Roberto Gerin

Resenha Um Jogador, por Roberto Gerin.

FICÇÃO COM RETOQUES DE AUTOBIOGRAFIA

 O romance de Fiódor Dostoiévski, UM JOGADOR, 215 pg., Editora 34, lança uma luz fosforescente sobre a vida do escritor russo, no que tange a seu conhecido vício em jogos. Falido, precisando de dinheiro e pressionado pelo editor — que lhe dá o prazo de um mês para entregar alguma obra —, Dostoiévski, com a ajuda da estenófraga Anna Grigórievna (com quem viria a se casar), compõe Um Jogador em vinte e cinco dias — entre os dias 4 e 29 de outubro de 1863. É um fôlego literário de dimensões épicas. E o resultado, a despeito do curto prazo, é inquestionável. Um Jogador vem a se tornar uma das obras mais importantes de sua extensa literatura. Artista de estatura incomparável, seu talento resistiria também a esse contratempo.

A trama, sufocante, gira em torno do jogo. Melhor. Do vício — este, sim, o elemento dramático que sufoca. É ao redor das roletas de um cassino, numa estação de águas no interior da Alemanha — cujo nome, Roletemburgo, já é bastante incômodo —, que Dostoievski constrói uma narrativa demoníaca a respeito do vício. Ele contrapõe personagens que se movimentam guiados pela cobiça. A ânsia pelo dinheiro fácil escapole dos diálogos cheios de ressentimentos e intenções. Mas o que se percebe é que a única (remota) possibilidade de se obter o dinheiro desejado é atravessar a rua e adentrar o Cassino.

A avó é a figura máxima do romance Um Jogador.

No entanto, somente duas personagens se aproximarão das roletas ao longo de todo o romance. É o suficiente para Dostoiévski nos mostrar o quanto o vício corrói a autoestima de um jogador, lançando-o num terrível vácuo existencial.

A primeira das personagens a se infiltrar por entre a pequena multidão que cerca a mesa de jogo é o protagonista Aleksiéi Ivánovitch, que faz também as vezes do narrador, e a quem Dostoiévski empresta todo seu conhecimento sobre o complexo mundo da jogatina. Aleksiéi sabe que tem que manter o sangue-frio e o autocontrole, mas até quando? Até começar a ganhar além da conta? Ou até começar a perder tudo o que ganhou? A euforia do ganho fácil destrói o jogador calculista e frio, dando lugar ao jogador dominado pelos encantos da sorte e desesperado com a insistente presença do azar.

A segunda personagem a se sentar diante do crupiê e ali ficar por horas, sob o risco de perder toda a fortuna, é a avó. Essa é a figura máxima do romance! É a biruta que gira tresloucadamente em todas as direções, deixando rastros de angústia por onde passa. Sua insolência determina o ritmo do desespero dos que a cercam e dela dependem.

Dostoiévski expõe à luz do dia o terrível jogo emocional entre perdedores presos ao domínio tirânico do imponderável.

Este é o fato inicial de Um Jogador. Todos aguardam notícias da distante Rússia sobre a iminente morte da avó — morte que significaria a herança farta; portanto, a solução para os problemas dos endividados. No centro dessa angustiante espera pelo óbito, está o sobrinho general. Sem o dinheiro da avó, ele sabe que estará arruinado.

E eis que chega o momento em que a narrativa entra em seu eixo natural. Certo dia, a avó desembarca na estação de águas de Roletemburgo e, impávida (e saudável), dirige-se para o Cassino. E de lá só sairá depois que o último centavo (copeque) se for.

É aqui que Dostoiévski expõe à luz do dia o terrível jogo emocional entre perdedores — no vício não há vencedor — presos ao domínio tirânico do imponderável. E o autor vale-se de trágica comicidade para realçar o desespero que toma conta de todos, devedores e credores, ao verem a avó dilapidar sua fortuna. Aleksiéi é intimado a ficar junto da avó, com a missão de salvar a fortuna que lhes pertence por direito de herança. Mas, eis a situação! Um viciado tentando conter o vício alheio! Eis a ironia.

O romance Um Jogador é autobiográfico?

Dostoiévski há tempos alimentava o desejo de escrever algo sobre o jogo. Era uma temática que lhe pertencia, adquirida por meio de sofridas experiências pessoais. Se levarmos em consideração a maneira faminta com que o autor expeliu o romance, podemos imaginar o quão doloroso não foi para ele se defrontar com a realidade do vício. E aqui entra o ponto de discussão, matéria de muitas teorias mundo afora: até onde o romance Um Jogador é autobiográfico?

Que há inúmeros elementos autobiográficos no romance, disto parece não haver dúvida. A própria Anna Grigórievna, que o auxiliou taquigrafando o que Dostoiévski lhe ditava, confirma a forte influência de dados pessoais na composição do romance. E aqui acrescentamos mais uma pequena análise que vem corroborar a tão difundida tese da autobiografia.

Dostoiévski despeja nas páginas sagradas de Um Jogador o sentimento de fracasso diante de lutas inglórias para se ver livre do vício.

