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	<title>Arquivos @escritorgerin - Roberto Gerin</title>
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	<title>Arquivos @escritorgerin - Roberto Gerin</title>
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		<title>O acontecimento</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Nov 2022 12:00:51 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>UMA PUNGENTE AUTONARRATIVA</strong></h1>
<p>Em seu romance O ACONTECIMENTO, a escritora francesa Annie Ernaux, vencedora do Nobel de Literatura em 2022, não camufla a realidade: não esconde os lugares, as datas e as pessoas que fazem parte da trama. A autora dá ao romance a versão não-ficcional de um conturbado enredo vivido por sua personagem. Se é uma autobiografia romanceada, parece não haver dúvida. O que sobra é coragem por parte da autora em dissecar momentos dolorosos de sua vida, permitindo-nos acompanhar todos os movimentos que a levaram à decisão de abortar. Fica-nos a evidência de que ela usou a literatura para colocar as dores no seu devido lugar. E, para que a dor fosse reconhecida como o eixo da existência, Annie Ernaux se propõe a denunciar as estruturas sociais moralistas como algozes implacáveis que afligem, submetem e fragilizam a mulher. No entanto, é essa rede de perversidades que a motiva a seguir adiante. A vida podia ter sido melhor, sim. No entanto, ainda há forças para se refazer ao longo do caminho.</p>
<blockquote>
<h2>Tudo à volta pode machucar, pode agredir, pode anular.</h2>
</blockquote>
<p>Annie Ernaux não economiza imagens radiografadas em palavras cruas para descrever seus sentimentos de inominável angústia ao se colocar diante do fato consumado. Para retratar este momento, eis como ela descreve o desfecho do aborto: “<em>Choramos silenciosamente. É uma cena sem nome, a vida e a morte ao mesmo tempo. Uma cena de sacrifício</em>”. Esse é o acontecimento.</p>
<p>Fato marcante na literatura de Annie Ernaux é ela não se desgrudar dos imbróglios sociais que determinam sua vivência no mundo. Ela, como pessoa e personagem, é agente do meio, um corpo às vezes descontruído, às vezes com vontades e desejos próprios, que se move por entre estruturas rígidas, necessitando de toda cautela para não esbarrar na dor. Tudo à volta pode machucar, pode agredir, pode anular. E haverá sempre a necessidade de se superar, de vir à tona, de recomeçar. Não há como, ao se falar de dias vividos num tom de autobiografia sem complacências, não se dobrar à sinceridade e ao espanto.</p>
<blockquote>
<h2><em>O Acontecimento</em> se transforma em um torturante périplo na procura de quem realize o aborto.</h2>
</blockquote>
<p>O sonho de dias melhores é um lenitivo para a desesperança. Na próxima esquina, ao virar para outra direção, pode ser que encontre mais luz, mais brilho, mais sol. Sair da penumbra é o desejo que não se apaga. O que nos surpreende é a certeza da protagonista de que só o aborto a libertará das amarras morais que a acorrentam. Vai levar para a vida a amargura da luta insana, mas, ao se sair vitoriosa, o futuro pode ser mais atrativo do que um passado de sofrimentos. Essa é nossa condição de viver: esperar que lá na frente haja o pouso feliz.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O fio condutor do relato de vida da protagonista se concentra na sua tentativa desesperada de realizar o aborto. Dentro desta perspectiva angustiante, a possibilidade técnica encontrada pela autora foi se distanciar no tempo. Ela se utiliza das ferramentas da memória e de escritos esparsos para compor a trajetória de angústias de uma jovem universitária de vinte anos que engravida de uma relação insegura, e que se vê, com isso, condenada aos julgamentos da família e da sociedade. Estamos falando da década de 1960, numa França sob os efeitos da ressaca cívica da ocupação nazista. A culpa ainda permeia o esgarçado tecido social, uma época que antecipa os espasmos políticos de 1968. É nesse ambiente de incertezas e opressões que a protagonista, sem muito elaborar sua decisão — mas decidida a abortar —, vai em busca da solução para o problema que se aninha em seu ventre. Fica-nos a impressão de que não é ainda o momento histórico para o rebento vir ao mundo.</p>
<blockquote>
<h2>Ao falar da mulher, <em>O Acontecimento</em> é um romance para ser lido por homens.</h2>
</blockquote>
<p>Portanto<em>, O Acontecimento</em> se transforma em um torturante périplo na procura de quem realize o aborto. Acompanhamos a personagem pelas ruas de Roeun, pelos metrôs e avenidas de Paris, na busca de quem materialize a sua decisão. Ainda um tabu — e um crime —, o aborto só podia ser realizado pelos “anjos da morte”. São mulheres que se utilizam de técnicas heterodoxas, algumas perigosas, outras agressivas ao corpo feminino, para livrar a mulher do incômodo social da gravidez. A técnica abortiva a que se submeteu a protagonista é de arrepiar os neurônios — Annie Ernaux não nos poupa de suas descrições.</p>
<p>Se <em>O Acontecimento</em> é um romance para ser lido por mulheres que se identificarão com a protagonista, mesmo não tendo passado pelas vicissitudes do aborto, é, acima de tudo, uma narrativa obrigatória para homens. Em um primeiro momento, para conhecerem os sofrimentos da maternidade indesejada, da qual, evidentemente, fazem parte; e, depois, para que se conscientizem de que a prevenção e o cuidado com a parceira são atos humanos indispensáveis numa relação, seja ela duradoura ou passageira. Virar as costas para a inesperada gravidez da parceira é um ato de indesculpável covardia. É deixar a mulher entregue à sorte de encontrar quem a ampare. E este é exatamente o núcleo existencial do romance: desamparada, Annie Ernaux radiografa cada minuto do seu solitário calvário de sofrimentos para se libertar de sua condição de grávida. Ao sair para a vida, livre do feto, há uma outra mulher, machucada, sim, mas liberta.</p>
<blockquote>
<h2><em>O Acontecimento</em> celebra a vitória pessoal da autora.</h2>
</blockquote>
<p>A literatura de Annie Ernaux nos surpreende pela racionalidade cirúrgica com que ela traça a realidade em movimento, não poupando ninguém e nada, como se a autora lançasse um olhar vingativo sobre o mundo. Um mundo que lhe foi hostil, em todos os aspectos. Um ser vivente não acolhido pelos sonhos, e que teve que, primeiro, ir atrás de compreender as suas origens, e, depois, tentar se refazer em uma outra estrutura social e econômica, que lhe desse o direito de ser feliz, longe de estruturas furiosas que a agridem e a limitam como ser e como mulher. Dar o salto arriscado para o outro lado do muro social, com o sonho de ser apenas mais uma pessoa normal, foi o que a motivou a superar sua história. Eis a vitória pessoal esculpida neste pungente romance <em>O Acontecimento</em>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Úrsula</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Nov 2022 12:00:34 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>NINGUÉM PODE ESCRAVIZAR NOSSA MENTE &#160; Apesar de ser um romance saído do ventre do romantismo, quando se trata de falar da escravidão e do sistema social que dá razão a essa barbárie, a obra máxima de Maria Firmina dos Reis, ÚRSULA, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, deixa momentaneamente as paixões de lado para [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>NINGUÉM PODE ESCRAVIZAR NOSSA MENTE</strong></h1>
<p>&nbsp;</p>
<p>Apesar de ser um romance saído do ventre do romantismo, quando se trata de falar da escravidão e do sistema social que dá razão a essa barbárie, a obra máxima de Maria Firmina dos Reis, ÚRSULA, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, deixa momentaneamente as paixões de lado para expor ao leitor, sem retoques, a realidade de dores do escravizado. Esse hábil jogo de revelar verdades históricas inseridas na concepção romanesca — forma <em>versus</em> conteúdo — alça o romance de Maria Firmina ao <em>status</em> de literatura a serviço da arte e da política. Não tem como dissociar <em>Úrsula</em> de seu tempo histórico. Não à toa, tornou-se uma obra-prima da nossa literatura romântica.</p>
<p>A despeito do inquestionável mérito literário de <em>Úrsula</em>, causa estranhamento o silêncio que envolveu a obra ao longo de quase todo o século XX. Se percorrermos resenhas e discussões literárias, inclusive no âmbito dos bancos escolares, vamos perceber raros momentos em que esse romance, basilar da nossa literatura, foi objeto de apreço e análise. Só nos últimos anos o silêncio vem se quebrando. E o que vemos agora, como justa reparação, é a participação de Maria Firmina como homenageada na 20ª edição da FLIP – Feira Literária Internacional de Paraty.</p>
<h2>Não há hoje, na proposta política de combate ao racismo, ignorar <em>Úrsula</em>.</h2>
<p>A escravidão é uma temática espinhosa, que costumamos relegar para páginas menores da nossa história, evidenciando a falta de interesse em colocar fato tão vergonhoso diante dos holofotes. Em tempos atuais, em que o racismo é assunto de discussões sérias, em que a literatura de autoras e autores negros vem ganhando destaque nas mídias especializadas e nas estantes de leitores sedentos por conhecer a realidade social do preto, não há mais como ignorar <em>Úrsula</em>. Tornou-se imperativo festejar Maria Firmina dos Reis, atestando sua importância no surgimento dessa literatura voltada para discutir as questões cotidianas da gente preta.</p>
<p>E todo esse movimento começou lá trás, pelas mãos de Maria Firmina dos Reis, mulher negra e letrada (professora no interior do Maranhão), que insistiu em lutar pelo sonho de se transformar numa escritora publicada. <em>Úrsula</em> vem a lume em 1859, ainda no auge da escola romântica. Mas com um detalhe. Maria Firmina publica seu romance sob o pseudônimo de “Uma Maranhense”, para, só depois, em outras edições de outros escritos seus, assumir corajosamente seu nome de mulher e sua condição de escritora negra. Eis o grande feito: ela não só se torna a primeira mulher a publicar um romance no Brasil como revela ser, esta mulher, negra.</p>
