomava qualquer atitude. Mantinha-se distante, longe do meu quarto, pra ela agora o ninho de suas dores.</p>
<p>Pobre Jade! Fico imaginando-a deitada sobre o sofá, pensativa, os sobrolhos caídos, os olhinhos quase se fechando em atitude de alheamento. Meu Deus, Jade, nós te amamos, eu, o Yoda! Até o Totó! Mamãe te adora! Venha pro quarto! Eu, na minha angústia, colocando todos nós juntos, esparramados sobre a minha cama. Envolvia-me em sonhos, era o que eu tinha pra me oferecer.</p>
<p>Me lembro dos tempos em que Jade passou presa na gaiola, um método temporário que arranjei para conter alguns hábitos possessivos dela. Não acho que eu tenha errado! Ademais, foram só alguns dias, por algumas horas! A portinhola ficava aberta, ela podia entrar e sair! Com a chegada do Yoda, a gaiola desapareceu e o fato está esquecido, e espero que ela não tenha guardado mágoas. Ela só tem que entender que meu amor continua o mesmo, mas que agora vem a necessidade de aceitar que tudo na vida se divide. Principalmente afeto. No entanto, ela continua a passar pelo corredor, diante da minha porta, sem olhar&#8230;</p>
<p>E assim se passaram muitos dias nessa apatia e distanciamento, que Jade fazia questão de manter a todo custo. Hoje à tardinha fui à padaria comprar chocolate pra fazer meu café cremoso, o mesmo café que eu costumava tomar com minha mãe todas as manhãs de domingo, no Frans Café, antes da pandemia. Quando retornei, a Jade não estava dormindo no sofá, como eu a havia visto antes de sair. Pressentindo algo, corri para o meu quarto. Jade estava deitada na minha cama! Tinha rasgado boa parte do livro que eu estava lendo, <em>As Aventuras de Tom Sawyer</em>, que minha mãe havia acabado de me comprar. Sobre o peitoril da janela, o Yoda, sentado, orelhas em pé, a tudo observava, maravilhado! Num primeiro momento, me desceu a raiva misturada à frustração. Mas logo me recobrei. Afinal, Jade tinha voltado.</p>
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<h3><strong>Clique abaixo para ler toda a sequência dos contos da gata JADE.</strong></h3>
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<ul>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-abusiva/">A gata abusiva</a></li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-fujona/">A gata fujona</a></li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-suspeita/">A gata suspeita</a></li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-beijoqueira/">A gata beijoqueira</a></li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-ressentida/">A gata ressentida</a></li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-esperta/">A gata esperta</a></li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-observadora/">A gata observadora</a>.</li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A GATA FUJONA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2020 16:00:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Percebo alguns movimentos inquietos da minha gata Jade. E não é por causa do Yoda, com quem ela já estabeleceu uma amizade cotidiana, na linha irmã mais velha. Aceita-o com carinho e se irrita quando ele não quer brincar. Vai até o corredor e chama-o com miados cada vez mais altos, subindo o tom da [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Percebo alguns movimentos inquietos da minha gata Jade. E não é por causa do Yoda, com quem ela já estabeleceu uma amizade cotidiana, na linha irmã mais velha. Aceita-o com carinho e se irrita quando ele não quer brincar. Vai até o corredor e chama-o com miados cada vez mais altos, subindo o tom da irritação. Até Yoda aparecer e se apresentar para as brincadeiras, de forma atabalhoada, se jogando sobre o corpo da Jade. Travam batalhas. Lançam-se um contra o outro. Yoda coloca suas patas de tigre sobre Jade, esperando que ela se espiche no chão e o acolha. Às vezes, ficam longos e demorados minutos neste jogo de quem agarra quem. Quando Yoda percebe que vai ser dominado pela força da Jade, foge um pouco mais adiante, à espera. Estira-se no chão, os olhos atentos. Arma-se, pois sabe que em seguida será atacado. Ao longe, meu cãozinho Totó observa, curioso. Não se atreve a participar da brincadeira, mas não arreda pé. Há em Totó uma confusão emocional. Ele está diante de uma fêmea e de um macho. São, para ele, códigos diferentes, o que o deixa confuso e arredio. Mas a curiosidade fala mais alto. Fica ali, carrancudo, preso à soleira da porta, observando a cena.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Jade está inquieta. Vejo-a caminhar pela casa, sem pouso. A quarentena despertou nela o antigo vício da fuga, pressinto. Voltou a ter necessidade de espreitar essa possibilidade. As portas entreabertas voltaram a chamar-lhe a atenção. E vasculha as janelas com um olhar tristonho, mas presa à sua instintiva intuição de oportunidade. Está pronta para fugir a qualquer momento.