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	<title>Arquivos romance brasileiro - Roberto Gerin</title>
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	<title>Arquivos romance brasileiro - Roberto Gerin</title>
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		<title>Úrsula</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Nov 2022 12:00:34 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>NINGUÉM PODE ESCRAVIZAR NOSSA MENTE &#160; Apesar de ser um romance saído do ventre do romantismo, quando se trata de falar da escravidão e do sistema social que dá razão a essa barbárie, a obra máxima de Maria Firmina dos Reis, ÚRSULA, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, deixa momentaneamente as paixões de lado para [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>NINGUÉM PODE ESCRAVIZAR NOSSA MENTE</strong></h1>
<p>&nbsp;</p>
<p>Apesar de ser um romance saído do ventre do romantismo, quando se trata de falar da escravidão e do sistema social que dá razão a essa barbárie, a obra máxima de Maria Firmina dos Reis, ÚRSULA, 279 pg., Ed. Companhia das Letras, deixa momentaneamente as paixões de lado para expor ao leitor, sem retoques, a realidade de dores do escravizado. Esse hábil jogo de revelar verdades históricas inseridas na concepção romanesca — forma <em>versus</em> conteúdo — alça o romance de Maria Firmina ao <em>status</em> de literatura a serviço da arte e da política. Não tem como dissociar <em>Úrsula</em> de seu tempo histórico. Não à toa, tornou-se uma obra-prima da nossa literatura romântica.</p>
<p>A despeito do inquestionável mérito literário de <em>Úrsula</em>, causa estranhamento o silêncio que envolveu a obra ao longo de quase todo o século XX. Se percorrermos resenhas e discussões literárias, inclusive no âmbito dos bancos escolares, vamos perceber raros momentos em que esse romance, basilar da nossa literatura, foi objeto de apreço e análise. Só nos últimos anos o silêncio vem se quebrando. E o que vemos agora, como justa reparação, é a participação de Maria Firmina como homenageada na 20ª edição da FLIP – Feira Literária Internacional de Paraty.</p>
<h2>Não há hoje, na proposta política de combate ao racismo, ignorar <em>Úrsula</em>.</h2>
<p>A escravidão é uma temática espinhosa, que costumamos relegar para páginas menores da nossa história, evidenciando a falta de interesse em colocar fato tão vergonhoso diante dos holofotes. Em tempos atuais, em que o racismo é assunto de discussões sérias, em que a literatura de autoras e autores negros vem ganhando destaque nas mídias especializadas e nas estantes de leitores sedentos por conhecer a realidade social do preto, não há mais como ignorar <em>Úrsula</em>. Tornou-se imperativo festejar Maria Firmina dos Reis, atestando sua importância no surgimento dessa literatura voltada para discutir as questões cotidianas da gente preta.</p>
<p>E todo esse movimento começou lá trás, pelas mãos de Maria Firmina dos Reis, mulher negra e letrada (professora no interior do Maranhão), que insistiu em lutar pelo sonho de se transformar numa escritora publicada. <em>Úrsula</em> vem a lume em 1859, ainda no auge da escola romântica. Mas com um detalhe. Maria Firmina publica seu romance sob o pseudônimo de “Uma Maranhense”, para, só depois, em outras edições de outros escritos seus, assumir corajosamente seu nome de mulher e sua condição de escritora negra. Eis o grande feito: ela não só se torna a primeira mulher a publicar um romance no Brasil como revela ser, esta mulher, negra.</p>
<h2>O momento mais pungente da narrativa é protagonizado por Túlio.</h2>
<p>O enredo gira em torno do amor impossível entre Úrsula e Tancredo. O moçoilo bem-apessoado sofre um acidente de cavalo nas cercanias da fazenda onde Úrsula mora com sua mãe, Luiza B. Túlio, o escravo da fazenda, encontra Tancredo gravemente ferido. Leva-o para a casa de sua senhora, onde o enfermo recebe os cuidados de Úrsula. Como não poderia ser diferente, os dois jovens se apaixonam, com trocas de juras de amor eterno. O enlace é adiado tendo em vista compromissos inadiáveis de Tancredo. A ausência do amante possibilita à autora introduzir, primeiro, as questões da escravidão, e, depois, o vilão da trama.</p>
<h2>Do romance <em>Úrsula</em> emerge uma outra África, a terra da liberdade.</h2>
<p>A grande inovação de Maria Firmina foi dar voz própria aos negros que, apesar de coadjuvantes, têm a potência necessária para ecoar as dores geradas pela escravidão e provocar emoções genuínas no leitor. Reside aqui a alma essencial do romance, quando nos é dada a oportunidade de ouvir a voz da preta Susana. O momento mais pungente da narrativa é protagonizado por Túlio. Ao ser alforriado com o dinheiro presenteado por Tancredo, e decidido a abandonar a fazenda de Luiza B., Túlio vai se despedir de Susana. É a oportunidade que a autora se oferece para falar de tema tão caro a ela: a escravidão e suas dores.</p>
<p>Susana rememora seus dias livres de infância e adolescência vividos na sua mãe-África. Por meio dos relatos de Susana, a autora nos traz uma África diferente, exaltada como a terra da liberdade. É o lugar onde os negros, agora escravizados, eram felizes. Casada, mãe de filhos pequenos, é capturada e transportada para uma terra distante: a terra do sofrimento, a terra da escravidão. É a chaga que o Brasil, visto por meio de sua história oficial, sempre tentou esconder.</p>
<h2><em>Úrsula</em> simboliza a tragédia moral em que se transformou a escravidão.</h2>
<p>O romance ganha fôlego dramático com a introdução do vilão, o agente de sofrimentos e tragédias. É o Comendador, irmão e vizinho de Luiza B. Em um encontro fortuito com a sobrinha Úrsula, o tio se apaixona por ela. É uma paixão incontrolável, que gera um amor egoísta e vingativo. O ódio que o Comendador nutre por sua irmã, Luiza B., por ter esta se casado com um rapaz de origem inferior, fora do círculo social da família, é transferido para Úrsula. A recusa incondicional de Úrsula em se casar com o Comendador, preservando seu amor por Tancredo, coloca em movimento o desfecho trágico previsível. É a partir da construção de conflitos familiares, exacerbados pelo triângulo amoroso — portanto, motivados por paixões soberbas —, que a obra de Maria Firmina vai se desenhar em direção à tragédia romântica.</p>
<p>Maria Firmina, munida de rigoroso estilo, sente-se à vontade para falar daquilo que lhe interessa e que lhe dói na pele. São os frutos doloridos de vivências de mulher negra. Sua capacidade de ir além de si a credenciou para tratar de assuntos de interesse social, trazendo o negro para a ribalta, ao lhe dar voz, sentimentos e memórias. É um jogo concomitante de amor e ódio, de escravidão e liberdade, e, acima de tudo, da consciência de que é nosso direito inalienável podermos usufruir do nosso corpo e da nossa alma. O corpo, na visão de Maria Firmina, foi aprisionado; a alma, jamais. Afinal, ninguém tem o poder de escravizar nossa mente.</p>
<p>&nbsp;</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
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		<title>Ao pó</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Aug 2022 12:00:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>EM BUSCA DE UMA VIDA PERDIDA Os relatos de vida trazidos pelo romance de Morgana Kretzmann, AO PÓ, 157 pg., Ed. Patuá, não nos deixam alternativa senão compartilhar com a protagonista sua história de dores. A arte da escrita não impõe limites. Portanto, são muitas as possibilidades de criar estruturas narrativas que ofereçam ao leitor [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>EM BUSCA DE UMA VIDA PERDIDA</strong></h1>
<p>Os relatos de vida trazidos pelo romance de Morgana Kretzmann, AO PÓ, 157 pg., Ed. Patuá, não nos deixam alternativa senão compartilhar com a protagonista sua história de dores. A arte da escrita não impõe limites. Portanto, são muitas as possibilidades de criar estruturas narrativas que ofereçam ao leitor emoções genuínas. No caso do romance <em>Ao Pó</em>, por tratar da temática do abuso, os desafios aumentam. Como trazer para as páginas a pungência de ato tão vil? Nesse sentido, coube à autora a coragem e a sensibilidade de trilhar os passos da dor do abuso, até levá-la às últimas consequências. Por mais que se espere, não há espaço para a compaixão, posto que o ato jamais poderá ser desfeito. Este talvez seja o grande nó emocional. O abuso é um crime que não tem retorno. A vítima percorrerá seu caminho, levando consigo a sua história.</p>
<blockquote>
<h2>Ir embora significará fugir do inferno.</h2>
</blockquote>