<h2>O momento mais pungente da narrativa é protagonizado por Túlio.</h2>
<p>O enredo gira em torno do amor impossível entre Úrsula e Tancredo. O moçoilo bem-apessoado sofre um acidente de cavalo nas cercanias da fazenda onde Úrsula mora com sua mãe, Luiza B. Túlio, o escravo da fazenda, encontra Tancredo gravemente ferido. Leva-o para a casa de sua senhora, onde o enfermo recebe os cuidados de Úrsula. Como não poderia ser diferente, os dois jovens se apaixonam, com trocas de juras de amor eterno. O enlace é adiado tendo em vista compromissos inadiáveis de Tancredo. A ausência do amante possibilita à autora introduzir, primeiro, as questões da escravidão, e, depois, o vilão da trama.</p>
<h2>Do romance <em>Úrsula</em> emerge uma outra África, a terra da liberdade.</h2>
<p>A grande inovação de Maria Firmina foi dar voz própria aos negros que, apesar de coadjuvantes, têm a potência necessária para ecoar as dores geradas pela escravidão e provocar emoções genuínas no leitor. Reside aqui a alma essencial do romance, quando nos é dada a oportunidade de ouvir a voz da preta Susana. O momento mais pungente da narrativa é protagonizado por Túlio. Ao ser alforriado com o dinheiro presenteado por Tancredo, e decidido a abandonar a fazenda de Luiza B., Túlio vai se despedir de Susana. É a oportunidade que a autora se oferece para falar de tema tão caro a ela: a escravidão e suas dores.</p>
<p>Susana rememora seus dias livres de infância e adolescência vividos na sua mãe-África. Por meio dos relatos de Susana, a autora nos traz uma África diferente, exaltada como a terra da liberdade. É o lugar onde os negros, agora escravizados, eram felizes. Casada, mãe de filhos pequenos, é capturada e transportada para uma terra distante: a terra do sofrimento, a terra da escravidão. É a chaga que o Brasil, visto por meio de sua história oficial, sempre tentou esconder.</p>
<h2><em>Úrsula</em> simboliza a tragédia moral em que se transformou a escravidão.</h2>
<p>O romance ganha fôlego dramático com a introdução do vilão, o agente de sofrimentos e tragédias. É o Comendador, irmão e vizinho de Luiza B. Em um encontro fortuito com a sobrinha Úrsula, o tio se apaixona por ela. É uma paixão incontrolável, que gera um amor egoísta e vingativo. O ódio que o Comendador nutre por sua irmã, Luiza B., por ter esta se casado com um rapaz de origem inferior, fora do círculo social da família, é transferido para Úrsula. A recusa incondicional de Úrsula em se casar com o Comendador, preservando seu amor por Tancredo, coloca em movimento o desfecho trágico previsível. É a partir da construção de conflitos familiares, exacerbados pelo triângulo amoroso — portanto, motivados por paixões soberbas —, que a obra de Maria Firmina vai se desenhar em direção à tragédia romântica.</p>
<p>Maria Firmina, munida de rigoroso estilo, sente-se à vontade para falar daquilo que lhe interessa e que lhe dói na pele. São os frutos doloridos de vivências de mulher negra. Sua capacidade de ir além de si a credenciou para tratar de assuntos de interesse social, trazendo o negro para a ribalta, ao lhe dar voz, sentimentos e memórias. É um jogo concomitante de amor e ódio, de escravidão e liberdade, e, acima de tudo, da consciência de que é nosso direito inalienável podermos usufruir do nosso corpo e da nossa alma. O corpo, na visão de Maria Firmina, foi aprisionado; a alma, jamais. Afinal, ninguém tem o poder de escravizar nossa mente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
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</blockquote>
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		<title>O peso do pássaro morto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Oct 2022 12:40:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A CURA NÃO EXISTE A protagonista de O PESO DO PÁSSARO MORTO, 161 pg., Ed. NÓS, romance de estreia de Aline Bei, é surpreendida por um acontecimento que irá alterar o curso natural de sua vida. Estamos falando do abuso sofrido por ela, aos dezessete anos. Diante da perplexidade do inesperado ato, fica a pergunta: [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>A CURA NÃO EXISTE</strong></h1>
<p>A protagonista de <em>O PESO DO PÁSSARO MORTO</em>, 161 pg., Ed. NÓS, romance de estreia de Aline Bei, é surpreendida por um acontecimento que irá alterar o curso natural de sua vida. Estamos falando do abuso sofrido por ela, aos dezessete anos. Diante da perplexidade do inesperado ato, fica a pergunta: poderia ter sido evitado? Esta é a questão que se coloca e que se transforma na origem da culpa — por que a vítima não consegue evitar o abuso? Sabendo que não há mais volta, a protagonista se vê obrigada a refazer seu caminho. Vai em busca de um abrigo emocional para se proteger da dor. Decide que não há cura para o que aconteceu. A dor a acompanhará para o resto da vida. Até o último suspiro. Aline Bei até tenta oferecer à sua personagem pequenas redenções. Em vão, pois a história já foi antecipadamente escrita.</p>
<p>Aqui cabe um pequeno parêntesis. Essa é a cruel fatalidade do abuso: o algoz, ao abandonar a cena do crime, deixa inoculado na vítima a semente da culpa.</p>
<blockquote>
<h2>A protagonista de <em>O Peso do Pássaro Morto</em> é um ser humano surpreso, vivendo dentro de um vazio.</h2>
</blockquote>
<p>A estrutura romanesca de <em>O Peso do Pássaro Morto</em> é fielmente cronológica. Numa sequência de idades específicas, a protagonista vai narrando seus movimentos internos, na incessante busca de preencher lacunas existenciais. Ela está disposta a revelar sua história como forma de entendimento, alívio e cura. No entanto, a cada revelação, depara-se com uma perda.</p>
<p>O relato se inicia com fatos ocorridos na vida da protagonista, quando de seus oito anos, depois segue pela adolescência e juventude, até atravessar a vida adulta e chegar aos cinquenta e dois anos. Ao longo de todo esse trajeto, a protagonista busca referenciais que a façam entender por que as coisas teimam em fugir a seu controle. Ela parece percorrer uma vida à mercê de casualidades, indigna que é de tomar as rédeas do próprio destino. Um ser humano surpreso, vivendo dentro de um vazio.</p>
<blockquote>
<h2>O estupro é uma violência revestida do poder absoluto.</h2>
</blockquote>
<p>Criança tímida, com baixa autoestima, socialmente deslocada e vítima constante de <em>bullyings</em>, a protagonista constrói para si uma sólida amizade com sua colega de escola, Carla. O fator determinante que irá moldar sua alma sensível de menina solitária será a perda da amiga, vítima de ataque de cão feroz. A morte de Carla vai prepará-la para uma existência de desencontros. É desta maneira que a narradora relata, numa moldura poética contagiante, sua dor diante da morte da amiga: “&#8230; <em>pelo pescoço subiu um grosso de choro que eu não deixei chegar no olho</em>”.</p>
<p>A autora, ao construir uma identidade dolorosa para sua personagem, vai moldá-la do ponto de vista de sua construção, de forma a preparar sua ação máxima e contundente, que está por acontecer logo adiante, aos dezessete anos. A personagem transforma-se em receptáculo da própria dor, ao se ver indefesa diante da inesperada agressão. As mãos que cinzelariam para sempre o sofrimento em seu corpo são as mesmas mãos que ela tanto se comprazia em afagar. O estupro não é um ato fortuito, que a vítima poderia muito bem evitar. Essa é a inaceitável falácia. O estupro é uma violência revestida do poder absoluto, porque exercido por animalesca maldade.</p>
<blockquote>
<h2>Bete é a ponte segura que encurta momentaneamente a distância entre mãe e filho.</h2>
</blockquote>
<p>A partir da gravidez decorrente do ato vil, vamos presenciar a protagonista levando uma vida a esmo, carente de significados. Ela se engaja numa luta surda entre amar ou rejeitar o filho. Vê-se incapaz de estabelecer uma relação de afetos concretos, portanto, duradouros. É aqui que reside a base dramática da narrativa: quer amar o filho, mas seu corpo e sua alma o rejeitam. E ela se submete a essa rejeição, sem conseguir vencê-la racionalmente.</p>
<p>Para estabilizar a frágil relação entre mãe e filho, surge na trama a vizinha, Bete, contratada pela protagonista para cuidar do filho enquanto trabalha. É por meio de Bete que a mãe camufla sua incapacidade de expressar amor materno. Bete, essa mulher “<em>gorda por dentro e por fora</em>”, vem suprir os afetos que ela não tem condições de oferecer. Como ela própria reconhece, Bete é a ponte segura que encurta momentaneamente a distância entre ela e o filho.</p>
<blockquote>
<h2>O tapa na cara que a mãe dá no filho será o peso do pássaro morto que ela carregará para o resto da vida.</h2>
</blockquote>
<p>No entanto, com a morte precoce de Bete, a protagonista se vê frente a frente com a realidade chamada “filho”. Não há mais como disfarçar. A ruptura está desenhada, pronta para acontecer a qualquer momento, emoldurada em uma ação impulsiva. O tapa na cara que ela dá no filho, por ter este matado um passarinho, será o peso do pássaro morto que ela carregará para o resto da vida. E que abrirá espaço para que a dor estruturante (o estupro) se manifeste em toda a sua complexa intensidade.</p>
<p>Ao ser estuprada pelo próprio namorado e, desse ato, ter engravidado, ela toma a decisão de não abortar. Na confusão de afetos e desilusões, estava convicta de que aceitaria o filho. No entanto, a decisão acaba gerando inadequações emocionais. Quis assumir o filho, não o matou; ao não conseguir assumir o filho, o certo talvez seria tê-lo matado. Mas, como ela mesma reconhece — “<em>não matei</em>”.</p>