</span></p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">A privação forçada da liberdade de ir e vir acaba gerando em nós efeitos colaterais. Entendo que todos, nestes momentos de pandemia, estejamos passando por isso. Criamos uma necessidade urgente de sair. Que seja pra nada, desde que saiamos! E reconquistemos o direito sagrado de sair. Talvez pelo reflexo do longo isolamento, meu e de minha mãe, a liberdade nos parece ser um bem  guardado em alguma gaveta especial. Trancada a sete chaves! O terrível sentimento de que alguém, invisível, se postou à nossa porta, impedindo-nos de atravessá-la. Até podemos sair, mas esta sombria invisibilidade nos acompanhará. E Jade, me ficou claro, está ela também presa à necessidade de se expandir no espaço. O sintoma mais visível é que passou a roubar as nossas máscaras. A se apoderar delas. A destruí-las. Como se esse fosse o desejo meu e de minha mãe, na espera do dia em que não mais precisaremos nos submeter a elas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao nos ver colocar a máscara, toda vez que estamos para sair, Jade nos observa com inequívoca curiosidade. Jade vê. Jade pensa. Jade maquina. Pois encontrei minha máscara preferida, em tons azuis pontilhados de vermelho, rasgada sobre o sofá. Depois outra, agora da minha mãe, que surpreendeu Jade correndo com a máscara presa à boca pela alça, subindo pelo sofá, alcançando a janela aberta, e virando-se na direção do meu quarto. Só que ela parou a meio caminho, fora do meu alcance, deitada no peitoril da janela, observando a rua, enquanto vagarosamente ia destruindo a máscara! Com a irritação de quem não pode sair! Com raiva deste símbolo de aprisionamento facial! Depois de certo tempo, apontou à janela do meu quarto, seu corpo escondido atrás da cortina. Olha atenta, desanimada e triste. A máscara estava destruída, mas seu desejo de fuga não. Sua alma inquieta ilumina seus olhos tristes deitados sobre mim, em súplica. Depois ela desce e se aninha em meu travesseiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Certa noite, despertei assustada. Jade não estava a meu lado, como de costume. Só Yoda, acima da minha cabeça, aninhado na ponta do outro travesseiro. Eram três horas da madrugada. Cadê Jade? Levantei-me, tomada de pressentimento. Não a encontrava pela casa. Mas vi que a porta da biblioteca estava aberta, assim como a porta (da biblioteca) que dá para o banheiro. Em cima, a janela basculante do banheiro, que dá para o corredor externo do prédio, também aberta. Minha mãe, que sempre tem o cuidado de fechar a porta, havia esquecido. E Jade, evidente, esperando dias por esta oportunidade, com certeza se aproveitou. Acordei minha mãe, abrimos a porta da sala, as luzes do corredor se acenderam com a nossa presença. Bem ao longe, a meio caminho do corredor em direção ao fundo, onde existe um pequeno jardim com folhagens cultivadas pela moradora do último apartamento, pude ver uma das minhas máscaras coloridas jogada ao chão. Ah, Jade! Chamei por ela, logo ouvi seu miado choroso, pedinte, assustado. Escondia-se entre os vasos de flores. Me esperava, tomada de medo e ansiedade. Aninhou-se em meu colo e num ataque de desespero pôs-se a me beijar e a me pedir carinho. Aconchegou-se a meu lado, na cama. Eu podia perceber sua respiração ofegante, entrecortada por breves suspiros. Às vezes, pequenos espasmos. Até adormecer profundamente.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3><strong>Clique abaixo para ler toda a sequência dos contos da gata JADE.</strong></h3>
</blockquote>
<ul>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-abusiva/">A gata abusiva</a></li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-triste/">A gata triste</a></li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-suspeita/">A gata suspeita</a></li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-beijoqueira/">A gata beijoqueira</a></li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-ressentida/">A gata ressentida</a></li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-esperta/">A gata esperta</a></li>
<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-observadora/">A gata observadora</a></li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<p>O post <a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-fujona/">A GATA FUJONA</a> apareceu primeiro em <a href="https://escritorgerin.com.br">Roberto Gerin</a>.</p>
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		<title>A GATA SUSPEITA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2020 15:30:34 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Eis o mal de se ter mais de um gato em casa. Saber quem quebrou o vaso de flor. Saber quem derrubou o copo que estava em cima da pia. Quem rasgou a cortina&#8230; Arranhou o sofá. Quem sumiu com o parafuso&#8230; Não são acidentes banais. Trazem algum transtorno. Principalmente quando você acorda e vê [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Eis o mal de se ter mais de um gato em casa. Saber quem quebrou o vaso de flor. Saber quem derrubou o copo que estava em cima da pia. Quem rasgou a cortina&#8230; Arranhou o sofá. Quem sumiu com o parafuso&#8230; Não são acidentes banais. Trazem algum transtorno. Principalmente quando você acorda e vê que o rolo de papel toalha deixado sobre a bancada de mármore foi todo picotado! Coloquei Jade e Yoda juntos, à minha frente, e os observei. Óbvio que disfarçavam. Óbvio que sabiam o que tinham feito. Posavam de desentendidos. A alma ainda impura de Yoda ao lado da alma solene de Jade. Yoda me encarava, assustado. Jade desviava o olhar. Quem fez o quê?</p>
