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	<title>Arquivos literatura contemporânea - Roberto Gerin</title>
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	<title>Arquivos literatura contemporânea - Roberto Gerin</title>
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		<title>O peso do pássaro morto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Oct 2022 12:40:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A CURA NÃO EXISTE A protagonista de O PESO DO PÁSSARO MORTO, 161 pg., Ed. NÓS, romance de estreia de Aline Bei, é surpreendida por um acontecimento que irá alterar o curso natural de sua vida. Estamos falando do abuso sofrido por ela, aos dezessete anos. Diante da perplexidade do inesperado ato, fica a pergunta: [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>A CURA NÃO EXISTE</strong></h1>
<p>A protagonista de <em>O PESO DO PÁSSARO MORTO</em>, 161 pg., Ed. NÓS, romance de estreia de Aline Bei, é surpreendida por um acontecimento que irá alterar o curso natural de sua vida. Estamos falando do abuso sofrido por ela, aos dezessete anos. Diante da perplexidade do inesperado ato, fica a pergunta: poderia ter sido evitado? Esta é a questão que se coloca e que se transforma na origem da culpa — por que a vítima não consegue evitar o abuso? Sabendo que não há mais volta, a protagonista se vê obrigada a refazer seu caminho. Vai em busca de um abrigo emocional para se proteger da dor. Decide que não há cura para o que aconteceu. A dor a acompanhará para o resto da vida. Até o último suspiro. Aline Bei até tenta oferecer à sua personagem pequenas redenções. Em vão, pois a história já foi antecipadamente escrita.</p>
<p>Aqui cabe um pequeno parêntesis. Essa é a cruel fatalidade do abuso: o algoz, ao abandonar a cena do crime, deixa inoculado na vítima a semente da culpa.</p>
<blockquote>
<h2>A protagonista de <em>O Peso do Pássaro Morto</em> é um ser humano surpreso, vivendo dentro de um vazio.</h2>
</blockquote>
<p>A estrutura romanesca de <em>O Peso do Pássaro Morto</em> é fielmente cronológica. Numa sequência de idades específicas, a protagonista vai narrando seus movimentos internos, na incessante busca de preencher lacunas existenciais. Ela está disposta a revelar sua história como forma de entendimento, alívio e cura. No entanto, a cada revelação, depara-se com uma perda.</p>
<p>O relato se inicia com fatos ocorridos na vida da protagonista, quando de seus oito anos, depois segue pela adolescência e juventude, até atravessar a vida adulta e chegar aos cinquenta e dois anos. Ao longo de todo esse trajeto, a protagonista busca referenciais que a façam entender por que as coisas teimam em fugir a seu controle. Ela parece percorrer uma vida à mercê de casualidades, indigna que é de tomar as rédeas do próprio destino. Um ser humano surpreso, vivendo dentro de um vazio.</p>
<blockquote>
<h2>O estupro é uma violência revestida do poder absoluto.</h2>
</blockquote>
<p>Criança tímida, com baixa autoestima, socialmente deslocada e vítima constante de <em>bullyings</em>, a protagonista constrói para si uma sólida amizade com sua colega de escola, Carla. O fator determinante que irá moldar sua alma sensível de menina solitária será a perda da amiga, vítima de ataque de cão feroz. A morte de Carla vai prepará-la para uma existência de desencontros. É desta maneira que a narradora relata, numa moldura poética contagiante, sua dor diante da morte da amiga: “&#8230; <em>pelo pescoço subiu um grosso de choro que eu não deixei chegar no olho</em>”.</p>
<p>A autora, ao construir uma identidade dolorosa para sua personagem, vai moldá-la do ponto de vista de sua construção, de forma a preparar sua ação máxima e contundente, que está por acontecer logo adiante, aos dezessete anos. A personagem transforma-se em receptáculo da própria dor, ao se ver indefesa diante da inesperada agressão. As mãos que cinzelariam para sempre o sofrimento em seu corpo são as mesmas mãos que ela tanto se comprazia em afagar. O estupro não é um ato fortuito, que a vítima poderia muito bem evitar. Essa é a inaceitável falácia. O estupro é uma violência revestida do poder absoluto, porque exercido por animalesca maldade.</p>
<blockquote>
<h2>Bete é a ponte segura que encurta momentaneamente a distância entre mãe e filho.</h2>
</blockquote>