<p>A história da protagonista vai se fechando sob o peso de sucessivas desesperanças e de esforços inúteis na tentativa, em vão, de se reconstruir. É a mulher solitária que se tranca dentro de um cotidiano sem pontos de fuga. E a solidão se concretiza com a última ruptura, que se dá quando, a caminho de visitar o filho em Ouro Preto, ao parar para abastecer o carro, acaba acolhendo um cão sarnento. Ao reconhecer no cão a ideia do afeto verdadeiro, dá meia volta e vai viver sua vida com a inseparável companhia do novo amigo. É o derradeiro suspiro: o filho passa a existir apenas em raríssimos (des)encontros protocolares.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>O Peso do Pássaro Morto</em>, a autora transforma em fábula o que era apenas fragmentos de dor.</h2>
</blockquote>
<p>Aqui se chega ao biombo emocional, atrás do qual a protagonista passa a se esconder. É seu lenitivo existencial. Decididamente, não há cura para a dor que carrega. E, para justificar sua rendição como mulher e mãe, ela reduz sua vivência afetiva à companhia de um cão. E, quando sua última razão de existir se for, ela entende que será o momento de encerrar o triste espetáculo da vida.</p>
<p>Nesse seu romance de estreia, <em>O Peso do Pássaro Morto</em>, Aline Abei apresenta a vida da protagonista a partir do olhar de quem perscruta sentimentos e emoções com as afiadas ferramentas da sensibilidade poética. Ela se paramenta desse estilo lucidamente encantatório para transformar em fábula o que era apenas fragmentos de dor. Sabemos que o escritor se faz anunciar pelo estilo. Mas o estilo é apenas a forma. Essencial. Só que o estilo tem que fazer chegar ao leitor uma visão emocionalmente inteligível sobre o que o autor sente e pensa. E aqui se faz toda a habilidade de Aline Bei. Sua voz é lúcida e potente, pronta para ser ouvida para além do nosso tempo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A Grande Testemunha</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Oct 2022 12:00:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>SOMOS CONDENADOS A VIVER Ao trazer para discussão esse clássico do cinema — uma das obras-primas de Robert Bresson —, A GRANDE TESTEMUNHA (96’), estamos, na verdade, colocando um desafio para o espectador. É um filme que, à primeira vista, causa certo estranhamento quando se percebe que o protagonista é um silencioso e sofrido burro. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>SOMOS CONDENADOS A VIVER</strong></h1>
<p>Ao trazer para discussão esse clássico do cinema — uma das obras-primas de Robert Bresson —, <em>A GRANDE TESTEMUNHA</em> (96’), estamos, na verdade, colocando um desafio para o espectador. É um filme que, à primeira vista, causa certo estranhamento quando se percebe que o protagonista é um silencioso e sofrido burro. Ele é a presença quase onipresente, que a tudo testemunha. Apesar da inusitada personagem, a obra de Bresson alcança uma voz poética que transita silenciosamente entre o místico e a dura realidade. Vale a pena conferir, principalmente para quem gosta de se aventurar em experiências cinematográficas com uma pegada diferente. E é preciso lembrar. <em>A Grande Testemunha</em> é em preto e branco, produção francesa de 1966. Enfim, um filme que tem tudo para incomodar e encantar.</p>
<blockquote>
<h2>Nosso primeiro impacto é reagir à maneira como lidam com o pobre animal.</h2>
</blockquote>
<p>O filme narra a trajetória do burro Balthazar. Um burro, cuja vida, desde seu nascimento até sua morte, nos é mostrada a partir de sua convivência com os humanos. Ao passar de um para outro dono, vamos presenciando (testemunhando) a vida dessas pessoas que circulam em torno do animal. Nesse sentido, a narrativa segue os passos do burro. Para onde ele vai, a câmera vai atrás.</p>
<p>Nosso primeiro impacto é reagir à maneira como lidam com o pobre animal, submetendo-o a tratamentos desumanos, impensáveis nos dias de hoje. E o desfecho não poderia ser diferente. Robert Bresson presta uma homenagem a seu protagonista, reservando-lhe uma morte bucolicamente sublime.</p>
<p>Mas a onipresença do burro como peça-chave da trama não é a única causa do estranhamento. A estética adotada por Robert Bresson obriga o espectador a se movimentar internamente, agindo como cúmplice dos acontecimentos. É que o diretor revela o mínimo, em imagens aparentemente aleatórias, cabendo ao espectador preencher as lacunas, para não perder o sentido geral da narrativa. É como se Bresson saísse por aí filmando a esmo pedaços de cenas (realidades), com o único objetivo de alfinetar a sensibilidade do espectador.</p>
<blockquote>
<h2>Essa atitude de perenidade empresta ao filme <em>A Grande Testemunha</em> um caráter puramente universal.</h2>
</blockquote>
<p>Em <em>A Grande Testemunha</em>, não há emoções, não há rompantes, não há linguagem corporal para nos transmitir o que as personagens estão sentindo e pensando. Aliás, não interessa o que sentem e pensam. Elas não reagem, apenas agem. São títeres que transitam pelo cotidiano, impulsionados por motivações silenciosas. Até os diálogos são dispensáveis, como se não houvesse a necessidade da expressão oral como fonte de compreensão. O que interessa é a relação direta do espectador com a cena. Como se estivéssemos diante de um filme mudo.</p>
<p>Indo um pouco mais adiante na nossa percepção, é como se cada cena precisasse ser interpretada individualmente, já que não há, para a maioria delas, referenciais imediatamente conclusivos. São cenas desprovidas de causa e efeito, minimizadas, substituíveis na mente do espectador. Óbvio que não é bem assim. Sabe-se que nada é dispensável pelo olhar sacralizante do diretor, que, de antemão, já condena suas personagens, submetendo-as ao juízo final. Essa atitude de perenidade empresta ao filme <em>A Grande Testemunha</em> um caráter puramente universal. Na nossa grandeza humana, somos imperfeitos.</p>
<blockquote>
<h2>Balthazar, a grande testemunha, sai da adolescência de Marie e vai pertencer a uma padaria.</h2>
</blockquote>
<p>Habilmente, a trama é costurada em torno de algumas personagens, dando à narrativa um tom quase novelesco. Marie (Anne Wiazemsky) e Jacques (Walter Green) são amigos de infância. Veem o burro nascer nas terras do pai de Jacques. Os adolescentes juram amor eterno, mas logo as juras são esquecidas, quando o pai de Jacques deixa as terras aos cuidados do pai de Marie (Philippe Asselin) e vai embora, momento em que o filme avança cronologicamente no tempo.</p>
<p>Vemos agora o amor adolescente de Marie por Gérard (François Lafarge), um rapaz desocupado, mal-intencionado, que se aproveita de Marie, sem dar-lhe qualquer esperança de uma relação séria. Marie se transforma numa jovem desiludida, amargurada, submetendo-se aos desejos promíscuos de Gérard. Por outro lado, é obrigada a se debater contra a tirania moral dos pais. Encontra em Balthazar afetos passageiros, que suprem momentaneamente sua solidão. Mas é sabido que o burro está fadado a ir embora.</p>
<p>Balthazar, a grande testemunha, sai da adolescência de Marie e vai pertencer a uma padaria, onde trabalhará como veículo de carga na distribuição dos pães. Gérard, o funcionário-filho da padaria, oferece ao burro, com requintes de crueldade, toda sua índole de rapaz perverso.</p>
<blockquote>
<h2><strong>A trama silenciosa de <em>A Grande Testemunha</em> vai criando pretextos para que o burro Balthazar apresente o mundo real ao espectador.</strong></h2>
</blockquote>
<p>Balthazar ainda vai se apresentar como um bem-sucedido matemático em um número de circo. Usará misteriosamente a pata esquerda dianteira para contabilizar as somas e as multiplicações, levando o público ao delírio. Depois passa a vagar pelo mundo, conduzido pelas mãos de um bêbado, até voltar, por um tempo, aos cuidados de uma desolada e deprimida Marie, flertando com a possibilidade da morte. Assim vai Balthazar, criando pretextos para exibir o mundo real ao espectador.</p>
<p>Um fato pitoresco, que vale mencionar — e que tem sua funcionalidade no desenvolvimento da trama de <em>A Grande Testemunha</em> — é a transformação social revelada no número cada vez maior de automóveis que circulam pelas ruas da cidade. Veremos o burro se embrenhando por entre os carros que trafegam alheios à sua presença. A cidade já não é mais o seu habitat. Não o acolhe. É um corpo estranho. Presenciamos uma das cenas em que o bêbado estaciona o burro entre vários carros, ocupando uma das vagas, ressaltando o caráter obsoleto desse meio de transporte. O pai de Marie percebe bem a situação, ao definir como ridículo o fato de Marie ainda querer possuir um burro.</p>
<blockquote>
<h2><em>A Grande Testemunha</em> é um primor de obra cinematográfica, uma ode ao desânimo de viver.</h2>
</blockquote>
<p>Para finalizar, ressaltamos o uso que Bresson faz da câmera, como se fosse um olho mágico que só pode enxergar as partes, jamais o todo. O diretor prefere manipular a câmera para aquilo que lhe interessa revelar. É ela que passeia rente ao chão, como se bisbilhotasse o que acontece no submundo. Os pés que caminham sobre restos de madeira; a mão que avilta o colo prestes a ser estuprado; o burro sendo maltratado ao som externo de relinchos de dor; a mão que segura o copo esvaziado várias vezes, em um único trago. O espectador é convidado a imaginar a que pessoas pertencem os gestos e o que eles revelam dessas pessoas que se apresentam fora do enquadramento da câmera.</p>