<p>Aconteceu ontem à noite de minha mãe esquecer o papel toalha sobre a bancada. E hoje pela manhã deparamo-nos com o ocorrido. Alguém, (Yoda e Jade), não sabemos a que horas, provável madrugada, simplesmente picotou todo o rolo de papel! O que se viu foram flocos brancos espalhados pela casa. Sala, sofás, mesinha, flores, abajur, tapetes, sobre a bancada, chão da cozinha, até em cima da máquina de lavar roupa! Enfim, uma festa. Como se densos flocos de neve tivessem caído para dentro da nossa casa, em um dia de noite enluarada, sob ameno calor de outono. Yoda, seu pilantra! E você, Jade, não adianta disfarçar!</p>
<p>Jade caminha com o silêncio de uma tigresa atravessando lentamente o prado em busca de comida. Carrega consigo uma espécie de autonomia, escondendo-se na densidade de uma sombra. Verdadeiro andar de uma gata elegante e ciente do seu poder de seduzir afeto e admiração. Parece alheia, caminhando dentro de si. Mas sabemos que por trás dessa indiferença esconde um par de orelhas bem atentas. Volta-se para o ruído, lenta, mas intensamente curiosa. Se Totó se aproxima para quebrar o sossego, despreza-lhe acintosamente os latidos. Mas não deixa de perceber sua presença, rastrear seus movimentos. Assim é Jade. Perspicaz, apenas finge se mostrar incapaz de produzir uma ideia travessa. Com sua alma inquieta, quem nos garante que o rolo de papel não tenha despertado nela o desejo de se divertir?</p>
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<p>Yoda é um lagarto desajeitado. E também uma peça de fliperama. Que se joga com imprudência contra o próximo obstáculo. Com suas patas de leopardo, guiado por uma bússola desgovernada, Yoda segue adiante, até chegar aparentemente aonde ele sequer pretendia chegar. Precipitado, se descobre na vontade colocada na ação, nunca na intenção! Cabe-lhe, se foi dele a ideia de despedaçar o rolo de papel, o bônus da infantil irresponsabilidade. Moleque, ainda guarda nos gestos a ansiedade do aprendizado. Só a vida nos ensina a harmonia, Yoda! A não ser que, desde nascença, traga consigo a elegância, fruto maduro do equilíbrio desejado. Esta sorte coube a Jade, não a você, na desengonçada graça de seus movimentos. Pois, diferente de Jade, Yoda não tem a espiritualidade do começo, meio e fim. As três etapas se misturam tresloucadamente na direção do próximo alvo, que só começa a existir quando entra em seu campo de visão. Terá sido ele o primeiro a encontrar o rolo de papel sobre a bancada?</p>
<p>Vi-me obrigada a ajudar minha mãe na limpeza da bagunça — afinal, os gatos são meus! Limpeza leve, mas chata. Feito penas jogadas ao vento, sempre descobríamos um floco branco escondido em algum lugar. Quando terminamos a limpeza, minha mãe tirou carne vermelha para descongelar, depois se trancou na biblioteca, onde passa boa parte da manhã em seus trabalhos à distância. Por volta de meio dia, hora de fazer o almoço, foi pra cozinha. A carne tinha desaparecido.</p>
<p>Sem a carne, minha mãe preparou uma macarronada. Estávamos comendo, quando o Yoda aparece na janela da sala, vindo do meu quarto pelo lado de fora, escorando-se na tela de proteção. E vimos o moleque, sem se preocupar em disfarçar, atravessar o encosto do sofá e pular para a poltrona de tecido colorido ao canto da sala. A poltrona, para evitar a poeira, minha mãe a deixa voltada para a parede. E logo em seguida, Jade! Percebemos sua cabeça arredia apontar no canto da janela. Desatenta, óbvio estudava o ambiente. Tive o pressentimento. Me aproximo e vejo Yoda, sobre a poltrona, comendo a carne.</p>
<p>Acuado pelos impropérios, Yoda fez-se de sonso. E Jade sumiu. Fui encontrá-la escondida na base da minha cama <em>box</em>, por dentro do tecido, sempre seu esconderijo quando as coisas não vão bem pro seu lado. Chamei, não atendia. Silenciava, emudecia. Passou ali a tarde toda, saiu pra tomar água e desapareceu novamente. Provável, em alguma gaveta do armário. Eu estava fechando os olhos pra dormir, passava de meia noite, percebi quando Jade saiu do esconderijo, saltou sobre a minha mesa de estudo, alcançou a janela e lentamente foi percorrendo o peitoril em direção à sala. Levantei-me e caminhei pelo corredor. Apontei apenas a cabeça, no momento de ver Jade percorrer o encosto do sofá, pular para a poltrona colorida e daí para o chão. Agachei-me. No canto, junto ao pé do sofá, Jade mastigava um pequeno pedaço de carne.</p>
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<h3><strong>Clique abaixo para ler toda a sequência dos contos da gata JADE.</strong></h3>
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<li><a href="https://escritorgerin.com.br/a-gata-abusiva/">A gata abusiva</a></li>