<p>A partir da gravidez decorrente do ato vil, vamos presenciar a protagonista levando uma vida a esmo, carente de significados. Ela se engaja numa luta surda entre amar ou rejeitar o filho. Vê-se incapaz de estabelecer uma relação de afetos concretos, portanto, duradouros. É aqui que reside a base dramática da narrativa: quer amar o filho, mas seu corpo e sua alma o rejeitam. E ela se submete a essa rejeição, sem conseguir vencê-la racionalmente.</p>
<p>Para estabilizar a frágil relação entre mãe e filho, surge na trama a vizinha, Bete, contratada pela protagonista para cuidar do filho enquanto trabalha. É por meio de Bete que a mãe camufla sua incapacidade de expressar amor materno. Bete, essa mulher “<em>gorda por dentro e por fora</em>”, vem suprir os afetos que ela não tem condições de oferecer. Como ela própria reconhece, Bete é a ponte segura que encurta momentaneamente a distância entre ela e o filho.</p>
<blockquote>
<h2>O tapa na cara que a mãe dá no filho será o peso do pássaro morto que ela carregará para o resto da vida.</h2>
</blockquote>
<p>No entanto, com a morte precoce de Bete, a protagonista se vê frente a frente com a realidade chamada “filho”. Não há mais como disfarçar. A ruptura está desenhada, pronta para acontecer a qualquer momento, emoldurada em uma ação impulsiva. O tapa na cara que ela dá no filho, por ter este matado um passarinho, será o peso do pássaro morto que ela carregará para o resto da vida. E que abrirá espaço para que a dor estruturante (o estupro) se manifeste em toda a sua complexa intensidade.</p>
<p>Ao ser estuprada pelo próprio namorado e, desse ato, ter engravidado, ela toma a decisão de não abortar. Na confusão de afetos e desilusões, estava convicta de que aceitaria o filho. No entanto, a decisão acaba gerando inadequações emocionais. Quis assumir o filho, não o matou; ao não conseguir assumir o filho, o certo talvez seria tê-lo matado. Mas, como ela mesma reconhece — “<em>não matei</em>”.</p>
<p>A história da protagonista vai se fechando sob o peso de sucessivas desesperanças e de esforços inúteis na tentativa, em vão, de se reconstruir. É a mulher solitária que se tranca dentro de um cotidiano sem pontos de fuga. E a solidão se concretiza com a última ruptura, que se dá quando, a caminho de visitar o filho em Ouro Preto, ao parar para abastecer o carro, acaba acolhendo um cão sarnento. Ao reconhecer no cão a ideia do afeto verdadeiro, dá meia volta e vai viver sua vida com a inseparável companhia do novo amigo. É o derradeiro suspiro: o filho passa a existir apenas em raríssimos (des)encontros protocolares.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>O Peso do Pássaro Morto</em>, a autora transforma em fábula o que era apenas fragmentos de dor.</h2>
</blockquote>
<p>Aqui se chega ao biombo emocional, atrás do qual a protagonista passa a se esconder. É seu lenitivo existencial. Decididamente, não há cura para a dor que carrega. E, para justificar sua rendição como mulher e mãe, ela reduz sua vivência afetiva à companhia de um cão. E, quando sua última razão de existir se for, ela entende que será o momento de encerrar o triste espetáculo da vida.</p>
<p>Nesse seu romance de estreia, <em>O Peso do Pássaro Morto</em>, Aline Abei apresenta a vida da protagonista a partir do olhar de quem perscruta sentimentos e emoções com as afiadas ferramentas da sensibilidade poética. Ela se paramenta desse estilo lucidamente encantatório para transformar em fábula o que era apenas fragmentos de dor. Sabemos que o escritor se faz anunciar pelo estilo. Mas o estilo é apenas a forma. Essencial. Só que o estilo tem que fazer chegar ao leitor uma visão emocionalmente inteligível sobre o que o autor sente e pensa. E aqui se faz toda a habilidade de Aline Bei. Sua voz é lúcida e potente, pronta para ser ouvida para além do nosso tempo.</p>
<p>&nbsp;</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>Pequena coreografia do adeus</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 12 Sep 2022 12:00:36 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O PASSADO NOS CONVIDA A REFAZER NOSSO FUTURO O novo romance de Aline Bei, PEQUENA COREOGRAFIA DO ADEUS, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, surpreende pelo seu vibrante tom poético. Não que a autora não tenha já utilizado esta arma poderosa em seu romance de estreia — o premiado O Peso do Pássaro Morto. Porém, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>O PASSADO NOS CONVIDA A REFAZER NOSSO FUTURO</strong></h1>