<p>Em suma. <em>A Grande Testemunha</em> é um primor de obra cinematográfica, uma ode ao desânimo de viver, um ultimato para os que ainda sonham em ser feliz, um silenciar do sentimento de impotência, um atestado de violência existencial — enfim, o filme escancara a existência perdida de seres humanos que estão em vida apenas para esperar a morte. E assim é o burro, numa comparação funesta. Nasce, vive e morre, sem ter conhecimento do que significou para ele pertencer, durante um certo tempo, a este mundo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>Taxi Driver</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Oct 2022 12:00:12 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>UMA SOLIDÃO PERIGOSA O filme TAXI DRIVER (95’), direção de Martin Scorcese, EUA (1976), apresenta-se como uma obra cinematográfica perturbadora. Um angustiante tratado sobre a solidão. É o homem que escolhe ser motorista de táxi para suportar suas longas noites de insônia. Ao percorrer as ruas de Nova Iorque madrugada adentro, por meio da observação [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>UMA SOLIDÃO PERIGOSA</strong></h1>
<p>O filme <em>TAXI DRIVER</em> (95’), direção de Martin Scorcese, EUA (1976), apresenta-se como uma obra cinematográfica perturbadora. Um angustiante tratado sobre a solidão. É o homem que escolhe ser motorista de táxi para suportar suas longas noites de insônia. Ao percorrer as ruas de Nova Iorque madrugada adentro, por meio da observação do outro, ele vai entrando em contato consigo mesmo. E se depara com a falta de significados existenciais que o coloquem no eixo normal da vida. A ideia de não existir em lugar nenhum faz dele um ser humano errante. Transforma-o em presa fácil, pronta para ser tragada pela fogueira da violência. A busca inútil por um objetivo de vida — esta é a razão que coloca Travis, o protagonista de <em>Taxi Driver</em>, em constante movimento.</p>
<blockquote>
<h2>O protagonista de <em>Taxi Driver</em> busca na violência uma razão imediata para tornar a vida menos entediante.</h2>
</blockquote>
<p>A trama é uma sequência episódica do cotidiano de um ser humano solitário. Travis encontra no trabalho noturno uma forma de se manter vivo. Já que fica o tempo todo acordado, melhor então ser pago por isso — essa é a origem medular da ideia de ser taxista. As coisas começam a mudar quando ele se interessa por uma assistente que trabalha no comitê do presidenciável Charles Palantine. Sua aproximação é obsessiva, inoportuna e insistente, a ponto de Betsy (também solitária) não ter outra alternativa senão aceitar o convite para uma ida ao cinema.</p>
<p>No entanto, o mundo de Travis não se encaixa no padrão social de Betsy. Travis se alimenta do submundo, das noites repletas de vícios, sexo comprado, brigas de rua, seres degenerados (como ele próprio define) vagando por calçadas imundas, recobertas de néons e desesperanças. Dentro dessa lógica, Travis leva Betsy (Cybill Shepherd) para uma sessão de filme pornô. Sem perder tempo, ela reage e abandona Travis. O namoro, que mal começava, chega ao fim.</p>
<blockquote>
<h2>Nova Iorque é um mundo em louca efervescência, para onde Travis nunca devia ter ido.</h2>
</blockquote>
<p>Arrastando-se ao longo de dias intermináveis sem que nada aconteça, e ainda tendo que assimilar o fracasso de sua relação com Betsy, Travis busca na violência uma razão imediata para tornar a vida menos entediante. Envolve-se com armas de vários calibres, que ele compra ilegalmente. Pratica tiros em uma academia e modula o corpo com exercícios extenuantes. O objetivo é se preparar (meticulosamente) para uma batalha que, para ele, está prestes a acontecer. De fato, ao se colocar como o paladino da moral e dos bons costumes, encaminhará o confronto anunciado: eliminar da face da terra toda “essa escória humana” que toma conta das madrugadas de Nova Iorque. Travis parece ter encontrado, enfim, um objetivo de vida.</p>
<p>Travis Bickle — representado pelo inominável Robert de Niro — é um jovem que veio para Nova Iorque em busca de oportunidades. No entanto, desenraizado, o que ele encontra é a dura solidão. Incomunicável, relações sociais quase inexistentes, resta-lhe fantasiar uma vida ideal — apresenta-se como um agente secreto do governo. Sua vida vem idealizada nas cartas que envia aos pais, com quem estabelece um distanciamento afetivo calculado. Ao ler as cartas em voz alta, Travis possibilita que o espectador entre em contato com seus sentimentos e apreensões. E o que ele descreve é uma vida que ele não vive — tem bom emprego, ganha muito dinheiro e namora uma linda mulher chamada Betsy. Enfim, Nova Iorque é um mundo em louca efervescência, para onde Travis nunca devia ter ido.</p>
<blockquote>
<h2>A amostragem social de elementos noturnos transforma <em>Taxi Driver</em> num laboratório de misérias humanas.</h2>
</blockquote>
<p><em>Taxi Driver</em> encontra seu principal veio dramático quando o protagonista enfim vai realizar sua grande missão — salvar da prostituição uma menina de doze anos, Iris (Jodie Foster). Conhece-a circunstancialmente, quando ela entra em seu táxi para fugir do cafetão. Após a fracassada tentativa de assassinar o candidato à presidência — o senador Charles Palantine —, Travis se volta para sua nova missão, que o conduzirá para um trágico tiroteio, do qual, inesperadamente, sai como herói. Afinal, na feliz tentativa de salvar Iris da prostituição (receberá uma carta de agradecimento dos pais da menina), Travis desbarata uma quadrilha de gângsteres, a tal escória que ele tanto abomina. Recuperado dos ferimentos, volta com seu táxi para as ruas de Nova Iorque, levando consigo sua inseparável solidão.</p>
<blockquote>
<h2>Parece não haver lugar para todos nesse mundo.</h2>
</blockquote>
<p>A amostragem social de elementos noturnos transforma <em>Taxi Driver</em> num laboratório de misérias humanas. As câmeras focam (às vezes timidamente) indivíduos fora de seus enquadramentos ditos civilizados. Agem como seres desnaturalizados, expostos numa vitrine pública, destinados a produzirem pequenos horrores. E o taxista, blindado pela moral tradicional, sonha em combater essas anormalidades que tanto o incomodam. É o que ele diz para Iris, nas várias tentativas de convencê-la a abandonar a vida de prostituta: “<em>O lugar de menina é em casa</em>”. Quer dizer, vestir-se apropriadamente, namorar e ir para a escola. Para Iris, esta é uma visão quadrada da vida. E ela não deixa por menos ao contestá-lo: “<em>Por que você banca o santo comigo?</em>” Esta é a falácia moral na qual Travis está envolvido: ao se preocupar com a vida do outro, se perde na sua.</p>
<p>Em suma. <em>Taxi Driver</em> opera como uma narrativa de alertas. Não há como glamourizar uma realidade que precisa produzir horrores para se manter nos trilhos da normalidade. Esse é o preço a ser pago. Uma parcela de indivíduos agirá como escória, condenados a vagarem pelas calçadas sujas, para que a outra parcela da humanidade durma em travesseiros de plumas. Afinal, parece não haver lugar para todos nesse mundo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>Pequena coreografia do adeus</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 12 Sep 2022 12:00:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[LIVROS]]></category>
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		<category><![CDATA[Aline Bei]]></category>
		<category><![CDATA[escritor brasileiro]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O PASSADO NOS CONVIDA A REFAZER NOSSO FUTURO O novo romance de Aline Bei, PEQUENA COREOGRAFIA DO ADEUS, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, surpreende pelo seu vibrante tom poético. Não que a autora não tenha já utilizado esta arma poderosa em seu romance de estreia — o premiado O Peso do Pássaro Morto. Porém, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>O PASSADO NOS CONVIDA A REFAZER NOSSO FUTURO</strong></h1>
<p>O novo romance de Aline Bei, <em>PEQUENA COREOGRAFIA DO ADEUS</em>, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, surpreende pelo seu vibrante tom poético. Não que a autora não tenha já utilizado esta arma poderosa em seu romance de estreia — o premiado <em>O Peso do Pássaro Morto</em>. Porém, em <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>, Aline Bei assume a poética como voz de protesto para retratar a vida de uma menina presa ao abandono afetivo. Esse manejo soberbo da poesia como veículo de emoções e síntese de experiências parece ser apenas um pretexto para a autora esgrimir sua exuberante literatura. No entanto, logo percebemos que sua escrita se alimenta de aguçada sensibilidade para retratar os mais imperceptíveis movimentos que compõem o terrível painel de dores. Aline Bei cria o vazio e nele faz sua protagonista existir.</p>
<blockquote>
<h2>Júlia é uma criança solitária, com baixa autoestima, que se vê presa à relação mal resolvida dos pais.</h2>
</blockquote>
<p>Basicamente, a trama se estrutura no tripé da família tradicional: o pai, a mãe e a filha. Mas há, sem dúvida, nessa tríade, material orgânico de sobra para compor a trama existencial do romance. E Aline Bei dá o tiro fatal no desfecho de sua fábula, ao se dobrar momentaneamente à autocomplacência. No apagar das luzes, depois de tudo o que lhe aconteceu, só resta à protagonista desfraldar a bandeira da compaixão. Em se tratando de ser humano que carrega histórias que o fragilizam, não há como colocar as relações familiares no cadafalso do simples julgamento. A luta perene cansa. Será necessário, em algum momento, depositar as armas.</p>
<p>Júlia é uma criança solitária, com baixa autoestima, que se vê presa à relação mal resolvida dos pais. Diante do rosário de agressividades emocionais e negligências afetivas, ela tenta compreender o que está acontecendo. Busca mudar sua história, construindo um relacionamento possível com a mãe. Mas, a cada fracasso, mergulha na sua pequenez.</p>
<p>Sobra-lhe o pai, de quem se aproxima na esperança de estabelecer compensações de vazios afetivos. Mas também pouco encontra do afeto seguro que busca. E, se encontra, é tão fugaz, que sequer há tempo para desfrutar.</p>
<blockquote>
<h2>É assim que a protagonista de <em>Pequena Coreografia do Adeus</em> se move. Por entre os escombros causados pela rejeição.</h2>
</blockquote>