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		<title>A GATA BEIJOQUEIRA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2020 15:00:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Jade tem sua forma bem pessoal de mostrar afeto. À medida que foi crescendo, desenvolveu uma maturidade peculiar de pedir e dar carinho. E o beijo é o grau máximo da entrega. E tem sua hora para se manifestar. Quando está insegura, o beijo a acalenta. Quando ansiosa, o beijo a protege. Se carente, o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Jade tem sua forma bem pessoal de mostrar afeto. À medida que foi crescendo, desenvolveu uma maturidade peculiar de pedir e dar carinho. E o beijo é o grau máximo da entrega. E tem sua hora para se manifestar. Quando está insegura, o beijo a acalenta. Quando ansiosa, o beijo a protege. Se carente, o beijo a preenche. Fora desta linha emocional, Jade se apresenta tão dengosa quanto arredia. Quer o carinho, mas sem a entrega. Esta característica de comportamento é mais visível na sua relação com minha mãe, com quem estabeleceu uma aproximação de respeito e distância, amor e reserva. Em relação a mim, Jade construiu um outro roteiro afetivo. Há mais entrega, menos reserva. Há mais confiança e menos medo. Permito que ela me tenha o tempo que deseja, sem ir além do que não queremos. A convivência nos ensinou os limites. Jade passou a respeitar a minha individualidade, distanciando-se daquela Jade abusiva dos primeiros tempos. Jade agora é moça, na flor de sua idade de esplendor e sonhos. Tem outros interesses. Outro ritmo. Para se constituir como indivíduo, ela se enclausurou numa personalidade independente, e às vezes soberba. Mas é ainda afetivamente frágil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta fragilidade ficou clara ontem à noite. Mamãe já estava pronta para dormir, assistia a um filme na televisão. A seu lado, o inflexível Totó, guardando seu espaço com o costumeiro mau humor. No entanto, permite que Jade venha buscar seus momentos de carinho junto à minha mãe. Não há como impedi-la. Jade se deita do outro lado, fora do alcance do Totó. Esparrama-se sobre o ombro esquerdo da minha mãe e ali fica por apenas alguns minutos, recebendo lentamente os carinhos&#8230;! Os pelos eriçados denunciam sua satisfação. Dengosa, entrega-se. É seu momento sublime. Depois, saciada, se retira. Ontem, coisa rara, levada por um destes momentos especiais, de supremo afeto, Jade beijou minha mãe antes de se retirar. Minha mãe, talvez distraída, não que tenha rejeitado o beijo, apenas reagiu, por reflexo, ao gesto inusitado. Jade se assustou e sumiu pela porta. Não deu sequer tempo de minha mãe se explicar.</span></p>
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<p><span style="font-weight: 400;">Esta manhã pusemos o Totó para tomar banho. Por causa da pandemia, buscam e trazem. O interfone tocou, era o porteiro pedindo para eu descer. Haviam acabado de chegar com o Totó. Mas não era o Totó! Era outro cachorro, raça maior, pelo marrom, focinho alongado. Minha mãe tentou explicar o engano para a secretária da loja, que  teimava em dizer que o rapaz tinha ido entregar o Totó, sim! E não havia ninguém em casa. Como não ter ninguém! Em tempos de pandemia?! Vocês mandaram outro cachorro, minha senhora! Minha mãe se irritava. Enfim, trouxeram o Totó, meu cãozinho maltês, o algodãozinho. Desci para pegá-lo, encontrei-o emburrado. Passaram-lhe a máquina zero! Tosquiaram o Totó! De leão majestoso transformaram-no em um pobre ratinho! Ele estava simplesmente enfurecido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Confundiram, tosaram o cachorro errado. Pediram desculpas, mas as desculpas não consolaram o Totó. Se macambúzio por natureza, lorde carrancudo, esnobe, agora tosado à máquina zero! E fungava! E se irritava! E suspirava! Pobre Totó! Perdia sua majestade de puro cão maltês!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um nada. Um pária. E ainda ter que aturar as brincadeiras&#8230;! Os risinhos&#8230;! Tão miúdo sem a exuberância do pelo&#8230;! Encantoou-se junto à cortina da sala, onde se esconde toda vez que precisa ruminar seu mau humor. Deixamo-lo a sós, lá, quieto, se recuperando de sua decepção. Quase à noite, sai do seu canto para tomar água. Caminha, cabisbaixo, arrasado. Com seus olhinhos de menino desamparado, pede à minha mãe que o coloque na cama. Aninhou-se ao lado dela, ali ficou, quieto e sorumbático. Yoda apareceu. Olhava-o com estranheza. Era visível seu espanto. E Totó se envergonhava. Não queria a presença do Yoda. Não se tratava de querer defender seu território. Apenas não queria que o Yoda o visse naquele triste e vergonhoso estado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em seguida apareceu Jade. Era certo que ainda não se recuperara do sentimento de rejeição pelo que havia acontecido ontem à noite. Ignorou minha mãe. Subiu na cama, deu a volta pela cabeceira, aproximou-se de Totó e beijou-o. Três vezes. Totó não reagiu. Seu corpo ficou corado, a emoção da vergonha deixara-o paralisado. Depois Jade pulou da cama para o chão, atravessou a porta e foi embora. Totó, surpreso, levantou a cabeça e ficou olhando Jade se afastar. Estava sensivelmente perturbado. Não esperava, nunca, o beijo.</span></p>