<p>O novo romance de Aline Bei, <em>PEQUENA COREOGRAFIA DO ADEUS</em>, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, surpreende pelo seu vibrante tom poético. Não que a autora não tenha já utilizado esta arma poderosa em seu romance de estreia — o premiado <em>O Peso do Pássaro Morto</em>. Porém, em <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>, Aline Bei assume a poética como voz de protesto para retratar a vida de uma menina presa ao abandono afetivo. Esse manejo soberbo da poesia como veículo de emoções e síntese de experiências parece ser apenas um pretexto para a autora esgrimir sua exuberante literatura. No entanto, logo percebemos que sua escrita se alimenta de aguçada sensibilidade para retratar os mais imperceptíveis movimentos que compõem o terrível painel de dores. Aline Bei cria o vazio e nele faz sua protagonista existir.</p>
<blockquote>
<h2>Júlia é uma criança solitária, com baixa autoestima, que se vê presa à relação mal resolvida dos pais.</h2>
</blockquote>
<p>Basicamente, a trama se estrutura no tripé da família tradicional: o pai, a mãe e a filha. Mas há, sem dúvida, nessa tríade, material orgânico de sobra para compor a trama existencial do romance. E Aline Bei dá o tiro fatal no desfecho de sua fábula, ao se dobrar momentaneamente à autocomplacência. No apagar das luzes, depois de tudo o que lhe aconteceu, só resta à protagonista desfraldar a bandeira da compaixão. Em se tratando de ser humano que carrega histórias que o fragilizam, não há como colocar as relações familiares no cadafalso do simples julgamento. A luta perene cansa. Será necessário, em algum momento, depositar as armas.</p>
<p>Júlia é uma criança solitária, com baixa autoestima, que se vê presa à relação mal resolvida dos pais. Diante do rosário de agressividades emocionais e negligências afetivas, ela tenta compreender o que está acontecendo. Busca mudar sua história, construindo um relacionamento possível com a mãe. Mas, a cada fracasso, mergulha na sua pequenez.</p>
<p>Sobra-lhe o pai, de quem se aproxima na esperança de estabelecer compensações de vazios afetivos. Mas também pouco encontra do afeto seguro que busca. E, se encontra, é tão fugaz, que sequer há tempo para desfrutar.</p>
<blockquote>
<h2>É assim que a protagonista de <em>Pequena Coreografia do Adeus</em> se move. Por entre os escombros causados pela rejeição.</h2>
</blockquote>
<p>Resta-lhe insistir na quimera de que as coisas podem, sim, melhorar. Mas suas esperanças são abatidas em pleno voo com a separação dos pais. O pai, ainda um ancoradouro de pequenas afeições, ao abandonar a mãe, acaba se distanciando da filha. Pelo menos, esta é a sensação que toma conta de Júlia. Tudo se desmorona, não há mais com o que sonhar. O único passo a ser dado é ir em direção à vida adulta. É a fuga esperada por anos. Fugir do que ela chama de casa e que jamais será um lar.</p>
<p>A trama de <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>, de espinha dorsal simples e efetiva, se atém a um relato de vida. Não há tensões narrativas, não há desdobramentos de ações que retroalimentem conflitos, não há armadilhas ao longo do caminho. O que há é apenas o que a própria vida oferece.</p>
<p>Ao se limitar ao cotidiano de uma menina que se reflete nas ações dos adultos como espelho de busca de si mesma, a autora nos disponibiliza a visão sensível da dor do abandono sistemático. É assim que a protagonista se move. Por entre os escombros causados pela rejeição.</p>
<blockquote>
<h2><em>Pequena Coreografia do Adeus</em> é exatamente isso: uma coreografia silenciosa, ensaiando o adeus que resiste em se despedir.</h2>
</blockquote>
<p>Nesse sentido, para entender o que acontece, Júlia se utiliza da poderosa voz poética — que a autora tão generosamente lhe oferece — como arma de grito, como ponto de compreensão. À sua maneira, Júlia procura mitigar as dores do fracasso cotidiano. Recusa-se a entrar na fria câmara da desesperança. Vai desenvolvendo a consciência de que a dor, acariciada pela poesia, será sua companheira inseparável.</p>
<p>A questão que se coloca é muito simples. O que uma criança indefesa pode fazer em favor de si mesma? Qual sua capacidade de mudar o destino que lhe é imposto por erros alheios? Parece não haver escolhas para Júlia. Nem em sonhos. Diante da perversa frieza da mãe e da autoindulgência do pai, não há pedras disponíveis para refazer o caminho. A família já está constituída na sua dinâmica destrutiva, tendo no centro da centrífuga emocional uma criança desamparada.</p>