<p>Sofia, a protagonista-narradora, após viver uma infância de abusos praticados pelo tio — que depois passaria também a abusar da irmã mais nova, Aline —, realiza o que sempre sonhou: ir embora de sua terra natal, Tenente Portela, no Rio Grande do Sul. E ir embora significará fugir do inferno. Mas aqui o romance assume um peso extra — a culpa que Sofia levará consigo por ter deixado para trás, ao alcance do lobo, a irmã menor.</p>
<p>Essa é a relação umbilical que o romance <em>Ao Pó</em> estabelece entre as irmãs: a dor de Sofia passa necessariamente pela dor de Aline, por quem Sofia se sente responsável. Sofia é a mais velha, tem uma compreensão imediata do que está acontecendo, e, por isso, tem condições de manobrar as investidas do tio. Diferente da irmã, de alma e corpo indefesos, ainda necessitando de amparo. O fato de ter deixado Aline exposta ao perigo fez com que Sofia mergulhasse no poço da culpa. Não bastasse a culpa original, que impregna a psique de quem sofre abuso, agora essa culpa por ter abandonado a irmã à própria sorte. A dor se concretiza no dia a dia com a ruptura da relação entre as duas, fortalecendo primorosamente a musculatura narrativa do romance.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na busca sempre desesperada por soluções libertadoras, é comum que cada vítima tenha comportamentos singulares perante a memória do abuso. No entanto, as marcas parecem se repetir no corpo e na alma de todas e de todos, indistintamente. Nesse sentido, o que se espera de Sofia é o máximo que ela pode oferecer. E a autora é muito cuidadosa com sua protagonista, acompanhando seus deslizes e seus desesperos, contudo, sem abandoná-la. Esse é o cuidado criativo que Morgana Kretzmann reserva para sua criatura — evita julgá-la.</p>
<blockquote>
<h2>É esse distanciamento entre as irmãs, montado pela autora de <em>Ao Pó,</em> que vai impulsionar a protagonista a concretizar o desfecho que ela própria traçara para si.</h2>
</blockquote>
<p>Essa postura autoral fica clara na decisão da protagonista de largar tudo e sumir no mundo. Sofia, ao abandonar Tenente Portela para refazer sua vida no Rio de Janeiro, dá o passo decisivo na tentativa de reconstruir seu passado. No entanto, ao levar consigo a culpa pelo abandono da irmã, dá-se um fato curioso. O embate não ocorre diretamente com o abusador, posto que Sofia se movimenta sempre na busca silenciosa pela irmã. Mas as notícias chegam apenas em pequenos ecos desconexos que reforçam o cruel distanciamento entre as duas. É esse distanciamento, estrategicamente montado pela autora de <em>Ao Pó</em>, que vai impulsionar a protagonista a concretizar o desfecho que ela própria traçara para si.</p>
<p>Cabe aqui mais uma observação a respeito da arquitetura dramática do romance <em>Ao Pó</em>. Não é a autora quem decide o destino de sua personagem. Em estilo ágil, às vezes feroz, sempre límpido, Morgana não dá conta de domar Sofia, uma vez que Sofia já vem construída. A protagonista escapole do controle da autora e impregna as páginas do romance com sua existência de dores e suas buscas por um pouso que sabe nunca existirá. Não foi a autora que comprou a passagem da protagonista quando esta decide ir ao encontro do seu destino. Nem a Carlos Ilhas, o amor perdido, é autorizado tomar qualquer atitude em relação à vida de Sofia. As atitudes de coragem da protagonista são o ponto de mobilidade da trama em direção a seu clímax.</p>
<blockquote>
<h2>A culpa anula qualquer tentativa de reaproximação.</h2>
</blockquote>
<p>Sofia repete sua dinâmica de desconstrução pessoal na forma como ela se aproxima dos homens. Parece que vai catando cacos de vida para criar a coragem da aproximação. Seus envolvimentos afetivos sempre perpassam pela insegurança de ter que ser aceita plenamente, e ser aceita indica que as relações não passem apenas pelo corpo. Esta condição de supremacia do afeto sobre o desejo molda suas experiências de vida.</p>
<p>Em paralelo a um cotidiano que flui de forma tão conturbada, Sofia busca entender seu distanciamento com Tenente Portela. Esse distanciamento estampa-se em suas memórias afetivas pelo silêncio acusador da irmã. Silêncio que a oprime, e contra o qual sente-se impotente. A culpa anula qualquer tentativa de reaproximação.</p>
<blockquote>
<h2>O romance <em>Ao Pó</em> permite que a protagonista busque reparar sua história. Mas há reparação?</h2>
</blockquote>
<p>Em suma. Diante de tantos vazios preenchidos por dores, não resta a Sofia senão dar o último lance. A personagem não pode ficar parada no tempo. Não faz parte do seu <em>modus vivendi</em> entregar-se à tirania do destino. Aquilo que pertencia à fantasia, enfim, vai se concretizar, pois não cabe a compaixão como fonte de reconstrução. E Sofia precisa estar forte e pronta para a última reparação. Vai em busca dela, mesmo sem saber o que a espera. Na ficção, assim como na vida real, nada pode ficar em aberto. Temos que estancar nossas fontes de dor. E é o que Sofia acaba fazendo, ao dar seu derradeiro passo — vai ao encontro de sua vida perdida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
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		<title>Suíte Tóquio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Jul 2022 12:00:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>OS MODERNOS DILEMAS DA MATERNIDADE O romance SUÍTE TÓQUIO, de Giovana Madalosso, 203 p., ed. Todavia, traz a temática da maternidade no que ela tem de mais moderno. Como é possível à mulher que é mãe ocupar outros espaços sociais? O de esposa, amante, amiga, profissional bem-sucedida, o da mulher engajada nas práticas políticas, enfim, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1>OS MODERNOS DILEMAS DA MATERNIDADE</h1>
<p>O romance SUÍTE TÓQUIO, de Giovana Madalosso, 203 p., ed. Todavia, traz a temática da maternidade no que ela tem de mais moderno. Como é possível à mulher que é mãe ocupar outros espaços sociais? O de esposa, amante, amiga, profissional bem-sucedida, o da mulher engajada nas práticas políticas, enfim, como é possível atuar em tantos espaços de igual para igual com outros gêneros, sem comprometer o exercício da maternidade? Fernanda, uma das protagonistas, quer ser mãe, quer ser esposa, mas também quer ser ela mesma. Para tanto, precisa estar liberta dos rótulos femininos a que está previamente condenada. Estar disponível para buscar outros prazeres, sonhar com outras conquistas, dar-se a chance de desfrutar de outras vivências. E como bem nos mostra Giovana Madalosso, não é fácil reconstruir-se dentro dos padrões modernos do que é ser mulher. A luta é renhida.</p>
<p>Em <em>Suíte Tóquio</em>, Fernanda, portanto, vai se colocar como a representante das mães que querem antes de tudo ser pessoas disponíveis para as oportunidades da vida. E nessa busca pela ascensão profissional, um dos principais símbolos modernos da libertação feminina, Fernanda se arma de toda uma estrutura para que sua filha se sinta segura e amada. Mas o que mostra mesmo este delicado romance, de uma fluidez de estilo e riqueza de metáforas e ironias, é que as coisas não são tão fáceis assim. Chega o momento, infelizmente, em que a mulher é obrigada a recuar.</p>
<blockquote>
<h2><em>Suíte Tóquio</em> abre discussões sobre os múltiplos papéis a serem desempenhados pela mulher moderna.</h2>
</blockquote>
<p>A narrativa, habilmente armada, se desenvolve a partir de dois pontos de vista, em que as opiniões são democraticamente divididas, cabendo a fiel alternância de capítulos entre a narradora Fernanda, a patroa, e a narradora Maju, a babá. Ou empregada doméstica. Enfim. Aquela mulher desprovida de família e de segurança financeira e emocional, vinda do interior do Paraná, que se estabelece na capital São Paulo como trabalhadora doméstica, se submetendo às exigências, nem sempre bem-intencionadas, das patroas.</p>
<p>Ao aceitar um alto cargo numa produtora de filmes, Fernanda se vê no dilema entre recusar para poder estar mais perto da filha e do marido, ou aceitar e assim perseguir sua ambição de ascensão profissional. Felizmente, e aqui está a assertividade feminina moderna, ela aceita encarar o desafio, o que a leva a incontáveis viagens, reuniões e compromissos que a ausentam com frequência do lar. Neste ponto, abrem-se as discussões, tão familiares a nós, sobre os múltiplos papéis a serem desempenhados pela mulher inserida em uma contemporaneidade fluida e impermanente, ainda carregada dos odores machistas.</p>
<blockquote>
<h2>À medida que vamos avançando na leitura, nos deparamos com o que importa para a autora de <em>Suíte Tóquio: discutir a maternidade.</em></h2>
</blockquote>