<p>Resta-lhe insistir na quimera de que as coisas podem, sim, melhorar. Mas suas esperanças são abatidas em pleno voo com a separação dos pais. O pai, ainda um ancoradouro de pequenas afeições, ao abandonar a mãe, acaba se distanciando da filha. Pelo menos, esta é a sensação que toma conta de Júlia. Tudo se desmorona, não há mais com o que sonhar. O único passo a ser dado é ir em direção à vida adulta. É a fuga esperada por anos. Fugir do que ela chama de casa e que jamais será um lar.</p>
<p>A trama de <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>, de espinha dorsal simples e efetiva, se atém a um relato de vida. Não há tensões narrativas, não há desdobramentos de ações que retroalimentem conflitos, não há armadilhas ao longo do caminho. O que há é apenas o que a própria vida oferece.</p>
<p>Ao se limitar ao cotidiano de uma menina que se reflete nas ações dos adultos como espelho de busca de si mesma, a autora nos disponibiliza a visão sensível da dor do abandono sistemático. É assim que a protagonista se move. Por entre os escombros causados pela rejeição.</p>
<blockquote>
<h2><em>Pequena Coreografia do Adeus</em> é exatamente isso: uma coreografia silenciosa, ensaiando o adeus que resiste em se despedir.</h2>
</blockquote>
<p>Nesse sentido, para entender o que acontece, Júlia se utiliza da poderosa voz poética — que a autora tão generosamente lhe oferece — como arma de grito, como ponto de compreensão. À sua maneira, Júlia procura mitigar as dores do fracasso cotidiano. Recusa-se a entrar na fria câmara da desesperança. Vai desenvolvendo a consciência de que a dor, acariciada pela poesia, será sua companheira inseparável.</p>
<p>A questão que se coloca é muito simples. O que uma criança indefesa pode fazer em favor de si mesma? Qual sua capacidade de mudar o destino que lhe é imposto por erros alheios? Parece não haver escolhas para Júlia. Nem em sonhos. Diante da perversa frieza da mãe e da autoindulgência do pai, não há pedras disponíveis para refazer o caminho. A família já está constituída na sua dinâmica destrutiva, tendo no centro da centrífuga emocional uma criança desamparada.</p>
<p>À medida que a narrativa avança, fica claro que Júlia vai desistindo da mãe. No entanto, ela reluta — posto que não se abandona impunemente uma mãe, seja quem ela for. Nesse diapasão emocional, sempre caberá um pequeno espaço para novas tentativas. <em>Pequena Coreografia do Adeus</em> é exatamente isso: uma coreografia silenciosa, ensaiando o adeus que resiste em se concretizar, mas que, sabe-se, em algum momento da vida, fará seu último gesto.</p>
<blockquote>
<h2>A diagramação escapa maliciosamente ao padrão a que estamos acostumados ao ler um romance.</h2>
</blockquote>
<p>A precisão de linguagem com que Aline Bei desenha os movimentos internos da pequena protagonista chega a ser assustadora. A autora demonstra real intimidade de quem conhece os sulcos de dores que marcaram a pele e a alma da criança Júlia. Neste sentido, trago para esta resenha um pequeno trecho que demonstra como Júlia, sem o saber, no seu desespero, busca manter o frágil elo afetivo que a mantém ligada ao pai — que, ausente, ainda é seu ponto futuro na busca por afeto. Há uma possibilidade; sua intuição a alerta. Diz Júlia: “<em>quando meu pai fosse embora, eu sentaria naquele sofá incontáveis vezes apoiaria meu copo d’água na sombra do seu copo de cerveja.</em>”. O afeto que se refaz no desejo transformado na sua mais pura manifestação poética.</p>
<p>Mas vamos ao que efetivamente logo de início surpreende o leitor. O formato impresso de <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>. Sua diagramação escapa maliciosamente ao padrão a que estamos acostumados ao ler um romance. O visual tem um impacto peculiar e efetivo na leitura. É a distribuição de palavras ao longo da página que determina como vamos ler, como vamos nos sentar para ler, como vamos sentir o peso de cada emoção metaforizada, com que velocidade caminharemos sobre as páginas. Há uma teatralidade corporal nas palavras que vai além da simples semântica. Algumas se exibem solitariamente, outras apenas se acomodam diante dos nossos olhos, outras se apequenam, reduzindo-se a sua frágil autoestima, outras ainda bradam, desrespeitando a pontuação que, aliás, é de uma deliciosa rebeldia. E há as que se escondem de si mesmas, cabendo ao leitor decifrar suas intenções.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>, o que nos salta aos olhos é o jogo diabólico que a autora faz entre o abstrato e o concreto.</h2>
</blockquote>
<p>Reforçando, a diagramação tem um efeito decisivo na relação emocional do leitor com a história narrada. Referindo-nos ao teatro, é como se as palavras se condicionassem a marcações antecipadamente ensaiadas, com o objetivo de explicitar para o leitor certas reações e ações da personagem. A autora distribui pelas páginas suas “explicações” interiores, fingindo camuflar seus sentimentos, disfarçando o que ela pensa sobre o que está dizendo. Há uma contemporaneidade estupenda nessa proposta diagramática.</p>
<p>E, por fim, a grande surpresa fica por conta do tom poético, levado, em <em>Pequena Coreografia do Adeus</em>, a surpreendentes extremos. O que nos salta aos olhos é o jogo diabólico que a autora faz entre o abstrato e o concreto, perpetrando uma manipulação perversa das sensações do leitor. É tão hábil, que o exemplo dado acima — quando a ausência do pai, simbolizado no copo de cerveja, se transforma numa simples sombra — nos remete imediatamente à incômoda mistura de abandono, saudade e esperança. Na poesia de Aline, tudo leva ao real. Esse estilo de fazer poesia traz prazeres renovados ao leitor, que se coloca diante de uma prosa contaminada por múltiplos sabores sensoriais.</p>
<p>Em suma. Estamos diante de mais uma grata surpresa, que nos faz acreditar que a literatura brasileira atual esteja produzindo muito material literário de grande resultado artístico. Pensando em Aline Bei, só nos resta declarar que já estamos esperando pelo próximo projeto. Mas, sem ansiedade. Afinal, artista não constrói para si linha de produção. Então, cabe ao leitor continuar a degustar outras literaturas nacionais, enquanto espera por mais uma flor desse profícuo Lácio.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>No Tempo das Diligências</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Sep 2022 12:00:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Pequena amostragem social do velho Oeste A diligência é um dos símbolos da conquista do Velho Oeste; portanto, sua presença é mais que necessária em filmes de faroeste. Trata-se de uma carroça sobre quatro rodas (de ferro), protegida por um toldo inspirado nas carruagens europeias, sendo puxada por duas ou três parelhas de cavalos. As [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>Pequena amostragem social do velho Oeste</strong></h1>
<p>A diligência é um dos símbolos da conquista do Velho Oeste; portanto, sua presença é mais que necessária em filmes de faroeste. Trata-se de uma carroça sobre quatro rodas (de ferro), protegida por um toldo inspirado nas carruagens europeias, sendo puxada por duas ou três parelhas de cavalos. As diligências percorrem o cinema desde que os primeiros faroestes começaram a circular pelas telas. E, como já revela o título do filme em questão, <em>NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS, </em>(97’), direção de John Ford, EUA (1939), a carroça é a protagonista da narrativa. É ela que transitará pelo velho Arizona, transportando nove passageiros rumo a destino perigoso e incerto.</p>
<blockquote>
<h2><em>No Tempo das Diligências</em> está interessado em dissecar o microcosmo social de um pequeno grupo pessoas.</h2>
</blockquote>
<p><em>No Tempo das Diligências</em> acabou se transformando num dos grandes clássicos do cinema. E apresenta atributos para tanto. O principal deles é tratar-se de um filme que ultrapassa as fronteiras estéticas do tradicional bangue-bangue. Há conflitos, há tiroteios, há perseguições, há índios morrendo; no entanto, o foco do filme não são as peripécias. <em>No Tempo das Diligências</em> está interessado em dissecar o microcosmo de um pequeno grupo social de nove pessoas que vão ter que conviver, por alguns dias, uns com os outros, em total clima de tensões. A maneira como lidarão com as incertezas denunciará a personalidade e o caráter de cada um.</p>
<p>Nesse sentido, o roteiro se arma pelo contraponto entre o perigo externo — representado pelo iminente ataque dos apaches, conduzido por seu grande líder, o irredutível Gerônimo — e os perigos internos, que são as imprevisíveis reações de cada membro do grupo. Essa é a grandeza de <em>No Tempo das Diligências</em>. Levar para o Velho Oeste os dilemas e as encrencas sociais perpetradas na figura peculiar de cada ser humano. São os males da civilização (leia-se Leste) adentrando furiosamente as terras ainda inóspitas do recém-conquistado Oeste.</p>
<blockquote>
<h2>É a amostragem social de nove pessoas dentro de uma diligência que possibilitará a análise dos comportamentos que regem a convivência entre humanos.</h2>
</blockquote>
<p>Antes de mais nada, é bom saber que a diligência é um transporte público. Portanto, percorre distâncias pré-determinadas, entre um ponto de partida e um ponto de chegada. Nos primórdios, era sempre uma viagem de risco. E é destes riscos que o roteiro se apropria para armar seus gatilhos dramáticos.</p>
<p>Eis a primeira condição: os que se propuseram a viajar estavam cientes dos perigos a que se submeteriam. E, para convencer os passageiros a embarcar na aventura, o roteiro oferece aos viajantes a possibilidade real de a diligência ser escoltada — até certo ponto do caminho — por uma companhia do Exército. Essa circunstância favorável — a proteção do Exército — fará com que duas mulheres e sete homens iniciem a viagem.</p>