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		<title>A GATA RESSENTIDA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2020 14:45:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Jade tem sim uma personalidade delicada. Apenas uma camada muita fina, tênue, protege seus sentimentos. Qualquer coisa que se lhe faça ou se lhe diga tem uma ressonância amplificada em seu íntimo. Compreende a vida à sua maneira, independente de como é feita a realidade, com suas dinâmicas próprias de acolhimento e rejeição. Esta forma [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Jade tem sim uma personalidade delicada. Apenas uma camada muita fina, tênue, protege seus sentimentos. Qualquer coisa que se lhe faça ou se lhe diga tem uma ressonância amplificada em seu íntimo. Compreende a vida à sua maneira, independente de como é feita a realidade, com suas dinâmicas próprias de acolhimento e rejeição. Esta forma de encarar a vida sempre nos leva a sofrimentos que poderiam ser evitados. E o ressentimento é uma dessas pesadas cargas, como se fosse um saco de pedras que carregamos inutilmente vida afora. Sempre acontece de percebermos a inutilidade deste peso, e imediatamente o tiramos de nossas costas. Muitas das vezes, no entanto, passamos vida afora colecionando pedras que só a nós causam danos. Jade, eu tenho percebido, é afeita a estas pequenas mágoas que se acumulam e alteram seu comportamento. Foi exatamente o que aconteceu três dias atrás, quando Jade foi ao quarto de minha mãe procurar aqueles momentos de carinho bem do jeito dela. Deita-se ao lado da minha mãe, aninha-se em seu ombro e ali fica recebendo o afeto. Depois se levanta, pula para o chão e atravessa a porta, saciada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já narrei este pequeno fato cotidiano em outra ocasião, quando Jade vai além na sua entrega afetiva e, grata pelos carinhos de minha mãe, levanta a cabeça, estica-se e tenta beijá-la. Só que minha mãe, instintivamente, surpreendida, reage. Inicia-se então a via crúcis de mágoas que se arrastam por vários dias. Jade se ressentiu. Visivelmente mudou suas atitudes em relação à minha mãe. Passou a evitá-la. Deixou de ir a seu quarto pedir sua cotidiana dose de carinho. Tornou-se arredia, distante, o andar pesado, alheia ao mundo. Sofria.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Minha mãe percebeu o estrago afetivo e tentou reconquistar a confiança de Jade com todo tipo de mimos e carinhos que estavam a seu alcance. Chamava-a de Jadeca, carregando a voz de afeto e simpatia. Tentava pegá-la no colo, até permitiu que ela subisse na bancada de mármore, espaço proibido, para evitar os previsíveis roubos de alimentos. Mas nada que minha mãe fizesse tirava Jade de sua letargia.</span></p>
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<p><span style="font-weight: 400;">Com esta situação de dor que se prolongava, Jade acabou se aproximando ainda mais de mim. Acomodou-se em minha cama, raramente saía para seus costumeiros passeios. Era afetiva, me olhava longa e tristemente, observava meus estudos, deitava-se no pé da cama, me observando tocar violão, embalada por pensamentos que me escapavam à compreensão. Talvez eu nunca tenha visto Jade tão abatida, presa a esse triste rosário de mágoas que se cristalizam em ressentimentos e nos aprisionam em um estado de espírito estranho à nossa natureza. É como se você internamente estivesse se violentando, dirigindo a agressão para si mesmo, num ato pessoal de covardia. Como fazer Jade entender aonde ela acabou indo? Como mostrar-lhe que a dor pode ter um fim, desde que a entendamos? Como mostrar-lhe que a realidade não se molda ao nosso modo de ser, e que cabe a nós nos adaptarmos internamente às demandas, boas e ruins, da vida? Que não há um quadro perfeito pendurado na parede contendo uma lista de regras ditando felicidades garantidas? Dava-lhe carinho, acolhia a sua dor, mas me incomodava sua incompreensão em relação a um fato tão corriqueiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em dado momento, parei de tocar violão, peguei a Jade no colo e fui até o quarto da minha mãe. Deitei-me ao lado dela, pus a Jade entre nós, com a intenção de forçar a reconciliação. Não resolveu. Jade escapou na primeira oportunidade. Fui encontrá-la debaixo da minha cama, sem, no entanto, subir para o seu esconderijo. Só me faltava esta agora. Ficar magoada também comigo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta luta de reconquista perdurou por vários dias, com pequenas variações de humor. Às vezes eu podia ver Jade pulando para a janela, correndo para a sala, depois via Jade miando alto, no seu jeito irritado de chamar o sonso do Yoda para as brincadeiras. Até o dia em que ela foi se tornando mais leve, voltando à sua forma natural de ser. Isto me deixou mais tranquila. Mas nada de ir ao quarto da minha mãe. Mantinha-se irredutível.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nada melhor do que um dia após o outro! Ontem à noite estava eu em meu quarto, minha mãe entrou, sentou-se à beira da cama e nos pusemos a conversar. Jade aninhara-se ao lado do Yoda, na cabeceira da cama, no cantinho, o mais longe possível da minha mãe. Seu comportamento arredio estava claro. No entanto, observava a tudo com curiosidade. E ouvia-se o latido do Totó, deitado na cama da minha mãe, resmungando, exigindo que ela voltasse para o quarto. Sabia o que estava acontecendo no meu quarto, não se conformava de não estar participando. Posso imaginar o Totó pouco a pouco ficando emburrado, o focinho deitado sobre as patas, o olhar cabisbaixo, esperando o fim do mundo. Totó é mandão, dá ordens, não tolera perder a majestade. Também tem ele seus momentos de ressentimento, que curte escondido atrás da cortina da sala. Mas, diferente de Jade, Totó não tem a autonomia da autoestima. Ao mesmo tempo em que ordena, imediatamente depois obedece. Seus ressentimentos não duram mais que algumas horas. E na maioria das vezes mais me parece um jogo de poder. Finge-se de brabo para se sentir maior do que é!