<p>Para aceitar a proposta do novo emprego, Fernanda se apoia em dois pilares favoráveis. Seu esposo, Cacá, sempre companheiro, sem emprego fixo, portanto, sustentado, sem conflitos, pela mulher; e sua já trabalhadora doméstica Maju, a quem propõe um polpudo salário para que trabalhe vinte e quatro horas por dia, folgando apenas um domingo por mês. A indecorosa proposta de Fernanda a Maju evidente abre mais uma ferida nas já promíscuas relações socioeconômicas impostas pelas classes superiores.</p>
<p>Diante da proposta da patroa, Maju vai passar pelo mesmo dilema: entre aceitar uma “ascensão profissional”, tendo que sacrificar sua relação com o namorado, ou recuar e se manter presa às rotinas já estabelecidas. Fica claro que a realidade feminina moderna, baseada na independência financeira, está submetida a sacrifícios. Esta é a tônica da narrativa. No entanto, à medida que vamos avançando na leitura, vamos nos deparando com o que realmente importa para a autora de <em>Suíte Tóquio</em> — finalista do prêmio Jabuti 2021 com este belo romance — discutir: a maternidade.</p>
<blockquote>
<h2>Giovana Madalosso abre o conflito da maternidade naquilo que ela tem de mais doloroso e desesperador: a perda do filho.</h2>
</blockquote>
<p>Parece-nos que a mulher, e isto está evidente hoje em todas as áreas sociais, inclusive nos costumes e maneira de se relacionar com o sexo que a atrai, continua presa ao velho dilema da maternidade. A mãe não tem como terceirizar certas responsabilidades, certos afetos, certos cuidados, sob pena de colocar em risco a formação emocional do filho — eis a estrutura burguesa de maternidade! E a busca pela equação perfeita é o desafio que Fernanda coloca para si como mãe, esposa e profissional. É um jogo de xadrez que está pronto, a qualquer instante, para dar o xeque-mate.</p>
<p>Por uma feliz decisão narrativa, Giovana Madalosso abre o conflito da maternidade naquilo que ela tem de mais doloroso e desesperador: a perda do filho, neste caso, pelo desaparecimento. A filha Carol é raptada por Maju, que resolve abandonar tudo e levar consigo a sua <em>Picochuca</em>, por quem nutre profundos e afetuosos sentimentos maternos. Ela que, por infortúnios da vida, não pôde ser mãe. Parece-nos viável concluir que se trata, a seiva emocional deste romance, de uma luta entre maternidades, quando Giovana Madalosso, numa feliz solução narrativa, afunila a problemática.</p>
<blockquote>
<h2>O que vai acontecer no final de <em>Suíte Tóquio</em> só ao leitor é dado o direito de descobrir.</h2>
</blockquote>
<p>Apesar da segura armação do enredo, <em>Suíte Tóquio</em> navega por mares agitados, por temáticas espinhosas. Mas dispondo de ferramentas estilísticas afiadas, a autora, como verdadeira artista que é, vai proporcionando ao leitor um delicioso passeio literário que flui ao sabor dos sopros criativos, garantindo os prazeres a quem aprecia a boa leitura. Este é o grande trunfo da escritora. Oferece ao leitor uma arte completa, na sua concepção e na sua execução.</p>
<p>Em suma. O que vai acontecer no final de <em>Suíte Tóquio</em> só ao leitor é dado o direito de descobrir. Por isso indicarmos este romance fundamental para entender um pouco mais do papel da mulher dentro do hoje complexo sistema socioeconômico, principalmente ela que já ocupa cada canto desse imenso espectro social que compõe a agitada sociedade moderna. E é certo, e é conclusivo. Para onde ela for e caminhar, terá que levar não o estigma, mas o privilégio de ser mãe. Esta é a conquista que cada mulher-mãe terá que buscar. Ser mãe com independência.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Copo Vazio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Jul 2022 12:00:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>AMAR NÃO É PRIVILÉGIO DE GÊNERO  Ao ler o belo romance de Natalia Timerman, COPO VAZIO, 149 p., ed. Todavia, inevitavelmente, sem que nos demos conta, vamos entrando, como um visitante convidado, na pele e na alma da personagem Mirela. Caminharemos com ela durante toda a narrativa como espectadores de uma cena em um único [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>AMAR NÃO É PRIVILÉGIO DE GÊNERO</strong></h1>
<p><strong> </strong>Ao ler o belo romance de Natalia Timerman, COPO VAZIO, 149 p., ed. Todavia, inevitavelmente, sem que nos demos conta, vamos entrando, como um visitante convidado, na pele e na alma da personagem Mirela. Caminharemos com ela durante toda a narrativa como espectadores de uma cena em um único plano-sequência. Não há como abandoná-la. Virar-lhe as costas. E ao fechar o livro para um descanso, um cafezinho, sabemos que, ao retomar a leitura, ela estará no mesmo lugar, à nossa espera, para continuar a nos contar sua história de amor desencontrado. Iremos nos comover com sua incompleta trajetória amorosa (a vida profissional é perfeita), o vazio expandindo-se através do copo que reflete as angústias de uma mulher que simplesmente quer amar e ser amada. Essa é a busca quase obsessiva de Mirela. Apenas ter alguém com quem dividir o cotidiano.</p>
<p>Quando estamos amando, tudo parece fluir em outro ritmo, como se uma redoma de felicidades cambiantes nos envolvesse. Mas, ao não sermos correspondidos, a certeza — e a força — desse amor se esvai. Aos poucos distanciamo-nos dele, resolvemos nossas dores e logo estaremos prontos para recomeçar a busca por um novo amor, em uma nova relação. Não é este o caso de Mirela.</p>
<blockquote>
<h2>Ao não ser correspondida, Mirela passa a duvidar do próprio amor por Pedro.</h2>
</blockquote>
<p>Ela pode até iniciar outros relacionamentos, mas o que permanece é o amor antigo, não correspondido. Ocupando sua mente e coração. Enchendo-a de dúvidas. De esperas e buscas angustiantes. Por mais que ela tente e queira, não cabe outra tentativa de amar. Volta sempre ao mesmo ponto. Quem sabe no próximo encontro tudo será diferente. Ele voltará inteiro para ela. Esta submissão ao improvável amor do outro a exaspera. E exaspera o leitor, que aos poucos perde a esperança de torcer por um final feliz. E é neste ponto que a personagem nos coopta e nos comove. Ela não deixa de acreditar na possiblidade real do amor do outro por ela. E é por acreditar, que ela não desiste.</p>
<p>A eficiência da estrutura narrativa fica clara quando Natalia Timerman vai além na sua proposta. Ao não ser correspondida, Mirela passa a duvidar do próprio amor por Pedro. Percebam a volatilidade dos sentimentos, que nos deixa perplexos e atarantados.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>Copo Vazio</em>, temos a engrenagem do amor que não consegue dar seu giro completo.</h2>
</blockquote>
<p>Mirela é uma arquiteta bem-sucedida em busca de um relacionamento que ela vai encontrar, incentivada pela irmã, nas redes sociais. Aqui o romance <em>Copo Vazio</em> já apresenta uma situação bem ousada. Não vamos a festas e a lugares badalados para encontrar nossa cara metade. A internéti está em nossos celulares para nos oferecer um cardápio de amores.</p>
<p>Mirela começa um relacionamento promissor com Pedro, o príncipe alto, loiro, lindo de morrer, sonhado por tantas mulheres&#8230; Mas é um príncipe afetivamente escorregadio! E é aqui que os problemas começam.</p>
<p>Por mais que Mirela tente segurá-lo, Pedro desliza por entre seus dedos, na calada da madrugada, sem que ela sequer tenha tempo de perguntar por que ele está indo embora. De novo.</p>
<p>É a engrenagem do amor que não consegue dar seu giro completo. Em algum momento, um movimento inesperado, alheio à compreensão de Mirela, fará com que tudo saia do eixo. O que torna, paradoxalmente,<em> Copo Vazio</em>, um romance tão cativante quanto angustiante.</p>
<blockquote>
<h2>Copo Vazio não é um livro, como erroneamente se pode afirmar, para mulheres.</h2>
</blockquote>
<p>Amparada por um estilo limpo, escorreito, pendular e preciso, Natalia Timerman edifica a estrutura da narrativa em dois tempos, o agora e o antes, alternando os capítulos, como se fossem espelhos colocados uns diante dos outros, numa projeção sem fim de encontros e não encontros, presenças e não presenças. Resta saber, e aqui nos omitimos, quem vencerá esse jogo.</p>
<p>Em suma. <em>Copo Vazio</em> se coloca em um patamar literário reservado aos grandes romances nacionais contemporâneos, reforçando a grata surpresa da cada vez mais vigorosa literatura feminina ocupando os espaços literários sisudos construídos por homens de letras. E não é um livro, como erroneamente se pode afirmar, para mulheres. Pelo contrário. É um romance que deve ser lido por homens. Primeiro, para conhecer bem de perto os sutis movimentos de uma alma feminina em constante busca de si e do outro. E depois, porque homens também buscam amar e ser amados. Afinal, assim como fazer literatura, amar apaixonada e até obsessivamente não é privilégio de gênero.</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>Os supridores</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jun 2022 12:00:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>NÃO EXISTE SONHO PERFEITO Uma das boas surpresas do mercado literário atual é o romance de estreia de José Falero, OS SUPRIDORES, 301 pg., Ed. TODAVIA. O romance é vigoroso, tem uma escrita portentosa. O autor maneja as palavras com tamanha naturalidade, como se elas fossem o sangue que corre em suas veias — jorram [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h2>NÃO EXISTE SONHO PERFEITO</h2>