<p>À medida que a narrativa avança, fica claro que Júlia vai desistindo da mãe. No entanto, ela reluta — posto que não se abandona impunemente uma mãe, seja quem ela for. Nesse diapasão emocional, sempre caberá um pequeno espaço para novas tentativas. <em>Pequena Coreografia do Adeus</em> é exatamente isso: uma coreografia silenciosa, ensaiando o adeus que resiste em se concretizar, mas que, sabe-se, em algum momento da vida, fará seu último gesto.</p>
<blockquote>
<h2>A diagramação escapa maliciosamente ao padrão a que estamos acostumados ao ler um romance.</h2>
</blockquote>
<p>A precisão de linguagem com que Aline Bei desenha os movimentos internos da pequena protagonista chega a ser assustadora. A autora demonstra real intimidade de quem conhece os sulcos de dores que marcaram a pele e a alma da criança Júlia. Neste sentido, trago para esta resenha um pequeno trecho que demonstra como Júlia, sem o saber, no seu desespero, busca manter o frágil elo afetivo que a mantém ligada ao pai — que, ausente, ainda é seu ponto futuro na busca por afeto. Há uma possibilidade; sua intuição a alerta. Diz Júlia: “<em>quando meu pai fosse embora, eu sentaria naquele sofá incontáveis vezes apoiaria meu copo d’água na sombra do seu copo de cerveja.</em>”. O afeto que se refaz no desejo transformado na sua mais pura manifestação poética.</p>
<p>Mas vamos ao que efetivamente logo de início surpreende o leitor. O formato impresso de <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>. Sua diagramação escapa maliciosamente ao padrão a que estamos acostumados ao ler um romance. O visual tem um impacto peculiar e efetivo na leitura. É a distribuição de palavras ao longo da página que determina como vamos ler, como vamos nos sentar para ler, como vamos sentir o peso de cada emoção metaforizada, com que velocidade caminharemos sobre as páginas. Há uma teatralidade corporal nas palavras que vai além da simples semântica. Algumas se exibem solitariamente, outras apenas se acomodam diante dos nossos olhos, outras se apequenam, reduzindo-se a sua frágil autoestima, outras ainda bradam, desrespeitando a pontuação que, aliás, é de uma deliciosa rebeldia. E há as que se escondem de si mesmas, cabendo ao leitor decifrar suas intenções.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>, o que nos salta aos olhos é o jogo diabólico que a autora faz entre o abstrato e o concreto.</h2>
</blockquote>
<p>Reforçando, a diagramação tem um efeito decisivo na relação emocional do leitor com a história narrada. Referindo-nos ao teatro, é como se as palavras se condicionassem a marcações antecipadamente ensaiadas, com o objetivo de explicitar para o leitor certas reações e ações da personagem. A autora distribui pelas páginas suas “explicações” interiores, fingindo camuflar seus sentimentos, disfarçando o que ela pensa sobre o que está dizendo. Há uma contemporaneidade estupenda nessa proposta diagramática.</p>
<p>E, por fim, a grande surpresa fica por conta do tom poético, levado, em <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>, a surpreendentes extremos. O que nos salta aos olhos é o jogo diabólico que a autora faz entre o abstrato e o concreto, perpetrando uma manipulação perversa das sensações do leitor. É tão hábil, que o exemplo dado acima — quando a ausência do pai, simbolizado no copo de cerveja, se transforma numa simples sombra — nos remete imediatamente à incômoda mistura de abandono, saudade e esperança. Na poesia de Aline, tudo leva ao real. Esse estilo de fazer poesia traz prazeres renovados ao leitor, que se coloca diante de uma prosa contaminada por múltiplos sabores sensoriais.</p>
<p>Em suma. Estamos diante de mais uma grata surpresa, que nos faz acreditar que a literatura brasileira atual esteja produzindo muito material literário de grande resultado artístico. Pensando em Aline Bei, só nos resta declarar que já estamos esperando pelo próximo projeto. Mas, sem ansiedade. Afinal, artista não constrói para si linha de produção. Então, cabe ao leitor continuar a degustar outras literaturas nacionais, enquanto espera por mais uma flor desse profícuo Lácio.</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
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