Roberto Gerin

Resenha de Suíte Tóquio, por Roberto Gerin

OS MODERNOS DILEMAS DA MATERNIDADE

O romance SUÍTE TÓQUIO, de Giovana Madalosso, 203 p., ed. Todavia, traz a temática da maternidade no que ela tem de mais moderno. Como é possível à mulher que é mãe ocupar outros espaços sociais? O de esposa, amante, amiga, profissional bem-sucedida, o da mulher engajada nas práticas políticas, enfim, como é possível atuar em tantos espaços de igual para igual com outros gêneros, sem comprometer o exercício da maternidade? Fernanda, uma das protagonistas, quer ser mãe, quer ser esposa, mas também quer ser ela mesma. Para tanto, precisa estar liberta dos rótulos femininos a que está previamente condenada. Estar disponível para buscar outros prazeres, sonhar com outras conquistas, dar-se a chance de desfrutar de outras vivências. E como bem nos mostra Giovana Madalosso, não é fácil reconstruir-se dentro dos padrões modernos do que é ser mulher. A luta é renhida.

Em Suíte Tóquio, Fernanda, portanto, vai se colocar como a representante das mães que querem antes de tudo ser pessoas disponíveis para as oportunidades da vida. E nessa busca pela ascensão profissional, um dos principais símbolos modernos da libertação feminina, Fernanda se arma de toda uma estrutura para que sua filha se sinta segura e amada. Mas o que mostra mesmo este delicado romance, de uma fluidez de estilo e riqueza de metáforas e ironias, é que as coisas não são tão fáceis assim. Chega o momento, infelizmente, em que a mulher é obrigada a recuar.

Suíte Tóquio abre discussões sobre os múltiplos papéis a serem desempenhados pela mulher moderna.

A narrativa, habilmente armada, se desenvolve a partir de dois pontos de vista, em que as opiniões são democraticamente divididas, cabendo a fiel alternância de capítulos entre a narradora Fernanda, a patroa, e a narradora Maju, a babá. Ou empregada doméstica. Enfim. Aquela mulher desprovida de família e de segurança financeira e emocional, vinda do interior do Paraná, que se estabelece na capital São Paulo como trabalhadora doméstica, se submetendo às exigências, nem sempre bem-intencionadas, das patroas.

Ao aceitar um alto cargo numa produtora de filmes, Fernanda se vê no dilema entre recusar para poder estar mais perto da filha e do marido, ou aceitar e assim perseguir sua ambição de ascensão profissional. Felizmente, e aqui está a assertividade feminina moderna, ela aceita encarar o desafio, o que a leva a incontáveis viagens, reuniões e compromissos que a ausentam com frequência do lar. Neste ponto, abrem-se as discussões, tão familiares a nós, sobre os múltiplos papéis a serem desempenhados pela mulher inserida em uma contemporaneidade fluida e impermanente, ainda carregada dos odores machistas.

À medida que vamos avançando na leitura, nos deparamos com o que importa para a autora de Suíte Tóquio: discutir a maternidade.

Para aceitar a proposta do novo emprego, Fernanda se apoia em dois pilares favoráveis. Seu esposo, Cacá, sempre companheiro, sem emprego fixo, portanto, sustentado, sem conflitos, pela mulher; e sua já trabalhadora doméstica Maju, a quem propõe um polpudo salário para que trabalhe vinte e quatro horas por dia, folgando apenas um domingo por mês. A indecorosa proposta de Fernanda a Maju evidente abre mais uma ferida nas já promíscuas relações socioeconômicas impostas pelas classes superiores.

Diante da proposta da patroa, Maju vai passar pelo mesmo dilema: entre aceitar uma “ascensão profissional”, tendo que sacrificar sua relação com o namorado, ou recuar e se manter presa às rotinas já estabelecidas. Fica claro que a realidade feminina moderna, baseada na independência financeira, está submetida a sacrifícios. Esta é a tônica da narrativa. No entanto, à medida que vamos avançando na leitura, vamos nos deparando com o que realmente importa para a autora de Suíte Tóquio — finalista do prêmio Jabuti 2021 com este belo romance — discutir: a maternidade.

Giovana Madalosso abre o conflito da maternidade naquilo que ela tem de mais doloroso e desesperador: a perda do filho.

Parece-nos que a mulher, e isto está evidente hoje em todas as áreas sociais, inclusive nos costumes e maneira de se relacionar com o sexo que a atrai, continua presa ao velho dilema da maternidade. A mãe não tem como terceirizar certas responsabilidades, certos afetos, certos cuidados, sob pena de colocar em risco a formação emocional do filho — eis a estrutura burguesa de maternidade! E a busca pela equação perfeita é o desafio que Fernanda coloca para si como mãe, esposa e profissional. É um jogo de xadrez que está pronto, a qualquer instante, para dar o xeque-mate.

Por uma feliz decisão narrativa, Giovana Madalosso abre o conflito da maternidade naquilo que ela tem de mais doloroso e desesperador: a perda do filho, neste caso, pelo desaparecimento. A filha Carol é raptada por Maju, que resolve abandonar tudo e levar consigo a sua Picochuca, por quem nutre profundos e afetuosos sentimentos maternos. Ela que, por infortúnios da vida, não pôde ser mãe. Parece-nos viável concluir que se trata, a seiva emocional deste romance, de uma luta entre maternidades, quando Giovana Madalosso, numa feliz solução narrativa, afunila a problemática.

O que vai acontecer no final de Suíte Tóquio só ao leitor é dado o direito de descobrir.

Apesar da segura armação do enredo, Suíte Tóquio navega por mares agitados, por temáticas espinhosas. Mas dispondo de ferramentas estilísticas afiadas, a autora, como verdadeira artista que é, vai proporcionando ao leitor um delicioso passeio literário que flui ao sabor dos sopros criativos, garantindo os prazeres a quem aprecia a boa leitura. Este é o grande trunfo da escritora. Oferece ao leitor uma arte completa, na sua concepção e na sua execução.

Em suma. O que vai acontecer no final de Suíte Tóquio só ao leitor é dado o direito de descobrir. Por isso indicarmos este romance fundamental para entender um pouco mais do papel da mulher dentro do hoje complexo sistema socioeconômico, principalmente ela que já ocupa cada canto desse imenso espectro social que compõe a agitada sociedade moderna. E é certo, e é conclusivo. Para onde ela for e caminhar, terá que levar não o estigma, mas o privilégio de ser mãe. Esta é a conquista que cada mulher-mãe terá que buscar. Ser mãe com independência.

 

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