<p>Uma das boas surpresas do mercado literário atual é o romance de estreia de José Falero, OS SUPRIDORES, 301 pg., Ed. TODAVIA. O romance é vigoroso, tem uma escrita portentosa. O autor maneja as palavras com tamanha naturalidade, como se elas fossem o sangue que corre em suas veias — jorram aos borbotões, que o leitor acaba sendo tragado pela fluidez escorregadia de narrativa tão saborosa quanto bem arquitetada. Lógico, para atender a essa sede de palavras escritas, Falero compôs personagens tagarelas. A língua precisando se apressar para acompanhar o ritmo mental do protagonista Pedro. Ele não cabe em si de tantas ideias transformadas em sonhos, ideias que escapolem de sua mente fértil como pipocas pulando de uma panela sem tampa. Pedro é, antes de tudo, o sujeito que move a história: essa foi a missão imposta a ele pelo autor.</p>
<p>O título <em>Os Supridores</em> vem da função que os amigos Pedro e Marques exercem em um supermercado. Sim, são aquelas pessoas que repõem produtos nas prateleiras. No entanto, ao longo da narrativa, esse conceito se expandirá, dando outra conotação à palavra “supridor”. Referimo-nos aos protagonistas que passam a suprir a periferia com papelotes de maconha.</p>
<blockquote>
<h2>São cinco companheiros de jornada que transitam pelas páginas nervosas de <em>Os Supridores</em>.</h2>
</blockquote>
<p>Podemos falar, sim, de protagonistas, no plural, já que a estrutura do romance acolhe outros agentes que, unidos pela amizade, percorrem a mesma trajetória narrativa. São cinco companheiros de jornada que transitam pelas páginas nervosas de <em>Os Supridores</em>. Quando uma ação inimiga atinge um, estará atingindo a todos. Essa corresponsabilidade de colorir a história com as mesmas emoções é que faz de <em>Os Supridores</em> um hino à lealdade.</p>
<p>Pedro e Marques, enquanto repõem os produtos nas prateleiras, vão tecendo seus sonhos e pesadelos. Rapazes pobres da periferia, cujos sonhos se concentram numa única possibilidade futura: ter dinheiro, muito dinheiro, para poderem viver bem. No entanto, simples empregados de supermercado, as chances de amealhar riqueza são bastante remotas. Estão destinados, como os avós e os pais, a continuarem pobres, tendo que se contentar com um salário que mal lhes oferece sobrevivência digna.</p>
<blockquote>
<h2>Só que agora as coisas serão diferentes. É contravenção séria.</h2>
</blockquote>
<p>Esse impasse social e, lógico, econômico, é o mote que fará girar a roda da fábula. E tudo acontecerá porque Pedro nem pensa em se submeter ao legado de pobreza herdado de seus antepassados. Arquiteta um plano: vender maconha na periferia. Em meio às gôndolas, não só convida o amigo Marques a fazer parte do negócio, como vai expondo suas ideias, reforçando a certeza de que vender drogas é o único ponto de fuga para saírem da miséria.</p>
<p>Mas que fique bem claro. São trabalhadores que vão se aventurar, de forma honesta, no mundo do crime. Já experimentam o sabor da transgressão ao roubarem guloseimas dos depósitos do supermercado para satisfazerem seus desejos de consumo. Só que, agora, as coisas serão diferentes. É contravenção séria. Mas segura, promete Pedro a Marques. Afinal, Pedro não é bobo, conhece os riscos, que são, por ele, engenhosamente calculados.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>Os Supridores</em>, Pedro é o homem de confiança do autor.</h2>
</blockquote>
<p>O autor apresenta a feliz solução ao construir a premissa que embasará a estrutura dramática e que servirá para justificar os passos duvidosos a serem dados por dois jovens pobres e honestos, que até então cresceram à margem da bandidagem, a despeito de toparem com ela pelas ruas dos bairros onde moram. Pedro percebe que os traficantes se voltaram para as drogas pesadas, muito mais lucrativas, abandonando o comércio da maconha. Portanto, a maconha é uma demanda reprimida, à espera de ser explorada.</p>
<p>O sucesso da empreitada se deve às ações positivas de Pedro. Ele é o homem de confiança do autor. O autor precisa da capacidade de articulação de Pedro para levar a cabo a sua história. Nenhum contratempo poderá perturbar o encaminhamento do feliz enredo, mesmo que estejam envolvidos numa atividade tão ferozmente competitiva quanto a venda de drogas.</p>
<blockquote>
<h2>Falero conhece muito bem as vozes da periferia de Porto Alegre.</h2>
</blockquote>
<p>Ao assim projetar a trajetória segura para suas cinco personagens, Falero cumpre seu desejo de preservar a integridade moral deles. Pedro espertamente evita invadir os territórios alheios. Apenas pede permissão para entrar. E a permissão é dada, posto que o negócio de Pedro e sua gangue não competirá com os lucrativos negócios dos barões do tráfico.</p>
<p>Um dos aspectos que mais chama a atenção do leitor é a habilidade com que José Falero trabalha a oralidade em suas personagens. Consegue aproximá-las do meio em que vivem. Aliás, Falero conhece muito bem as vozes da periferia de Porto Alegre. Ele oferece ao leitor a sensação de estar convivendo com pessoas pinçadas da realidade — portanto, construídas em carne e osso. É o fabuloso mundo do escritor, fotografado por meio da fala.</p>
<p>Vale lembrar que a norma culta só é utilizada nos momentos em que o autor se distancia de suas personagens para fazer avançar a trama.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>Os Supridores</em>, ao estabelecer regras equitativas que privilegiam o convívio harmonioso, o autor cria um mundo de emoções e sentimentos perigosamente irreal.</h2>
</blockquote>
<p>Muito habilidoso, Pedro nos é (também) apresentado como uma figura intelectualmente antenada, a ponto de discorrer sobre as teorias marxistas com grande intimidade. Acredita que todos somos iguais, e que, para viver bem e em harmonia, as riquezas produzidas terão que ser igualmente divididas — independentemente da maior ou menor capacidade de cada um em produzi-las. É a partir dessas idiossincrasias que Pedro estrutura a convivência da gangue e, por conseguinte, a distribuição equitativa dos ganhos pela venda da maconha.</p>
<p>Entretanto, ao estabelecer regras equitativas que privilegiam o convívio harmonioso, o autor cria um mundo de emoções e sentimentos perigosamente irreal. Ao compor para suas personagens um quadro social baseado em convivências idealizadas, mesmo em se tratando de um negócio ferozmente competitivo, posto que envolve o fluxo de muito dinheiro, José Falero impede que aflore nas dinâmicas das relações cotidianas entre os membros do grupo os perigosos sentimentos da cobiça, da ganância, do ciúme e, em última instância, do poder. O que fazer com tais sentimentos? Como neutralizá-los?</p>
<blockquote>
<h2>O romance <em>Os Supridores</em> surpreende pela sua agilidade em cooptar o leitor sem que ele tenha tempo de resistir.</h2>
</blockquote>
<p>Falero opta por jogar o conflito para além do grupo, quando a turma começa a ser ameaçada por outra gangue, perigosa e violenta. Ao unir o grupo em torno da defesa do seu território, essa coesão evitará que conflitos internos se manifestem. E, para impedir a eclosão desses conflitos, Falero joga os bons companheiros na fogueira da violência. É quando o autor contará mais uma vez com a força mental idiossincrática de Pedro, seu comparsa no encaminhamento do desfecho da narrativa. A rígida flexibilidade do arco da personagem Pedro facilitará a solução, dando a ela, talvez, um alcance menor, mas não menos impactante.</p>
<p>Em suma. Estamos diante de mais um autor com imensa capacidade criativa e técnica para se consolidar como expoente da nossa literatura. O romance <em>Os Supridores</em> surpreende pela sua agilidade em cooptar o leitor sem que ele tenha tempo de resistir. Essa é uma das qualidades necessárias para nos engajarmos nas grandes estórias. Sentirmo-nos participantes delas. No caso do romance de Falero, depois de intensa participação, sairemos da história com uma amarga certeza: a de que não existem sonhos perfeitos.</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