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aproveitei para contar à minha mãe a minha ideia de futuro. Uma ideia simples, um plano normal de vida. Havia planejado com minha melhor amiga que assim que fizéssemos dezoito anos, iríamos morar juntas. Estudaríamos e moraríamos perto da universidade, numa vida só nossa, independente. Enfim, ideais de adolescência, pedaços de sonhos necessários para irmos formando uma realidade futura. No entanto, minha mãe se ressentiu profundamente com a conversa! Um sentimento de abandono tomou conta dela. Calou-se e me olhou longamente. E seu íntimo se agitava, era visível. Havia ali uma mistura incompreensível de rejeição e vazio, cuja explosão estava pronta para se transformar em lágrimas de adeus. Levantou-se, após disfarçar seus sentimentos em leves brincadeiras, e retirou-se para o seu quarto. E assim terminamos a noite.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Hoje aconteceu o inesperado. Jade condoera-se, tomara para si as dores da minha mãe! Logo pela manhã, foi até o quarto dela, subiu na cama e deitou-se a seus pés. Sem o carinho, mas trazia forte o afeto da sua presença e da sua cumplicidade. Partilhava da dor da minha mãe. Observou minha mãe se levantar, arrumar a cama e ir cumprir sua rotina de trabalho. Lá Jade ficou, na cama — o dia inteiro! —, no sagrado altar do sacrifício, dando seu testemunho de compreensão de uma dor que ela tão bem conhecia. É bem provável que se tivesse um pouquinho mais de coragem, teria beijado minha mãe. Um dia eu sei que ela fará isso. Jogará fora as dores desnecessárias.</span></p>
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		<title>A GATA ESPERTA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2020 14:30:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CONTOS]]></category>
		<category><![CDATA[@escritorgerin]]></category>
		<category><![CDATA[a-gata-esperta]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[conto brasileiro]]></category>
		<category><![CDATA[escritor brasileiro]]></category>
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		<category><![CDATA[roberto gerin]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Meu Deus! O Yoda! Desapareceu. Não está em lugar nenhum! Chamo-o por toda a casa, não responde nem se apresenta. Sonso, repetia eu, desesperada. Sonso! Não bastam as fugas da esperta da Jade, que já me deixam com o coração na boca, agora essa, o Yoda! O moleque! Que não quer me dizer onde se [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Meu Deus! O Yoda! Desapareceu. Não está em lugar nenhum! Chamo-o por toda a casa, não responde nem se apresenta. Sonso, repetia eu, desesperada. Sonso! Não bastam as fugas da esperta da Jade, que já me deixam com o coração na boca, agora essa, o Yoda! O moleque! Que não quer me dizer onde se escondeu! Minha mãe estava ocupada, eu não podia interrompê-la, mas meu coração pedia pra entrar na biblioteca e implorar por ajuda. Varri a casa com os olhos, abri armários, puxei gavetas, levantei a tampa da máquina de lavar roupa, enfiei as mãos por trás do botijão de gás, me agachei pra vasculhar sofás, camas, cadeiras, qualquer coisa que pudesse me revelar o paradeiro do Yoda. Até debaixo da minha cama, no rasgo do tecido por onde a Jade costuma entrar e se esconder pra fugir das minhas raivas, eu vasculhei! Peguei um cabo de vassoura e fui batendo, na esperança de encontrar o corpo do fujão, com certeza se deliciando da minha descontrolada angústia. Conheço o moleque, sei que ele não perde a oportunidade de chamar atenção. Não o encontrei. Meu desespero foi ao limite. Bati na porta da biblioteca e gritei:</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— O Yoda fugiu!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Minha mãe me pediu que eu esperasse cinco minutos. Mas não escondeu a preocupação. Ela adora o Yoda, acha-o tão sonso quanto simpático. Tão atrevido quanto amoroso. No minuto seguinte já abria a porta da biblioteca, chamando pelo gato. E dizia: — Estranho&#8230; o Yoda é tão solícito, só chamar e já aparece&#8230;! Ela usou a tática da torneira. Sempre que minha mãe sai da biblioteca e vai à cozinha tomar água do filtro, ela abre a torneira da pia. O marulhar da água jorrando é a senha para o Yoda aparecer. Pula sobre a bancada de mármore preto, aproxima-se da borda da cuba, e vai lambendo a água caindo lentamente da torneira. Não apareceu.</span></p>