<p><em>No Tempo das Diligências</em> disseca o medo dos passageiros de sofrerem ataques dos índios que nada mais querem senão defender suas terras. No entanto, o filme realmente se ocupa é dos viajantes. A amostragem social de nove pessoas dentro de uma apertada diligência possibilitará a análise dos comportamentos (bons ou nem tanto) que regem a convivência entre humanos. A exposição de caracteres começa pelas duas mulheres, que serão o alvo principal das atenções dos sete homens. Uma delas é casada e está indo ao encontro do esposo capitão; a outra é prostituta, expulsa da cidade pelas mulheres de bem.</p>
<blockquote>
<h2><em>No Tempo das Diligências</em> nos oferece a oportunidade de enxergarmos as pessoas desvinculadas de sua carcaça social cotidiana.</h2>
</blockquote>
<p>Como já era de se prever, a configuração dos comportamentos masculinos se estruturará a partir da presença das duas mulheres. O médico alcoólatra e o fora da lei Ringo Kid se posicionarão do lado da prostituta. Os demais, com maior ou menor indiferença, protegerão a senhora de bem. Deste convívio conflituoso, aflorarão preconceitos e compaixões, reforçando a ideia de que a radiografia moral das duas mulheres definirá os comportamentos, edificados também em bases morais, dos homens.</p>
<p>No espectro do machismo, no entanto, os homens transitam pelas transgressões sem grandes riscos. Ao macho, cabe apenas preservar a honra — esta, sim, o bem maior, pela qual vale a pena lutar. E cuja ação protetora estará sempre ligada à existência do feminino. E é assim que as mulheres são definidas dentro do grupo: como frágeis e carentes de proteção, mas capazes de desestabilizar e de destruir.</p>
<p>A exposição de seres díspares, desvinculados da carcaça social cotidiana, acaba nos levando a conhecer figuras interessantes, a começar pelo médico alcoólatra, que nos oferece os melhores momentos de hilaridade. A cena maior é quando ele é obrigado a usar de artifícios para se curar da bebedeira e estar sóbrio para realizar um parto urgente. Sua alma cidadã se desdobra entre a fragilidade do vício e a ação heroica do obstetra.</p>
<blockquote>
<h2><em>No Tempo das Diligências</em> foge dos clichês para ocupar seu merecido lugar como um dos clássicos do gênero faroeste.</h2>
</blockquote>
<p>Não poderia faltar o xerife, figura imprescindível. Apodera-se da intransigência da lei para proteger a diligência e seus ocupantes. Deste modo, usa de sua autoridade para tomar decisões nada democráticas quanto à segurança da viagem. De quebra, ao recolher no meio do caminho um fora da lei, Ringo Kid (John Wayne), o delegado passa a escoltá-lo para a prisão desnecessária. Diante do perigo, os argumentos da lei tornam-se letras mortas.</p>
<p>A figura do cocheiro é a mais caricata. Ele interfere na trama apenas para retroalimentar o humor. Sua utilidade se restringe a tumultuar, criando pequenos gatilhos que maximizarão as tensões.</p>
<p>O cavalheiro que corteja a dama é o símbolo da estética social do bom mocinho. Apesar de viver dos ganhos do carteado, mantém o bom caráter.</p>
<p>A outra fonte de comicidade é o vendedor de uísque, confundido com um provável reverendo. O médico torna-se seu amigo inseparável e se encarrega de cuidar da maleta abarrotada de garrafinhas de uísque que serão consumidas, um a uma, ao longo da tumultuada jornada.</p>
<p>Há ainda que se falar do banqueiro, figura representativa do quadro social tradicional. Todavia, depois se saberá, entrara na diligência para fugir às consequências de suas falcatruas.</p>
<blockquote>
<h2><em>No Tempo das Diligências</em> resume a essência sacralizada do faroeste como vitrine social e política da expansão econômica dos E.U.A após a Guerra da Secessão.</h2>
</blockquote>
<p>E, por fim, a figura romantizada do fora da lei, que porá em ação suas habilidades no manejo da arma para defender os viajantes. Sua ação heroica será seu salvo-conduto para a felicidade, resgatando da lama social a dama perdida, oferecendo a ela os louros da decência em um distante rancho em meio a montanhas, às margens de um pacífico riacho.</p>
<p>Em suma. <em>No Tempo das Diligências</em> é, acima de tudo, um pequeno tratado social apoiado por um bom roteiro, uma boa direção e ótimos atores — o principal deles, o bom e velho John Wayne, representante da ideia máxima do bem-intencionado cidadão norte-americano. Um filme que resume a essência sacralizada do faroeste, mas que, por ir além dos clichês, acaba fazendo parte da lista dos maiores clássicos do gênero. Ocupa, merecidamente, seu lugar no centro dos aplausos — honra que lhe cabe de direito.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
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		<title>Carne trêmula</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Aug 2022 12:00:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A obsessão pelo amor Pedro Almodóvar nos oferece, com CARNE TRÊMULA (100’), Espanha (1997), um relato sobre a obsessão de amar. E, para falar de amor, nas suas intensidades múltiplas, nada mais eficiente do que ajustar a narrativa no formato de melodrama. Almodóvar (mais uma vez) não teve a menor cerimônia em armar um núcleo [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>A obsessão pelo amor</strong></h1>
<p>Pedro Almodóvar nos oferece, com <em>CARNE TRÊMULA</em> (100’), Espanha (1997), um relato sobre a obsessão de amar. E, para falar de amor, nas suas intensidades múltiplas, nada mais eficiente do que ajustar a narrativa no formato de melodrama. Almodóvar (mais uma vez) não teve a menor cerimônia em armar um núcleo dramático novelesco para falar dos desencontros de pessoas que simplesmente não têm domínio sobre seus impulsos. São almas que trafegam a esmo em busca de satisfazer suas necessidades de afeto. E, ao ir em busca dessa satisfação, elas fazem da pessoa amada objeto de obsessão. Diante de seres tão perdidos, carentes de vida concreta, Almodóvar cria para si a oportunidade de brincar com seus títeres.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>Carne Trêmula</em>, o sexo é usado como arma de conquista.</h2>
</blockquote>
<p><em>Carne Trêmula</em> inicia com uma cena espetacular, digna dos melhores delírios de Almodóvar. Já são altas horas da noite quando uma jovem prostituta entra em trabalho de parto. Entre ruas desertas, não se encontra vivalma que possa levar a parturiente para um hospital. A dona do bordel entra em ação, parando um ônibus solitário a caminho da garagem. E é no ônibus, em grande estilo, com todo seu realismo de cores fortes, que nasce Victor Plaza, a personagem que movimentará a história. Depois da icônica cena, o filme avança vinte anos no tempo, colocando-nos dentro de uma Espanha já liberta da ditadura franquista.</p>
<p>Victor é um jovem criado sem orientações, acumulando valores duvidosos que foi colhendo vida afora. Roubar uma pizza é um ato justificável, desde que sirva a um fim proveitoso. No entanto, Almodóvar concentra a dinâmica dramática de <em>Carne Trêmula</em> no comportamento sexual inexperiente de Victor. Em uma noite qualquer de Madri, ele encontra uma jovem fogosa, com quem, em um banheiro, aos vinte anos, vive sua primeira experiência sexual. Esse é o gatilho que disparará o melodrama desenhado pelo roteirista: o uso do sexo como arma de conquista.</p>
<blockquote>
<h2>A pequena tragédia os unirá. Para o bem e para o mal.</h2>
</blockquote>
<p>Cumprindo o que haviam combinado, no sábado seguinte Victor (Liberto Rabal) aparece na casa de Elena (Francesca Neri). Ela não esperava por ele, tampouco se lembrava do compromisso. “Eu estava chapada” — alega. Dada a insistência do rapaz, ela contra-argumenta. O fato de ter-lhe dado o telefone e endereço não é razão para estabelecer qualquer vínculo de compromisso. Diante do desprezo de Elena, Victor reage. Mas sua reação é pacífica, afinal, Victor, apesar das suas inexperiências, é um jovem cordato. Não cabe nele a agressividade. No entanto, sua resiliência em conseguir o que deseja coloca-o em situação perigosa.</p>
<p>A cena seguinte define a estrutura do enredo, a partir da qual tudo se deslanchará em direção ao desfecho. É a cena que fortalecerá o melodrama, uma vez que constituirá seu núcleo forte e tenso (e, às vezes, inverossímil). Todas as dinâmicas interpessoais girarão em torno de cinco personagens comprometidas com o que aconteceu na sala da casa de Elena. A pequena tragédia os unirá. Para o bem e para o mal.</p>
<blockquote>
<h2>Para o protagonista de <em>Carne Trêmula</em>, sexo e amor são faces indissociáveis da mesma moeda.</h2>
</blockquote>
<p>No entanto, esse acontecimento, apesar de seu forte impacto na estruturação da trama, não é por si só condição para fazer a história se movimentar. Apesar de ela guardar um segredo, as consequências da cena se fecham em si mesma, a partir de um veredicto legal. Victor é condenado a vários anos de prisão.</p>
<p>O que faz a história se desdobrar e se contorcer é a insistência (nascedouro de gatilhos) do jovem em perseguir o amor de Elena. Aqui se estabelece uma situação interessante, geradora de ações futuras. E que justifica toda a obsessão de Victor por Elena. Para o jovem, sexo e amor são faces indissociáveis da mesma moeda. Ele conheceu Elena pelo sexo, e foi o sexo que arrebatou seu coração, prendendo-o a ela, indissoluvelmente. E a base do conflito se resume na sua reivindicação de jovem amante: que ela também seja arrebatada por ele. Qualquer situação contrária tornará a vida quase insuportável.</p>
<blockquote>
<h2>A habilidade do diretor salvou <em>Carne Trêmula</em> dos fortes tons novelescos.</h2>
</blockquote>
<p>Só para reforçar a tese acima, escute o que Victor diz a Elena: “<em>Enquanto eu te amar, você não vai se separar de mim</em>.”. E se ela não o amar? Não tem problema. Ele também está decidido a respeito, quando diz: “<em>Meu amor é suficiente para nós dois.</em>”.</p>