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		<title>O avesso da pele</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Jun 2022 12:00:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A METÁFORA DA DOR O premiado romance de Jeferson Tenório, autor carioca radicado em Porto Alegre, O AVESSO DA PELE, 189 p., Ed. Companhia das Letras, como se revela no próprio título, traz à luz o debate entre a aparência e a essência. E o autor coloca o dedo na ferida. O que somos além [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>A METÁFORA DA DOR</strong></h1>
<p>O premiado romance de Jeferson Tenório, autor carioca radicado em Porto Alegre, O AVESSO DA PELE, 189 p., Ed. Companhia das Letras, como se revela no próprio título, traz à luz o debate entre a aparência e a essência. E o autor coloca o dedo na ferida. O que somos além da pele que nos veste? Para ele, a cor da pele parece dizer mais sobre nós do que nossas qualidades intrínsecas, que nos definem e nos transformou no sujeito que somos. Sermos inteligentes, de personalidade firme, caráter reto, comportamentos atrelados a atributos morais indevassáveis, não são estas as características que colocam o homem acima de qualquer suspeita. Infelizmente, há atributos outros que antecedem estas virtudes humanas. No caso da mulher e do homem preto, estas virtudes perdem valor no triste mercado do racismo.</p>
<p>O romance se transforma em um grito de dor quando desfila por suas páginas vidas comuns de indivíduos negros inseridos em um cotidiano socioeconômico tão igual quanto o cotidiano das outras pigmentações de pele. O negro dirige o carro, o negro é professor, o negro mora em um apartamento, o negro consome restaurantes, degusta vinhos, o negro é, portanto, um ser social e economicamente visível. Só que esta visibilidade é anulada quando ele apresenta ao mundo a sua cor.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>O Avesso da Pele</em>, as pequenas histórias, trazidas pelo narrador, são oferendas de desilusões e desencontros.</h2>
</blockquote>
<p>Após a morte recente do pai, e como forma de expiar a dor da perda, Pedro se põe a relembrar fatos que trazem de volta a figura paterna, pessoa que marcou a sua vida e a quem está ligado pelas mesmas angústias provocadas pela presença cotidiana do racismo. As angústias e as revoltas do pai serão as angústias e revoltas do filho, fazendo cumprir mais um giro desse círculo vicioso sem fim. Dentro da estrutura narrativa, portanto, o que dá início, meio e fim à trama é a figura paterna.</p>
<p>À medida que o narrador vai trazendo o pai para o centro do palco, outras vidas vão se achegando, silenciosamente. Suas pequenas histórias são oferendas de desilusões e desencontros. É assim que Jeferson Tenório vai orquestrando uma dança frenética de memórias e sentimentos resgatados. E neste processo quase catártico de visitar o passado de seus pais e avós, Pedro vai se encontrando consigo mesmo. Com a cor da sua pele.</p>
<p>Jovem ainda, Pedro vai se fortalecendo nas dores, vai se preparando para refazer os passos do pai. A tomada de consciência da sua condição social de pessoa preta será o escudo que o protegerá das ameaças futuras. Quer se fazer crer que a luta contra o racismo não é uma luta vã. Tampouco solitária. Portanto, ao colocar o pai no centro da cena, como o protagonista das dores geradas pelo racismo, a dor da perda acaba sendo um pretexto para outras discussões mais urgentes. E mais dolorosas.</p>
<blockquote>
<h2>Este é o sumo existencial que empurra a dolorosa trama de <em>O Avesso da Pele</em> para dentro de nossas consciências.</h2>
</blockquote>
<p>Um dos traços que mais define o perfil do filho é sua coragem em encarar a própria realidade. Uma realidade — eis a consciência — que vai além das questões pessoais. É preciso se colocar como um ser vivente disposto a encarar a si, posto que, ao se encarar, estará tomando uma atitude política em relação às questões do racismo que impregnam os desastrosos comportamentos sociais.</p>
<p>Ao refazer os caminhos biográficos do pai, o jovem Pedro, em seu processo de amadurecimento, vai se reposicionando frente à luta que ele sabe terá que combater cotidianamente. São lutas que se travam dentro de si, ao redor de si e diante dos noticiários das tevês. Este é o sumo existencial que empurra a dolorosa trama de <em>O Avesso da Pele</em> para dentro de nossas consciências. Conhecer corajosamente o passado é se preparar para a luta. E essa é exatamente a postura central da personagem.</p>
<p>É nesse caminho de memórias e edificações de realidades esquecidas, e na necessidade de compreender como sua vida se estruturou em cima desses embates cotidianos, um cotidiano que o ameaça por causa da cor da sua pele, que Pedro, o narrador onisciente, vai tentando entender a sua origem. E para que esta compreensão se faça, ele precisa ir além da pele, mergulhar no seu avesso, em busca de sua verdadeira identidade, que definirá seu papel de cidadão. O primeiro passo é não se sentir acuado.</p>
<blockquote>
<h2>São capítulos soltos, à mercê das memórias e dos impulsos, aparentemente incompletos.</h2>
</blockquote>
<p>O escritor Jeferson Tenório habilmente abandona a ideia de espaço e tempo para mergulhar livremente dentro de outros tempos e espaços inventados por ele como tática para trazer à tona o avesso das realidades vividas. Ele fatia histórias para compor um painel aparentemente desconexo, obrigando o leitor a se distanciar para construir o todo. Nada parece se encaixar. São capítulos soltos, à mercê das memórias e dos impulsos, aparentemente incompletos. No entanto, o leitor sabe que não está sendo abandonado pelo autor e que será premiado lá na frente com as surpresas do desfecho.</p>
<p>Para aprofundar a colocação acima, vamos nos valer do exemplo de uma das tantas histórias que compõem o romance. Trazemos a tumultuada relação da mãe de Pedro com seu primeiro namorado, e depois marido, Vitinho. Intrinsecamente, a pequena história é escrita de forma linear, com o começo, o meio e o desfecho. No entanto, o autor a divide em quatro partes e as distribui ao longo de uma das sessões do romance, O AVESSO, como sendo os capítulos 5, 8, 11 e 13, dos 14 que formam esta parte do livro. Percebe-se que a sequência é interrompida com a intercalação de outros capítulos que, neste caso, remetem à história de seus pais, ao casamento deles, ao nascimento de Pedro, à relação de Pedro com o pai, enfim, esse é o eficiente jogo de estruturas narrativas interpostas, muito bem utilizado pelo autor premiado com o Jabuti de 2021.</p>
<blockquote>
<h2>Ao percorrer <em>O Avesso da Pele</em>, somos atirados em um espaço de aparente inverossimilhança.</h2>
</blockquote>
<p>Esse ir e vir no tempo e espaço é fundamental para que percebamos aos poucos para onde o autor está querendo nos levar. A vida é o conjunto de realidades soltas que se atropelam e que são necessárias para sentirmos intensamente o nosso viver. E Jeferson Tenório nos envolve e nos aquece nessa terrível malha de dores e sonhos, nos livrando da perigosa monotonia da narrativa linear.</p>
<p>Por outro lado, quando o autor chega ao ponto central da sua proposta, que é preparar o desfecho para o ponto trágico do racismo, ele abandona a técnica do fatiamento narrativo para falar diretamente das abordagens preconceituosas dos policiais a seu pai. São sete breves narrativas relatadas na sessão DE VOLTA A SÃO PETERSBURGO, em seu capítulo 4. Veja que em um único capítulo ele enumera sete situações de abordagens, sufocando o leitor com uma sequência de dolorosas (e perversas) injustiças — praticadas pelo Estado. Com certeza Jeferson Tenório quis imprimir à narrativa uma maior efetividade dramática, alimentando cuidadosamente as tensões que nos encaminharão para o desfecho.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>O Avesso da Pele</em>, o pai é o pretexto para que o narrador invente histórias alheias.</h2>
</blockquote>
<p>Seguindo nas nossas considerações, destacamos que o autor se vale de uma outra artimanha para alçar o drama à sua necessária eficácia. Habilmente Jeferson Tenório manipula as vozes que compõem a sinfonia narrativa. Temos aqui duas vozes que se imbricam, se alternam e se provocam. E essa interminável esgrimia de vozes provoca o efeito esperado. Obriga o leitor, de modo inconsciente, a mergulhar nos incômodos da narrativa. E reside aqui, a nosso ver, o ponto alto que traz à obra a sua magnitude artística.</p>
<p>Quando o autor se propõe, numa atitude de monólogo, se dirigir a um alvo, no caso o pai, ele estabelece com o leitor um contrato emocional titubeante. Somos atirados em um espaço de aparente inverossimilhança. O pai é o pretexto para que o narrador invente histórias alheias. O narrador-filho, para não se comprometer, sai do eu (primeira pessoa) e se dirige para o tu (segunda pessoa), o que nos faz não só duvidar das realidades que nos são apresentadas, como nos leva, a partir do que vivenciamos na leitura, a criar nossas próprias realidades.</p>