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<p><span style="font-weight: 400;">Em ato contínuo, automático, pôs-se minha mãe, também ela, a vasculhar a casa. Eu a seguia, Jade me seguia, e Totó, interessado no que estava acontecendo, sabe-se lá o que se passava em sua mente mal-humorada, apenas observava. Não demonstrava desespero nem preocupação. Ah, Totó, sei bem o que se passa nesta cabecinha peluda! Vi quando ele entrou sozinho em meu quarto, rodopiou e imediatamente saiu. Jade não. Angustiada, ela me acompanhava. Emitia seu miado característico, queria me falar algo, mas, na correria do desespero em localizar o Yoda, não lhe dei ouvidos. Antes que o tempo passasse, era o momento de tomarmos uma atitude. Procurar fora do apartamento. Assumir que Yoda havia fugido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Corri para o primeiro lugar que me veio à mente. O final do corredor, oposto aos elevadores, no jardim da senhora do último apartamento. Entre vasos e densa folhagem, foi ali que Jade se escondera da última vez que havia fugido. Yoda não estava.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Minha mãe parou diante de um apartamento com a porta de entrada aberta. Chamou pelo morador. Apareceu uma senhora de idade avançada, que havia acabado de chegar com as compras. Garantiu que gato nenhum teria entrado, pelo menos não dera pela presença do animal. E para acalmar a minha mãe, permitiu que ela entrasse e procurasse. Minha mãe estava sem a máscara, não ousou entrar. Agradeceu e corremos escada abaixo saber alguma notícia do porteiro. Não, nada. Ficamos sem o que fazer. Pra onde ir. E nos olhamos. Com o mesmo olhar de dúvida. Não é possível que o Yoda tenha sumido&#8230; Não é a cara dele!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltamos pra casa. Jade e Totó estavam lado a lado, no meio da sala, e foi nítida a expressão deles ao ver que não trazíamos o Yoda. Jade não manifestou a mínima decepção. Miou, olhando pra minha mãe. Havia um código, mas minha mãe, sempre perspicaz nestas leituras, não deu atenção. Eu sabia que Jade tinha algo a dizer. Peguei-a no colo, ela ficou imóvel, me olhando. Embaixo, Totó, apenas curioso, também não demonstrava preocupação. Será que o Yoda entrou na biblioteca&#8230;? Larguei a Jade no chão e corri pra lá. Vasculhamos tudo, atrás dos livros, enfeites, Yoda gostava de se acomodar atrás da coleção vermelha, de onde às vezes ficava observando minha mãe trabalhar. Descia pra pedir um pouco de carinho, e logo retornava ao ninho. Nada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E agora? </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bateu o desespero, meus olhos começaram a lacrimar. Fui tomada de uma saudade insuportável do meu gato. Passei a vê-lo distante no tempo, como se já tivessem passado vinte anos! E sua imagem carinhosa de gato pegajoso e independente, travesso, às vezes incontrolável, mas sempre amigo&#8230;! Matava o meu gato. De saudades.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Jade desistiu de nos acompanhar. Miava, com certa insistência. Subiu na cama e se deitou ao lado do meu violão. Símbolo de saudade! Dos nossos momentos, quando eu toco e eles ficam me observando, anestesiados pelo som. Sem que eu lhe desse atenção, Jade começou a miar desesperadamente. Me irritou. Para, Jade! Chega! Foi o momento em que minha mãe apontou à porta do meu quarto. Fizera a leitura. Estava iluminada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— Dentro do violão! — gritou ela, ao perceber que duas cordas estavam arrebentadas. Uma terceira, solta.</span></p>
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<ul>
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</ul>
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		<title>A GATA OBSERVADORA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Oct 2020 14:00:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CONTOS]]></category>
		<category><![CDATA[@escritorgerin]]></category>
		<category><![CDATA[a-gata-observadora]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[conto brasileiro]]></category>
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		<category><![CDATA[literatura]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Hoje aqui em casa a coisa pegou. Totó foi além dos limites. Chateado com mamãe que não o pegou no colo quando ele pediu, não deixou por menos. Fez xixi na cama dela, bem quase em cima do travesseiro. Ali, onde ela deposita a cabeça pra dormir. Foi um Deus nos acuda quando minha mãe descobriu. Totó se resignou às broncas, encolheu-se em seu canto, atrás do sofá, protegido pela cortina. Esse é o Totó, movido por pequenas vinganças, numa atitude mais que instintiva de lidar com a dor da rejeição. Como castigo, perdeu as regalias de cachorro mimado. A cama, o colo, as atenções. Foi reduzido a cão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Jade sente o clima pesado, vaga pela casa tentando entender o que acontece. Acompanhada do Yoda, foram prestar solidariedade ao Totó, que desprezou grosseiramente (rosnou) o gesto. Virou para a parede, junto ao sofá, e ali passou o anoitecer, a noite e parte do dia seguinte. Assustara-se com as decisões da mamãe. Não imaginava receber tamanho castigo. Mamãe recolheu tudo, edredom, colcha, fronha, colocou no carro e levou para a lavanderia. Foi a primeira vez que Totó usou de forma tão acintosa o seu poder letal. E deixou claro. Um xixi não é apenas um xixi!</span></p>