Veja que, na pressão de ter que escrever um romance em apenas um mês, não é difícil entender por que Dostoiévski buscou na vida pessoal elementos romanescos para enfrentar tarefa tão hercúlea. Ele precisava buscar seivas dramáticas que estivessem a seu alcance imediato. O tempo urgia, não havia espaço para elaborações, fermentações, prospecções, enfim, não havia tempo hábil para Dostoiévski amealhar fatos e ideias que viessem a compor o enredo do romance. Ele precisava, qual um apanhador de uvas, estar imerso no parreiral, onde bastava esticar a mão e ter a posse do cacho de que precisasse. Nada mais prático, portanto, que recorrer a si como fonte de experiências, ideias, sentimentos e emoções, além, óbvio, das recordações.

Nesse sentido, a figura de Aleksiéi, seu alter ego, transforma-se no protagonista perfeito para Dostoiévski despejar nas páginas sagradas de Um Jogador o sentimento de fracasso diante de lutas inglórias para se ver livre do vício. A personagem gira, ao longo de toda a narrativa, em torno deste dilema.

Não que Dostoiévski se sentisse um fracassado (quem garante?), mas, se levarmos em consideração o desfecho do romance, podemos supor que tanto a relação amorosa do protagonista-narrador com Polina, mulher enigmática, mas que se revela no final e oferece para Aleksiéi um horizonte possível, quanto seu fracasso em impedir a dilapidação da fortuna da avó revelam que poucas esperanças de vitória existiam diante do todo poderoso vício.

O vício tira do viciado tudo o que lhe pertence, corpo e alma.

O dinheiro é o líquido viscoso que percorre por entre as linhas de Um Jogador. Escoa das mãos com a mesma facilidade com que fora acumulado. Esse pêndulo guarda toda a angústia entre o vício, que é a necessidade de simplesmente estar jogando, ganhando ou perdendo, e a percepção da necessidade de parar na hora certa. Mas, enfim, qual é essa “hora certa”? Enquanto se procura por ela, segue o jogo!

O desenrolar da narrativa nos traz a impressão de que o vício é dissociado do dinheiro. De que são duas entidades que se complementam, mas que não necessariamente estabelecem entre si uma relação de causa e efeito. Esta colocação parece fazer sentido, uma vez que não se pode prever a sorte, muito menos evitar o azar. Entre a indisfarçada ânsia pelo ganho e a insuportável angústia da perda, o dinheiro torna-se uma personagem secundária. E essa é a trágica condição humana que Dostoiévski relata em Um Jogador. O vício tira do viciado tudo o que lhe pertence, corpo e alma.

O grito do crupiê anunciando o resultado é o momento fatal.

Talvez pela própria necessidade de terminar em curtíssimo prazo o romance, Dostoiévski imprimiu a ele um ritmo diferente, de urgência, com suas personagens entrando e saindo de cena, num interminável espetáculo teatral. Fica evidente que o autor busca na comicidade esse elemento vivo e ágil que transporta a narrativa para lugares mais arejados, compensando a angustiante ânsia de ter que conviver com o vício. O grito do crupiê anunciando o resultado é o momento fatal. O ápice indesejado da angústia! É a lança cravada no peito! É o terrível momento que sacraliza o vício. A comicidade é apenas a sua válvula de escape. É a cortina flutuante que mascara a dor.

Há uma outra questão a abordar, que diz respeito à preocupação de Dostoiévski em contrapor a velha Rússia à Europa Ocidental. Perfilam pela trama alemães, um francês aristocrata ganancioso e um inglês de procedência duvidosa. Esse jogo de nacionalidades permeia as ações principais do romance, trazendo para o velho Dostoiévski mais uma oportunidade de lançar suas chispas contra o anseio de ocidentalização da Rússia. Nas bordas da roleta, e distante dela, o credor é sempre o europeu.

Um jogador, a despeito de seus decisivos elementos autobiográficos, emerge como um romance de ficção.

Esse trânsito entre culturas — de um lado, uma Rússia geograficamente isolada, alimentada por anseios de europeização, e de outro, uma Europa pujante, caminhando em direção à civilidade e à total industrialização — permite a Dostoiévski discutir o verdadeiro papel do russo leal às suas tradições. A Rússia pode ser o que for, mas ela não abrirá mão de sua verdadeira origem. Nesse ponto, o escritor russo apresenta-se como o feroz guardião da identidade russa.

Em suma. Um jogador, a despeito das velhas discussões sobre seus decisivos elementos autobiográficos, emerge como mais um romance de ficção. Estão ali todas as características técnicas e romanescas que assim o definem. Dostoiévski é um velho observador da natureza humana, e ele não se omite em trazer para suas páginas os modelos humanos que chamam sua atenção. Essa capacidade de filtrar a realidade e tirar dela o que pode ser útil para compor a obra ficcional é que faz o diferencial do artista. Dar retoques ficcionais à realidade é seu compromisso de artesão, pois, ao forjar a sua obra, ele a entrega aos cuidados da arte eterna.

 

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