<blockquote>
<h2>Ao nos jogar na irrealidade do real, até a morte do pai pode se apresentar incompreensível.</h2>
</blockquote>
<p>Quando o narrador-filho entra na intimidade dos pais, seja de caráter sexual, emocional, sentimental e mesmo factual (de fato o que está sendo contado aconteceu?), causa-nos a sensação de incompletude, de algo não vivido e não realizado, o que torna a narrativa cruel e exponencialmente dolorida. No entanto, o autor corre um certo risco, porque, ao nos jogar nessa irrealidade do real, até a morte do pai pode se apresentar incompreensível. Sorte que sua habilidade de artista faz-nos passar ao largo desta equivocada percepção.</p>
<p>Por outro lado, quando o narrador retorna para a primeira pessoa, quando fala de si e de suas vivências, o sol lá fora se abre intenso, tirando-nos da penumbra causada por nuvens tormentosas. É um jogo terrível e extremamente eficiente do ponto de vista da cooptação das sensibilidades do leitor. Não há maior comodidade para o leitor do que conhecer a história na primeira pessoa, o narrador-testemunha dos fatos, o que nos dá a feliz sensação de que não estamos sendo ludibriados pela visão parcial de um narrador onipresente.</p>
<blockquote>
<h2>O romance <em>O Avesso da Pele</em> chega aonde ele precisa chegar. Sem disfarces, sem recursos mirabolantes de estilo, sem falsas metáforas.</h2>
</blockquote>
<p>Finalizando, ao entrar na história passada do pai como um intruso que, para lidar com a dor da perda, “inventa” esse pai, as dores na verdade ficam suspensas, sem pouso e sem consolo. E aqui reside a grande força dramática do romance. A morte do pai é simplesmente inexplicável porque provocada por um cancro social, e é este cancro que Jeferson Tenório quer supurar diante de nossos olhos assustados. Assustados porque percebemos que fazemos parte dessa sociedade, portanto, do cancro que ajudamos a alimentar: o racismo.</p>
<p>Em suma. O romance chega aonde ele precisa chegar. Sem disfarces, sem recursos mirabolantes de estilo, sem falsas metáforas. E se quiser falar de uma metáfora, ela está no título. De uma contundência inominável porque antecipa as dores. O avesso da pele é o único lugar plausível onde podemos viver com decência, com naturalidade, com harmonia, posto ser o único lugar onde o ser humano realmente se iguala e se une na sua essência.</p>
<p>&nbsp;</p>
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<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
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		<title>Marrom e amarelo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Jun 2022 12:00:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[LIVROS]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>QUAL É MESMO A COR DA PELE? Neste novo romance de Paulo Scott, MARROM E AMARELO, 155 pg., Ed. ALFAGUARA, somos convidados a caminhar, a passos alucinantes, por ruelas, ruas, avenidas e bairros porto-alegrenses, vendo desfilar, diante de nossos olhos, tristes imagens do cotidiano de pessoas que lutam apenas para sobreviver. E, na busca por [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h1><strong>QUAL É MESMO A COR DA PELE?</strong></h1>
<p>Neste novo romance de Paulo Scott, MARROM E AMARELO, 155 pg., Ed. ALFAGUARA, somos convidados a caminhar, a passos alucinantes, por ruelas, ruas, avenidas e bairros porto-alegrenses, vendo desfilar, diante de nossos olhos, tristes imagens do cotidiano de pessoas que lutam apenas para sobreviver. E, na busca por sobrevivências, o romance nos faz percorrer as dolorosas existências submetidas às suas condições de peles negras. Transportando-nos em seu estilo fluente, de vozes múltiplas, em fluxos criativos que às vezes desconsideram até as pontuações, Paulo Scott nos brinda com este saboroso romance, escrito com a alma de quem conhece os meandros das dores raciais.</p>
<p>Ao trazer para as páginas de <em>Marrom e Amarelo</em> as discussões sobre tons de pele, Paulo Scott estrutura seu romance a partir de uma ideia que provoca polêmicas. O autor traz o colorismo para o centro da trama. Estabelece a discussão sem fim do que é ser negro, nem tão negro, praticamente branco, branco para uns, pardo para outros, a ponto de se aventar, nos gabinetes de Brasília, a ideia de delegar a um <em>software</em> a definição de raça. Sabe-se, de antemão, que este <em>software</em> irá gerar conflitos entre as vozes de bairros brancos e as vozes de bairros negros, reforçando a velha (e hipócrita) confusão de leituras raciais.</p>
<blockquote>
<h2>Paulo Scott inicia <em>Marrom e Amarelo</em> colocando a discussão do colorismo nos gabinetes de Brasília.</h2>
</blockquote>
<p>No entanto, Paulo Scott, parece-nos, não tem a intenção de deslindar o imbróglio. Atém-se a colocar, como protagonistas, de forma lúcida, na concepção narrativa do romance <em>Marrom e Amarelo</em>, dois irmãos de sangue que carregam na pele tonalidades diferentes. Uma pele é marrom (negra), a outra, amarela (branca?). Entretanto, independentemente da tonalidade, ambas escancaram o dilema do preconceito visto a partir do colorismo. Felizmente, o autor não impõe regras sobre definições de raças. Deixa que o leitor corra esse risco.</p>
<p>Paulo Scott inicia o romance colocando a discussão do colorismo nos gabinetes de Brasília. Alerta como a burocracia e a dominância branca tentam confundir um dos grandes avanços oficiais que tem como objetivo propiciar a ascensão social aos negros, por meio do acesso à educação superior. Falamos das providenciais e — a nosso ver — imprescindíveis cotas raciais. São elas que abrem vagas para a população negra nas universidades federais brasileiras. Ao desconfiar da catalogação dos tons de pele, está-se colocando em xeque a própria instituição da cota. Esta é a maliciosa estratégia. Deixar subtendido que, apesar das cotas, no Brasil, universidade é para filho de branco.</p>
<blockquote>
<h2>O que existem nas páginas de <em>Marrom e Amarelo</em> são apenas ecos de protestos que deixarão de ser ouvidos tão logo virarmos a próxima esquina.</h2>
</blockquote>
<p>Paulo Scott não constrói no irmão branco, Federico, uma personagem heroica, desbravadora de novos caminhos que levem à erradicação do racismo nos convívios da sociedade brasileira. Pelo contrário. Coloca Federico na condição de questionador da sua própria identidade negra. Ao se dar conta da cor clara da sua pele, ele se perde diante do espelho. Suas fragilidades vão se refletir na sua vida pessoal, carregada de insistentes frustrações, tanto afetivas quanto sociais. Portanto, diante de tantas incertezas pessoais, como se posicionar como gente negra que precisa lutar por espaços na perversa estrutura social criada por gente branca?</p>
<p>Não se trata aqui de discutir quais são os propósitos do autor em criar personalidades frágeis, não heroicas, titubeantes, até. Fica-nos a impressão de que ele apenas quer avisar o leitor de que não acenderá uma luz no fim do túnel. Paulo Scott está mais preocupado, a nosso ver, em mostrar que suas personagens são imagens reais que transitam por uma trágica realidade social de populações negras condicionadas a se entregarem passivamente à sua condição histórica de raça oprimida. O que existem nas páginas de <em>Marrom e Amarelo</em> são apenas ecos de protestos que deixarão de ser ouvidos tão logo virarmos a próxima esquina.</p>
<blockquote>
<h2>O autor assume sua escrita para mostrar que a realidade segue seu curso inexoravelmente desumano.</h2>
</blockquote>
<p>Ao criar em Federico a consciência de que sua pele branca esconde suas origens negras, o autor oferece a seu protagonista uma razão inevitável para lutar contra o racismo. E, como ativista, Federico acaba se tornando conhecido e respeitado, a ponto de ser convidado para ir a Brasília fazer parte da comissão que definirá que tons de pele terão direito às cotas para negros, nas universidades. Mas, como ponto de contradição, essa consciência (e ativismo) acaba sendo atrapalhada por sua natural covardia perante a necessidade de ações mais incisivas e, dentro do espectro da narrativa, heroicas, para pôr em marcha o desmonte das estruturas racistas que dão sustentação ao arcabouço social brasileiro.</p>