<p>Veja o risco a que Almodóvar se submeteu. Diante do que se colocou acima, fica claro tratar-se, <em>Carne Trêmula</em>, de um melodrama bem constituído, na linha drummondiana do Sancho que amava Clara, que amava Victor, que amava Elena, que amava David, que um dia amou Clara, mas que agora ama Elena, que amará&#8230; A despeito de trabalhar com material tão volátil e consumível, a habilidade do diretor salvou <em>Carne Trêmula</em> dos fortes tons novelescos, tirando-o definitivamente da vala comum, para onde são atirados os filmes descartáveis.</p>
<blockquote>
<h2>A narrativa só sobrevive porque Victor não desiste.</h2>
</blockquote>
<p>Em suma. <em>Carne Trêmula</em> acabou se transformando numa obra bem resolvida, o que prova que Almodóvar, apesar do pântano dramático em que se meteu, teve total domínio sobre o resultado do seu trabalho. Ele se apodera de uma personagem desorientada, filho de prostituta, e constrói para ela (Victor) uma vida de incertezas. É a crueldade do roteirista. Estraga a personagem para ter a oportunidade de, ao longo de quase duas horas, reconstruí-la. Depositá-la sã e salva no pedestal do desfecho feliz. E, para que o fim se realize, apesar de todos os perrengues, Victor não desistirá. O tempo gira, a roda também gira, o roteiro se retorce, e ele voltará ao ponto inicial, na sala da casa de Elena. Essa é a esperteza da composição do drama. Provar que a obsessão pode sim levar à redenção. Quer dizer, ao amor.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
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<p>&nbsp;</p>
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		<title>Ao pó</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Aug 2022 12:00:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>EM BUSCA DE UMA VIDA PERDIDA Os relatos de vida trazidos pelo romance de Morgana Kretzmann, AO PÓ, 157 pg., Ed. Patuá, não nos deixam alternativa senão compartilhar com a protagonista sua história de dores. A arte da escrita não impõe limites. Portanto, são muitas as possibilidades de criar estruturas narrativas que ofereçam ao leitor [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>EM BUSCA DE UMA VIDA PERDIDA</strong></h1>
<p>Os relatos de vida trazidos pelo romance de Morgana Kretzmann, AO PÓ, 157 pg., Ed. Patuá, não nos deixam alternativa senão compartilhar com a protagonista sua história de dores. A arte da escrita não impõe limites. Portanto, são muitas as possibilidades de criar estruturas narrativas que ofereçam ao leitor emoções genuínas. No caso do romance <em>Ao Pó</em>, por tratar da temática do abuso, os desafios aumentam. Como trazer para as páginas a pungência de ato tão vil? Nesse sentido, coube à autora a coragem e a sensibilidade de trilhar os passos da dor do abuso, até levá-la às últimas consequências. Por mais que se espere, não há espaço para a compaixão, posto que o ato jamais poderá ser desfeito. Este talvez seja o grande nó emocional. O abuso é um crime que não tem retorno. A vítima percorrerá seu caminho, levando consigo a sua história.</p>
<blockquote>
<h2>Ir embora significará fugir do inferno.</h2>
</blockquote>
<p>Sofia, a protagonista-narradora, após viver uma infância de abusos praticados pelo tio — que depois passaria também a abusar da irmã mais nova, Aline —, realiza o que sempre sonhou: ir embora de sua terra natal, Tenente Portela, no Rio Grande do Sul. E ir embora significará fugir do inferno. Mas aqui o romance assume um peso extra — a culpa que Sofia levará consigo por ter deixado para trás, ao alcance do lobo, a irmã menor.</p>
<p>Essa é a relação umbilical que o romance <em>Ao Pó</em> estabelece entre as irmãs: a dor de Sofia passa necessariamente pela dor de Aline, por quem Sofia se sente responsável. Sofia é a mais velha, tem uma compreensão imediata do que está acontecendo, e, por isso, tem condições de manobrar as investidas do tio. Diferente da irmã, de alma e corpo indefesos, ainda necessitando de amparo. O fato de ter deixado Aline exposta ao perigo fez com que Sofia mergulhasse no poço da culpa. Não bastasse a culpa original, que impregna a psique de quem sofre abuso, agora essa culpa por ter abandonado a irmã à própria sorte. A dor se concretiza no dia a dia com a ruptura da relação entre as duas, fortalecendo primorosamente a musculatura narrativa do romance.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na busca sempre desesperada por soluções libertadoras, é comum que cada vítima tenha comportamentos singulares perante a memória do abuso. No entanto, as marcas parecem se repetir no corpo e na alma de todas e de todos, indistintamente. Nesse sentido, o que se espera de Sofia é o máximo que ela pode oferecer. E a autora é muito cuidadosa com sua protagonista, acompanhando seus deslizes e seus desesperos, contudo, sem abandoná-la. Esse é o cuidado criativo que Morgana Kretzmann reserva para sua criatura — evita julgá-la.</p>
<blockquote>
<h2>É esse distanciamento entre as irmãs, montado pela autora de <em>Ao Pó,</em> que vai impulsionar a protagonista a concretizar o desfecho que ela própria traçara para si.</h2>
</blockquote>
<p>Essa postura autoral fica clara na decisão da protagonista de largar tudo e sumir no mundo. Sofia, ao abandonar Tenente Portela para refazer sua vida no Rio de Janeiro, dá o passo decisivo na tentativa de reconstruir seu passado. No entanto, ao levar consigo a culpa pelo abandono da irmã, dá-se um fato curioso. O embate não ocorre diretamente com o abusador, posto que Sofia se movimenta sempre na busca silenciosa pela irmã. Mas as notícias chegam apenas em pequenos ecos desconexos que reforçam o cruel distanciamento entre as duas. É esse distanciamento, estrategicamente montado pela autora de <em>Ao Pó</em>, que vai impulsionar a protagonista a concretizar o desfecho que ela própria traçara para si.</p>
<p>Cabe aqui mais uma observação a respeito da arquitetura dramática do romance <em>Ao Pó</em>. Não é a autora quem decide o destino de sua personagem. Em estilo ágil, às vezes feroz, sempre límpido, Morgana não dá conta de domar Sofia, uma vez que Sofia já vem construída. A protagonista escapole do controle da autora e impregna as páginas do romance com sua existência de dores e suas buscas por um pouso que sabe nunca existirá. Não foi a autora que comprou a passagem da protagonista quando esta decide ir ao encontro do seu destino. Nem a Carlos Ilhas, o amor perdido, é autorizado tomar qualquer atitude em relação à vida de Sofia. As atitudes de coragem da protagonista são o ponto de mobilidade da trama em direção a seu clímax.</p>
<blockquote>
<h2>A culpa anula qualquer tentativa de reaproximação.</h2>
</blockquote>
<p>Sofia repete sua dinâmica de desconstrução pessoal na forma como ela se aproxima dos homens. Parece que vai catando cacos de vida para criar a coragem da aproximação. Seus envolvimentos afetivos sempre perpassam pela insegurança de ter que ser aceita plenamente, e ser aceita indica que as relações não passem apenas pelo corpo. Esta condição de supremacia do afeto sobre o desejo molda suas experiências de vida.</p>
<p>Em paralelo a um cotidiano que flui de forma tão conturbada, Sofia busca entender seu distanciamento com Tenente Portela. Esse distanciamento estampa-se em suas memórias afetivas pelo silêncio acusador da irmã. Silêncio que a oprime, e contra o qual sente-se impotente. A culpa anula qualquer tentativa de reaproximação.</p>
<blockquote>
<h2>O romance <em>Ao Pó</em> permite que a protagonista busque reparar sua história. Mas há reparação?</h2>
</blockquote>
<p>Em suma. Diante de tantos vazios preenchidos por dores, não resta a Sofia senão dar o último lance. A personagem não pode ficar parada no tempo. Não faz parte do seu <em>modus vivendi</em> entregar-se à tirania do destino. Aquilo que pertencia à fantasia, enfim, vai se concretizar, pois não cabe a compaixão como fonte de reconstrução. E Sofia precisa estar forte e pronta para a última reparação. Vai em busca dela, mesmo sem saber o que a espera. Na ficção, assim como na vida real, nada pode ficar em aberto. Temos que estancar nossas fontes de dor. E é o que Sofia acaba fazendo, ao dar seu derradeiro passo — vai ao encontro de sua vida perdida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
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</blockquote>
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		<title>Um jogador</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Aug 2022 12:00:37 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Fiódor Dostoiévski]]></category>
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		<category><![CDATA[roberto gerin]]></category>
		<category><![CDATA[teatro]]></category>
		<category><![CDATA[Um Jogador]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>FICÇÃO COM RETOQUES DE AUTOBIOGRAFIA  O romance de Fiódor Dostoiévski, UM JOGADOR, 215 pg., Editora 34, lança uma luz fosforescente sobre a vida do escritor russo, no que tange a seu conhecido vício em jogos. Falido, precisando de dinheiro e pressionado pelo editor — que lhe dá o prazo de um mês para entregar alguma [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>FICÇÃO COM RETOQUES DE AUTOBIOGRAFIA</strong></h1>
<p><strong> </strong>O romance de Fiódor Dostoiévski, UM JOGADOR, 215 pg., Editora 34, lança uma luz fosforescente sobre a vida do escritor russo, no que tange a seu conhecido vício em jogos. Falido, precisando de dinheiro e pressionado pelo editor — que lhe dá o prazo de um mês para entregar alguma obra —, Dostoiévski, com a ajuda da estenófraga Anna Grigórievna (com quem viria a se casar), compõe <em>Um Jogador</em> em vinte e cinco dias — entre os dias 4 e 29 de outubro de 1863. É um fôlego literário de dimensões épicas. E o resultado, a despeito do curto prazo, é inquestionável. <em>Um Jogador</em> vem a se tornar uma das obras mais importantes de sua extensa literatura. Artista de estatura incomparável, seu talento resistiria também a esse contratempo.</p>