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<p><span style="font-weight: 400;">Entendo que a reação do Totó foi um pouco além da curva. Mas previsível. Cachorro — qualquer animal — tem memória, mesmo que instintiva. Ele pode muito bem gravar seus pequenos rancores numa caixa preta, e depois, em algum momento, por algum motivo, abri-la em forma de xixi. É esta ação natural que o faz se aproximar tanto de nós!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os ciúmes do Totó se concentram mais em Yoda que em Jade. E Totó mapeia tudo. Cada movimento afetivo. Ele sabe como cada um, Jade e Yoda, se comportam em relação a mim e à mamãe.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Jade tornou-se minha companheira, convivemos pacificamente, condicionadas (por mim) que fomos em lidar com as particularidades de cada uma de nós. Para os animais, ter sua individualidade respeitada é um pressuposto de convívio afetivo tranquilo. Afinal, na relação com animais, o afeto é a principal moeda em circulação. De valor inestimável, pode alimentar sentimentos (ou instinto) e conquistar amores eternos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Yoda, por sua vez, pendeu para o lado da mamãe. Me ama, me visita, mas quando mamãe está livre do seu trabalho, é pra ela que ele dirige seus pedidos de carinho. E o primeiro movimento, quando mamãe sai da biblioteca, é correr para a cozinha, subir na bancada de granito e esperar que mamãe lhe abra a torneira para ele finalmente tomar água. Raramente usa o pote. Este é apenas um código, a senha para se espichar à espera dos carinhos. Que mamãe lhe oferece à farta, abduzida pela extrema simpatia (e solicitude) do Yoda. E aqui nascem os ciúmes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não bastasse, Yoda invade o território do Totó. Come da sua comida, brinca com suas bolinhas de plástico, ocupa os melhores espaços da cama da mamãe, e não dá sinais de se intimidar com o mau humor do imperador Totó. Em momentos de extrema tensão, o minúsculo ciumento se engrandece e parte pra cima do rival. Yoda, sem susto, com a precisão do salto, se livra do ataque. Mas não arreda pé da cama! O que deixa Totó enfurecido. Trava uma luta inglória! Seus limitados movimentos de cão miúdo o colocam em desvantagem. Totó não disfarça seu ódio, Totó não disfarça seu descontentamento. E não disfarça as suas frustrações de se ver dominado por um gato.</span> <span style="font-weight: 400;">    </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E aqui reside a causa de tudo. A mágoa escoa pelo xixi. Às vezes, Totó espera por horas deitado à porta envidraçada da biblioteca, controlando os movimentos da minha mãe, já prevendo a hora em que ela vai se levantar da cadeira. E neste dia ela se levantou, puxou a porta de correr da biblioteca, não deu pela presença do Totó e foi direto para a cozinha, onde o Yoda já a esperava. E Totó ficou a meio caminho do corredor, observando a sessão de carinhos e chamegos entre minha mãe e o Yoda. O rosto contraído, o focinho inquieto e os olhos mortiços, condenados à mais profunda solidão. Ele não se mexia, mas seu corpo denunciava o avassalador sentimento de ciúme, a sensação de impotência diante daquele cruel quadro de afeto abundante!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esnobe, sistemático e controlador, eis o Totó. E eis a razão por que tive tantas dificuldades em lidar no dia a dia com ele. Como me ajustar às suas manias de conviver a conta gotas? De particularizar o afeto? No colo da minha mãe, me rejeita. No meu colo, rejeita minha mãe. No colo da Ana, rejeita a mim e a minha mãe!  Da Amanda, rejeita a nós três! E quando a Jade chegou, ele trocou de vez o meu quarto pelo quarto da minha mãe. Apoderou-se da cama dela como se fosse o paraíso perdido! Tornou seu território, renunciou à vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Jade, que entrara pela janela da sala, pulara para o chão e, posicionando-se ao canto, no fim do corredor, pôde muito bem observar a triste cena. E, lógico, compreendeu a dinâmica, lançando olhares ternos para o Totó, que absolutamente nada percebeu. Parado ao meio do corredor, estava fixo, raivosamente fixo na cena de afeto que acontecia sobre a bancada. Vencido pela tristeza, Totó mudou o comportamento. Pediu colo, seu corpo soerguido, a senha que mamãe tão bem conhece. Mas ela desconsiderou. E neste momento de suprema dor, Totó arquitetaria seu macabro plano. Nunca antes havia feito xixi na cama da minha mãe.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais tarde, aproximando-se do anoitecer, por insistência, mamãe colocou Totó na cama dela. Isto nos faz crer que quando mamãe o colocou na cama, ele já estava de caso pensado. Tanto que Jade percebera o movimento. Ela foi até o quarto, pulou sobre a cama e se aproximou do Totó. Exatamente não se sabe o que Jade pretendia, mas é bem certo que viera para prestar solidariedade. Ele se afastou, posicionou-se sobre o travesseiro da mamãe e fez o xixi, encarando a Jade. Queria encarar a mamãe, na falta dela, encarou a Jade. E Jade compreendeu tudo. Não devemos ficar calados com nossas dores. No entanto, resta-nos saber como gritá-las! No caso do Totó, utilizou-se de sua maldade secreta para se vingar. Jade, que a tudo observava, compreendeu que era hora de se retirar do local do crime.</span></p>
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</ul>
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