<p>Por outro lado, ao criar o perfil de Lourenço — o irmão negro — como um sujeito simpático, inserido, sem tantos problemas de convivência nos seus meios sociais, onde transita à vontade, esquivando-se habilmente dos inevitáveis embates raciais, Paulo Scott renuncia a proporcionar ao leitor a tão desejada redenção. O próprio autor tem declarado ser avesso a esse tipo de desfecho narrativo. Como fabricar uma redenção para um problema órfão de soluções a curto e médio prazo? Para sobreviver, Lourenço espertamente se insere em um esporte onde o negro é sempre bem-vindo: o basquete.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>Marrom e Amarelo</em>, as possibilidades de redenção são remotas.</h2>
</blockquote>
<p>Em suma. O autor assume sua escrita para mostrar que a realidade segue seu curso inexoravelmente desumano. O desfecho que ele escolhe para o romance cumpre essa missão. A de retratar a realidade do racismo em Porto Alegre, exibindo as violências a que são submetidos os cidadãos de pele negra. E escancara a necessidade de se estabelecerem políticas públicas honestas como um dos caminhos seguros para alterar o incestuoso desequilíbrio racial no Brasil. Para tanto, seria necessário a implantação de políticas oficiais que viessem a quebrar os legados racistas. No entanto, como bem mostra Paulo Scott, não há perspectivas a curto e, quiçá, a médio prazo. As possibilidades de redenção são remotas. Desanimadoras, até. Tanto é verdade, que Federico abandona os gabinetes de Brasília e retorna para sua Porto Alegre, para ser mais um negro a percorrer suas perigosas ruas brancas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
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		<title>Moby Dick</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 May 2022 12:00:31 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<h2><strong>OS MONSTROS DOS MARES</strong></h2>
<p>Quando MOBY DICK, 593 p., Cosac Naify, foi publicado pela primeira vez, em 1851, Herman Melville <em>(1819-1891)</em> já era um escritor bastante conhecido. No entanto, o calhamaço foi um retumbante fracasso. Obra secular, seminal e portentosa, não conheceu, à época, olhos que enxergassem sua importância literária e histórica. Precisou de décadas, até chegar nos anos 1920, quando Moby Dick foi finalmente colocado, por tardios admiradores, dentre eles William Faulkner, no lugar de destaque da literatura estadunidense e mundial. Desde então, <em>Moby Dick</em> se tornaria uma referência clássica, sendo, inclusive, título de várias produções cinematográficas.</p>
<p>O romance é um feliz encontro de gêneros literários que se misturam e dividem as páginas numa convivência habilidosa, amalgamados em estilos inconfundíveis, às vezes retórico, às vezes poético, cômico, irreverente, teatral, enfim, obra de um autor que domina como ninguém a arte da escrita. Munido de muita pesquisa e de vivência pessoal nos mares, inclusive em embarcações baleeiras, Herman Melville nos convida a navegar por oceanos inóspitos e insondáveis, na busca obsessiva da única baleia a ser caçada, a feroz e assassina cachalote branca Moby Dick. A busca obstinada pela baleia deixa-nos presos à sensação de estarmos participando de uma missão impossível.</p>
<blockquote>
<h2>Ler Moby Dick se transforma numa experiência única e reveladora.</h2>
</blockquote>
<p>Em particular, ressaltamos a forte veia descritiva, de domínio minucioso, que permeia toda a narrativa, oscilando entre os profundos conhecimentos do mundo encantado das baleias — participamos de descrições anatômicas precisas —  até a arquitetura naval da embarcação Pequod, um espaço universal ocupado por uma tripulação de culturas variadas, como se ali, a bordo, a Arca de Noé se materializasse numa babel de raças e etnias.</p>
<p>Ishmael é o narrador da colossal aventura. Jovem em crise existencial, reflete em parte a própria existência do autor, que se viu obrigado, aos 13 anos de idade, a ir em busca de sobrevivência. O narrador embarca no navio baleeiro Pequod, a partir da ilha de Nantucket, Massachusetts, sabendo que seu destino está atrelado a algo bem maior, alimentado pela irreal sensação de que seria uma viagem sem volta. E essa sensação é construída com perfeição narrativa pela figura implacável e soberba do estranho capitão do navio, Ahad, cuja única obsessão é caçar e matar a cachalote Moby Dick.</p>
<p>Para o leitor desacostumado aos grandes desafios literários, reservados à leitura dos grandes (e volumosos) clássicos, ler Moby Dick se transforma numa experiência única e reveladora. Os caminhos a serem percorridos são os mais variados e fogem às paisagens comuns de uma narrativa que se atém a núcleos dramáticos precisos e compulsivos, movidos pelas ações e intenções de protagonistas encarregados de levar a trama a seu desfecho. Não que <em>Moby Dick</em> não tenha um núcleo narrativo claro. Pelo contrário. Sua motivação narrativa é claríssima. No entanto, em torno do núcleo gira uma centrífuga de emoções, sensações, esperas e ansiedades de homens que perscrutam os mares vinte e quatro horas por dia, à espera da próxima baleia. Não há sossego, não há descanso.</p>
<blockquote>
<h2>Em <em>Moby Dick</em>, acompanhamos dois monstros que se movimentam pelos mares em busca um do outro — navio e baleia.</h2>
</blockquote>
<p>É assim que se explica <em>Moby Dick</em>: ao subir no navio baleeiro Pequod, o capitão Ahad levará sua embarcação aos confins do Pacífico, em busca de baleias a serem abatidas para encherem, com seu precioso óleo, os inúmeros tonéis acomodados no porão do navio. Só que o capitão Ahad traz um outro propósito. Aliás, único. Vingar-se da temida baleia branca Moby Dick, que lhe arrancara a perna, transformando-o em um capitão perneta obrigado a socar o marfim da sua perna postiça nas tábuas sonoras do convés.</p>
<p>Acompanhamos, em deliciosos detalhes, dois monstros que se movimentam pelos mares em busca alucinada um do outro — navio e baleia. É a eterna luta entre o homem e a indomável natureza, tendo agora como palco não planícies e montanhas, nevascas e desertos, mas os longínquos e tormentosos oceanos. A longa narrativa prepara o embate final, prenunciando o trágico para seus destemidos marinheiros. Todos parecem adivinhar o que os espera. Na lida tenaz de seu trabalho cercado de perigoso heroísmo, parecem marionetes impotentes em mudar o futuro que os aguarda. O implacável capitão Ahad constrói para si o herói trágico, cuja obstinação o transforma em um deus impiedoso que traça minuciosamente o destino de seus marinheiros.</p>
<blockquote>
<h2>Ler <em>Moby Dick</em> é tudo o que um leitor pode ambicionar para si.</h2>
</blockquote>
<p>A contextualização histórica de <em>Moby Dick</em> vem cercada de infindáveis nuances de cores econômicas e geopolíticas que antevê a ascensão do império econômico norte-americano. Essa percepção, ainda em meados do século XIX, pode nos parecer um tanto vaga, mas não será puro exercício de imaginação admitir a força centrífuga de um Ahad como a simbolização da nascente ambição norte-americana de domínio territorial e influências políticas. O mercado é um leviatã a ser conquistado e dominado. Na expansão, não cabe o medo. O fracasso editorial do romance, quando da sua publicação, pode apenas revelar o ainda incipiente papel que os Estados Unidos viriam a exercer como a mais poderosa nação do século XX. Ao se descobrir como potência, a América descobriria o que lhe deu razão para o seu glorioso destino: <em>Moby Dick</em>.</p>
<p>Em suma. Ler <em>Moby Dick</em> é tudo o que um leitor pode ambicionar para si. É uma viagem em direção a múltiplos gêneros literários, numa miríade de ofertas de conhecimentos e sensações que emprestamos do autor para fazermos nossa própria viagem em um navio baleeiro. Acomodados em um confortável sofá, podemos nos arriscar a lançar o arpão e vermo-nos em seguida sendo arrastados pelo leviatã se debatendo à nossa frente. Será muito agradável corrermos sérios riscos de vida através das páginas de <em>Moby Dick</em>. Só a literatura pode nos proporcionar essa insubstituível experiência.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O Quinze</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Oct 2021 19:35:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>UMA ODE À SENSIBILIDADE SOCIAL A literatura das secas, relativamente rica em nossa história literária, impingiu na memória coletiva dos brasileiros os sofrimentos dos nordestinos nas suas repetidas labutas para suportar longas ausências de chuvas. Fazem parte do nosso imaginário as carcaças do gado semeando a desolação na paisagem árida. E os retirantes percorrendo o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h2><strong>UMA ODE À SENSIBILIDADE SOCIAL</strong></h2>