<p>A trama, sufocante, gira em torno do jogo. Melhor. Do vício — este, sim, o elemento dramático que sufoca. É ao redor das roletas de um cassino, numa estação de águas no interior da Alemanha — cujo nome, Roletemburgo, já é bastante incômodo —, que Dostoievski constrói uma narrativa demoníaca a respeito do vício. Ele contrapõe personagens que se movimentam guiados pela cobiça. A ânsia pelo dinheiro fácil escapole dos diálogos cheios de ressentimentos e intenções. Mas o que se percebe é que a única (remota) possibilidade de se obter o dinheiro desejado é atravessar a rua e adentrar o Cassino.</p>
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<h2>A avó é a figura máxima do romance <em>Um Jogador.</em></h2>
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<p>No entanto, somente duas personagens se aproximarão das roletas ao longo de todo o romance. É o suficiente para Dostoiévski nos mostrar o quanto o vício corrói a autoestima de um jogador, lançando-o num terrível vácuo existencial.</p>
<p>A primeira das personagens a se infiltrar por entre a pequena multidão que cerca a mesa de jogo é o protagonista Aleksiéi Ivánovitch, que faz também as vezes do narrador, e a quem Dostoiévski empresta todo seu conhecimento sobre o complexo mundo da jogatina. Aleksiéi sabe que tem que manter o sangue-frio e o autocontrole, mas até quando? Até começar a ganhar além da conta? Ou até começar a perder tudo o que ganhou? A euforia do ganho fácil destrói o jogador calculista e frio, dando lugar ao jogador dominado pelos encantos da sorte e desesperado com a insistente presença do azar.</p>
<p>A segunda personagem a se sentar diante do crupiê e ali ficar por horas, sob o risco de perder toda a fortuna, é a avó. Essa é a figura máxima do romance! É a biruta que gira tresloucadamente em todas as direções, deixando rastros de angústia por onde passa. Sua insolência determina o ritmo do desespero dos que a cercam e dela dependem.</p>
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<h2>Dostoiévski expõe à luz do dia o terrível jogo emocional entre perdedores presos ao domínio tirânico do imponderável.</h2>
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<p>Este é o fato inicial de <em>Um Jogador</em>. Todos aguardam notícias da distante Rússia sobre a iminente morte da avó — morte que significaria a herança farta; portanto, a solução para os problemas dos endividados. No centro dessa angustiante espera pelo óbito, está o sobrinho general. Sem o dinheiro da avó, ele sabe que estará arruinado.</p>
<p>E eis que chega o momento em que a narrativa entra em seu eixo natural. Certo dia, a avó desembarca na estação de águas de Roletemburgo e, impávida (e saudável), dirige-se para o Cassino. E de lá só sairá depois que o último centavo (copeque) se for.</p>
<p>É aqui que Dostoiévski expõe à luz do dia o terrível jogo emocional entre perdedores — no vício não há vencedor — presos ao domínio tirânico do imponderável. E o autor vale-se de trágica comicidade para realçar o desespero que toma conta de todos, devedores e credores, ao verem a avó dilapidar sua fortuna. Aleksiéi é intimado a ficar junto da avó, com a missão de salvar a fortuna que lhes pertence por direito de herança. Mas, eis a situação! Um viciado tentando conter o vício alheio! Eis a ironia.</p>
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<h2>O romance <em>Um Jogador</em> é autobiográfico?</h2>
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<p>Dostoiévski há tempos alimentava o desejo de escrever algo sobre o jogo. Era uma temática que lhe pertencia, adquirida por meio de sofridas experiências pessoais. Se levarmos em consideração a maneira faminta com que o autor expeliu o romance, podemos imaginar o quão doloroso não foi para ele se defrontar com a realidade do vício. E aqui entra o ponto de discussão, matéria de muitas teorias mundo afora: até onde o romance <em>Um Jogador</em> é autobiográfico?</p>
<p>Que há inúmeros elementos autobiográficos no romance, disto parece não haver dúvida. A própria Anna Grigórievna, que o auxiliou taquigrafando o que Dostoiévski lhe ditava, confirma a forte influência de dados pessoais na composição do romance. E aqui acrescentamos mais uma pequena análise que vem corroborar a tão difundida tese da autobiografia.</p>
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<h2>Dostoiévski despeja nas páginas sagradas de <em>Um Jogador</em> o sentimento de fracasso diante de lutas inglórias para se ver livre do vício.</h2>
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<p>Veja que, na pressão de ter que escrever um romance em apenas um mês, não é difícil entender por que Dostoiévski buscou na vida pessoal elementos romanescos para enfrentar tarefa tão hercúlea. Ele precisava buscar seivas dramáticas que estivessem a seu alcance imediato. O tempo urgia, não havia espaço para elaborações, fermentações, prospecções, enfim, não havia tempo hábil para Dostoiévski amealhar fatos e ideias que viessem a compor o enredo do romance. Ele precisava, qual um apanhador de uvas, estar imerso no parreiral, onde bastava esticar a mão e ter a posse do cacho de que precisasse. Nada mais prático, portanto, que recorrer a si como fonte de experiências, ideias, sentimentos e emoções, além, óbvio, das recordações.</p>
<p>Nesse sentido, a figura de Aleksiéi, seu alter ego, transforma-se no protagonista perfeito para Dostoiévski despejar nas páginas sagradas de <em>Um Jogador</em> o sentimento de fracasso diante de lutas inglórias para se ver livre do vício. A personagem gira, ao longo de toda a narrativa, em torno deste dilema.</p>
<p>Não que Dostoiévski se sentisse um fracassado (quem garante?), mas, se levarmos em consideração o desfecho do romance, podemos supor que tanto a relação amorosa do protagonista-narrador com Polina, mulher enigmática, mas que se revela no final e oferece para Aleksiéi um horizonte possível, quanto seu fracasso em impedir a dilapidação da fortuna da avó revelam que poucas esperanças de vitória existiam diante do todo poderoso vício.</p>
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<h2>O vício tira do viciado tudo o que lhe pertence, corpo e alma.</h2>
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<p>O dinheiro é o líquido viscoso que percorre por entre as linhas de <em>Um Jogador</em>. Escoa das mãos com a mesma facilidade com que fora acumulado. Esse pêndulo guarda toda a angústia entre o vício, que é a necessidade de simplesmente estar jogando, ganhando ou perdendo, e a percepção da necessidade de parar na hora certa. Mas, enfim, qual é essa “hora certa”? Enquanto se procura por ela, segue o jogo!</p>
<p>O desenrolar da narrativa nos traz a impressão de que o vício é dissociado do dinheiro. De que são duas entidades que se complementam, mas que não necessariamente estabelecem entre si uma relação de causa e efeito. Esta colocação parece fazer sentido, uma vez que não se pode prever a sorte, muito menos evitar o azar. Entre a indisfarçada ânsia pelo ganho e a insuportável angústia da perda, o dinheiro torna-se uma personagem secundária. E essa é a trágica condição humana que Dostoiévski relata em <em>Um Jogador</em>. O vício tira do viciado tudo o que lhe pertence, corpo e alma.</p>
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<h2>O grito do crupiê anunciando o resultado é o momento fatal.</h2>
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<p>Talvez pela própria necessidade de terminar em curtíssimo prazo o romance, Dostoiévski imprimiu a ele um ritmo diferente, de urgência, com suas personagens entrando e saindo de cena, num interminável espetáculo teatral. Fica evidente que o autor busca na comicidade esse elemento vivo e ágil que transporta a narrativa para lugares mais arejados, compensando a angustiante ânsia de ter que conviver com o vício. O grito do crupiê anunciando o resultado é o momento fatal. O ápice indesejado da angústia! É a lança cravada no peito! É o terrível momento que sacraliza o vício. A comicidade é apenas a sua válvula de escape. É a cortina flutuante que mascara a dor.</p>
<p>Há uma outra questão a abordar, que diz respeito à preocupação de Dostoiévski em contrapor a velha Rússia à Europa Ocidental. Perfilam pela trama alemães, um francês aristocrata ganancioso e um inglês de procedência duvidosa. Esse jogo de nacionalidades permeia as ações principais do romance, trazendo para o velho Dostoiévski mais uma oportunidade de lançar suas chispas contra o anseio de ocidentalização da Rússia. Nas bordas da roleta, e distante dela, o credor é sempre o europeu.</p>
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<h2><em>Um jogador</em>, a despeito de seus decisivos elementos autobiográficos, emerge como um romance de ficção.</h2>
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<p>Esse trânsito entre culturas — de um lado, uma Rússia geograficamente isolada, alimentada por anseios de europeização, e de outro, uma Europa pujante, caminhando em direção à civilidade e à total industrialização — permite a Dostoiévski discutir o verdadeiro papel do russo leal às suas tradições. A Rússia pode ser o que for, mas ela não abrirá mão de sua verdadeira origem. Nesse ponto, o escritor russo apresenta-se como o feroz guardião da identidade russa.</p>
<p>Em suma. <em>Um jogador</em>, a despeito das velhas discussões sobre seus decisivos elementos autobiográficos, emerge como mais um romance de ficção. Estão ali todas as características técnicas e romanescas que assim o definem. Dostoiévski é um velho observador da natureza humana, e ele não se omite em trazer para suas páginas os modelos humanos que chamam sua atenção. Essa capacidade de filtrar a realidade e tirar dela o que pode ser útil para compor a obra ficcional é que faz o diferencial do artista. Dar retoques ficcionais à realidade é seu compromisso de artesão, pois, ao forjar a sua obra, ele a entrega aos cuidados da arte eterna.</p>
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