<p>A literatura das secas, relativamente rica em nossa história literária, impingiu na memória coletiva dos brasileiros os sofrimentos dos nordestinos nas suas repetidas labutas para suportar longas ausências de chuvas. Fazem parte do nosso imaginário as carcaças do gado semeando a desolação na paisagem árida. E os retirantes percorrendo o chão trincado pela seca, sob um sol inclemente e silencioso. Dores registradas em relatos pungentes. Dor nordestina que parece não ter fim.</p>
<p>Nesse quadro de realidade da seca transposta para a literatura, chama a atenção, em meio a tantos clássicos, a singela obra da então jovem de dezenove anos Rachel de Queiroz. Obra portentosa para tão pouca experiência. Mas compensada pelo talento e pelos íntimos contatos com esta realidade que se fizeram no dia a dia de sua vida de nordestina abastada, moradora que era da fazenda da família, em Quixadá, cidade enfiada na geografia árida do nordeste cearense. Filha de pai às voltas com a lide da justiça togada e com o cultivo do solo, e de mãe que priorizava a cultura, em especial os livros — foi neste ambiente propício que sua precoce literatura floresceu. E nasceu pronta, destacada, já fulminando a pior das realidades: os sofrimentos gerados pela seca.</p>
<blockquote>
<h2>Conceição, incapaz de agir, ajuda a perpetuar os sofrimentos alheios.</h2>
</blockquote>
<p>A referência do título do livro, <em>O Quinze</em>, nos remete à grande seca de 1915, que assolou o Nordeste de ponta a ponta, com seus espasmos de fome que iam expulsando de seu ventre os nordestinos desesperados. E há algo nesta literatura que vale ressaltar. Talvez pela pouca experiência de vida da jovem autora, ainda imune a certos arroubos ideológicos, ela consegue, com sua força literária dosada na linguagem típica do nordestino, trazer a seca a seu ponto exato. Um fenômeno climático inclemente, de uma lucidez maldosa, cujas consequências vão além da simples e insuportável temperatura. A seca, acima de tudo, constrói uma realidade interior para cada uma de suas vítimas. Seja na itinerância de Chico Bento e Berdolina, seja na resiliente insistência de Alfredo, seja na angústia contemplativa de Conceição, seja no aristocrático conformismo de sua avó, Mãe Nácia. É cada um com a sua função emocional no tabuleiro social da seca.</p>
<p>A simbologia narrativa encontrada por Rachel de Queiroz se fixa nas questões pessoais do amor, movimentos de alma que pairam sobre qualquer situação, seja em tempos de chuva, seja em tempos de seca. É na impossibilidade de se realizar plenamente o amor, diga-se, casamento e filhos, que Conceição vai tecendo as incertezas de uma vida presa às inconclusões de quem vive uma realidade de impossibilidades. Afinal, a injusta estrutura socioeconômica do Nordeste, dedilhada em fantasias de domínio sociopolítico, caracterizado por uma voraz oligarquia que insiste em comandar o destino de milhões de nordestinos à mercê de sonhos inalcançáveis, traduz-se nas entrelinhas deste romance, <em>O Quinze</em>. E Conceição parece se perder em meio a essa perversa estrutura, sem saber para onde ir. Sem se posicionar perante a vida e seu futuro, resta-lhe esperar por um mundo (o amante) que não se dobrará a seus pés. Portanto, incapaz de agir, ajuda a perpetuar os sofrimentos alheios.</p>
<blockquote>
<h2><em><strong>Dou as migalhas esperando que você não queira comer na minha mesa.</strong></em></h2>
</blockquote>
<p>É espantoso ver uma menina de dezenove anos expressar tamanha lucidez histórica, radiografada por suas personagens, as quais, parece-nos, não são totalmente do conhecimento íntimo da escritora. Íntimo no sentido de deixar-se imergir em num ambiente histórico profundo, enraizado nos preconceitos, nos abusos trabalhistas, na inclemência da terra e na busca desesperada de seus habitantes pela mínima sobrevivência. O nordeste recontado neste romance escapole do próprio romance para adquirir vida própria. A despeito da autora. Que tem o talento, mas que ainda não tem a compreensão racional do que está narrando. E nem precisa. A arte se encarrega de denunciar.</p>
<p>Rachel de Queiroz faz a voz de Mãe Nácia desenhar as contradições sociais a partir de dois movimentos emocionais. A defesa dos seus interesses econômicos contrapostos à compaixão pelas vítimas desses interesses. Em outras palavras. Pra eu continuar a ser rico preciso te explorar. Mas nem por isso minha alma deixa de se compadecer da sua triste condição. Dou as migalhas esperando que você não queira comer na minha mesa. Esta análise, aparentemente simplista, retrata a dinâmica do domínio baseado na falsa sensibilidade pela desventura do outro. Esta sensibilidade vai até o limite de não perturbar a ordem social que é favorável. A seca não muda a sociedade, apenas a escancara. Portanto, a seca é uma visita indesejável também para a Mãe Nácia.</p>
<blockquote>
<h2>E é certo que, após a leitura de <em>O Quinze</em>, o leitor fará suas próprias reflexões.</h2>
</blockquote>
<p>Enfim. Não é objetivo aprofundar a análise socio-literária do romance de Rachel de Queiroz. O objetivo é apenas tecer loas a esta magnífica obra, ainda tão viva nos dias de hoje, após quase cem anos de sua publicação. Foi um presente oferecido a um povo que segue seu destino imposto por forças externas, sobre as quais ele pouco tem controle. Mas sua história está registrada com os aplausos efusivos das palavras.</p>
<p>Portanto, fica o convite ao leitor para ler — ou reler — esta magnífica literatura das secas, <em>O Quinze. </em>Que, ao lado de tantos outros romances, como <em>A Bagaceira</em>, de José Américo, e <em>Vidas Secas</em>, de Graciliano Ramos, parece ter normalizado a fatalidade climática do nordestino. Mas não é culpa da sensibilidade e talento artístico de Rachel de Queiroz, nem de José Américo de Almeida, tampouco de Graciliano Ramos a insistência histórica em colocar o dedo na ferida da seca. Como se quiséssemos nos furtar à responsabilidade de admitir que nosso conforto sempre tem um custo pago pelo sofrimento alheio. Ler esse tipo de literatura exige de nós responsabilidade social. E é certo que, após a leitura, o leitor fará suas próprias reflexões. E esperamos que estas reflexões passem pela miserabilidade humana, isto é, a de que o homem, para rejeitar seu próprio sofrimento, acaba causando sofrimento nos outros, prendendo-se às grades de ouro de sua própria insensibilidade, que é a vida vista a partir tão somente de si, jamais do outro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<blockquote>
<h3>Conheça <a href="https://escritorgerin.com.br/publicacoes/">O Voo da Pipa</a>, uma obra de Roberto Gerin.</h3>
</blockquote>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O Voo da Pipa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Roberto Gerin]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Aug 2021 21:09:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O Voo da Pipa é o retrato de uma época em que as angústias e incertezas geradas pela pandemia do coronavírus atravessaram o caminho de todos os seres viventes. E no caminho muitos encontraram suas dores pela perda de entes queridos. Esta tragédia universal é apenas o pano de fundo para dar voz ao protagonista-narrador, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O Voo da Pipa é o retrato de uma época em que as angústias e incertezas geradas pela pandemia do coronavírus atravessaram o caminho de todos os seres viventes. E no caminho muitos encontraram suas dores pela perda de entes queridos. Esta tragédia universal é apenas o pano de fundo para dar voz ao protagonista-narrador, que acaba de perder a esposa, em fevereiro de 2020. No mês seguinte, é declarada a pandemia. As três filhas, abaladas com a morte recente da mãe, convencem o pai a se isolar em um apartamento, na esperança de que tudo, em breve, voltará ao normal.<br />
No isolamento, o protagonista encontra na esposa a sua interlocutora, com quem passa a conversar. Os relatos do seu diário estão impregnados do afeto que nutre pelas filhas e neta, enquanto se consola em derramar declarações de amor à eterna amada. Aos poucos, atormentado pela saudade, cresce nele a ideia de ir ao encontro da esposa — passa a alimentar o desejo de morte.<br />
Deste desejo surge o dilema que permeará toda a narrativa. Ao querer morrer, ele estará abandonando as filhas que tanto ama. Ao querer viver, estará traindo seu amor pela esposa, afinal, querer viver é deixar de amá-la! Seja qual for a sua decisão — viver ou morrer —, ele estará inevitavelmente abandonando alguém que ama.<br />
Relato sincero e poético de uma realidade onde a única vivência é o amor. Tudo poderá ser destruído, menos a nossa capacidade de amar. Preservemos o amor, posto que, depois da destruição, será o único bem que nos restará. Este é o cântico que ecoa das páginas deste pungente romance — O Voo da Pipa.</p>
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